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É relevante tratar desse conceito em função do entendimento da natureza do laço estabelecido entre o orientador e orientando. O conceito de “transferência de trabalho”, termo proposto por Lacan (1964b/2001) é pertinente por se tratar de um encaminhamento da transferência para uma produção escrita, portanto fundamental para o desenvolvimento da presente pesquisa. Primeiramente, considero importante ressaltar que Freud não faz uso da expressão transferência de trabalho, mas já fazia referência às questões implicadas no processo de transmissão de um conhecimento.

Para as discussões sobre a sua ciência, Freud criou a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, da qual era o líder, e coordenava os trabalhos. As reuniões tinham um ritual; cada membro apresentava o seu texto, depois havia a discussão e, por fim, Freud proferia a palavra final sobre a discussão. Em 1908, dessas reuniões se originou a Sociedade Psicanalítica de Viena e, mais tarde, a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), cujo modelo serviu para inúmeras sociedades espalhadas pelo mundo (GAY, 2001).

Chamo a atenção para a presença do texto como ponto de partida para as discussões, tanto no grupo das quartas-feiras de Freud, quanto no trabalho do cartel proposto por Lacan (1964/2001). Quanto à experiência de Freud nos encontros do grupo, ele mesmo diz:

A partir do ano de 1902, certo número de jovens médicos reuniu-se em torno de mim com a intenção expressa de aprender, praticar e difundir o conhecimento da psicanálise.[...] penso que fiz o possível para transmitir meu conhecimento e experiência aos outros. Houve apenas duas circunstâncias inauspiciosas que terminaram por me afastar internamente do grupo. Não consegui estabelecer entre os seus membros as relações amistosas que devem prevalecer entre os homens que se acham empenhados no mesmo trabalho difícil, nem consegui evitar a competição pela prioridade a que dá margem, com tanta frequência, esse tipo de trabalho em equipe” (FREUD,1914/1987, p.36).

Lacan (1964/2001), na ata de fundação da Escola Freudiana de Paris, de 1964, apontava para a questão da transmissão da psicanálise e os riscos dos membros da Escola operarem pela via do dogma, da verdade absoluta, da colagem imaginária aos mestres. Esse aspecto levantado por Lacan é relevante para pensar que nessa colagem que ocorreu com o grupo coordenado por Freud, muitos eram seguidores de um mestre, participavam das discussões no sentido de reafirmar as ideias do mestre, de maneira que os membros do grupo

colocavam Freud em um lugar de profeta, estabelecendo, assim, uma relação de cunho “teológico”.

Segundo Gay (2001), o objetivo inicial de Freud era estabelecer discussões inspiradoras com seus colegas, na busca de reproduzir a experiência frutífera que tivera com Fliess, o que se pode considerar que, para Freud, os participantes do grupo eram “substitutos” de Fliess. Freud busca no grupo encontrar interlocutores como Fliess, no entanto, não foi o que aconteceu. No início, as discussões eram harmoniosas, mas, com o passar do tempo, a agressividade passou a ser o tom dos encontros. Isso permite concluir que, como no caso Dora, Freud não conseguiu manejar a transferência estabelecida no grupo de trabalho, não conseguiu encaminhar a agressividade para a produção.

Lacan, visando a romper com esse tipo de relação que, segundo ele, não promoveria a construção de saber, mas a mera reprodução, propõe como um dos dispositivos da sua escola, o cartel, dispositivo para a transmissão da psicanálise já apresentado nesta tese.

Neste momento, considero pertinente tratar da função do elemento mais-um na produção do texto acadêmico por considerar a função do orientador como o mais-um. Na perspectiva de uma universidade descompleta, ideia apresentada no capítulo anterior, é possível considerar a transposição da produção do cartel na psicanálise para a produção do texto acadêmico.

A proposta de funcionamento do cartel está referenciada no entendimento de Lacan das relações estabelecidas no grupo. O funcionamento do grupo é marcado por fenômenos imaginários. Esse fato pode representar um obstáculo à elaboração de um trabalho intelectual. Não é de se estranhar o estreitamento do laço que se estabelece entre seus membros. O estudo em cartéis está enlaçado na transferência de trabalho, uma vez que as pessoas se reúnem para discutir a partir de um tema comum, ocorrendo, então, a identificação com uma questão, que culminaria, assim, na construção de um texto próprio. O objetivo, portanto, é resolver um problema, um enigma.

A identificação por uma questão e a busca pelo mais-um marcam um lugar diferente do de líder. O pedido é dirigido a alguém que o grupo supõe possuir um saber acerca do tema. Importante salientar que essa busca não é da ordem de um ensino, mas de um desejo de desvendar a questão com a qual o grupo se encontra transferenciado. Isso remete à discussão sobre a transferência de trabalho, na qual se verifica: primeiro, que o surgimento do desejo de saber se evidencia no aprofundamento das questões suscitadas nos próprios textos estudados e

sua relação com a prática; segundo, no desejo de colocar em discussão aquilo que se está pensando.

O mais-um, portanto, “será encarregado de velar pelos efeitos internos do empreendimento e de provocar sua elaboração” (QUINET, 2009, p. 85). Levando para o campo da orientação, vê-se que a tarefa do orientador é fazer com que o orientando produza um trabalho pessoal ao invés de permanecer em uma posição de fazer o que imagina que o outro queira.

3. FACETAS DO AMOR NA ESCOLA: TRANSFERÊNCIA E LAÇO