3 DESIGN OG METODE
3.2 Kvantitativ metode
Como ser cultural, a criança recebe influências socioculturais do seu grupo e modifica a cultura da qual faz parte. Mas, a partir de que momento a criança é inserida na cultura e começa a fazer parte dela? O nascimento da cultura na criança apresentado por Angel Pino em seu livro As marcas do humano (2005) com base nos estudos e pistas deixadas por Vygotski nos ajuda a fazer uma análise desse momento na vida da criança para relacioná-lo com a sua inserção na cultura escolar e assim podemos trazer para a estruturação da nossa pesquisa um aporte teórico dos mais relevantes.
Para Pino (ib., p. 88), uma das pistas importantes deixadas por Vigotski é uma afirmação “extremamente lacônica” que pode ser considerada como uma definição: “Cultura é o produto, ao mesmo tempo, que, da vida social e da atividade social do homem” (Vigotski, 1997, p. 106). Segundo Pino,
Neste enunciado tão simples, Vigotski está afirmando duas coisas: 1) que a
cultura é uma “produção humana” e 2) que essa produção tem duas fontes simultâneas: a “vida social” e a “a atividade social do homem”. Analisando
em separados estas duas afirmações, pode-se verificar que, ao dizer que a
cultura é o “produto” da vida social e da atividade social, está afirmando que
ela é obra do homem e, por conseguinte, que não é obra da natureza. Isso quer dizer que entre cultura e natureza existe uma linha divisória que as separa e que as une e que essa linha passa pelo homem, ao mesmo tempo natureza e
agente da sua transformação; portanto alguém capaz de produzir cultura, mas incapaz de criar natureza. (PINO, 2005, p. 89).
Essa discussão nos remete ao fato de as crianças nascerem enquanto seres biológicos, “da natureza” e que, por fazerem parte da vida social, farão parte da cultura, produzindo-a. Para Pino (ib.), a criança já faz parte da cultura antes mesmo do seu nascimento, tanto pela expectativa que seus familiares têm do seu nascimento, quanto pelas reais condições do meio social do qual ela fará parte.
As crianças se desenvolverão culturalmente a partir da significação que elas construirão aos poucos do mundo. Essa construção é mediada pelo outro que ao interagir com a criança a introduz nas práticas sociais de seu grupo cultural. Pino, embora nos advirta sobre as contradições na apropriação da significação dos bens culturais, pois grande é o número de excluídos do acesso a esses bens materiais e imateriais, considera que o ingresso na cultura se caracteriza como um processo de transformação do humano “da sua condição de ser biológico num ser cultural, ou seja, um ser semelhante a outros homens” (ib., p. 153). Essa transformação pressupõe uma condição biológica (equipamentos genético e neurológico) e uma condição social (a ajuda do Outro) para que a criança se integre progressivamente ao social e ao cultural.
A constituição da criança como um ser humano é, portanto, algo que depende duplamente do Outro: primeiro, porque a herança genética da espécie lhe vem por meio dele; segundo, porque a internalização das características culturais da espécie passa, necessariamente, por ele, como o deixa claro a análise de Vigotski. Isso não significa que a criança seja um agente passivo no processo que a converte num ser humano. Muito pelo contrário, ela participa ativamente desse processo, de maneiras e em graus diferentes em função do próprio amadurecimento biológico. A mediação necessária do Outro não impede que seja ela o sujeito do processo de internalização das funções culturais, as quais já fazem parte da história social dos homens (Vigotski, 1997). [...] a mediação do Outro é condição necessária, mas não suficiente para que ocorra esse processo, pois ele implica uma transformação ou conversão da qual ela é o principal agente, tenha ou não consciência disso. Todavia, essa conversão tem lugar no quadro das disponibilidades reais que o seu meio lhe oferece. (PINO, 2005, p. 154).
O processo de conversão da criança em ser humano, mesmo dependendo da mediação do Outro, não se apresenta como algo unilateral. A criança também participa desse processo por sua própria ação enquanto ser histórico e social.
Assim como foi dito na epígrafe do capítulo, “O desenvolvimento cultural da criança, mais do que inserção dela na cultura, é inserção da cultura nela para torná-la um ser cultural” (ib., p. 158). Portanto, essa conversão vai depender necessariamente da maneira como ela internalizará os modos humanos de funcionar, tais como a fala, a ação, o pensamento.
Nesse sentido, a inserção da criança na cultura e da cultura na criança será sempre singular, individual, e dependerá das práticas sociais nas quais a criança está inserida, da maneira como o Outro mediou e interagiu com ela, do caminho percorrido nessa conversão, enfim, da história de vida pessoal e social de cada indivíduo (PINO, 2005).
Pino (2005) denomina o caminho de conversão da criança do estado de ser biológico para o de ser cultural como “Mediação semiótica”. Essa mediação opera na criança de acordo com dois casos: 1) como conversor que permite a transposição de planos das funções humanas naturais da criança em funções culturais; e 2) permitindo à criança a apropriação do saber humano que a capacita a interpretar o mundo e lhe dá condições para comunicar-se com os outros.
Para ilustrar a explicação, Pino (2005, p. 161) apresenta a seguinte figura denominada por ele de estrutura “trifásica” do desenvolvimento cultural da criança.
FIGURA 7 – Esquema da estrutura “trifásica” do desenvolvimento cultural da criança
Fonte: PINO, 2005, p.161
A explicação dessa figura será feita pela citação do próprio Pino que resume nessa estrutura toda a teoria do nascimento cultural da criança.
Ele se inicia no plano cultural das funções biológicas, para terminar no plano cultural das funções simbólicas, após a mediação do Outro que, ao atribuir significações à ação da criança, indica-lhe, mesmo que ela ainda não se dê conta disso, que está sendo incorporada no repertório das funções humanas, as quais conferem às ações finalidades e intencionalidades que podem ser interpretadas pelos outros. (PINO, 2005, p. 161 e 162)
Em outras palavras, Pino (ib., p. 167) explica que o nascimento cultural da criança começa quando ela atribui significação às coisas que a rodeiam e às ações a partir do outro, para quem essas coisas e ações têm significação. De modo que, “no nascimento cultural o Outro é guia e monitor da criança, não um agente de produção da cultura. Esta já existe no plano social e deve passar a existir no plano pessoal.” (ib., p. 168).
FUNÇÃO BIOLÓGICA
Dado “em si”
ATRIBUIÇÕES DE SIGNIFICAÇÃO
Dado “para o outro”
FUNÇÃO CULTURAL