3.5 Jordskifteloven av 2013
3.5.4 Jordskifteloven § 3-2, Utjenlige eiendomsforhold
“τ enredo é o principal unificador da narrativa, seu fio vermelhoν ele permite organizar, em um cenário coerente, as etapas da história contada”161.
Para entendermos o fio condutor da micronarrativa de Lc 16. 19-31, recortaremos em episódios de acordo com a estrutura quinária. Esta, por sua vez, tem por objetivo ressaltar entre a situação inicial e a situação final da narrativa, o nó, a ação transformadora e o desenlace que compõe o enredo. Apresentaremos os conceitos dessa estrutura quinária no processo de aplicação ao texto do Rico e Lázaro.
De acordo com Marguerat e Bourquin162, o esquema quinário advém das formulações iniciais de Aristóteles sobre o enredo clássico em que ele utilizou para estruturar uma epopeia e a tragédia. Em seu esquema piramidal, Aristóteles entendia que fazia parte do enredo o nó e o desenlace. Para ele o nó era “a parte da tragédia que vai desde o início até ao ponto a partir do qual se produz a mudança para uma sorte ditosa ou desditosa”163. Aristóteles entendia o
desenlace “a parte que vai desde o princípio desta mudança até ao final da peça”164.
Na estrutura quinária, cinco etapas compõe o enredo.
[...] toda narrativa se define pela presença de duas balizas narrativas (situação inicial e situação final), onde as quais se estabelece uma relação de transformação. A transformação faz o sujeito passar de um estado, mas essa passagem deve ser desencadeada (nó) e efetuada (desenlace)165.
159 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 55. 160 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 28. 161 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 56. 162 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, pp. 56-57.
163 ARISTÓTELES. A Arte Poética. São Paulo: Editora Martin Claret, 2004, p. 66. 164 ARISTÓTELES, 2004, p. 66.
Esse “modelo tenta avaliar o lugar dominante que adquire, no interior da história, a ação transformadora que se narra. A ideia subjacente é que cada história revela uma transformação, ou aquisição, ou uma perda”166. O esquema se apresenta da seguinte forma:
Situação inicial: 19 E certo homem era rico, e adornava-se com púrpura e com linho mais fino festejando todos os dias suntuosamente. 20 E certo pobre por nome Lázaro, foi jogado junto ao portão do rico, e era afligido por úlcera 21 e ansiava alimentar-se a partir das coisas que caiam da mesa do rico; mas também os cães vinham e lambiam suas úlceras. 22 E sucedeu morrer o pobre e ele ser conduzido pela ação dos anjos até o peito de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado.
Nó: 23 E no hades/mansão dos mortos o rico levantou os olhos, estando em tortura; vê Abraão de longe e Lázaro em seus peitos.
Ação transformadora: 24 E suplicando disse: Pai Abraão, tenha piedade de mim e envie Lázaro para que mergulhe a ponta de seu dedo com água e refresque a minha língua, pois estou em sofrimento nesta chama.
Desenlace: 25 E disse Abraão: Filho, lembrai que recebeste os teus benefícios na tua vida, e Lázaro igualmente os sofrimentos; agora pois, ele é confortado, e você está em agonia. 26 Além disso tudo, entre nós e vós foi posto um grande abismo, para que os que quiserem passar daqui para o vosso lado não consigam, nem os do vosso lado passem para cá.
Situação Final: 27 E disse: Suplico então a ti, ó Pai, que o envies a casa do meu pai, 28 pois tenho cinco irmãos, para que testemunhe a eles, para que eles também não venham para esse lugar de tortura. 29 E falou Abraão: Têm eles a Moisés e os profetas; obedeça-os. 30 E ele disse: Não, pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for para lá, se arrependerão. 31 E disse a ele: Se Moisés e os profetas não obedecem, nem mesmo se uma pessoa ressuscitar dentre os mortos, serão convencidos.
A situação inicial tem por objetivo expor as circunstâncias em que a narrativa se apresenta. No caso da narrativa de Lc 16. 19-31, o leitor se depara com a exposição dos personagens em suas condições diferentes socialmente descritas. Um rico que esbanja diariamente sua riqueza e um pobre que todo dia espera consolo no portão do rico. É também nessa exposição inicial que, subitamente, o narrador introduz a morte das personagens. O rico é servido de um sepultamento e o pobre e dirigido pelos anjos ao “seio de Abraão”. Essa
situação inicial, apresentada pelo narrador, terá que ser resolvida na continuação da narrativa. A narrativa demonstrará a tentativa de eliminação desse quadro inicial.
O nó da narrativa é o início da sua tensão O narrador introduz o desequilíbrio à narrativa e o suspense ao leitor. Normalmente, o nó revela um conflito ou um obstáculo. Em nosso texto, o nó é demarcado pela situação do reconhecimento do rico do local e do sofrimento nesse novo ambiente, o Hades. É a exposição do acontecimento da morte no espaço narrativo inicial que se introduz a tensão narrativa da inversão. A morte desencadeia o nó da narrativa, ou seja, a nova condição do rico e a do pobre Lázaro.
Na morte das personagens também fica visível o fator condição social. Enquanto o rico é sepultado, sobre o pobre diz-se apenas que morreu. Porém, o relato da morte do pobre Lázaro é precedido da atuação dos anjos, que o leva ao seio de Abraão. Enquanto que o rico, ao ser sepultado, parece “acordar” em seu novo lar. É com a imagem desse ambiente que o leitor se dá conta que houve uma inversão e que, a partir desse momento, uma ação transformadora é necessária.
Na ação transformadora espera-se um resultado da situação exposta inicialmente. Busca principalmente uma alteração desse estado. No caso da narrativa de Lc 16. 19-31, entendemos que essa ação transformadora acontece quando no primeiro diálogo, o rico recorre a Abraão no intuito de ser aliviado de sua nova condição existencial. Até esse ponto, o rico parece entender sua situação de sofrimento e não sua condição eterna nessa “chama”. A súplica do rico é o momento chave da ação transformadora por representar, após a morte, a cena do pobre em vida. A inversão – o nó – é representada como uma nova situação que revela na exposição da narrativa o rico na mesma situação do pobre quando estava vivo, esperando por ajuda.
τ desenlace da narrativa expressa o fim do nó, pois “descreve os efeitos da ação transformadora sobre as pessoas em questão ou a maneira como se restabelece a situação em seu estado anterior”167. O versículo 25 e 26 representam o momento em que o rico entende
que o seu atual estado de sofrimento será eterno. A inversão, agora, é narrada na fala de Abraão, que esclarece o motivo da nova condição social e existencial dos personagens. Isso é posto ao leitor por meio da imagem de um “abismo” existente entre os dois personagens, dito por Abraão no diálogo.
A situação final ilustra, após a liquidação da tensão, “o reconhecimento do novo estado ou [...] esse momento corresponde à alteração da situação inicial pela eliminação de uma falta”168. O diálogo avança nos versículos. 27-31 entre o rico e Abraão, no qual o foco se
torna o pedido do rico por seus irmãos e não mais para si mesmo. Novamente Abraão nega os dois pedidos, agora em favor dos cinco irmãos do rico. Abraão conclui ressaltando a impossibilidade de mudança da situação dos irmãos que estão vivos, pois não escutam a lei e os profetas.
A partir dessa distribuição do texto no modelo quinário, o enredo deve ser identificado pelo leitor. τ nó e o desenlace da narrativa devem delimitar o enredo, porém, “identificar o enredo consiste em discernir qual é ação transformadora”169. A ação transformadora tem
como função, ao destacar o enredo, comunicar ao leitor um objeto ou um objeto valor. Quando o rico se submete a pedir em seu favor, situação que a narrativa não diz sobre ele antes da morte, o leitor é chamado à conscientização de que uma tensão narrativa é dada na resposta de Abraão no desenlace v. 25 “E disse Abraão: Filho, lembrai que recebeste os teus benefícios na tua vida, e Lázaro igualmente os sofrimentos; agora pois, ele é confortado, e você está em agonia”. Concluímos que o enredo dessa narrativa é a inversão das situações expostas da vida e representadas no pós-morte.
A tensão narrativa desse versículo propõe ao leitor a felicidade eterna do pobre Lázaro e a infelicidade eterna do rico. O parâmetro apontado pelo narrador, mediante a personagem Abraão, é a condição em vida do rico e do pobre. De acordo com εarguerat, “para identificar essas duas consequências possíveis (feliz ou infeliz), alguns falam de uma resolução do tipo “cômico” oposta a uma resolução do tipo “trágico”170, ou ainda, ambas as resoluções podem
alternar no momento da tensão narrativa. Podemos supor comicidade no final infeliz do rico diante do seu pedido de alívio, ao passo que o personagem Lázaro nada precisa pedir em sua nova condição.
Outro elemento da estrutura quinária que nos ajuda a entendermos o enredo da narrativa do rico e do pobre δázaro é a tensão dramática. Ela “não tem um lugar assinalado no enredo e corresponde a uma intensidade emocional ou pragmática [...] é o instante em que o personagem é situado de maneira decisiva diante da intervenção de Deus”171. Entendemos
168 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 59. 169 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 61. 170 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 63. 171 MARGUERAT & BOURQUIN, 2009, p. 64.
esse momento no texto quando, ao leitor, é dito da inversão que trouxe alívio ao anseio do pobre.