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“A tentativa de injetar humor nas interações sociais ocorre obviamente numa situação social específica num contexto cultural particular (Victoroff, 1969) e num momento específico de tempo.” (Giles et al., p. 140).24 Como mostra esta citação, para Howard Giles e seus

pares25 o humor, ao nível da interação social, tem de ser examinado sob dois prismas: de um

lado, a capacidade de análise e compreensão de um indivíduo; do outro, o contexto e os moldes em que o humor se evidencia. Para além destas duas vertentes, devem também ser tomadas em linha de conta a perceção e compreensão da mensagem humorística. Para tal, não se podem descurar os processos de codificação (“encoding”) e de descodificação (“decoding”) inerentes à comunicação em geral, e à comunicação humorística em particular. Isto porque qualquer texto humorístico, mais ou menos subtil, pressupõe a existência de um código cuja decifração dependerá do recetor. Nesta perspetiva, os autores defendem a existência de quatro parâmetros: “1) Criação ou manutenção de uma solidariedade de grupo; 2) Ataque ou superioridade; 3) Necessidade de aprovação; 4) Desvio da atenção.” (Giles et al., p. 141) 26

No caso da primeira alínea, a utilização do humor tem como fim a criação de um bom ambiente, de um clima afável, “um alívio efetivo da tensão inicial” (Giles et al., p. 141)27

entre os diversos elementos de um grupo. Este brotar de uma aura agradável reflete-se no fortalecimento dos laços que unem os diversos elementos, atuando, deste modo, com vista à manutenção da solidariedade do grupo, ou contribuindo mesmo para a constituição de um. A solidariedade do grupo tem no humor um aliado, para a qual contribui mesmo em situações de tensão que possam fazer surgir um clima de instabilidade até dentro do grupo mais coeso.

A segunda alínea vai ao encontro das diretrizes em que assenta a Teoria da Superioridade, já apresentada no capítulo 2. De um modo sumário, os autores defendem que quando o humor, no âmbito de uma interação social, corresponde a um ataque ou superioridade, ele traduz-se na autovalorizarão ou auto-superiorização de um indivíduo mediante a desvalorização e o menosprezo de terceiros aos olhos da sociedade. O humor é, de certa maneira, infligido pelo indivíduo aos outros com o propósito de ridicularizá-los, diminuindo-os face à sua pessoa. Empregue o humor com este intento, o riso surge naturalmente como um selo de confirmação que legitima a inferiorização de terceiros. “A maior parte do humor assenta na diminuição física e social dos outros. Atualmente até mesmo o humor ideal ou pleno comporta em si, muitas vezes, direta ou indiretamente, essa diminuição.” (Harrow, citado em Giles et al., p. 141)28

24 “The attempt to inject humour into social interaction occurs obviously in a specific social situation in a particular

cultural context (Victoroff, 1969) and at a particular moment in time.”

25 Richard Y. Bourhis, Nicholas J. Gadfield, Graham J. Davies e Ann P. Davies, conjuntamente com Howard Giles,

teorizaram sobre o decoding e encoding no processo de interação social.

26 “1) Creation or maintenance of in-group solidarity; 2) Attack or superiority; 3) Need for approval; 4) Removal of

attention.”

27 “(…) an effective alleviation of initial tension.”

28 “Most humour lies in the physical or social derogation of others. Actually even the ideal or playful humour often

Em relação à terceira alínea, o objetivo do codificador é justamente conseguir captar a atenção e agradar ao descodificador, de tal forma que o sucesso ou insucesso do humor depende, em parte, do efeito criado no destinatário.

Já no que se refere à quarta alínea, o humor também pode ser utilizado como uma salvaguarda por parte do codificador, que pode servir-se desse mesmo humor para direcionar o olhar do descodificador para determinados aspetos, desviando assim a sua atenção de fatores que poderiam ser prejudiciais para o próprio codificador.

Para se obter uma difusão e perceção devidas das mensagens, estas têm de obedecer a determinadas variáveis para que o significado apreendido na receção corresponda àquele pretendido na emissão. O mesmo se passa com as mensagens humorísticas. Segundo os já referidos autores, o conhecimento do contexto ou situação, assim como do descodificador, são variáveis essenciais que o codificador deve ter em conta na conceção de uma mensagem humorística. Além dos já referidos, os teóricos realçam ainda outros três aspetos: “1) Conteúdo linguístico; 2) Conteúdo semântico-temático; 3) Conteúdo cognitivo”. (Giles et al., p. 142)29

Quanto ao conteúdo linguístico, a forma discursiva apresentada num discurso humorístico difere completamente daquela verificada num discurso sério.

Em relação ao conteúdo semântico-temático, defende-se que os temas sobre os quais irá incidir o humor dependem das razões que levam o codificador a codificar o próprio humor. Por outro lado, e não descurando que a mensagem humorística codificada tem como objetivo a descodificação por parte de um destinatário, para que esta descodificação surta efeito a mensagem, implicitamente, tem também em conta a posição do destinatário – descodificador - em relação ao tema abordado.

No que se refere ao conteúdo cognitivo, os autores recorrem à perspetiva defendida por Koestler. De acordo com este autor, o olhar do ser humano relativamente às ocorrências que se podem revelar humorísticas e a sua perceção face às mesmas têm de ser direcionados para o interior dos “eventos bissociativos: a configuração da cena e a piada.” (Giles et al., p. 142)30 A perceção cognitiva do ser humano da distância entre a constatação do início de

determinado acontecimento e o seu desenlace humorístico é definido por Koestler como “intervalo de tempo” (time-span).

Este “intervalo de tempo” é variável, pois depende da construção do próprio evento humorístico, mais ou menos direto ou subtil, e da perceção do recetor, apto a captar, a descodificar, e, até, mais ou menos habituado àquela forma de fazer humor.

Nesta relação de causa/efeito, situação/humor, existem casos em que a eclosão do humor se revela mais repentina ou mais demorada no tempo, dependendo da relação entre a própria cena e a piada. Quando a piada e o desenrolar de uma situação humorística são apresentados de forma declarada, a perceção humorística é repentina e, assim, a diferença entre a ocorrência humorística e a perceção cognitiva da mesma é curta, pois a

29 “1) Linguistic content; 2) Semantic-thematic content; 3) Cognitive content.” 30 “[…] bisociative events: the setting of the scene and the punchline.”

descodificação é célere. No polo oposto, existem as distâncias cognitivas (cognitive distances) de maior duração, visto a conjugação dos elementos necessários para a descodificação das mensagens humorísticas, não ser de imediato apresentada. Aqui, a cena apresentada não é tão explícita e a piada tem de ser deduzida pelo descodificador - daí que, à partida, a assimilação cognitiva do humor não surja de imediato. Neste contexto, o papel atribuído ao descodificador é de maior relevo, visto competir-lhe o deslindar do humor, sem lhe ser apresentada explicitamente a piada.

Logo, a perceção e apreciação de um intervalo de tempo humorístico, independentemente da sua duração, é algo intrinsecamente ligado ao destinatário – descodificador da mensagem -, visto a cognição do humor estar diretamente relacionada com uma maior explicitação ou ocultação da relação entre a “configuração da cena e a piada”. Deste modo, o humor, neste contexto, rege-se pelo binómio explícito/implícito, no qual interfere o “estilo percetual e cognitivo, e talvez também a classe social ” (Giles et al., p. 143)31 dos destinatários, por serem variáveis que se imiscuem na receção. Dado isso, o

codificador tem de, previamente, ser detentor de todo um conhecimento das características dos futuros descodificadores, para que o humor com um determinado intervalo de tempo seja o mais adequado à cognição ao nível da receção.

Finda a abordagem da componente comunicacional do humor, visando o entendimento e o papel do humor ao nível da interação em sociedade, abordar-se-á em seguida o surgimento do meio de comunicação - a rádio - no qual esta dissertação pretende estudar o humor.