Após a realização das pesquisas de campo, o relatório final da ASTEF (2000) apresentou, em forma gráfica e tabular, as informações relativas à amostra de shopping
centers pesquisada, além dos dados coletados nas entrevistas com usuários e funcionários e nas pesquisas de estacionamento.
Com base nesses dados, foi possível neste trabalho de pesquisa analisar uma série de aspectos relacionados à demanda de viagens, como:
- divisão modal das viagens atraídas;
- volume de veículos atraídos aos shopping centers; - categorias das viagens pelo modo individual;
- comprimento médio das viagens aos shopping centers; - área de influência dos shopping centers;
- atividades associadas aos bairros de origem e de destino dos usuários; - entre outros.
Porém, visto que a confiabilidade dos dados levantados nas pesquisas de campo apresentava-se como condição fundamental para a qualidade das análises desenvolvidas no capítulo seguinte desta dissertação, foram primeiramente efetuadas completa revisão e reformatação da tabulação dos dados referentes aos seis shopping centers, trabalho este que demandou bastante tempo até que se considerassem satisfatórios os resultados.
Foi necessário, ainda, o desenvolvimento de uma base digital georeferenciada utilizando as ferramentas dos Sistemas de Informações Geográficas (SIG), através do
software TransCAD (CALIPER, 1996), para dar suporte às análises espaciais. A partir do mapa digital de Fortaleza com a delimitação dos bairros da cidade, foi definida a rede viária de estudo, contendo as principais vias expressas, arteriais e coletoras, além de algumas vias locais consideradas importantes para o estudo.
Foram também localizados na base digital os seis empreendimentos pesquisados, conectando-os à malha viária de modo que o software pudesse efetuar a alocação da viagem desde o bairro de origem do usuário até o shopping center visitado, e deste até o bairro de destino.
A partir de então puderam ser obtidos, utilizando a ferramenta de caminhos mínimos do TransCAD, os comprimentos de viagem entre os bairros da cidade (representados por um centróide) e os shopping centers pesquisados, conforme o exemplo apresentado na Figura 4.3.
Figura 4.3: Exemplo de identificação da rota de caminho mínimo entre bairro e
Além dessa ferramenta, outros recursos de SIG também puderam ser utilizados a fim de subsidiar às análises desenvolvidas no capítulo seguinte como, por exemplo, a delimitação da área de influência de cada empreendimento, conforme apresenta a Figura 4.4.
Figura 4.4: Exemplo de delimitação da área de influência de shopping centers, utilizando recursos do software TransCAD
CAPÍTULO 5
ANÁLISE DA DEMANDA DE VIAGENS ATRAÍDAS
5.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
No presente capítulo são apresentadas as informações obtidas através das entrevistas com usuários (clientes) dos seis shopping centers pesquisados na cidade de Fortaleza em 1999, como também os dados referentes às pesquisas de estacionamento. Com base nesses levantamentos, a demanda de viagens atraída por cada empreendimento é analisada sob diversos aspectos, comparando-se os resultados encontrados com os de outros estudos.
Nas metodologias tradicionais observa-se que o porte do empreendimento é a principal variável considerada na previsão da demanda de viagens atraída por shopping
centers. Baseado em amostra representativa dos shoppings de Fortaleza, o estudo desenvolvido a seguir teve como principal objetivo identificar e destacar também a influência de aspectos locacionais e sócio-econômicos na análise desta demanda, levando ainda em consideração as características do empreendimento e da própria cidade.
Para tanto, a metodologia adotada para análise dos dados procurou considerar a interrelação, muitas vezes ignorada, entre os aspectos mencionados anteriormente e as etapas de geração, distribuição e divisão modal das viagens atraídas pelo PGT. Como resultado desse processo, foi possível definir um procedimento prático de análise da demanda de shopping centers nesta cidade, de modo a auxiliar os profissionais responsáveis pela avaliação de impactos de futuros empreendimentos deste tipo no sistema de transportes local. A Figura 5.1 apresenta de forma esquemática o procedimento proposto.
Figura 5.1: Fluxograma de análise da demanda atraída por futuros shopping centers, considerando a influência de aspectos locacionais e sócio-econômicos, entre outros
Segundo o fluxograma apresentado na Figura 5.1, na análise da demanda de futuros shopping centers, recomenda-se conhecer, inicialmente, as características do empreendimento proposto no que diz respeito ao porte, tipologia de suas lojas, atividades diversas desenvolvidas no pólo, bem como seu público-alvo. Em seguida, devem ser considerados aspectos locacionais e sócio-econômicos da área de implantação do PGT, como: características das vias de principal acesso, volume e composição do tráfego, oferta de transporte coletivo, uso do solo do entorno, densidade populacional, nível de renda da região, entre outros.
Com base na avaliação dos aspectos mencionados, a seqüência proposta de análise da demanda recomenda primeiramente a estimativa da divisão modal das viagens atraídas, etapa na qual deve ser definido o nível de aprofundamento das análises
CARACTERIZAÇÃO DO EMPREENDIMENTO PROPOSTO
ASPECTOS
LOCACIONAIS SÓCIO-ECONÔMICOS ASPECTOS
Área de influência Categorias das Viagens Distribuição de Viagens Geração de Viagens Divisão Modal S.I.G. DEMANDA OBSERVADA EM EMPREENDIMENTOS SEMELHANTES Estacionamento
a serem desenvolvidas para cada modo de transporte disponível para acesso ao shopping
center.
Em seguida, procede-se à estimativa da geração de viagens, que vai indicar o volume aproximado de viagens atraídas ao shopping center. Nesta etapa costumam ser considerar apenas as viagens pelo modo individual que, tradicionalmente, é o mais utilizado pela demanda deste tipo de empreendimento. O dimensionamento do estacionamento é feito a partir do volume da hora de pico, devendo considerar média e dispersão dos tempos de permanência dos veículos. No entanto, de acordo com os resultados da etapa de divisão modal, pode ser necessário também estimar o volume de viagens a pé, pelo modo coletivo e, ainda, por outras modalidades de transporte como, por exemplo, a bicicleta.
Após a etapa de geração de viagens, que apresenta uma estimativa dos volumes atraídos ao shopping center pelos modos de transporte utilizados de forma mais expressiva, a distribuição de viagens busca identificar as origens e os destinos dessa demanda. Também nesta etapa costumam ser consideradas principalmente as viagens pelo modo individual, porém as estimativas apontadas pelas etapas anteriores podem recomendar uma análise da distribuição de viagens por outros modos de transporte.
Uma vez identificadas as prováveis zonas de origem e destino dos usuários do
shopping center, deve ser feita a análise relativa às categorias das viagens atraídas. Esta etapa visa identificar as rotas utilizadas pelos usuários do modo individual. O percentual considerado para as viagens não desviadas deve ser subtraído dos volumes estimados pela etapa de geração de viagens. Se as viagens pelo modo coletivo forem consideradas significativas nas etapas de divisão modal e geração de viagens, a análise das categorias de viagem pode ser empreendida também para este modal.
De posse das estimativas obtidas pelas etapas anteriores de análise da demanda, torna-se possível estabelecer uma delimitação da área de influência das viagens atraídas pelo shopping center, podendo esta ser diferenciada para cada modo de transporte considerado. A partir de então, podem ser procedidas as análises relativas aos impactos da demanda atraída pelo shopping center no sistema de transportes.
A análise de cada etapa específica da demanda deve ser desenvolvida com base na literatura técnica disponível sobre o assunto, cuja principal referência em nível nacional é o trabalho de GOLDNER (1994). Porém, nos estudos de impacto sobre o sistema de transportes, recomenda-se não adotar, a priori, os resultados previstos pelos modelos tradicionais. Antes disso, é importante observar a demanda atraída por
shopping centers já em funcionamento e que apresentem características semelhantes ao projeto proposto com relação a porte, localização, tipologia das lojas etc. Este levantamento deve se dar a partir de pesquisas no próprio local e de contato com a administração do shopping que pode, inclusive, relatar situações indesejáveis não previstas antes da implantação do pólo e, se for o caso, as soluções adotadas para mitigação dos problemas.
Em várias etapas do processo de análise proposto, vale ainda destacar as vantagens da utilização dos Sistemas de Informações Geográficas (SIG), que possibilitam a manipulação e a visualização, em forma gráfica, de grande quantidade de dados no estudo da demanda de shopping centers. As ferramentas de SIG permitem a análise espacial de diversas informações, entre as quais podem ser citadas: definição da rede viária de estudo, análise de variáveis sócio-econômicas, volumes de tráfego, rotas de caminho mínimo, uso do solo, localização de PGTs na cidade etc.
Buscou-se, neste capítulo, empreender a análise dos dados de acordo com a seqüência indicada na Figura 5.1, apresentando as conclusões a partir das quais está baseada a proposição do procedimento descrito anteriormente.