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Kvin- ner årsak Andre

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Para tornar mais claras as diferenças entre regressões na neurose e no concernimento, escolhemos apresentar diferentes fragmentos clínicos que refletem essas diferenças em ambos os casos.

Em um caso de neurose atendido e apresentado por Winnicott, o menino que manifesta uma problemática na relação triangular, diz na sessão: “Eu sou Deus” (Winnicott, 1988, p. 90). Winnicott, na posição de analista, fica com a expectativa de ser usado como uma pessoa ruim, que deve ser punida, observando a existência de sentimentos de grande intensidade. O menino, então, de cima da mesa do consultório, acerta-o com uma varinha no meio dos olhos. Ele se coloca como o filho no triângulo edípico e o analista como o pai que deveria ser morto.

Diante disso, foi necessário fazer uma interpretação rápida para que não emergissem, da brincadeira, idéias de pesar por machucar o analista. Neste setting com “condições especiais” (ibid., p. 90) não existe lugar para a culpa, de forma que as ansiedades edípicas diminuem. Foi observado que, trocando os papéis, o analista como o filho e o menino como o pai, a ansiedade do menino se elevou muito.

Como observa Winnicott, “isto era a expressão de uma fantasia inconsciente no relacionamento interpessoal entre ambos, ele e eu, como pessoas inteiras” (ibid, p. 90). O trabalho analítico se realizou em torno da fantasia genital elaborada na situação transferencial relativa à situação triangular. A regressão, neste caso clínico, remonta uma primeira situação triangular, um momento crítico de escolha de um objeto e de uma posição no triângulo edípico, antes do período de latência.

4.3.2 No concernimento

Na situação clínica onde observamos uma regressão ao concernimento, Winnicott faz referência a um brincar que ocorre nos limites de uma mesa. Ali “a vida é expressa num momento como um capítulo de uma novela que está sendo escrita” (ibid., p. 90). Nesta novela há figuras boas e más que são expressas no brincar como “mecanismos de defesas característicos da realidade interna de uma criança que atingiu a integração e se responsabilizou por uma coleção de memórias e sentimentos e instintos que constituem o si-mesmo” (ibid., p. 91).

Há, nesta brincadeira, um controle mágico a partir das verbalizações53 da criança que controla o analista e transfigura os objetos da sala. Winnicott afirma: “Quando um quarto é transformado desse jeito, de forma que as paredes representam os limites do ego da criança, de algum modo o mundo externo é também alterado sendo ele encoberto” (ibid., p. 91). As forças de perseguição ficam para fora do quarto, de modo que a entrada inadvertida de um terceiro poderia causar um desastre.

Nesta postura regressiva em que o material interno da criança é afetado pela presença do analista, há duas necessidades importantes que estão sendo atendidas: a primeira, a necessidade de controle mágico e, a segunda, a necessidade de um fato que pertence à realidade externa.

Nesses casos, a interpretação é um instrumento limitado, pode-se, entretanto, relacionar os fatos da realidade interna com os fenômenos da realidade externa. A brincadeira de passagem realizada pela criança, do que está fora para dentro (introjeção) e do que está dentro para fora (projeção), não diz respeito necessariamente às fantasias do inconsciente reprimido, termo este que não satisfaz. O termo “realidade psíquica” traz o entendimento para o analista de que a fantasia do paciente é real em seu próprio sentido. O autor assim coloca:

É quando estamos brincando com uma criança que está apresentando este tipo de material que o analista vê a inadequação do termo fantasia, uma inadequação que os analistas têm tentado se esquivar soletrando a palavra phantasy para indicar qualidade inconsciente. Contudo, isto não é satisfatório especialmente porque a fantasia não é no todo inconsciente. O termo realidade psíquica expressa a compreensão do analista de que a fantasia apresentada pelo paciente é real em si mesma e está bem longe daquela que é chamada “fantasiando” a que está de algum modo sob o controle consciente e da qual os elementos não desejados são filtrados. No material da realidade psíquica não há lugar para a negação já que o material que é eliminado deve ser ainda colocado em algum lugar (ibid., p. 92). Do material clínico relativo ao concernimento, podemos dizer que a situação pouco necessita de uma interpretação, pois não diz respeito a uma fantasia genital a ser elaborada como na neurose. A própria idéia de inconsciente reprimido não satisfaz, porque o material clínico está disponível, mas não é aceito pela criança e deve ser

53 Winnicott não cita quais são as verbalizações enunciadas neste caso, mas aponta para a situação

elaborativa vivida clinicamente. Para tornar mais completa a elaboração deste momento, ver o item : “Um caso de depressão aliada à psico-neurose” a seguir.

colocado em outro lugar por projeções. O que o analista precisa fazer, portanto, não é interpretar, mas se colocar no lugar da projeção mágica da criança para aliviá-la dos elementos persecutórios e trabalhar melhor com esses conteúdos de passagem do que está dentro e do que está fora dela. Essas fronteiras do ego que controlam a passagem desses conteúdos realizam uma troca entre mundos. A característica clínica regressiva, neste caso, aponta para trocas entre o mundo interno e externo, e remonta à situação de ciclo benigno que deve ser sustentado pelo analista.

4.3.3 Um caso de depressão aliada a psico-neurose

Em algumas situações clínicas encontramos uma depressão aliada à psico- neurose. Em outras palavras, observamos, ao mesmo tempo, a instintualidade não totalmente integrada devido a problemas no ciclo benigno e relações triangulares gerando ansiedade de castração. No texto “O valor das Depressões” (1986), Winnicott conta o caso de uma garota de 14 anos levada ao Hospital Paddington Green, onde ele trabalhava, por causa de uma depressão.

Na entrevista psicoterapêutica a menina conta um sonho: sua mãe fora atropelada por um carro. O motorista do carro tinha um boné igual ao de seu pai. Winnicott fala para menina de seu poderoso amor pelo pai para explicar o fato de ela estar tendo a idéia a respeito da morte de sua mãe. Ao mesmo tempo, isto era o intercurso sexual de seus pais em termos violentos. O autor segue na explicitação do caso:

Ela viu que a razão para os pesadelos era tensão sexual e amor. Ela, agora, aceita o fato de seu ódio pela mãe, a quem ela era devotada. O seu humor melhorou. Ela foi para casa livre da depressão, e tornou-se capaz de divertir-se com o trabalho escolar de novo. A melhora foi duradoura.

Este é o tipo de caso mais simples. Quando um sonho é sonhado, relembrado e apropriadamente reportado, isto é em si mesmo uma indicação de que o sonhador teve a capacidade de lidar com as tensões internas que pertencem ao sonho. Um sonho que era, sobretudo, um desenho indicando força egóica e, além disso, o conteúdo do sonho deu uma amostra da dinâmica da realidade psíquica pessoal interna da garota.

Aqui alguém pode falar em ódio reprimido e desejo de morte na posição heterossexual, levando a uma inibição do impulso instintual.

O que é característico, contudo, pode ser omitido nesta linguagem, quero dizer, o humor, a tristeza pessoal da garota. Se ela se torna alegre, sua mãe se fere. Este é o sentido de culpa que acontece previamente (Winnicott, 1986a, p. 75).

Como o autor diz, esse é um caso simples que mostra força egóica, embora mostre também com clareza que, de um lado, a menina tinha um ódio inconsciente pela mãe, o que a deixava deprimida e, de outro lado, tinha um amor edípico pelo pai que, até então, não havia percebido. O fundamental, neste caso, não é o seu amor edípico pelo pai, mas sua preocupação com a mãe. Winnicott coloca isso em evidência dizendo que se ela se torna alegre sua mãe se fere. Eis a questão mais importante que demanda uma elaboração. Embora exista a problemática edípica, o que preocupa a menina é sua relação com a mãe. O ódio na posição heterossexual não deve omitir tal fato.

Como essa diferenciação só pode ser feita teoricamente, não podemos mais supor a existência de uma neurose pura, mas podendo vir acompanhada de uma depressão, de uma tendência anti-social, aparecendo pelo aspecto de de-privação que pode acompanhar as histerias e aspectos mais primitivos.

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