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Pensar o corpo entre o saber e o poder mostra o núcleo tensional e metodológico que irá ser desenvolvido em relação à filosofia política de Foucault. Na heterogeneidade dos dispositivos e dos arquivos, compreende-se a análise das formações discursivas e não-discursivas, sendo que a primazia se dá, não na coincidência entre saber e poder, mas num alinhamento estratégico235. Uma análise diagonal236 onde o corpo-saber se recoloca enquanto multiplicidade237. Trata-se então de questionar o conhecimento238 enquanto discurso, enquanto jogo institucional de poder, que enquanto produção de saber se joga numa rede de efeitos239. Como consequência, a posição Foucauldiana procura recusar a história como continuidade, recolocando a hermenêutica como central na análise das passagens e das descontinuidades240, análise das transformações, numa arqueologia das ciências humanas, das rupturas e das torções, dos espaços (do hospital à prisão), centro e periferia, multiplicidade e singularidade. O entendimento do corpo vivo como investido de forças, trespassado por fluxos que o constroem, desloca a arqueologia para uma genealogia, como exame do poder e do corpo nas sociedades modernas, onde os mecanismos e procedimentos se darão numa grelha de análise do dispositivo (inclusão das práticas discursivas e não-discursivas), de

233 Foucault, M., A História da sexualidade I, Ed. Relógio d água, Lisboa, 1994, p. 147 234 Foucault, M., A História da sexualidade I, Ed. Relógio d água, Lisboa, 1994, p. 147

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Gutting, G. (Ed.), The Cambridge companion to Foucault, Cambridge University Press, New York, 2005, Rouse, J., “Power/Knowledge”, p.114

236 Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 20, 28, 29, 237 Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 40

238 Kelly, M., The political philosophy of Michel Foucault, Routledge, New York, 2009, p.10

239 O poder entendido como estratégia, implicado nos seus efeitos. O saber como efeito, o indivíduo como efeito do saber-poder.

33 uma tecnologia política do corpo. Assim, a perspectiva poderia ser estruturada em três plataformas complementares241:

a) Funcionalismo rizomático. Uma microfísica do poder242 onde o investimento político do corpo está sujeito a uma lógica funcional difusa. Um funcionalismo não-localizável, uma “topologia

moderna que já não estipula um lugar privilegiado como fonte de poder (…) o poder é local porque nunca é global, mas não é local ou localizável porque é difuso”243, e consequentemente não-

piramidal244.

b) Diagramático. Enquanto mapa de forças, a tecnologia é “social antes de ser técnica”245, onde

o diagrama246 está em devir247, é uma máquina abstracta. Existe um duplo movimento248.

c) Disciplinar249 e normativo. Trata-se de um movimento de adestramento250, onde o corpo como máquina se dá por relação ao externo e ao interno251. Das lógicas gerais da peste e da lepra252, procura-se dar a ver o panóptico como laboratório253 e princípio de compreensão global do corpo- poder254.

A complementaridade das várias camadas de análise, dá-se numa visão global de triangulação255

241 “ (...) a disciplinarização dos corpos e a regulação da população acabam confluindo.”, Pelbart, P., Vida Capital, Ed. Iluminuras, São Paulo, 2003, p. 57. Neste sentido, o corpo-micro e o corpo macro habitam um mesmo devir, uma diagonal que se entrecruza. Não são lógicas absolutamente separáveis, ao abrigo do mesmo princípio da relação entre saber e poder. Confluem.

242 Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 48 243 Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 49

244 “ o poder não tem essência, o poder é operatório.”, Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 50

245 Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 65

246 “todo o diagrama é uma multiplicidade espácio-temporal (…) todo o diagrama é intersocial e está em devir”, Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 59

247

o diagrama é um mapa, ou antes, uma sobreposição de mapa”, Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa,

1998, p. 69-70

248 “ Foucault lembra que a velha mecânica do poder de soberania tornou-se inoperante diante da explosão

demográfica e da industrialização. A primeira acomodação teria sido em cima do corpo individual (…) e a segunda acomodação, sobre os fenómenos globais, de população”. Pelbart, P., Vida Capital, Ed. Iluminuras, São Paulo,

2003, p. 57

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”Uma das ideias essenciais de Vigiar e punir é que as sociedades modernas podem ser definidas como sociedades “ disciplinares”; mas a disciplina não pode ser identificada com uma instituição nem com um aparelho, precisamente porque é um tipo de poder, uma tecnologia que atravessa toda a espécie de aparelhos e de instituições para os ligar uns aos outros (…)”, Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 48

250 Foucault, M., Vigiar e punir, Ed. Vozes, Petrópolis, 1997, p. 143

251 Tal como Ewald também refere, na articulação dos micropoderes com o desmembramento do Estado, teríamos

que abandonar a ideia de um centro pela de uma rede de poder, onde na batalha corpo-a-corpo, a tecnologia do poder penetra o próprio corpo. Ewald, F., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1993, p. 38-57

252 Foucault, M., Vigiar e punir, Ed. Vozes, Petrópolis, 1997, p. 164, 165 253 Foucault, M., Vigiar e punir, Ed. Vozes, Petrópolis, 1997, p. 168, 169 254 Foucault, M., Vigiar e punir, Ed. Vozes, Petrópolis, 1997, p. 25

255 Podendo ter como correlatos a triangulação: linguagem-vida-trabalho, ou segurança – território-população. Como exemplos mais gerais.

34 conceptual, na construção do indivíduo (corpo, sexo256, loucura), num processo de normalização e correcção, do corpo como realidade biopolítica. Do panóptico (da visibilidade ao enunciável) ao biológico, o corpo surge como complexidade257 do sistema capitalista. A hipótese biopolítica habita assim um esforço que se dirige ao logos do pathos258, mas também ao pathos do topos. Uma analítica do espaço anuncia o início de uma mudança. Serão as análises de Agamben que ampliarão os pressupostos de Foucault. No deslocamento da bios para a zôê259, particularmente na discussão do problema do estado de excepção, bem como da figura central de vida nua (homo sacer). Foca-se o problema de uma zona de indeterminação que se constitui, onde a vida nua se cruza com a reversibilidade260 da bio e da tanatopolítica. Tendo como dispositivo geral a noção de campo, poderíamos sintetizar as suas consequências em:

a) o campo como paradigma de análise do contemporâneo261. Assinala-se a passagem da excepção à regra262, com as características de paradoxalidade e hibridez;

b) o campo como paradigma central provoca a figura do confinamento, e em particular a da indistinção como instalação espacial da lacuna e do espaço branco, sendo que o corpo-espaço dessa heterotopia do presente faz coincidir o espaço político e o espaço de vida nua263;

c) o limiar de indistinção provoca uma zona de indiferença, que recupera a figura do muçulmano264

como realização dos efeitos de coincidência entre bios e zôê.

A noção de biopolítica apresenta assim virtudes de compreensão face ao político, enquanto ferramenta crítica que procura apreender problemas e nós mais fluidos, na tentativa de capturar esses fluxos entre regimes (problema das passagens e de transição), mas que podem criar uma ilusão transcendental265, alimentada por uma deriva expansionista266. A consideração dos perigos e

256 Foucault, M., A História da sexualidade I, Ed. Relógio d água, Lisboa, p. 127-129 257 Também na análise dos mecanismos de resistência.

258 Possibilidade hermenêutica reversível.

259

Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 14

260 Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 118 261 Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 168 262

Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 161

263

Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 175-178

264 Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 175. “O "muçulmano" era

o detido que havia desistido, indiferente a tudo que o rodeava, exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte.”, Pelbart, P., “Vida nua, vida besta”, In

https://we.riseup.net/assets/57229/Vida%20Nua,%20Vida%20Besta,%20Uma%20Vida%20(P.P.pdf

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Tal como Kant assinalava, enquanto passagem inadvertida, focus imaginário (problema da análise da noção metamorfoseante de biopolítica – de um regime totalitário para um regime liberal democrata por exemplo).

35 vantagens desta categoria de análise não é de menor consequência. Se exibe as suas forças enquanto possibilidade de resistência e desconstrução, exige contraditoriamente um cuidado preventivo do seu uso enquanto conceito-paranóico, conceito-espiral. Poder-se-ia contrapor a suspeita à suspeita, sem com isso impedir a importância da fixação do conceito por relação ao político na sua determinação enquanto fluxo. Existe um substrato niilista267 como linhas de força quebradas268, o que poderia ser traduzido por um determinismo subterrâneo269 de Foucault (herança da lógica marxista270) por relação, por exemplo, ao movimento expansionista de Agamben. Na heterogeneidade dos dispositivos e dos arquivos, os fantasmas pós-comunistas podem adensar-se. A consideração da hipótese biopolítica como paradigma de introdução à contemporaneidade271, é certamente incontornável para a compreensão do corpo e do político, num horizonte de hipercomplexidade. É nessa fractura272 que se pode exibir toda a sua potencialidade. Mesmo enquanto dispositivo273 da moda274.

266 O carácter difuso pode promover uma interpretação e projecção fantasmagórica e paranóica.

267 Gutting, G. (Ed.), The cambrige companion to Foucault, Cambridge University Press, New York, p.107, 108;

ou como niilismo qualificado segundo a interpretação de Rabinow e Dreyfus. Dreyfus, H., Rabinow, P., Michel

Foucault:Beyond Structuralism and Hermeneutics, University of Chicago Press, Chicago, 1983, p. 89. Ou niilismo activo In Dreyfus, H., Rabinow, P., Michel Foucault:Beyond Structuralism and Hermeneutics, University of Chicago Press, Chicago, 1983, p. 264

268 Retomadas pelos seus principais comentadores.

269 Agamben, G., O poder soberano e a vida nua, Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 117

270 Como referido na conferência A biopolítica como sintoma do arcaico por José Bragança de Miranda, o

trabalho de Foucault reconduz-se na origem aos principais conceitos em Marx, ampliada na noção de energia e sua gestão. Por relação à interpretação de fluxo que apresentamos, é uma reapropriação desta perspectiva de B Miranda.

271 Conceito problemático porque fechado em si mesmo, que pela sua definição não permite uma saída, que se

prolonga a si mesmo ad aeternum.

272 Agamben, G., O que é o contemporâneo? Editora Argos, Chapecó, 2009, p. 65 273

O dispositivo como conjunto heterogéneo, rede que se inscreve numa lógica de poder, cruzamento de relações de poder e relações de saber. Agamben, G., O que é o contemporâneo? Editora Argos, Chapecó, 2009, p. 29

274 " o tempo da moda está constitutivamente adiantado a si mesmo ( ...) tem sempre a forma de um limiar

inapreensível entre um "ainda não" e um "não mais". "Agamben, G., O que é o contemporâneo? Editora Argos, Chapecó, 2009, p. 67

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