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4. Metoden

4.4 Intervjuene

Em 1984, Antonio Hohlfeldt lança o livro “Érico Veríssimo”, que integra a coleção “Esses gaúchos”, da editora Tchê. Nele, o já acadêmico Hohlfeldt demonstra conhecimento pleno sobre a obra de Érico, não só apresentando uma síntese biográfica, mas analisando toda a produção, o estilo, a capacidade criativa, enfim, a vida do escritor como um todo. Por conta disso, essa obra se tornou uma referência para todos aqueles que pesquisam a vida e a literatura de Érico Veríssimo.

A capacidade analítica de Hohlfeldt sobre o objeto de estudo fica clara já na abertura do livro, onde ele comenta um dos contos incluídos na primei- ra publicação de Érico, “Fantoches”. Após descrever sinteticamente o conto, ele conclui: “Pode-se dizer que estão neste texto as principais raízes de toda a obra que Érico Veríssimo viria a escrever durante seus 43 anos de vida literária”

( HOHLFELDT (b), 1884, p.13). E que raízes são essas? Pode-se deduzir que são as diferentes cidades gaúchas criadas pelo escritor, que ora se chamavam Jacarecanga, ora Antares, ora Santa Fé, e que contam, como pano de fundo, com famílias decadentes e personagens totalmente realistas. Aliás, em suas obras aparecem como cenário ou as cidades fictícias que apresentam as mesmas carac- terísticas de Cruz Alta, a cidade natal do escritor, ou Porto Alegre, a cidade em que ele passa a morar definitivamente depois dos 20 anos de idade.

Não só a questão das características das cidades, mas também a presen- ça de Malasartes (personagem do folclore gaúcho) na obra de Érico Veríssimo é percebida e apontada por Hohlfeldt. “Ele está presente, quer em menções esporádicas – quase sempre de personagens que recordam sua infância – por exemplo, em Música ao longe, Um lugar ao sol, e ao longo de todos os volumes de O tempo e o vento” (HOHLFELDT (b), 1984, p.14. Grifo do autor). Esses são apenas alguns exemplos da leitura analítica apresentada pelo pesquisador.

No segundo capítulo de sua obra, o autor traz uma leitura sobre a capa- cidade e a presença da autocrítica em Érico Veríssimo. Não é à toa que o título do texto é “Diante do espelho”. Aliás, como ressalta Hohlfeldt (b) (1984, p.23): “Não se pode esquecer, contudo, que Érico Veríssimo jamais deixou de falar de si mesmo, quer explicitamente, quer através de personagens em cuja boca coloca – se não todas as suas ideias – ao menos parte delas”, além, claro, dos personagens que, como acrescenta Hohlfeldt, aparecem explicitamente como o alter ego do escritor.

Já no terceiro capítulo do livro, Hohlfeldt aborda um ponto importan- te na biografia de Érico Veríssimo, que é a relação do escritor com o contexto histórico-político de seu tempo. Afinal, não se pode esquecer que a obra de Éri- co Veríssimo foi constituída entre as décadas de 1930 e 1970, estando inserida, portanto, no contexto de dois fortes regimes ditatoriais: a Era Vargas (1930- 1945) e o Regime Militar pós-golpe de 1964. Para fazer tal relato, Hohlfeldt utiliza as suas próprias memórias a fim de descrever a postura de Érico diante desses regimes:

Foi do Canadá, ainda, que acompanhei as manifestações de Érico Verís- simo contra a censura prévia a livros, que então se pretendia praticar, e enfim, a carta que enviou a Paulo Brossand, comunicando-lhe oficial e publicamente seu apoio para a campanha eleitoral de 1974. O resto, nós sabemos: a vitória da oposição levou a ditadura a instituir a Lei Falcão, proibindo campanha eleitoral em rádio e televisão. Estes poucos episó- dios nos dão a dimensão da participação política de Érico Veríssimo, como de resto o atesta toda a sua obra (HOHLFELDT (b), 1984, p.35).

Ou ainda, como ressalta Hohfeldt mais adiante em sua análise, para en- tender a importância de Érico nos acontecimentos históricos do país, basta observamos que o romancista gaúcho “é o único escritor brasileiro que, ao longo de quatro décadas, testemunha, cotidianamente, todos os acontecimen- tos sociais, políticos e econômicos que ocorrem no mundo, no continente, no país e na província gaúcha” (HOHLFEDLT (b), 1984, p.35). A partir de então, o autor faz uma análise nesse sentido das principais obras de Érico Veríssimo, relacionando personagens e enredos aos acontecimentos históricos de seu tempo.

No capítulo seguinte, Hohlfeldt aborda alguns dos principais personagens das obras de Érico, com atenção especial em suas relações com Deus – ressaltan- do que cada personagem adquire vida própria e toma decisões independentes no mundo criativo do escritor. “Definindo-se pelo agnosticismo, Érico Veríssi- mo abre caminho para que as personagens sejam entregues aos seus destinos, que lhes batem à porta sempre inesperadamente” (HOHLFELDT (b), 1984, p.49). E, a partir dessa abordagem, Hohlfeldt volta para o pensamento de Érico e a sua relação com a morte. Essas reflexões abrem caminho para o quinto ca- pítulo, que é onde o autor apresenta cronologicamente, mas sem abrir mão de uma visão crítica e analítica, a obra de Érico Veríssimo.

Por fim, no sexto e último capítulo, Hohlfedlt apresenta uma síntese da biografia de Érico Veríssimo, desde a sua infância em Cruz Alta e as suas com- plicadas relações familiares, passando por toda a trajetória jornalística (que é abordada em outro texto específico) e literária, até a sua morte. Aliás, o autor conta como ficou sabendo que a vida de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos acabou:

Em novembro de 1975, eu coordenava a edição de um número especial do Caderno de Sábado comemorativo aos setenta anos do escritor. De tarde, em minha casa, molhando as plantas, a notícia no rádio: Érico falecera, vítima de um novo ataque cardíaco. Seu corpo seria velado no Salão Nobre do Palácio Farroupilha (HOHLFELDT (b), 1984, p.89-90. Grifo do autor).

O sentimento de Hohlfeldt diante da morte de uma de suas maiores influ- ências fica explícito no seguinte trecho, na sequência do mesmo texto: “No dia seguinte, chovia, e o enterro foi mais triste que os demais enterros” (HOHL- FELDT (b), 1984, p.90). E, assim como ressalta Hohlfeldt, a partir de então a obra de Érico Veríssimo passou a falar por ela mesma.