10 Drøfting og refleksjon ...........................................................................12 1
10.5 Kvalitet, identitet og institusjonell endring
O des locamento de indiv íduos do sertão para Capital em busca de melhores condições de vida não era um nov idade do iníc io do s éculo XX. Desde a centúria anterior, a mov imentação migratória estav a pres ente na história fortalezense, principalmente em v irtude dos problemas adv indos das inc onstâncias do clima, como os períodos das sev eras es tiagens.
No século XIX, de acordo com Samara e Freitas Sousa, muitas mulheres, sobretudo v iúvas, migrav am para a Capital constituindo moradas nos arrabaldes da cidade, através de precárias choup anas que eram alv o de ataques do poder público municipal e es tadual. Para s obrev iverem e sus tentarem s uas famílias, ac abav am env eredando em trabalhos ambulantes ou exerc endo ativ idades domésticas em res idências na área central da cidade:
Assim, as viúvas se to rn aram chefes de se us domicílios e morav am em casebres e palhoças, ao longo do p erímetro margin al da cidade. [...] As mu lheres, para sobrevive r, tra balhavam no servi ço doméstico na s resid ências da á rea central, v endia m bolos, doce s e carne verde nas ru as.249
De certo, tal aspecto estava presente nas primeiras décadas do século XX e, talvez, ainda na atualidade. Entretanto, cada v ez mais se intensific av am estratégias para a obtenção de mulheres trabalhadoras domésticas do interior, sem que foss e nec essár ia a espera pelos momentos c rític os de secas e sem que as empregadas fossem exc lusivamente aquelas mulheres v iúvas c om idades mais av anç adas. Em um momento de expansão material da cidade onde a atuação dos (as) negociantes era fundamental, aumentav a amplamente a demanda por esses trabalhos .
Os empregadores (as) que buscav am pessoas para suprir os serviços domés ticos focavam, s obretudo, aqueles ofertados de
249 SAMARA, Eni de Mesquita; FREITAS SOUSA, José Weyne de. Morar e viver no Nordeste
do Brasil: Fortaleza, século XIX. Trajetos: Revista do Departamento de História UFC. Fortaleza: Departamento de História da UFC, vol.4, n° 7, p. 14 – 68, 2006d, p. 50.
for ma ainda mais barata, sendo corriqueira a procura por mulheres mais jov ens que trabalhassem em troca de morada, comida e roupas, configurando, ass im, dispositivos de imigraç ão e trabalho que, embora pudessem ter suas raízes no século XIX, assumiam nuanças diferenciadas nas primeiras décadas do s éculo XX.
Disc utindo acerca dos problemas inerentes aos v ários e div ers os tipos de process os de migração das mulheres e percebendo que muitas v ezes o epíteto de “imigrante” serv iria como uma espécie de estigma soc ial, Dolores Juliano (2004) afir mou a necessidade de compreensão dos padrões de migração específicos das mulheres . De ac ordo com ela, essa empreitada enc ontraria dificuldades princ ipalmente pela pers pectiva de estudos antigos e contemporâneos no campo das ciências humanas que tenderiam a submeter o fenômeno migratório das mulheres a um apêndice da migraç ão dos homens .
A especificid ade do s problema s da migração feminina i mpli ca de safios teóricos e metod ológi cos [...]. Os mode los a q ue se re correm no ca so de i migran tes e a rtistas h omen s são o s mo delos h eróico s. As so ciedades a ndróge nas não p ro porcio nam este s modelos de v alorizaçã o das mulhe re s, que e migram assim sendo, mas sã o vistas como se não e migra ssem, tra nsgredindo sem q uestionar [...]. Porém nã o só o modelo de mig ra ção é diferen te, mas o são também os te mpos em que se re aliza (que não coincidem co m os dos de slocamentos masculin os) e as redes em q ue se apóia [...].250
Sem objetiv ar exaurir a problemática, ela apontou como exemplo três grandes fatores que influenciariam ess es mov imentos migratórios espec íficos. O primeiro deles seria a “patrilocalidade”, fator cultural presente no mundo ocidental que obrigaria as mulheres casadas a fixarem suas res idências longe de
250 JULIANO, Dolores. Excluídas y marginales: uma aproximación antropológica. Ediciones
Cátedra, 2004, p. 184. Tradução livre: “La especificidad de los problemas de la migración femenina implica desafios teórico metodológicos[...]. Los modelos a los que se recurre em caso de inmigrantes y artistas hombres son los modelos heróicos. Las sociedades androcentradas no proporcionan esos modelos de valoración a las mujeres, que emigran entonces, pero son vistas como si no emigraran, transgrediendo sin cuestionar [...]. Pero no sólo el modelo de migración es diferente, sino que lo son también los tiempos en que se realiza (que no coinciden con los de los desplazamientos masculinos) y las redes en que se apoya [...]”.
seus loc ais de nasc imento. Um segundo fator seriam a inc ompatibilidade e conflito dos ans eios das mulheres com aqueles indicados como “nor ma is” para o perímetro em que res idiam. Suas aspirações seriam desv alorizadas socialmente. Um ú ltimo elemento, interligado c om o segundo, trataria da atribuição soc ial de tarefas diferentes de ac ordo c om o sexo. Para este aspec to são exemplares os abandonos das zonas rurais “[...] pelas mulh eres qu e bu sca m nas cidades tra balho no seto r de serv iços e melhores cond içõe s de vida ”.251
A partir destas indic ações, busc amos entender como se dav am as migrações das jov ens trabalhadoras para a cidade de Fortaleza, no seu momento de forte expansão, mediante uma abordagem histórica que ev itasse generalizações em demas ia e definisse as partic ularidades desse interim. Assim, mais do que o liv re deslocar das mulheres em busca de melhores oportunidades, pudemos observar peculiaridades de um mov imento exploratório e des igual que tinha as s uas bases nas ações das famílias das mulheres imigrantes coadunadas com as atitudes dos patrões e patroas. Sujeitos que, c omo Maria Viv ência, José Monteiro Filho e, prov av elmente, muitos outros (as ), poderiam estar ligados ao comércio de terras e prédios em Fortaleza, mas, em deter minados momentos, acabav am lançando suas atenções para a c ontrataç ão de empregadas para os serviços domésticos.
Como indícios dess a realidade, várias foram as queixas e comunicaç ões de desaparecimento encontradas de jov ens mulheres apontadas como trabalhadoras domés ticas que endossavam o conjunto de conflitos sinalizados, além de apontarem para outras tensões nas relações de poder cotidianas atreladas às empregadas , aos patrões (as) e à polícia. Aspec tos pertencentes ao mesmo contexto de expansão urbana da cidade em que se destacavam as importantes negociantes de imóv eis e as profiss ionais liberais , mas que denotav am o quão des igual era esse processo, toc ando os sujeitos de maneira diferenc iada.
251
Para entendermos melhor como is so ocorria podemos obs erv ar, inicialmente, o registro de desaparecimento da jov em trabalhadora Francisca de Paula:
O senhor José Batista [...], comunicou que sendo e ncarreg ado de vigiar a menor Franci sca Pau la, com 16 a nos d e idade , que se a chava emp regada e m ca sa do sr. José Bern ardo Vasq ue [...], sendo o p ai da me sma , o sr. Fra ncisco Berna rd o, reside nte em Qui xadá , q ue auto rizou o queixoso, q ue é seu p ri mo, ir se mpre na casa qu e a meno r era e mpreg ada afim de sa ber do resp ectiv o patrão q ual o proced imen to da citada menor, e indo hoje, chegando lá n ão encontrou a refe rida menor, tendo a sua p atroa resp ondido que a mesma havi a saído d e sua casa a 17 dias, nã o sa bend o pa ra ond e, sabend o entretanto q ue a refe ri da meno r hav ia sido seduzida por u m ra paz [...](grif o nosso).252
A citação dessa queixa, quase por completa, é importante porque consegue sintetizar em seu corpo uma série de infor mações exis tentes em outros regis tros da mes ma natureza que apontam para alguns padrões e perfis s ociais quando abordados em conjunto. Assim, submetidos à interpretação his tóric a, esses indivíduos c edem es paço para a percepç ão de comportamentos sociais mais amplos, coletiv os .
Um dos aspectos, comum a todos os regis tros enc ontrados, diz respeito a uma prátic a de encaminhamento de mulheres, sobretudo crianças e adolescentes, do interior à cidade de Fortaleza, para trabalharem em casas de família, no exercício de afazeres domésticos . Tal prática implicava redes de solidariedade e v igilância entre as famílias e os empregadores (as) que acordavam o paradeiro da jov em migrante, muitas v ezes à rev elia de sua v ontade. Esse era o c aso de Paula que, mes mo longe de seu núcleo familiar, encontrav a na figura do patrão, da patroa e, especialmente, do seu tio, uma extensão da v igília primeira de seus pais, com o intuito de preservar sua honra, de saber “o procedimento da citada menor”. 253
252 APEC, Livro de Registro de Queixas da Primeira Delegacia da Capital (07/1932 a 05/1935),
queixa nº. 69, p. 83v.
253 Em estudo desenvolvido por Sousa, há uma explanação sobre a lógica existente entre a
Es sa característica de acordos firmados tendo como base a ação familiar também era patente no sumiço de outra jov em. Conhecida como Celsa, de 13 anos, tev e seu desaparecimento comunicado à políc ia por Jos é Fernandes Filho, que informou ainda “[...] que a cita da me nor ve io de Sou re , em compa nhia d e Vicen te Monteiro, irmão do comunicante e que a trou xe, com pe rmissão do p ai da mesma [...]”254 para trabalhar c omo empregada doméstic a.
Pelas característic as dos liv ros de queixa (fontes que trazem informações muito diretas e res umidas), dificilmente poderíamos ter uma maior compreensão acerca dos motiv os que lev av am os pais a env iarem suas filhas para trabalharem na casa de conhecidos, familiares ou mes mo de estranhos na Capital. Contudo, e m um ambiente tradicionalmente assolado por s ecas e marc ado pela carestia material, talv ez a migração dessas jov ens representasse uma possibilidade e ans eio de v idas melhores para elas e suas famílias, c omo as mulheres v iúvas faziam des de a centúria passada, segundo afirmaç ões de Samara e Freitas Sousa.255
Es tabelecidas nas cas as do perímetr o urbano fortalezense, as jov ens eram então s ubmetidas às redes de solidariedade fir madas entre os pares que, dentre várias intenções, objetiv av am conservar o corpo feminino, ainda que dis tante de seus guardiões primeiros : a família. Sobre o corpo da mulher rec aía não apenas a sua honra, mas a de toda a sua ascendênc ia.
masculina teria como alicerce o ‘frágil’ corpo feminino, atribuindo papéis e esperando comportamentos ideais de ambos os sexos. Ver: SOUSA, Noélia Alves de. A liberdade é
vermelha? Um estudo da violência contra as mulheres nas décadas de 20 e 30 do século XIX. São Paulo, 1997. 253 p. Dissertação (Mestrado em História). Pontifica Universidade Católica de São Paulo. PUC-SP.
254 APEC, Livro de Registro de Queixas da Primeira Delegacia da Capital (07/1932 a 05/1935),
queixa s/n, p. 88v.
255 SAMARA, Eni de Mesquita (d); FREITAS SOUSA, José Weyne de. Op. Cit.. De acordo com
Frederico de Castro Neves, o problema das secas no Ceará não era um aspecto novo. Contudo, a partir da seca de 1887 houve uma mudança essencial: “[...] a seca de 1877 não se diferencia tanto de outros períodos de escassez, nem mesmo em termos de prejuízo econômicos. Mas, ao contrário destas épocas, a seca adentrou o mundo do poder constituído, avançou sobre o centro imaginário deste poder, sem respeitar-lhe os “canais competentes”, e atingiu o cerne da aventura civilizatória que a elite local imaginava experimentar neste momento. A vida urbana passava a ser o cenário privilegiado do drama da seca”. Ver: NEVES, Frederico de Castro. A multidão e a história: saques e outras ações de massas no Ceará. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 25.
Os agentes de tais acordos eram aqueles e aquelas que env iavam e recebiam as jov ens . Nos contratos v erbais e amistos os não hav ia espaç o para a atuação do indiv íduo que es tava s endo negociado. Muitas vezes , nas comunicações de desaparecimento, era clara a noção de “coisa negociáv el” atribuída a ess as mulheres. Sentido este implícito desde o instante da negociação de suas v idas até o momento do desaparecimento ou fuga que elas impetrav am.
A queixa do Dr. João Bezerra deixava patente a noção de objeto no momento da c omunicação do desaparecimento de Sebastiana, ao afir mar que: “[...] no caso de ser encontrad a pode en tre gar na Rua Barão do Ri o Branco, nº. 426” (grifo n osso).256 A linguagem do queix oso e a forma como s e referia à menina nos per mitem refletir sobre a concepção que ele fazia da jov em. Era ela um objeto que caso foss e achado dev eria ser passado para quem detinha sua posse: o doutor. Dessa forma, essas mulheres apareciam entendidas como sujeitos ausentes de aç ão, na medida em que s eus desapareci mentos eram comunicados à políc ia c om o intuito de s eus patrões (as) reav erem suas posses.
A idéia de poss e e a proximidade familiar, presentes no env io de jov ens mulheres à Capital, r emete-nos ao século XIX, e mes mo anteriormente, por guardar similitude com as relações ali estabelecidas , principalmente no que c oncerne aos contatos entre senhores e escrav os e também em relaç ão aos trabalhadores liv res explorados. As formas como eram comunicadas e registradas na Delegacia as fugas das jovens trabalhadoras se ass emelhav am em muito aos anúncios de escravos fugidos, tanto em relação à descrição como ao caráter de “entrega” , isto é, da noção de objeto. Vejamos o seguinte anúncio de escrav o fugido para tornarmos mais claro o estreitamento histórico proposto:
Fugiu [...], o e scravo Severino (pode ser que mude de n ome ) mula to claro, al to, se co de corpo, po uca barba, cabelos cre spos e se mpre pentead os, de 30 ano s de
256 APEC, Livro de Registro de Queixas da Primeira Delegacia da Capital (07/1932 a 05/1935),
i dade, [...], o q ual foi d o Sr. Raimundo Olimpio Go nçalves d e Freitas, da cidade de Aracati . Quem o peg ar e e ntregar nesta cida de, [...] será recompensado g enerosame nte, 25 de março de 1870. Viúva Salga do & Cia (g rif o nosso).257
A s emelhanç a dos registros dev e ser contrastada c om o hiato dos mais de 60 anos de dis tanciamento entre os dois ev entos. Entretanto, tanto em um como em outro hav ia uma descrição minuciosa da for ma fís ica dos indiv íduos fugidos para que os possív eis leitores (as) e polic iais pudess em encontrá -los e dev olvê-los.
Pross eguindo na leitura da queix a pres tada ac erca do caso de Sebastiana, identificamos ainda outra carac terís tica que corroborav a essa idéia de pos se e que também era constante nesses regis tros : “[...] o Dr. Joã o Bezerra co municou que a menor Seb astian a ou Marg arida, f u giu d e su a resi dência, [...] sendo de 15 an os de idade ma is ou menos, cor more na escura, cabel o cortad o, traja ndo vestido encarnado de chita, condu zind o u ma sob rinha e calçada [...]” (g rifo nosso).258
A instabilidade quanto ao nome da jov em, tal c omo aconteceu em relação ao escravo Sev erino, era compensada pela riqueza de detalhes do corpo e da v estimenta. Não eram poucos os registros em que o queixoso s abia apenas o primeiro nome da pessoa, havendo situações em que nem essa informação se dis punha c om certeza, c omo na queix a acima. Nos dois casos, a per muta de nome poderia significar, talv ez, táticas de fuga utilizadas pelos sujeitos para, no caso das mulheres trabalhadoras liv res , dific ultar seu enc ontro ou, no caso dos escrav os, sua captura.
257 Jornal A Constituição, 02/02/1870, apud FUNES, Eurípedes Antônio. Negros no Ceará. In:
Simone Sousa. (Org.). Uma Nova História do Ceará. 4ª ed. Fortaleza: Ed. Demócrito Rocha, 2007, v. 1, p. 103-133, p. 115. É necessário observarmos que há um equívoco na transcrição deste documento pelo próprio jornal. A empresa apontada como sendo a proprietária do escravo fugido chamava-se Vieira Salgado Souza e Cia. Ver: APEC, Cartório de Notas Diógenes e Martins, Escrituras de compra e venda, Livros 06, p. 4v, 03/1869.
258 APEC, Livro de Registro de Queixas da Primeira Delegacia da Capital (07/1932 a 05/1935),
O que podemos observar, nessa aprox imação entre ess es dois momentos históricos distintos, é o estreitamento de mentalidade em relação às concepções de trabalho que detinham os patrões (as) da época. É válido lembrar que alguns indiv íduos tinham v iv ido e acompanhado a trans ição do período escrav ista para o trabalho liv re.259 A libertação dos escravos ocorreu no Ceará em 1884, todav ia, a aboliç ão legal não s ignificou o fim dos costumes e hábitos baseados nas antigas relações entre senhor e escravo.
Em outro relato de fuga, ocorrido em 0 5/03/1934, isso ficava ainda mais ev idente:
O senh or Jo ão Mend onça Jú nior, residente n a Rua Se nador Pompeu n ° 2508, ch ácara Dou tora Paula Rod rigues, comunicou ne sta repartição que, no dia 5 do corrente mês, fugiu de sua residênci a, uma meno r que se a chava sob su a re spon sabilidade , que vivia e m sua companhia há 8 a nos, de nome Maria com 12 anos de i dade, de cor preta e cab elos carapinho, cortad os baixos (g rifo nosso).260
O ato da fuga, o fato de a menina ser de c or preta e a carac terística de possuir apenas o primeiro nome denotav a m bem essa continuidade his tóric a proposta em relação aos tempos de escrav idão nos lares cearenses das décadas de 1920 e 30. Aspec tos que serv iam e apontav am para uma es tigmatizaç ão e que, nes tes decênios , ao lado da baix a idade e da diferença sexual, possibilitav am a exploração dessas meninas como serviçais doméstic as, v isto que a cor dos indiv íduos, pelo menos em ter mos de Lei, não serv ia mais de alicerce para as tentativ as de domínio e controle.
Alguns dos ricos proprietários e proprietárias do séc ulo XX, inc lusive, tinham feito fortuna c om a exploração do trabalho c ativo. Como exemplo, podemos citar o c aso de Joaquim da Cunha Freire,
259 Ver: FERREIRA SOBRINHO, José Hilário. Catirina minha nega, Teu sinhô ta te querendo
vende, Pero Rio de Janeiro, Pero nunca mais ti vê, Amaru Mambirá : O Ceará no tráfico interprovincial 1850-1881. Fortaleza, 2005. 260 p. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade Federal do Ceará, UFC.
260 APEC, Livro de Registro de Queixas da Primeira Delegacia da Capital (07/1932 a 05/1935),
o Barão da Ibiapaba. Além de importante comerciante de imóv eis na Capital, ess e senhor se destac ou por suas empreitadas do tráfico interprov incial de cativ os sendo dono de uma das maiores fir mas de negócio de escravos no Ceará.
Ao falecer, deixou uma enor me fortun a em dinheiro e bens para a sua espos a Maria Eugenia dos Santos que, c omo Baronesa de Ibiapaba, participou do co mércio de v enda e c ompra de terras em Fortaleza, destac ando-se como “senhorio direto” de v ários terrenos, cobrando foros perpétuos e recebendo laudêmios .261 Assim, tendo v iv ido e participado diretamente da época em que o trabalho era majoritar iamente cativ o, não seria difícil inferir que a concepção dessa mulher e de muitos outros indiv íduos em relação ao trabalho assumis se formas de continuidade no século XX.
A própria condição de trabalhador livre para o século XIX trazia em s eu bojo alguns problemas. Muitas v ezes, v iv endo lado a lado com esc ravos, a situação dos “criados de servir” não era muito distinta da v ida dos cativ os. Segundo Rodolfo Theóphilo, em seu liv ro de reminisc ências, O Caixeiro, a v ida dos empregados naquela centúria poderia ser mais penos a que a dos esc rav os, visto que a morte de um trabalhador liv re nada s ignificava em ter mos de prejuízo econômico ao patrão (a), enquanto a perda de