• No results found

A determinação da impotência da Ciberpolítica, que também poderia ser exposta enquanto implosão do espaço público, vive na sombra da destituição da cidadania para o consumo, suspeita do presente enquanto manipulação da vida, passagem a um estado de suspeita generalizada. Esta suspeita radica na deterioração do espaço público enquanto comum, político portanto, fragmentação e destituição, esvaziamento da democracia enquanto participação. Arendt dá conta também deste processo de impotência geral que promove estratégias quasi-totalitárias de isolamento e alienação, anulação da

338 Bragança de Miranda, J., Política e Modernidade, Ed. Colibri, Lisboa, 1997, p. 158 339 Bragança de Miranda, J., Política e Modernidade, Ed. Colibri, Lisboa, 1997, p. 160

45 potência dos homens arrastados para a indiferença, incapacidade de criar resistência. Esta análise do

animal laborans, percepção contígua à de Agamben de homo sacer, significa a identificação na modernidade e contemporaneidade da política como local afastado e distante, espaço dialógico longínquo. O homem destituído da esfera pública e da palavra, periga na sua liberdade, na sua dificuldade de libertação face às esferas laborans e faber, limitação do político face às determinações determinísticas da sobrevivência do trabalho e do consumo generalizado. Este isolamento político, contrário à definição Aristotélica, é a contra pelo a afirmação contemporânea da impotência. Do homo laborans, ao homo sacer, ao homo spectator. Foi Guy Debord quem identificou340 mais claramente esta tendência do espectáculo e de espectador na contemporaneidade, assistência refém do naufrágio do presente e verificação de impotência. Na crise da relação entre tempo341 e imagem342, verificamos que a cultura mediática, e a sua atracção fatal pelo espectáculo, revelam uma estratégia de gestão do tédio e da distracção, sendo que a não-neutralidade da tecnologia é sempre assistida por uma visão343 espectacular e veloz344 na constituição de uma mecânica do desejo em toda a sua extensão. Poder-se-ia dizer que esta deslocalização da política não é ingénua face aos dilemas do contemporâneo.

Esta passagem à contemporaneidade é representada claramente por Deleuze, que expandindo o conceito Foucauldiano de Biopolítica, dá nota daquilo que intitula “sociedades de controlo”. Se com Foucault o poder se estabelecia como a entrada da vida ela mesma no jogo do poder político, nos seus múltiplos mecanismos de constituição, a sociedade de controlo é uma expansão dessa operação, mas já não confinada ao seu trabalho institucional de normalização e docilização dos corpos, entre o saber e o poder, mas numa estratégia de invisibilidade e disseminação, que não habitando totalmente nenhum espaço, preenche-os a todos. Vigilância infinita, premonição Orwelliana não-confinada. “O controlo é de curto prazo e de rotação rápida, ao passo que a

disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado”345. A Ciberpolítica herda esta dimensão progressiva a que Deleuze

qualifica de controlo, de vigilância, espaço infinitamente fechado no aberto, por contraponto de mudança às sociedades de disciplina onde “ não se parava de recomeçar (da escola à caserna, da

340 A sociedade do espectáculo In http://www.youtube.com/watch?v=A4FAJsFqHe0

341 “La puesta en práctica del tiempo real para las nuevas tecnologías es, se quiera o no, la puesta en práctica de

un tiempo sin relación con el tiempo histórico, es decir, un tiempo mundial. El tiempo real es un tiempo mundial.”,

Virilio, P., El Cibermundo, Ediciones Cátedra, Madrid, 1997, p. 15

342 Virilio, P., A inércia polar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993, p. 19, 27, 29 343

Talvez teletópica, no sentido de suprir “a continuidade em tempo real a ausência de contiguidade do espaço

real”. Cf: Virilio, P., A inércia polar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993, p. 27

344

“La noción de la velocidad es una cuestión primordial que forma parte del problema de la economía. La velocidad es, a su vez, una amenaza tiránica, según el grado de importancia que se le dé, y, al mismo tiempo, ella es la vida misma.(...)El poder es inseparable de la riqueza y la riqueza es inseparable de la velocidad. “, Virilio, P., El Cibermundo, Ediciones Cátedra, Madrid, 1997, p. 16,17

345

46

caserna à fábrica), enquanto nas sociedades de controlo nunca se termina nada(…) Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam. São as sociedades de controlo que estão substituindo as sociedades disciplinares. "Controlo" é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo. Paul Virillo também analisa sem parar as formas ultra rápidas de controlo ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas que operavam na duração de um sistema fechado”346. Apesar deste ponto de vista estruturado em “exemplos frágeis”, como nos

diz Deleuze, servir para o anúncio de um novo tipo de dominação347 que agora está a começar, serve-nos também no sentido de assinalar uma tonalidade. De facto, outra possível derivação ou extensão, segundo uma lógica do controlo e da dominação, seria a de psicopoder348. Na análise de Stiegler, as mutações tecnológicas prendem-se com uma ruptura e desajustamento, que constitui a contemporânea sociedade consumista biotecnológica349, identificada geralmente como hiperindustrial350. Numa batalha de fluxos351, o objectivo central desta nova economia libidinal é a captação da atenção, na sincronização das consciências para a constituição da telecracia enquanto dispositivo para controlar o comportamento352. Ou seja, “a potência do capitalismo contemporâneo

procede do controlo simultâneo da produção e do consumo que regula as actividades das massas na sua totalidade”353. Se a captação do desejo obedece por um lado a uma sofisticada estratégia do choque354, que enquanto experimentação socio-económica procura a amputação do coração do

político na possibilidade constitutiva ficcional355 do real, por outro amplia as tecnologias da solidão

num uso das mnemotecnologias que pretendem anular uma lógica da singularidade, confundindo a dialética da regra e da excepção. Numa sociedade do saber356 e do lazer357, onde o consumidor

346 Deleuze, G., Conversações, Ed. Fim de Século, Lisboa, 2003, p. 240

347 ”o que se deve entender por crise das instituições, quer dizer a instalação progressiva e dispersa de um novo

regime de dominação”, Deleuze, G., Conversações, Ed. Fim de Século, Lisboa, 2003, p.245

348 “The technological, industrial, systematic and constant capture of attention that has been called cultural

capitalism has been made possible by the emergence of psychotechnologies, and it corresponds to what I call psychopower”, Stiegler, B., Biopower, psychopower and the logic of the scapegoat, In http://arsindustrialis.org/node/2924

349

Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 26, 216

350

Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 14

351 “esta "batalha dos fluxos" ( de informação mundial) busca fornecer novos modelos constituindo as

tecnologias digitais de controlo comportamental permitidas pela convergência das técnicas de informática, das telecomunicações e do audiovisual”, Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 21

352 Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 143, 145 353

Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 143, 146 354 Podendo a inovação tecnológica ser interpretada como choque permanente.

355 O papel fundamental, senão fundador, da imaginação política. Ou, na constituição de novas formas, novas possibilidades.

356 Ou cultural.

357

47 assume o papel central, Stiegler procura assinalar ”uma mutação histórica do capitalismo através

da qual ele cultiva uma tendência a totalizar a existência, isto é, a reduzi-la à subsistência”358. A

impotência revela-se através da aporia359, onde a falta de futuro faz “recear que a sociedade

hiperindustrial conduza novamente os seres humanos aos piores extremos”360. A identificação dos

perigos e paradoxos presentes na ligação económico-política que a cibercultura parece fazer convergir, promove, no entanto, diferentes percepções das tonalidades afectivas da ciberpolítica. Nos estudos de Lévy em direcção a uma circunscrição361 do advento de um novo espaço ciberdemocrático362, dá-se uma revisão política363 do ciberespaço364, enquanto universal sem totalidade, à luz de uma nova concepção de espaço público. Esta mutação contemporânea está ao abrigo da inteligência colectiva365 como motor da mudança. Trata-se de uma revisão formal366, ou seja, de que forma o fenómeno da ciberpolítica, no advento das suas múltiplas incidências, afecta a concepção de Estado numa temporalidade crítica, de mutação? De facto, a centralidade do conceito de crise dá-se pela afectação sistemática das transformações do Estado Moderno, enquanto crise das suas características fundadoras. Por fundacional entende-se o pressuposto contratualista legitimador do Estado, e consequente abalo sísmico no que se poderia designar por crise conceptual, estrutural, institucional e funcional367. De um ponto de vista conceptual, a crise do Estado parece contagiar todos os conceitos clássicos associados (soberania, povo e território/ nação) dada a dispersão dos centros de poder, atitude centrífuga, onde se verifica uma “superação da supremacia da ordem

controlá-lo de modo a hipermassificá-lo: são os instrumentos de uma nova servidão voluntária”, Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 139

358 Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 167 359

A aporia do capitalismo hiperindustrial consiste na liquidação da singularidade que está em contradição com a constituição do desejo. Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 88, 89

360

Stiegler, B., Descrença e descrédito, Vendaval, Lisboa, 2006, p. 141

361 “ a mínima visão positiva é acusada de dissimular a omnipotente empresa de um “poder” que se espera que os

intelectuais denunciem constantemente (…) pelo menos deixarão aos meus leitores suspeitar que a vulgata pós- moderna e niilista da suspeição talvez não seja a única maneira razoável de orientar o pensamento”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.16,17

362 Embora os efeitos do fenómeno ciberpolítico não incidam apenas no espaço democrático, como no exemplo máximo da Primavera Árabe.

363

“o surgimento do ciberespaço cria uma situação de desintermediação, cujas implicações políticas e culturais ainda não terminamos de avaliar.”, In Lévy, P., “A Revolução contemporânea em matéria de comunicação”, In Revista

FAMECOS 9, Porto Alegre, 1998, p.45

364

“O ciberespaço é particularmente difícil de caracterizar de maneira simples por ser mais um metamédium do que um médium.”, In Lévy, P., “A Revolução contemporânea em matéria de comunicação”, In Revista FAMECOS 9,, Porto Alegre, 1998, p.44

365 “ O motor desta mudança em direcção à liberdade e à interligação é uma aspiração à potência que se transforma,

cada vez mais consistentemente, em corrida à inteligência colectiva”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.31

366 “O Estado, as religiões, os midia, outras formas culturais, sociais, até mesmo económicas, pretenderam

representar colectivos humanos, dar-lhes uma forma”, In Lévy, P., “A Revolução contemporânea em matéria de comunicação”, In Revista FAMECOS 9, Porto Alegre, 1998, p.46

367

Streck, L., Bolzan de Morais, J., Ciência Política e Teoria do Estado, Ed. Livraria do advogado, Porto Alegre, 2006, p. 137

48

estatal por outros loci de poder”368. Associado a isto, uma crise ao nível do modelo onde “o

projecto neoliberal busca nas insuficiências do État-Providence um retorno a um modelo reduzido da ordem estatal”369, obrigando a uma crise estrutural, na qual o problema económico e o conflito

de visões vão determinar a disseminação do problema aos níveis constitucional e funcional. Sob a sombra de uma teoria geral do Estado se estar a transformar numa teoria geral da crise do Estado, a corrosão da noção de soberania estreita-se na tensão entre o desaparecimento do Estado-Nação face à constituição dos blocos políticos federais ao nível global370. A exigência de repensar o Estado face à torrente de simultâneas falências371 da sua própria estrutura, implicará a assunção da sua crise na acepção clássica, exigindo por isso repensar contemporaneamente o espaço político como excessivo ao conjunto das suas formas particulares (de/em crise), afirmação de um espaço de crise estrutural, onde o próprio espaço372 deve ser interrogado. Neste sentido, Lévy propõe uma leitura teórica do Estado transparente, universal e planetário373, como devir374 do presente, que revela as tensões da mudança, em direcção a uma nova forma capaz de “aplicar uma governação adaptada à civilização

planetária da inteligência colectiva”375. Uma proposta de construção da Ciberdemocracia376, onde a desterritorialização implica uma maior liberdade, com consequências377 centrais na questão da identidade. Neste cruzamento chave do presente e do futuro, assistimos aos desafios da ciberpolítica, onde a sincronia378 característica do espaço virtual alimenta a complexificação379 da

368

Streck, L., Bolzan de Morais, J., Ciência Política e Teoria do Estado, Ed. Livraria do advogado, Porto Alegre, 2006, p. 139

369

Streck, L., Bolzan de Morais, J., Ciência Política e Teoria do Estado, Ed. Livraria do advogado, Porto Alegre, 2006, p. 142

370

Streck, L., Bolzan de Morais, J., Ciência Política e Teoria do Estado, Ed. Livraria do advogado, Porto Alegre, 2006, p. 148

371 “ Haverá que temer um novo totalitarismo? Respondo com resolução: não, pois a transparência generalizada em

direcção à qual nos dirigimos tende a tornar-se simétrica. (…) o poder autoritário define-se pela assimetria da visibilidade: os dominados são transparentes, ao passo que o centro do poder permanece opaco”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.39

372

“com a explosão do ciberespaço, a memória está universalmente distribuída (…) Por isso é que novas formas de governação e de Estado estão por inventar (…) não o fim do Estado, mas outro Estado.”, Lévy, P.,

Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.174

373

“a convergência das doutrinas e das práticas de governação electrónica, assim como a transparência e a eficácia acrescida das administrações (…) preparam lentamente a instauração de um verdadeiro Estado planetário”,

Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.172

374 Entendido como utopia ciberdemocrática. “o Estado ciberdemocrático universal e transparente ainda não existe

(…) o Estado universal espelho da inteligência colectiva”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa,

2003, p.175

375 Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.171

376 Características do Estado ciberdemocrático: espaço público livre, ágoras virtuais, eleições electrónicas

desterritorializadas, parlamentos virtuais, e-government. Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.180, 181

377 “Le caractère de fond de la cyberculture peut être ramenée à trois tendances en résonnance mutuelle :

l'interconnexion, la création de communauté et l'intelligence collective.(...)Concernant les effets sur la démocratie, cette transformation de la sphère publique mesemble affecter positivement les quatre domaines étroitement interdépendants que sont les capacités d'acquisition d'information, d'expression, d'association et de délibération des citoyens.”, In Lévy,

P., La mutation inachevée de la sphère publique, In http://www.ieml.org/IMG/pdf/La_nouvelle_sphere_publique-2.pdf

378

49 compatibilidade entre identidade fixa380 e móvel381. A falência do Estado-nação382 anuncia e presentifica a mudança em direcção a uma nova universalidade383, onde a “democracia

participativa directa deveria ser pensada em complemento para uma democracia representativa mundial”.384

da informação. A produção de conhecimentos difunde-se em tempo real.”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget,

Lisboa, 2003, p. 240

379

“estamos a viver um processo de universalização da diversidade que ameaça as uniformidades locais”, Lévy,

P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.201

380

“o homem identitário (…) representa uma etapa, em breve ultrapassada, da evolução cultural. O homem das filiações, planetário, cosmopolita, vive um universal novo, sem totalização, aberto, criativo e em expansão”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.211

381

Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.206

382 “as nações nada têm a ver com um território nem com um poder. São fenómenos mentais”, Lévy, P.,

Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p.208; “a verdadeira revolução humanista virá da separação da

identidade e do poder”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p. 206

383 “a universalidade do século XXI será não totalizante”, Lévy, P., Ciberdemocracia, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p. 210

384

50

5. Conclusão

Esta dissertação desenvolveu-se sob um programa de análise dos estados da matéria385 dos fenómenos político, e das suas condições de acesso a partir do que se pode considerar um processo de mutação e metamorfose histórico-filosófica, tentativa de construção de núcleos problemáticos386 a partir de paradigmas387 que transportassem em si a possibilidade de uma hipótese compreensiva do político, nas suas características e paradoxalidades, bem como na mudança e transitoriedade388 dos casos e autores em análise. Numa primeira fase, analisou-se o estado sólido de um corpo-carne, onde a percepção de uma violência naturalizada poderia constituir-se em torno de uma teoria do medo389. Esse estado sólido e originário de uma etologia e antropologia política foi pensado à luz dos mecanismos gerais do sacrificial, vindicativo e coercitivo. Na compreensão que se inicia a partir desse estado de natureza, tentou-se circunscrever um estado de guerra fundacional nas pulsões originárias do político. Numa segunda fase, procurou-se compreender o estado líquido, entre um corpo-máquina e um corpo-sangue, onde a violência pensada, concentrada, se poderia estruturar em direcção a uma teoria do trauma. Isto deve-se ao facto de que a consideração do totalitarismo como figura limite do pensamento político não pode deixar de ser enfrentada e re-pensada. Nesse limite habitam vários limites390. Nos problemas de escala, da massa e do indivíduo, tentámos dar conta do

surgimento do conceito de biopolítica na sua consideração da vida como novo centro problemático. Da vida-espécie à vida-corpo, dá-se início ao problema do político no cruzamento com a técnica391,

tendo no campo392 o paradigma radical de consideração (renovada) da vida-nua. Numa terceira fase, a atenção foca-se na contemporaneidade pela contemplação desse estado gasoso, que do corpo-

385 Neste sentido é uma tese temática e panorâmica que percorre um arco conceptual e tensional, do corpo sólido ao seu potencial informe. Na equação geral das diferentes fases da matéria, procura-se compreender um estado final gasoso de difícil circunscrição (dado que tende para o caos por relação à pressão), onde a forma e o volume se confrontam limiarmente com o ciberespaço e a alucinação da imediatez e da proximidade. A curiosidade final dá- se por relação à figura que conseguirá domesticar esse informe/disforme do presente e do futuro. Resta a dúvida sobre a possibilidade do processo de mudança se posicionar de forma mais próxima da vaporização, da ebulição ou da sublimação.

386 Na tentativa de circunscrever aquilo que para nós constituía uma singularidade problemática incontornável. Sobre as principais características da noção de paradigma Cf. Agamben, G., Signatura Reurum, Vrin, Paris, 2008, p.34

387 “le paradigme est simplement un exemple, un cas singulier, qui grâce à sa répétibilité, acquiert la capacité de

modeler tacitement le comportement et les pratiques de recherche des savants. Al' empire de la règle comme canon de scientificité succède ainsi celui du paradigme, à la logique universelle de la loi, la logique spécifique el singulière de l'exemple.”, Agamben, G., Signatura Reurum, Vrin, Paris, 2008, p.12

388 Na consideração da hipótese acumulativa e co-existente dos diferentes paradigmas. Ou em termos mais radicais da pensabilidade/impensabilidade, representação/irrepresentação. Da voz e do silêncio, da memória e do esquecimento. 389 Na dialética do medo e do êxtase. A este respeito cf. Bragança de Miranda, J., " Terror / êxtase", In http://www.arte-

coa.pt/index.php?Language=pt&Page=Saberes&SubPage=ComunicacaoELinguagemCultura&Slide=186 390 Como paradigma absoluto do político mas também do estético, do ético, do religioso. Cf. Magnani, L.,

Understanding Violence, Springer, Berlin, 2011

391 Tendo na medicina eugénica a sua máxima amplitude, mas também como vimos em Foucault por relação ao cruzamento de campos de saber da geografia à biologia, e da consequente tradução e aplicação.

392 A par de outras figuras do pensamento em Agamben. Cf. Agamben, G., O que resta de Auschwitz, Boitempo Editorial, São Paulo, 2008

51 tempo ao corpo-espírito, apresenta uma violência disseminada, talvez sem corpo e sem rosto, no que se poderia designar pela instauração de uma teoria da indiferença. Assim, é através da exploração do conceito de ciberpolitica nas suas diferentes matizes que vemos surgir a noção de crise como conceito operativo que permite repensar o espaço público e, por consequência, a hipótese de uma nova forma, nesse cruzamento da potência e da impotência política. Neste sentido, tentou-se desenhar essas complexidades e dilemas do presente que exigem coragem393 ao pensamento e à acção. A actual crise do mundo político ocidental parece querer assinalar esse choque de instalação do novo paradigma ciberpolítico. Mais do que uma aporia, trata-se de uma encruzilhada que, no seu dispositivo natural de desnorte, abraça a hesitação. Talvez seja um choque de expectativas. Talvez seja apenas o choque da (possível) mudança de paradigma. Sabemos pela história que o nosso confronto fundamental é com o inimaginável, tal como para o homem da idade média seria impensável a organização política do presente. Assim, é a liberdade que funda a imaginação política. Se partimos do coração antropológico do político para chegarmos ao substrato