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Como um buraco permanentemente cavado, desmanchado e refeito, a netnografia surge na década de 80 como uma vertente metodológica que buscou novas formas de pesquisar e compreender as redes digitais. Esses estudos concluíram que a netnografia poderia servir para o “monitoramento de comunidades on-line” (ROCHA; MONTARDO, 2005, p. 13), para “observar com detalhe as formas em que se experimenta o uso de uma tecnologia” (HINE,

2004, p. 12), para “abarcar outros tipos de dados que podem permitir uma maior riqueza de detalhes em estudos que considerem os ambientes online” (NOVELI, 2010, p. 108).

Os blogs têm sido “uma ferramenta rica para os estudos empíricos ao serem analisados a partir de perspectivas netnográficas nos últimos anos” (AMARAL; NATAL; VIANA, 2008, p. 35). Foi Rebecca Blood que, em 2002, escreveu uma das primeiras obras a respeito dos blogs, compreendendo-os como “espaços de sociabilidade” e como “constituintes de redes sociais”, “abrindo-se para múltiplos usos e apropriações” (AMARAL; MONTARDO; RECUERO, 2008, p. 4).

Cavando o buraco da netnografia, foi possível notar que ela assumia um contorno próprio no modo de investigar, com algumas características específicas. A primeira delas é que a netnografia foi construída como uma metodologia própria para “estudos na internet” (AMARAL; NATAL; VIANA, 2008, p. 34), modificando de imediato a relação entre pesquisador/a e pesquisados/as, principalmente no que se refere à “noção de

tempo-espaço” (AMARAL; NATAL; VIANA, 2008, p. 34). Um dos aspectos

modificados refere-se à facilidade no encontro entre o/a pesquisador/a e as informações: ele/ela “levanta, mas se encontra em sua casa, liga o computador, digita o endereço da comunidade virtual no browser e já está no campo” (NOVELI, 2010, p. 108). Outra característica da netnografia é que ela trata os ambientes de pesquisa na internet não mais como “não-lugares” ou opondo-os às investigações que ocorrem em espaços “reais”, ou seja, não virtuais (POLIANOV, 2013, p. 61). Nesse sentido, Rocha e Montardo (2005, p. 15) defendem que há uma especificidade nas “experiências sociais on-line”, o que exige também uma forma “significativamente diferente” de estudá-las.

Pesquisar com a netnografia implica também encontrar algumas dificuldades e facilidades durante a escavação. Uma das dificuldades apresentadas foi a do excesso de informações divulgadas nos blogs investigados, o que, muitas vezes, dificultava uma categorização única das informações. Assim, era impossível pesquisar fazendo uma única visita aos blogs. Muitas vezes era necessário visitar todos os blogs em um mesmo dia para não perder uma possível forma de “arquivar informações”, de reuni-las com base em algum critério. Ao visitar esses blogs com uma intenção específica, como ver o que eles divulgam sobre gênero, por exemplo, permitia-me criar categorizações temáticas que me auxiliassem em uma futura escrita e análise das informações encontradas que eu mesma estava produzindo ao selecionar e juntar de determinados modos. Assim, a cada novo tema a ser desenvolvido na tese, fazia-se também necessário revisitar cada um dos blogs com aquela finalidade específica. Por isso, não houve, na investigação aqui apresentada,

um período definido para a “produção de informações” e, sim, um constante movimento de “visitas” e “re-visitas” aos blogs, o que se aproxima da própria realidade virtual, em que há constantes atualizações dos materiais a serem investigados e sempre novas conexões sendo estabelecidas.

Com relação às facilidades, é possível dizer que o fato de a pesquisa ter sido realizada sem que houvesse a necessidade de a pesquisadora se deslocar em direção a um campo específico a ser observado foi um grande facilitador da investigação, que ora se realizava em um computador, ora em outro, ora em uma cidade, ora em outra. Tal mobilidade se fazia possível com todos os recursos que a própria era digital propicia: a facilidade de enviar/transportar dados seja pela internet ou por pen-drives e HD’s Externos. Isso implicou também uma delimitação não muito clara quanto à hora de trabalhar/pesquisar e a hora de descansar. Muitas vezes, a pesquisa transcorria no período de um dia inteiro (totalizando 8 ou 9 horas) de investigação ou, mais precisamente, do levantamento de informações nesses blogs. Isso somente se fez possível porque a dispersão da atenção da pesquisadora era muito pequena. Ou seja, havia uma delimitação da própria pesquisadora de que, quando fosse realizar as investigações nos blogs, nenhuma outra atividade fosse realizada na internet, mesmo se fosse concomitantemente. Em função dessa decisão, muitos/as colegas que também são pesquisadores/as diziam: “Não sei como você consegue”; “Eu jamais poderia fazer uma pesquisa dessas”; “Só você mesmo para se concentrar tanto tempo assim”.

A segunda característica da netnografia aponta para a fuga de um modelo de pesquisa que se baseia apenas “na análise de dados textuais extraídos do ‘campo’”, passando a englobar “outros tipos de dados que podem permitir uma maior riqueza de detalhes em estudos que considerem os ambientes online” (NOVELI, 2010, p. 108). Nos blogs aqui investigados, todos os tipos de informação disponíveis foram considerados, desde os textos escritos nos blogs e os textos de teóricos/as da alfabetização, até os comentários postados pelos/as visitantes de cada blog, as imagens, as músicas e os vídeos disponibilizados, os links de acesso a outros sites ou a downloads (de atividades, de livros, etc.).

Outra característica proporcionada por esse tipo de pesquisa é o “anonimato do pesquisador”, o que lhe permite “espreitar o ambiente de comunicações online” (NOVELI, 2010, p. 122). O fato de eu ter optado por não estabelecer um contato direto com as professoras-blogueiras investigadas tem a ver com a concepção de discurso adotada nesta tese, ou seja, com a ideia de que as falas das professoras-blogueiras não serão analisadas em si mesmas e, sim, em relação a toda a produção discursiva divulgada nos blogs sobre

alfabetização. Assim, esse possível anonimato (já que não comentei nenhum dos posts que vi) permitiu que fosse feita uma observação mais “livre”, mais “ampla”, já que ela podia ser feita a qualquer hora e em mais de um blog ao mesmo tempo.

A netnografia também se caracteriza pela inserção em um “tempo na internet”, caracterizado por uma “onipresença, cuja capacidade de alcance cultural se inscreveria em todo o tempo” (DIAS, 2006, p. 97). Nessa perspectiva, a internet se inscreveria em “um novo paradigma temporal” que inclui a “intensificação da comunicação” e aumenta a “circulação de informação” (DIAS, 2006, p. 97-98). A internet proporciona às relações uma “instantaneidade” que exige que os/as seus/suas usuários/as utilizem “diversos quadros de acesso: novas linguagens (como a denominada ‘linguagem de chat’), novas regras de comportamento (a netiqueta25), novas expressões de afetividade (como os emotions)” (DIAS, 2006, p. 98). Além disso, o tempo das tecnologias digitais não se relaciona à ideia de “continuidade, em sua abordagem sequencial”, já que a narrativa digitalizada não conhece “uma ordem sistematizadamente cronológica” – “o link desconhece o antes e o depois” (DIAS, 2006, p. 98). Há, pois, “um continuum” em que “o tempo se formata na digitalidade como um eterno presente”, já que “enquanto o link estiver lá, o presente estará manifestado” (DIAS, 2006, p. 98).

No buraco da netnografia, outra especificidade aparece – na tela se pode “observar com detalhe as formas em que se experimenta o uso de uma tecnologia”26 (HINE, 2004, p. 13). Nesse tipo de investigação, o que está em jogo são “formas atuais de organização social” e as diferentes formas de apresentação dos saberes, considerando que estamos em uma “sociedade da informação” (HINE, 2004, p. 14). A internet atua aumentando as “possibilidades de reestruturação” das relações entre as pessoas e destas com o conhecimento (HINE, 2004, p. 15). A netnografia contribui, assim, para uma produção mais ampliada dos “significados que vão adquirindo a tecnologia nas culturas” (HINE, 2004, p. 17). Concebida como um artefato cultural, a internet é “um produto da cultura”, que foi “gerada por pessoas concretas, com objetivos e prioridades contextualmente situados e definidos” (HINE, 2004, p. 19).

25 A “Netiquette” é um conjunto de regras informais que orientam o comportamento apropriado na utilização da Internet. No que se refere aos blogs, a “netiquette” consiste no uso adequado dessa tecnologia, no engajamento online ao fornecer conteúdo e links. Tem a ver também com as convenções criadas para aumentar a popularidade dos blogs (hits, cliques e visualizações) com base no valor social que apresentam. Disponível em: <https://officialnetiquette.blogspot.com.br/>. Acesso em: 19 jul. 2016.

A netnografia lida permanentemente com a “constituição de fronteiras e de conexões” (HINE, 2004, p. 60), o que permite a não fixação dos lugares ocupados pelos sujeitos e uma mudança constante dos saberes divulgados em um ambiente virtual. Há também, na internet, “um envolvimento intenso” com as práticas de linguagem, por meio das quais vão sendo produzidas as posições-de-sujeito (HINE, 2004, p. 60). Na netnografia, tanto a observação quanto a “produção de informações” assume um “caráter parcial” (HINE, 2004, p. 60). Nesse sentido, o registro das informações produzidas nesta pesquisa foi feito por meio da criação de arquivos e pastas no computador, conforme as temáticas de interesse para a análise efetuada diante da escrita de cada capítulo da tese. Assim, os posts eram selecionados segundo um tema ou categoria por mim criados (Ex.: Disciplinas Escolares, Alfabetização, Saberes, etc.). Não havia uma sequência cronológica nesses arquivos, ainda que, muitas vezes, fossem nomeados com a data de sua criação, mas, ao contrário, eles eram constantemente atualizados, deletados, refeitos, recriados, conforme a necessidade da própria escrita e análise das informações.

Nesse buraco, foram aparecendo outros elementos. A presença do/da pesquisador/a passa a ser desenvolvida em um “campo de relações” (HINE, 2004, p. 80) construído e mantido por pessoas que acessam a internet e que passam a integrar um contexto cultural com “novas formas de sociabilidade” (MURILLO, 2006, p. 11). Na etnografia virtual, não há fixação de “lugares e culturas delimitadas no espaço e no tempo” (HINE, 2004, p. 19). Além disso, há uma “ampla disponibilidade de discursos em vários formatos amplamente distribuídos na Internet”27, o que produz uma falsa sensação de que a informação já está pronta e que não haveria nada para se produzir (NEVE, 2006, p. 80). Ao contrário, diante disso, intensifica-se o trabalho de recorte/seleção e organização das informações por parte do/a pesquisador/a.

A fluidez e o constante fluxo de informações e de pessoas na internet são comparados por alguns pesquisadores ao movimento e à dinâmica das grandes cidades, o que fez com que pensassem em uma outra lógica de observação que fosse “compatível com o movimento incessante, a circulação incontrolável e o anonimato” (PÉTONNET, 2008, p. 99). A autora denomina esse processo de “observação flutuante”, que consiste em “permanecer vago e disponível em toda a circunstância, em não mobilizar a atenção sobre um objeto preciso, mas em deixá-la ‘flutuar’ de modo que as informações o penetrem sem filtro, sem a priori, até o momento em que pontos de referência, de convergências, apareçam”, até chegar a “descobrir as

regras subjacentes” (PÉTONNET, 2008, p. 102). Outro aspecto da observação flutuante é o fato de que “ela não tem endereço, ela não se destina, ela não conhece, nem partilha nada antecipadamente” (PÉTONNET, 2008, p. 195). Por isso, ela é considerada “um tipo de observação ‘desendereçada’ – mas não desinteressada” (PÉTONNET, 2008, p. 195).

Como já dito, na investigação aqui proposta, foram cavados dois buracos – o da netnografia e o da análise do discurso de inspiração foucaultiana –, para em seguida fazê-los encontrar. Dentre os aspectos comuns encontrados nesses buracos, é possível citar a ênfase na dimensão cultural das informações produzidas, a atuação do/a pesquisador/a como produtor de significados, capaz de estabelecer relações, seleções e organizações dessas informações e a ampliação dos possíveis locais de investigação. A partir daí, a pesquisa foi assumindo contornos particulares, mas sempre inspirada na escavação dessas duas dimensões – a da netnografia como possibilidade investigativa, de ter contato com o objeto investigado e de produzir informações a partir desse contato; e a da análise do discurso de inspiração foucaultiana como possibilidade de compreensão e análise do material divulgado pelos blogs sobre alfabetização investigados.

1.2. Cavando mais um buraco, encontrando um túnel: contribuições da análise do