Em Portugal, as tentativas de ligação através da TSF começaram em 1901. Em 9 de Março desse ano, os militares foram os responsáveis pelo primeiro contacto via Morse no país. Os anos que se seguiram ficaram marcados pelas experiências e ensaios com ondas hertzianas e, em 1912, Alberto Carlos de Oliveira é reconhecido como o primeiro “radiotelegrafista” amador (Silva, 2010b). O primeiro registo de emissão de voz e música sem fios é atribuído a Fernando Cardelho Medeiros em 1914. Mas foi a CT1AA - Rádio Portugal- a primeira estação com emissões regulares, em 1925 (Portela, 2011). Na sequência destas experiências, novas emissoras amadoras abrem portas, entre elas está, em 1928, a CT1DY, que deu origem à Rádio Clube Português.
Com a multiplicidade de emissoras deste período, em 1930 o Governo Português decretou o fim de muitas estações de rádio e entregou ao Estado o monopólio dos serviços de radiotelefonia (Portela, 2011). Durante o regime político e autoritário de Salazar e Marcelo Caetano, entre 1933 a 1974, a rádio fazia parte da estratégia do poder político para manipular a opinião pública em defesa das normas praticadas pelo Estado Novo. O poder da rádio foi reconhecido pelo regime como fundamental para a propaganda e manipulação da opinião pública. Por isso, em 1935, por iniciativa estatal, nasce a Emissora Nacional de Radiodifusão, que mais tarde se veio a chamar de Radiodifusão Portuguesa (RDP) (Portela, 2011).
Depois de um longo período experimental, a rádio teve um importante impulso a partir de 1938, ano em que nasce oficialmente a Rádio Renascença (Portela, 2011). Os chamados “anos
de ouro da rádio”, entre 1930 e 1950 “traduziram-se num fenómeno de radiodifusão que procurava reconstruir a realidade dentro do estúdio, com dramatizações e espetáculos produzidos na própria estação emissora” (Cordeiro, 2004, p.2). Pela falta de liberdade, os programas humorísticos obrigam-se “a manobras linguísticas” para que não fossem censurados (Cordeiro, 2004, p.2). “Muitos sketches faziam piadas disfarçadas ao regime, à semelhança do que se fazia no teatro de revista” (Cordeiro, 2004, p.2).
É neste rol de experiências e tentativas de criar conteúdos e da apropriação da rádio para fins políticos que surge o humor, que mesmo sob a censura do Estado tenta divertir e provocar o riso na audiência. Também a nível internacional foi durante os períodos mais conturbados que este tipo de programas surgiu para distrair a população dos acontecimentos que a afetavam. Desta forma, o humor radiofónico teve o seu auge na Grã-Bretanha, durante a II Guerra Mundial, e em Espanha floresceu nos anos pós Guerra Civil (Muñoz & Gil, 1988).
O teatro radiofónico nasceu no pós-Guerra e neste período inicial o humor viveu do amadorismo de quem se dedicava a esta arte de fazer rir (Cordeiro, 2006). O teatro radiofónico era fundamentalmente um espaço para a formação cultural, mas a partir de 1950 os folhetins ganham contornos menos literários e, em 1952, surge o Rádio Comédias, um programa semanal que, apesar da Censura, sobreviveu até 1974 (Cordeiro, 2006).
A uma fase de “rádio-espetáculo” preenchida por emissões diretas, seguiu-se “um modelo de passagem de discos e conversa entre dois locutores” (Cordeiro, 2005, s/p). Nesta fase, os grandes êxitos da rádio eram os programas de humor, os folhetins, os discos pedidos e os programas desportivos.
A par dos folhetins humorísticos, os programas de humor surgem a partir dos anos 30, momento em que começaram as primeiras emissões regulares públicas e privadas. No humor destacam-se três programas que marcaram o entretenimento radiofónico até 1974. “As Lições do Tonecas”, em 1934, “A Voz dos Ridículos”, a partir de 1945, e os “Parodiantes de Lisboa”, que surgem em 1947 e fazem a diferença no panorama nacional pela inovação humorística que rapidamente se espalhou também à publicidade.
O primeiro programa de humor em Portugal, “As Lições do Tonecas”, nasceu nos jornais, transitou para o Rádio Clube Português e só depois para a televisão (Ferreira, s/d). Em 1945, “A Voz dos Ridículos” foi outro programa de humor, transmitido a partir da Portuense Rádio Clube, assinalando-se a passagem do jornal humorístico para o humor radiofónico (Santos, 2004). A emissora do norte também sofreu com a Censura e chegou mesmo a ser fechada pelo regime de Salazar. Apesar das pressões, o programa de humor continuou no ar, passando depois por outras rádios nacionais, como a Ideal Rádio, a Rádio Comercial Norte, tendo acabado na Rádio Festival, em julho de 2013 (Santos, 2013). Foi o programa de maior longevidade na história da rádio portuguesa: esteve no ar durante 68 anos.
“Os Parodiantes de Lisboa” surgem em 18 de Março de 1947 com o programa “Parada da Paródia”, que ia para o ar todas as terças, às 20h, na Rádio Peninsular (Cordeiro, 2006;
Cabana dos Parodiantes, 2006). Foram fundadores deste programa os escritores e intérpretes Mário de Meneses Santos, Mário Ceia, Ferro Rodrigues, Santos Fernando, Manuel Puga, José Andrade e Ruy Andrade, aos quais ao longo dos anos se foram juntando outras vozes (Cabana dos Parodiantes, 2006). Ao longo dos anos, o grupo de humoristas foi lançando novos programas e rubricas nas emissoras associadas de Lisboa, destacando-se programas como “Graça com Todos”, que esteve diariamente na antena da Rádio Clube Português durante 50 anos, com emissão em Lisboa, Porto, Madeira e também em estações estrangeiras de Angola e Moçambique (Ferreira, s/d; Cordeiro, 2006). “O humor fino e mordaz” do teatro radiofónico dos Parodiantes de Lisboa, que “criticava os usos e costumes, a sociedade e o regime” (José, 2010, s/p), transmitiu o último programa 50 anos depois, em 18 de Março de 1997. São, por isso, um marco do humor radiofónico em Portugal.
O humor que surge neste período combina a educação e a reflexão acerca do ambiente de censura deste período. Nas “Lições do Tonecas”, o humor residia nos trocadilhos e tinha também um propósito de ensinar: a “Voz dos Ridículos” e os “Parodiantes de Lisboa” retrataram através de figuras populares as injustiças e a crueldade do regime (Santos, 2004). Como foi referido, os programas de humor foram alvo de censura do Estado Novo. A falta de liberdade condicionava a criatividade destes humoristas que procuravam esconder a mensagem política no humor. Apesar dos entraves, a censura acabou por ser um incentivo para os humoristas e, consequentemente para o desenvolvimento do humor. Num tom descontraído e criativo, os seus discursos eram críticas sociais, políticas e ideológicas, razão pela qual os programas humorísticos eram censurados.