GENÉTICA
02 1.1 Origens e conceitos
03 Desvendar os caminhos da origem do conhecimento já era uma preocupação dos 04 filósofos gregos que foi se desenvolvendo e sustentando teorias que continuam sendo
05 investigadas até hoje, pois o conhecimento representa o quanto o ser humano apropriou-se da sua 06 realidade; e tal preocupação não poderia ser diferente para os pesquisadores das aprendizagens.
Quando
07 Jean Piaget, biólogo e psicólogo suíço, iniciou seus trabalhos de investigação sobre as origens do 08 conhecimento, duas concepções, cujas bases repousam na filosofia, até então eram vigentes: o
inatismo e 09 o empirismo.
Nessa nova versão do capítulo 1, observam-se algumas transformações textuais, por exemplo, a alteração do título contempla as sugestões feitas pela orientadora. A sugestão da orientadora foi Epistemologia Genética. A aluna aproveitou a sugestão, no entanto, não ficou
presa a ela, elaborou, sozinha, um novo título. Na linha 1, mostra que a sua pesquisa se insere em tradição de pesquisa acerca da origem do conhecimento. Importante ressaltar que a aluna não se cola ao que a orientadora sugeriu, mas, a partir da sugestão, elabora algo diferente.
Considero que essa reescrita indicia a inclusão da figura da orientadora no processo de escrita. Segundo Riolfi (2008), a produção textual requer o endereçamento daquele que escreve para o outro, nesse caso, a orientadora. O endereçamento indica a suposição de saber, por parte da aluna, na figura da orientadora, o que leva Joana a dar peso às palavras da orientadora. Assim, o manejo da transferência feito pela orientadora permitiu que a aluna incluísse na sua reescrita as sugestões da orientadora, como também um rearranjo dos conhecimentos a respeito da sua pesquisa.
Retomando a entendimento de Riolfi, a autora ressalta que o escrever bem implica no mínimo em duas pessoas, aquele que escreve e um outro. Mas, é preciso que haja a abertura, por parte daquele que escreve, para o outro. Essa abertura para receber sugestões pode ser pensada a partir da formulação lacaniana, apresentada no Seminário XX, da posição feminina. Nessa concepção, a posição feminina é definida em termos de ser não-toda submetida à função fálica, o que implica em uma falta. Já o escrever, está para a posição masculina, uma demanda de um significante do campo do Outro. Lacan nesse Seminário ressalta que a escrita do texto requer que o mesmo tenha um endereçamento ao outro.
Considero que as alterações no texto de Joana são efeitos de um endereçamento à orientadora. As mesmas indiciam um deslocamento por parte da aluna com relação ao autor pesquisado por ela. Nas versões anteriores, a aluna falava somente em Piaget, sem considerar o trabalho de pesquisa do autor no contexto das pesquisas já desenvolvidas. Considero ser essa uma posição imaginária porque Joana apenas reproduzia os termos do autor, as mesmas ideias dele, mas não as relacionava com a sua pesquisa individual.
A partir da intervenção da orientadora, Joana consegue abrir espaço para a entrada de outros autores. Além de se descolar do autor pesquisado, reconhece a existência de outras pesquisas, condição fundamental para a formação do pesquisador. Também abre mão de seus preconceitos, nesse caso, de que a teoria piagetiana era a única que explicaria o fenômeno da aprendizagem. Assim, pode-se pensar que intervenção gerou acréscimos no texto.
Quadro 14 - Fragmento 7: Terceira versão do capítulo 2
01 2 O PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM A PARTIR DOS CAMPOS
EPISTEMOLÓGICOS: EMPIRISMO, INATISMO E EPISTEMOLOGIA GENÉTICA 02 Ao longo dos anos surgiram várias teorias para explicar a relação sujeito-objeto (ou
04 aprendizagem possuem seus fundamentos nas teorias do conhecimento. Sendo assim, primeiramente estas
05 teorias podem ser organizadas em dois grupos: as teorias empiristas e as teorias inatistas. 06 Dentre as teorias que fundamentam-se nos princípios empiristas, segundo Moreira
07 (2006), destacam-se as teorias behavioristas de Watson, Guthrie, Thorndike , Hull , Skinner e Bandura.
08 Já no que refere-se aos fundamentos inatistas, pode-se dar um destaque especial à Gestalt e à teoria 09 humanista de Carl Rogers.
10 Por conseguinte, é oportuno caracterizar a relação sujeito-objeto em cada uma dessas
11 teorias, para que posteriormente se possa realizar uma reflexão a cerca da transposição dos fundamentos
12 da Epistemologia Genética para o campo das aprendizagens escolares. 13 2.1 EMPIRISMO
Na linha 1, no título do capítulo, Joana contextualiza o objeto de pesquisa nos campos teóricos além de sua investigação. Na linha 4, a aluna inclui as teorias de aprendizagem nos paradigmas das teorias do conhecimento, o que indicia a hierarquização dos conhecimentos. A partir dessa hierarquização, a aluna consegue situar, além das teorias, os autores de cada campo teórico, como se pode ver nas linhas 7, 8 e 9. Vê-se que nas linhas 10 e 11, Joana reconhece a importância do estudo das teorias anteriores para a reflexão feita acerca da transposição dos fundamentos da Epistemologia Genética para o campo das aprendizagens. Assim, nesse escrito é possível perceber a sua inserção no discurso universitário.
Nesse fragmento, pode-se também verificar que é a partir do momento em que Joana admite a sua posição subjetiva dividida que ela passa a demandar mais intervenções da orientadora. Nessa versão, enviada em um momento posterior ao que a orientadora está chamando de deslocamento da posição subjetiva, Joana apresenta indícios de mudança de posição em relação ao conhecimento. A partir daí, localizam-se mais mudanças na escrita, tais como: a hierarquização dos capítulos, reconhecimento do legado cultural, o qual é trazido para a articulação do texto, além de outros campos epistemológicos, no caso do inatismo e do empirismo, a aluna discute as teorias de aprendizagens e reconhece seus autores principais.
Considero que essas mudanças no escrito apontam para a inserção de Joana no discurso universitário, a saída do senso-comum para o discurso universitário é da ordem de uma rotação discursiva, a qual foi possível a partir das intervenções da orientadora. Assim, considero que o processo de escrita da monografia de conclusão de curso de pós-graduação tratou-se da iniciação científica de Joana, condição necessária para a produção de conhecimentos na universidade.