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4. Metoden

4.1 Kvalitative intervjuer

Uma descrição agradável de ler sobre um encontro entre o jovem jornalista Antonio Hohlfeldt, então com 24 anos, e um dos principais autores da literatu- ra nacional, já conhecido internacionalmente, Érico Veríssimo, que estava com 67 anos e tinha no currículo obras como “O tempo e o vento” e “Incidente em Antares”. Possivelmente inspirado pela literatura do entrevistado, Antonio Ho- hlfeldt opta por uma narrativa leve, clara e objetiva, como deve ser o bom texto jornalístico, e, mesclando descrições sobre o encontro com declarações de Érico, vai revelando o que se passava na mente do escritor cerca de dois anos antes de sua morte. O que era para ser uma entrevista para um jornal diário, que prioriza o factual, torna-se documento histórico, não só pela importância do entrevis- tado, mas pelo talento do jovem repórter que sabe transformar a entrevista em uma narrativa envolvente. Não é à toa que o então iniciante Antonio Hohlfeldt se tornaria um dos ícones do jornalismo gaúcho e um dos grandes pesquisadores da Comunicação Social do Brasil.

Foi dessa maneira que Hohlfeldt escreveu “Multiplico a minha vida na cria- ção dos outros”, publicado pela primeira vez em 1973, no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, e que se transformou no texto “Uma outra mágica”, que integra a obra “Liberdade de escrever”, uma coletânea de entrevistas feitas com Érico Veríssimo, organizadas por Maria da Glória Bordini. A narrativa publica-

da no jornal da capital gaúcha foge do convencional pergunta-resposta padroni- zada pelo jornalismo tradicional, como fica claro já na abertura do texto:

Vou encontrar Érico em sua casa, alguns meses depois de ter ele deixado o prédio da rua Felipe de Oliveira, em busca de um reencontro com Paris e, após, com sua filha Clarissa, nos Estados Unidos. Érico viajara em maio e só agora, quase no fim do ano, é que retornava às alturas de Petrópolis. Para ele, a viagem foi, antes de tudo, de recreação, de distra- ção, de férias (HOHLFELDT (e), 1997, p.115)

Após essa abertura, o texto segue com uma declaração de Érico Veríssimo, relatando que, depois de um período de intenso trabalho com a conclusão de Incidente em Antares, ele optou pela realização das referidas viagens.

Na sequência da entrevista, Antonio Hohlfeldt deixa claro não só a sua flu- ência na literatura de Érico Veríssimo, mas também a influência que os roman- ces do escritor gaúcho apresentam sobre o seu próprio texto: “Conversando co- migo, parece-me mais como se ele estivesse a me contar outra de suas histórias, contador de centenas delas como ele é hoje conhecido” (HOHLFELDT (e), 1997, p.115-116). Assim como cada autor tem as suas influências, Érico passa a contar alguns dos principais livros que estavam tomando conta do seu tempo naquele ano de 1973. A partir de então, a literatura passa a tomar conta da con- versa que envolve autores como Deleuze e Guattari, James Joyce e até mesmo um livro de Dalton Trevisan que Érico encontrou traduzido para o inglês nos Estados Unidos. Em meio ao relato da conversa, em que o veterano Érico reve- la suas experiências ao novato Antonio Hohlfeldt, aparecem outras descrições simples, mas que dão um tom de leveza à narrativa, como pode ser observado no trecho que se segue: “Érico continua lembrando coisas. Um cafezinho feito por Dona Mafalda ajuda as lembranças. Érico bebe uma limonada, e continua narrando” (HOHLFELDT (e), 1997, p.118).

Depois de ouvir a referência à “Hora do sétimo anjo”, obra que ficou inacabada devido à morte de Érico em 1975, Antonio Hohlfeldt consegue alcançar aquele momento que é a apoteose jornalística de uma entrevista: uma revelação. Não é uma revelação de um acontecimento, mas sim, do sentimento do escritor, que naquele momento, chegando perto da casa dos 70 anos, dizia sentir uma “autonáu- sea” da sua própria obra. Fato esse, que tornava difícil para o próprio romancista ter ideias para escrever coisas novas. “Eu gostaria de ter, agora, o mesmo entusiasmo de muitos anos atrás” (HOHLFELDT (e), 1997, p.119), revelou o escritor.

Nesse momento da conversa, surge a expressão que daria título ao texto de Hohlfeldt na sua republicação, anos mais tarde: “Surpreender o homem no ato

de viver é uma das coisas mais fantásticas que Deus nos permitiu. O livro é já uma outra mágica (eu gosto dessa palavra, mágica [...])” (HOHLFELDT (e), 1997, p.119). Ou seja, nesse momento do diálogo, Érico revela que estava en- contrando dificuldades para criar uma obra capaz de surpreender. No entanto, apesar do aparente desânimo, o escritor destaca a sua vontade de viver, declaran- do ao jornalista: “só morrerei sob protesto, sabe, vou fazer todo o possível para viver ainda muito tempo, o tempo possível” (HOHLFELDT (e), 1997, p.120). Porém, o escritor não teve muito tempo depois da entrevista, pois veio a falecer cerca de dois anos após a publicação da reportagem. Foi justamente com a im- pressão de um escritor amargurado, que o jovem jornalista Antonio Hohlfeldt encerra a matéria com uma inspirada e envolvente reflexão:

Quando descia o morro que conhece cada equilíbrio do corpo de Érico Veríssimo sobre seus pés, pensei em como o escritor andaria amargurado. Pensei nesta extrema e severa autocrítica de si mesmo e sua obra. Depois me lembrei de seus livros. De entrevistas. [...] E dou-me conta de que Érico só existe porque é assim mesmo: sempre em briga consigo mes- mo, indomado, insatisfeito porque exigente, em constante dúvida por- que sincero. Aparentemente temeroso porque extremamente corajoso. E fiquei com a certeza de que ele ainda vai viver muito. E escrever muito mais ainda. Para todos nós. Amém (HOHLFELDT (e), 1997, p.121).

Diante disso, só posso fazer minhas as palavras do professor Hohlfeldt: amém.