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Aktiviteter (Activity system)

2 TEORI

2.4 Strategikartet

2.4.2 Aktiviteter (Activity system)

A pesquisa (auto)biográfica acompanha um movimento cultural e científico que se desenvolve nos anos 1980 que considera o sujeito como autor e principal protagonista da própria vida, como sugere Passeggi (2011). Um dos principais defensores do método biográfico, o sociólogo Franco Ferrarotti (2014), admite que em suas pesquisas ficava impressionado com o caráter sintético das narrativas autobiográficas. Essa característica lhe permite propor como método de pesquisa nas Ciências Sociais. Para o autor, na história de uma vida está contida igualmente a história da sociedade onde essa vida acontece. De modo que todo indivíduo é ao mesmo tempo singular e universal, e sua história é única e ao mesmo tempo plural. O método biográfico, proposto por Ferrarotti, torna-se uma das referência teóricas de maior importância para o movimento educativo das histórias de vida em formação (PINEAU;

LE GRAND, 2012), sobretudo em Portugal e no Brasil, a partir da coletânea organizada por António Nóvoa e Matthias Finger (2010), e publicada em Lisboa em 1988, na sequência do movimento de valorização do sujeito. A pesquisa com narrativas (auto)biográficas surge, portanto, como uma renovação metodológica necessária pela crise dos instrumentos heurísticos da Sociologia e também a partir da “exigência de uma nova antropologia” (FERRAROTTI, 2010, p. 35), advinda da necessidade que têm as pessoas de compreender sua vida, seus trajetos, conquistas e dificuldades. Portanto, afirma Ferrarotti (2010, p. 35):

[...] a biografia que se torna instrumento sociológico parece poder vir assegurar essa mediação do ato à estrutura, de uma história individual à história social. A biografia parece implicar a construção de um sistema de relações e a possibilidade de uma teoria não formal, histórica e concreta, de ação social.

Para apresentar-se como uma proposta científica, o método biográfico atribuiu à “subjetividade um valor de conhecimento” (ib., p. 36) e situou-se “para além de toda a metodologia quantitativa e experimental” (ibidem). Esses aspectos proporcionaram ao método um caráter científico de peso nas ciências humanas. Para Brockmeir e Harré (2003, p. 525), “Trata-se, antes, de uma nova abordagem teórica, de um novo gênero da filosofia da ciência”.

Relacionando a especificidade do método biográfico, é possível classificar os materiais utilizados como materiais biográficos primários, coletados pelo pesquisador, e os materiais biográficos secundários, que existiam antes da pesquisa, tais como cartas, diários etc. (Ferrarotti, 2010, p. 43). No entanto, as narrativas por seu caráter subjetivo são muitas vezes desvalorizadas e colocadas em segundo plano.

A condição fundamental para uma renovação do método biográfico passa pela inversão dessa tendência! Devemos abandonar o privilégio concedido aos materiais biográficos secundários! Devemos voltar a trazer para o coração o método biográfico os materiais primários e a sua subjetividade explosiva. Não é só a riqueza objetiva do material biográfico primário que nos interessa mas também, sobretudo, a sua pregnância subjetiva no quadro de uma comunicação interpessoal complexa e recíproca entre o narrador e o observador. (FERRAROTTI, 2010, p. 43)

As pessoas da sociedade do século XXI, cada vez mais envolvidas com as redes sociais, constante e involuntariamente narram suas experiências de vida na web. Se a narração é um ato humano, essas narrativas apresentam-se muito vezes com riqueza de detalhes permitindo partilhar a complexidade de vida, documentos, fotos e qualquer outro material biográfico. Seja para explicar uma situação que se está vivendo, seja para trocas formais ou informais, seja para publicar um diário íntimo, para dar testemunhos de aprendizagens, de crimes, de abusos entre

tantos outros usos. Incontáveis são, portanto, os relatos que se acumulam e circulam na internet, não importando o tempo, local, a maneira de narrar, nem quem lê/vê o que é publicado.

Essa práxis humana, como apresenta Ferrarotti (2010) só é possível de ser compreendida a partir da razão dialética, que tem a capacidade de relacionar o ser humano e a sociedade na qual ele está inserido. O autor caracteriza o homem como universal-singular. Universal por se fazer parte de uma história social e por essa história fazer parte dele, singular por ser um indivíduo dotado de uma história e projetos pessoais com características que o tornam único. Para Christine Delory-Momberger (2012, p. 524), na sequência de Ferrarotti, afirma que “o objeto da pesquisa biográfica é explorar os processos de gênese e de devir dos indivíduos no seio do espaço social”, propondo como campo de estudo os modos de como o indivíduo se constitui enquanto ser social e singular. Passeggi (2011, 2014) discute a pesquisa (auto)biográfica, não como uma abordagem sociológica como a proposta inicial de Ferrarotti, mas concebendo-a, na área da educação, como método de pesquisa e prática de formação, estendendo sua reflexão à pesquisa com crianças.

Inspirada nessa perspectiva é que levamos em consideração que as crianças mesmo com pouca idade (entre cinco e sete anos) são capazes de falar, contar e comentar suas experiências de vida e principalmente suas indagações. O desafio foi utilizar suas falas como método e não apenas para ilustrar teorias e hipóteses, como aponta Ferraroti (2010).

A pesquisa foi realizada, voltada para

(...) a compreensão dos fatos narrados pelas pessoas [crianças] como protagonistas de sua história pessoal, no contexto de história social do seu tempo e do seu grupo. A apropriação da história social como história pessoal não seria apenas o objeto da pesquisa (auto)biográfica, mas o seu método. (PASSEGGI, 2011, p. 26)

Em nossa pesquisa procuramos perceber e interpretar o que as crianças participantes nos dizem de suas experiências, qual é seu olhar sobre o primeiro ano do Ensino fundamental, e com base em suas interpretações fazer inferências sobre como as crianças que frequentam a escola pesquisada, nos dão indícios sobre as relações que se estabelecem entre a criança e a cultura escolar de um modo geral. Partir da experiência individual para compreender a vida social é o que nos ensina Ferrarotti ao afirmar que:

Se nós somos, se todo indivíduo é a reapropriação singular do universo social e histórico que o rodeia, podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual. [...] a biografia sociológica não é só uma narrativa de experiências vividas; é também uma microrrelação social. (FERRAROTTI, 2010, p. 45)