El Salvador é um dos menores embora mais populosos países da América Latina, situado na costa centro americana do Pacífico, e possui uma formação histórico- econômica de colônia de exploração agrícola, cuja produção era destinada à metrópole espanhola (Tovar, 1996; Engel, 2005; Magalhães, 2012; Matijascic, 2014; Banco Mundial, 2014; CEPAL, 2013, 2014). Com aproximadamente 6,2 milhões de habitantes em 2016, em uma área total de 21.041 km², o país registra 298 habitantes/km² em 2016, sendo um dos mais densamente povoados da região. Seu PIB, em 2014, somava cerca de US$ 25,2 bilhões, com uma taxa de crescimento 2% ao ano; e, sua renda per capita foi de US$ 3.953 em 2016 (Banco Mundial, 2016; 2016a; CEPAL, 2014; 2014a).
O País conquistou sua independência no primeiro quaternário do Século XIX, em 1821, e proclamou a república já em sua segunda metade, em 1876. Adentrando o Século XX, a então República Salvadorenha persiste até o golpe militar de 1931, que
perdura até 1979, acirrando ainda mais os problemas sociais enfrentados pelo país e ao elevar a insatisfação popular à guerra civil – face ao grave cenário de violações de direitos humanos, agravamento da pobreza e da dívida externa. Após 12 anos de hostilidades, o país encontrava-se com sérios problemas em sua infraestrutura e um registro de aproximadamente 80 mil mortos, cerca de 2% da população à época (Tovar, 1996; Magalhães, 2012; Matijascic, 2014; Banco Mundial, 2016).
Ademais, dadas as dificuldades impostas pelo mercado de trabalho, acesso à terra, alimentos, direitos trabalhistas e demais direitos de bem-estar social, o país era palco de diversas demonstrações de insatisfação popular, em forma de levantes66; e, a
diáspora de milhares de cidadãos em busca de melhores condições de vida nos países fronteiriços e nos Estados Unidos da América da América (Tovar, 1996; Engel, 2005; Magalhães, 2012).
Já em meados da década de 1980, no ápice da guerra civil salvadorenha, o governo vigente implementou a liberalização da economia, conforme praxe amplamente verificada na América Latina, com vistas à correção de distorções de mercado e ao restabelecimento do equilíbrio econômico-financeiro das contas nacionais, por meio do reforço à via do comércio exterior e reformas estruturais e de ordem macroeconômica (Tovar, 1996; CEPAL, 1999, 2013; Engel, 2005; Acevedo & Cabrera, 2012; Magalhães, 2012; Matijascic, 2014).
Os EUA também apoiaram com recursos financeiros e logísticos as estratégias de contrainsurgência67 em El Salvador, como forma de auxiliar o país a conter o avanço militar da Frente Farabundo Martí de Liberación Nacional (FMLN), ao qual o próprio
66 Em 1970, havia surgido as Forzas Populares de Liberación (FPL), criadas por um grupo de
trabalhadores e estudantes dissidentes do Partido Comunista; em 1971, nasceu o Ejercito Revolucionario del Pueblo (ERP) da fusão de jovens radicalizados provenientes do Partido Comunista, do Partido Democrata Cristão e da pequena burguesia. Em 1973-74, uma fração do ERP se distinguiu ao enfatizar o trabalho de massas e se separou definitivamente do ERP em 1975 à raiz do assassinato do poeta Roque Dalton, dando lugar a uma nova organização: a Resistencia Nacional (RN). O Partido Revolucionario de los Trabajadores Centro-Americanos (PRTC) foi criado em 1976, tendo a maioria de seus membros com origem na ERP. Estas quatro organizações político-militares e o Partido Comunista – que adotou em 1979 a linha da luta armada – formaram, em Outubro de 1980, a FMLN (Vázquez, Ibáñez &Murguialday, 1996, p. 33).
67 A guerra civil salvadorenha, assim como outros levantes populares contra governos conservadores e
militares pela América Latina e Caribe durante a Guerra Fria, foi acompanhada de perto pelos EUA, especialmente durante os mandatos de Jimmy Carter (1977-1981) e Ronald Reagan (1981-1989), como parte da agenda para contenção de grupos revolucionários no continente, conforme verificado anteriormente na Nicarágua, Honduras e Guatemala – todas influenciadas pela Revolução Cubana (Tovar, 1996; Engel, 2005; Acevedo & Cabrera, 2012; Magalhães, 2012; Matijascic, 2014).
exército salvadorenho já havia previsto a impossibilidade de subjugá-lo no curto prazo. O final da década de 1980 é determinante para diversas empreitadas internacionais dos EUA. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a recém empossada administração George H. W. Bush passa a convergir sua atenção política, econômica e militar para a investida no Iraque, durante a ocupação do Golfo Pérsico. Nesse sentido, o acompanhamento das ações da FMLN, e dos arranjos nacionais em El Salvador para um possível acordo de paz entre o governo e as forças dissidentes, foi transferido para a ONU (1992; 1995; Magalhães, 2012; Matijascic, 2014).
Ao final do cessar fogo e da assinatura do acordo de paz68, o país promoveu uma
série de reformas institucionais, entendidas como alicerce da estabilidade política almejada tanto pelo governo salvadorenho como pela FMLN. Entretanto, tais medidas contariam com uma pletora de mecanismos de auxilio financeiro internacional, para reconstrução e reestabilização da economia e da cadeia produtiva do país no pós-guerra, que, de fato, nunca chegaram ao país (Tovar, 1996; Matijascic, 2014).
Apesar da assinatura do Acordo de Paz de Chapultepec e das reformas institucionais que estabeleciam certo equilíbrio político entre o governo69 e a FMLN, a década de 1990 para El Salvador70 marcou um período de desaceleração na economia e nos índices de crescimento – ao contrário do que se esperava com as medidas neoliberais implementadas – somados à crescente disparidade na distribuição de renda e no aumento das remessas advindas de salvadorenhos migrantes – fenômeno que é
68 Em maio de 1991, por meio da Resolução nº 693 do Conselho de Segurança, foi instituída a
Organização das Nações Unidas em El Salvador (ONUSAL), considerada a primeira operação de paz exitosa da ONU até então, para mediar as negociações de paz entre as partes beligerantes em etapas paulatinas até a completa distensão das hostilidades; e, ainda sob os auspícios dos Estados Unidos da América da América, ainda que de maneira indireta, a completa desmobilização da guerrilha salvadorenha, e, mais especificamente, da FMLN (ONU, 1992, 1995; Magalhães, 2012; CEPAL, 2013; Matijascic, 2014).
69 À época, formado pela Alianza Republicana Nacionalista – ARENA. Partido de direita, remanescente
dos governos militares, que implementou as reformas de ordem neoliberal no país, priorizando subsídios aos setores manufatureiro têxtil (la maquila) e financeiro (CEPAL, 2013).
70 No entanto, ao analisar-se esse período, considerando-se o momento do efetivo fim da guerra civil, de
1991 até 1999, cabe dividi-lo em dois momentos, guardadas as notáveis diferenças entre ambos: de 1991 à 1995, El Salvador conseguiu taxas de crescimento 6% ao ano, média acima da maioria de muitos países latino-americanos; e, de 1996 à 1999, o país começa a perder os estímulos externos que haviam sido recuperados no pós-guerra, tanto no que diz respeito aos investimentos diretos, como nas suas exportações, desacelerando, portanto, as taxas de crescimento positivas (Tovar, 1996; CEPAL, 1999, 2013; Engel, 2005; Acevedo & Cabrera, 2012; Magalhães, 2012).
continuado e agravado mesmo após a paz formalmente selada em 1992 (Tovar, 1996; CEPAL, 1999, 2013; Acevedo & Cabrera, 2012; Magalhães, 2012; ONU, 2014).
É a partir de 2001, após a dolarização da economia de El Salvador, somada à abertura de mercado e à deterioração dos termos de troca do país, que registra-se em 2003 o maior pico na dívida externa, desde a década de 1990. Essa tendência permanece estável até 2008, de modo que, logo após a crise financeira mundial há outro momento de grave elevação das dívidas externa e interna. Assim, o país incorre em nova tendência de endividamento, atingindo, em 2012, a maior taxa de dívida externa desde 1993, conforme explicitado no gráfico da Figura 4 (CEPAL, 2014).
Figura 4: Dívidas Externa e Interna de El Salvador (1993-2014). Fonte: CEPAL, 2014.