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O projeto ao qual nos propomos a analisar – Escola de Mídia - aconteceu na cidade de Fortaleza, capital do Ceará. O município tem, segundo o censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE7, 2.447.409 habitantes, e, de acordo com a prefeitura municipal, 116 bairros8. Dentre esses bairros, cada um com sua importância cultural, histórica, patrimonial e geográfica, dentro da cidade está o Mucuripe, um dos mais antigos. Ao nos lançarmos na história do Mucuripe descobrimos uma rede de relações de pertenças: bairro, o cotidiano dos moradores, a identidade deles com o espaço, a cultura e os costumes ali alicerçados ao longo dos anos.

Na verdade, o Mucuripe é um bairro de Fortaleza que está inserido em um grupo maior chamado Grande Mucuripe, que abrange os bairros: Meireles, Varjota, Mucuripe, Castelo Encantado, Vicente Pinzón (incluindo o Morro Santa Terezinha), Serviluz (incluindo o Farol), Titanzinho, Volta da Jurema, Praia do Futuro, Caça e Pesca, Cidade 2000 e até a Aldeota. Até a gestão do Prefeito José Walter Cavalcante, o Mucuripe era considerado distrito de Fortaleza, assim como a Parangaba, o Antônio Bezerra, a Messejana e o Mondubim. Em 1997, foram criadas as Secretarias Administrativas Regionais na cidade de Fortaleza: SER I (Grande Barra do Ceará); SER II (Grande Mucuripe); SER III (Grande Antônio Bezerra); SER IV (Grande Parangaba); SER V (Grande Mondubim); SER VI (Grande Messejana), (RAMOS, 2003). Em sua dissertação, Lidiane Ramos (2003), trata do processo de verticalização do Mucuripe, assistido ao longo de tantos anos pelos moradores da cidade, das desigualdades em seus mais variados aspectos, das lutas das camadas populares pela moradia e traz um rico apanhado do processo de “construção” deste espaço de Fortaleza, marcado também por uma simplicidade encantadora, tradições, belezas...

Falar sobre o Mucuripe é desvendar a história de um lugar, o modo de vida dos seus habitantes e seu caráter identitário, as resistências, enfim, é compreender como um espaço tão heterogêneo, segregado, torna-se ao mesmo tempo tão coeso em função da vida de relações, do encontro que representam a moradia e a vida no Mucuripe. Sim, morar é diferente de viver. Viver traduz um elenco de experiências sociais: relações de vizinhança, o encontro na pracinha, a comemoração das festas de São Pedro e de Nossa

7Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/populacao_por_municipio.shtm. Acesso em: 20/02/11.

8 Disponível em: http://www.fortaleza.ce.gov.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=39. Acesso em: 20/02/11.

Senhora da Saúde, mas é também descer os morros do Teixeira, “pegar” o ônibus Siqueira - Mucuripe lotado e, ainda, correr o risco de a qualquer hora ter sua moradia transferida para outro local, quem sabe, o morro Santa Terezinha, ou qualquer lugar da periferia mais distante. (P.50)

Existem várias versões a respeito da origem do bairro e a cada dia surge uma informação nova que perturba os historiadores. Algumas dessas versões remontam à época do Descobrimento do Brasil, o ano de 1500. Alguns pesquisadores defendem que o Brasil foi

“descoberto” por Vicente Yãnez Pinzón, que teria chegado às terras brasileiras, aportando no

Mucuripe. Outros acreditam que o navegador espanhol aportou no litoral de Aracati, no chamado Cabo de Santa Maria de La Consolación e seguindo rumo ao poente chegara à

enseada do Mucuripe (inicialmente batizada de “Rostro Hermoso”). Há também os que

defendem que o bairro foi por muito tempo uma colônia de pescadores, tendo seu crescimento a partir da seca de 1877 a 1879, com a vinda dos primeiros retirantes para a capital, Fortaleza (RAMOS, 2003, p.51).

Etimologicamente, o termo Mucuripe significa “Caminho dos Mocós”, nome de

origem Tupi, que teria sido designado por índios da tribo dos Mocós. Já, os holandeses, em suas investidas pelo Ceará, denominaram o povoado de Mucuriba, e os corsários franceses, ao aportarem na enseada, o chamaram de Mucuripe. Segundo a história do bairro, a origem dos jangadeiros do Mucuripe está exatamente na tribo dos Mocós, sendo os pescadores descendentes dos índios. Além da pesca, um dos elementos definidores da identidade do bairro é a religiosidade. Os pescadores veneravam a imagem de Nossa Senhora da Saúde, trazida para o Mucuripe no início da década de 1930, por Dona Maria Ribeiro. Outra devota, Dona Luísa Machado, mandou construir, na Av. Beira-Mar, antiga Rua da Frente, a capelinha para a santa. Com o aumento dos devotos foi preciso, em 1932, os pescadores em mutirão construírem uma igreja, para onde foi levada a imagem de Nossa Senhora da Saúde. Hoje, o novenário para a santa padroeira do bairro ainda é uma das festas mais populares da região (RAMOS, 2003, p.52).

Segundo Linhares (1992, apud RAMOS, 2006), há muito, na história do Ceará, a enseada do Mucuripe era pensada e utilizada como ancoradouro de Fortaleza.

A história nos ensina que foi um holandês, Matias Beck, que aportando na enseada do Mucuripe (Mucuriba) deslocou-se em seguida no sentido Leste- Oeste à procura de melhor lugar para um forte. A aldeia da Barra do Ceará trazia duas grandes desvantagens: de lá não se viam os navios ancorados na enseada do Mucuripe, que ficavam, desse modo, sujeitos a ataques imprevistos; havia a dificuldade de utilizar o rio Ceará como foz navegável devido o assoreamento de sua foz. (p.51-52)

E essa característica foi determinante para a ocupação do Mucuripe, ao longo dos anos. Primeiro porque Fortaleza necessitava de um porto para desenvolver suas atividades comerciais, industriais e turísticas. Até o início da década de 1940, essa função era do Poço da Draga, antigo ancoradouro da cidade, mas o local não dispunha de segurança para aportar grandes navios em razão da sua baixa profundidade. Em 1929, foram feitos estudos que apontaram o Mucuripe como a área adequada para a implantação do Porto, pela existência do antigo farol e de área disponível para futuras ampliações. O porto veio a ser construído na década de 1940 e inaugurado em 25 de dezembro de 1947. Com o porto vieram, mudanças de toda ordem na paisagem e cotidiano do antigo povoado de pescadores.

O local que, de acordo com historiadores, fora de difícil acesso precisou integrar-se à cidade, então foram feitas melhorias no sistema viário e ferroviário. Vários empregos foram gerados e surgiram novos atores sociais, como os estivadores. Em 1954, o Serviço de Energia Elétrica Municipal (Serviluz) instalou-se na área, o que deu origem ao bairro Serviluz, no Grande Mucuripe. Em 1955, veio a primeira ampliação do Porto do Mucuripe, o que favoreceu uma grande concentração industrial, por conta da facilidade comercial. Começaram a se instalar na área, armazéns, depósitos, os moinhos de trigo, a Fábrica de Asfalto de Fortaleza (ASFOR), o Terminal de Gás Butano, a subsidiária da Petrobrás e os estabelecimentos de frigorificação da pesca. Segundo Silva (1992, apud RAMOS, 2003), além de atrair trabalhadores do antigo porto, a concentração industrial na área do Grande Mucuripe também aglomerou parte da "zona de meretrício" para o atual bairro do Farol, ocupando as áreas das Dunas e contribuindo para o processo de favelização do local.

A instalação do porto foi um grande indutor do crescimento Mucuripe e áreas próximas, com alta concentração da população de baixa renda, sobretudo até os anos de 1980, quando foram se ampliando a função residencial para a classe média, a rede hoteleira e as atividades de lazer. (RAMOS, 2003, p.57)

A questão da moradia e sua forte relação com o porto acompanham os moradores do Mucuripe nas últimas décadas de sua história. Em 1955, veio mais uma expansão, para ampliar as operações de carga e descarga. A obra seguinte aconteceu em um intervalo de tempo mais longo, no ano de 1994, desta vez um aterro, comprometeria a paisagem marítima da população da favela do Farol e mais tarde atingiria a permanência deles na área, por conta

de constantes avanços de areia nas casas. Outra forte relação da história do Mucuripe está na trajetória da comunidade pesqueira com a especulação imobiliária.

A ocupação do Mucuripe sucedeu inicialmente por famílias de pescadores que se fixaram no Bairro pela proximidade do local de trabalho, ou seja, o litoral. A paisagem do Mucuripe era marcada inicialmente por jangadas, coqueiros e casas de pescadores, os quais viviam uma vida tranqüila longe dos adensamentos urbanos e livres da intensa competição pela terra. A tradicional colônia de pescadores do Mucuripe, grande reduto pesqueiro do Ceará no passado, não conhecia a especulação e a concorrência que atualmente existe com a pesca industrial. As casas eram, em sua maioria, de palha e os coqueiros pontilhavam o litoral do Mucuripe. (RAMOS, 2003, p.60)

A colônia de pescadores Z-2 (atualmente colônia Z-8), fundada no Mucuripe em 1920, foi uma das primeiras a ceder ao capital imobiliário, deixando a enseada em 1998 para se estabelecer na Praia do Futuro. Com a saída de um dos maiores instrumentos de representatividade dos pescadores e a retirada das casas dos pescadores da orla marítima do Mucuripe, a paisagem foi se modificando. Segundo estudos do IPLANCE (1978), citados por Ramos (2003), foi nos anos de 1950, com o começo da pesca da lagosta no Ceará para exportação - o início da atividade em caráter industrial no estado - que os impactos começaram a atingir o pescador artesanal. Já nas décadas de 1960 e 1970, instalaram-se no Mucuripe as tradicionais casas de peixadas e

[...] a partir de 1980, muitas famílias de pescadores passam a se instalar nas encostas dos morros do Teixeira, Santa Terezinha, Castelo Encantado, ou em bairros ligados ao Grande Mucuripe, como Vicente Pinzón (Serviluz e Farol) e Varjota. (RAMOS, 2003, p.62-63).

O desenvolvimento do turismo, nesta mesma época, gerando um reordenamento litorâneo em Fortaleza, também atingiu as comunidades pesqueiras, segundo a autora, aumentando a violência, alterando o ritmo de vida local, gerando abandono e desaparecimento de atividades tradicionais como a das rendeiras e bordadeiras, inflacionando o preço do solo urbano, causando exclusão e expulsão de antigos moradores, deslocados para lugares cada vez mais distantes do Mucuripe, ocasionando a "perda das relações de vizinhança". Segundo Ramos, a pesca no Mucuripe passa por uma descaracterização, apesar de o local ainda manter a venda de peixes (na beira da praia, em concorrência com os permissionários dos boxes do Mercado do Peixe, da Prefeitura), a atividade está deixando de ser passada pelas gerações.

Apesar de todos esses problemas, o Mucuripe pode ser considerado como um tradicional reduto de pescadores, não mais em casa de taipa à beira-mar ou com roupas típicas, nem tampouco com a preocupação em estender a atividade pesqueira aos seus filhos, mas a comunidade resiste como pode contra muitas ameaças: a pesca industrial, a especulação imobiliária e a ação dos atravessadores. A cada dia os jangadeiros se dirigem à praia e partem nas jangadas, agora de velas coloridas. Alguns passam até três dias no mar, outros voltam ao entardecer. (RAMOS, 2003, p.65).

De acordo com Ramos, o processo de verticalização do Mucuripe começa em 1970. É quando os contrastes entre ricos e pobres ganham rosto e as lutas e resistências locais, apesar dos movimentos para reprimi-las, se fortalecem.

As constantes intervenções na morfologia do Mucuripe e da Varjota levaram a uma valorização fundiária em que essa característica de bairro popular vai se perdendo, uma vez que esses espaços constituem-se como novas áreas de concentração da burguesia fortalezense. A ocupação desses bairros por parte das classes sociais mais abastadas e a conseqüente pressão por essa área de moradia fizeram com que a população se aglomerasse em novas favelas. [...] Fica evidente que as mudanças ocorridas no Mucuripe não beneficiaram a população de origem, uma vez que lhes foi negada a permanência no Bairro. Portanto, as resistências por parte desses moradores não são atribuídas a conservadorismos ou a mero saudosismo, pois são formas de manutenção de uma identidade. (RAMOS, 2003, p.70-71)

A renda das famílias pequena, ao contrário dos sacrifícios para continuar com o ofício, por parte dos pescadores, o morro com suas ladeiras incertas, a ocupação desordenada das casas ameaçadas pelo risco de deslizamento, famílias que resistem em prol da moradia que conquistaram, praças e equipamentos públicos com manutenção precária, a imagem do alto. Abaixo da encosta, os clubes, pontos de encontro da alta sociedade, edifícios que esbanjam o poder da burguesia fortalezense, o calçadão dos coopistas, a força do turismo, a extravagância da orla marítima - cartão-postal. Nos hotéis cinco estrelas, muitos moradores trabalham como garçons e camareiras e, durante a madrugada, ao fim do expediente, sobem o morro em moto-táxis. As dificuldades das famílias mais antigas do Mucuripe são também reflexo da nítida desigualdade social observada em tantos outros bairros de Fortaleza.

No entanto, como já citamos, nestes espaços surgem resistências, lutas, movimentos transformadores que buscam a valorização da cultura, do potencial e da identidade locais. Alguns nascem de dentro para fora, do seio da comunidade, como os movimentos sociais e até mesmo os que ganharam força a partir da Igreja Católica atuante na área, ambos citados por Ramos. Outros vêm de fora e atuam neste interior, interferindo no cotidiano dos moradores e

gerando transformações. E é uma dessas atividades que nós buscamos analisar, neste estudo: o Projeto Escola de Mídia, da Aldeia; mas para compreendermos essa, precisamos antes de tudo conhecer a entidade responsável pelo trabalho, a ONG.