• No results found

Kapittel 2 Kunnskapsgrunnlag

2.3 Kva handlar klasseleiing om?

Conforme antes observado, os estudiosos reunidos em Messina, em 1966,

lograram identificar, em meio às variadas escolas gnósticas, alguns traços comuns a

todas elas, agregados no chamado “mito fundamental” da gnose, a saber, o fato de que

há, no ser humano, uma centelha divina, oriunda do mundo superior e que, por conta de

uma queda, encontra-se, a esta altura, submetida ao destino, ao nascimento e à morte,

devendo, pois, ser despertada pela sua contraparte espiritual para ser, finalmente,

restituída à sua condição original.

Em consonância com este mito central é possível trazer à baila os pontos

característicos da gnose, elencados por Kurt Rudolf (1987, p. 57-59), a saber:

• Uma visão dualista com um fundo monista, já que, concorrem, na gnose, a um só tempo, a forte separação luz/trevas, Deus/mundo, Bem/Mal, e a idéia

monista da centelha divina presente no homem e que deve ser reconduzida à sua

origem;

• A idéia da cosmogonia, isto é, da criação do mundo como fator explicativo da condição atual do homem, já que, se o planeta que habitamos é produto da

operosidade de um demiurgo mau (antidivino, por excelência), nossa condição

• A doutrina gnóstica da redenção, segundo a qual a salvação do ser humano somente é possível quando, por um ato de Deus, ou através da intercessão de

seres redentores, é aberto um caminho através do qual a centelha divina pode

escapar da prisão do mundo, empreendendo uma viagem por esferas superiores

da realidade;

• A doutrina gnóstica das coisas finais (ou escatológica), estreitamente ligada à sua cosmogonia e à sua soteriologia, consistindo, todavia, não somente no

resgate da chispa divina no homem, mas, albergando, também, um sentido de

libertação cósmica;

• A existência de comunidades gnósticas, separadas do seu entorno social, de modo a demonstrar que o verdadeiro conhecimento estaria reservado a uma

elite.

O drama mítico gnóstico, de acordo com Bentley Layton (2002, p. 13-18),

malgrado as variações de detalhes e estrutura apresentadas pelos diversos sistemas,

ostenta um enredo principal, dominado por uma cosmogonia (criação do Cosmos) e

uma antropogonia (criação do homem), e um enredo secundário, que toca à perda e à

recuperação da centelha divina encarcerada na matéria.

No enredo maior, narra-se, em um primeiro momento, a expansão de um

solitário primeiro princípio – Deus – em um universo não físico, ou espiritual. Esta

fonte originária é onipotente, perfeita e inefável, estando, pois, em consonância com o

discurso filosófico presente no platonismo do século II d.C. Segundo o mito gnóstico,

este primeiro Ser, por razões insondáveis, através de um transbordamento de si mesmo,

não grego Barbeló29, bem como leva a efeito a criação de vários outros seres,

denominados éons30, através de sucessivas emissões, dentre os quais “os quatro

luminares”, Armozel, Oriel, Daveitai e Elelet, que são, a um só tempo, domínios eternos

e atores no cenário cósmico. Segue-se, a este primeiro impulso, a criação do universo

material, levada a efeito por um artífice, um demiurgo, cujo nome é Ialdabaoth ou

Yaldabaoth, o artesão que, com a matéria, constrói o Universo, copiando modelos presentes na instância espiritual. Este universo material é constituído pelas estrelas,

pelos planetas, pela Terra e pelo inferno. Posteriormente, dá-se a criação, por Sophia,

auxiliada por éons superiores do mundo espiritual, do primeiro casal – Adão e Eva – e

de seus filhos, dando início à raça humana. De Seth, um dos filhos de Adão, se origina a

raça dos gnósticos. Ato contínuo tem lugar a história subseqüente da raça humana, no

bojo da qual se dá o envio de um salvador para despertar a humanidade gnóstica, através

da gnose - o conhecimento de si mesmo e de Deus, apto a libertar as almas da

escravidão do corpo material e do jugo dos malévolos governantes do mundo.

O enredo menor, por sua vez, também se processa em quatro fases: na primeira

delas, retrata-se a expansão do poder divino com vistas ao preenchimento do universo

espiritual; segue-lhe a perda de algo deste poder para um ser não espiritual –

Ialdabaoth; em continuidade, tal poder é transferido, por tal ser, a uma parcela da humanidade, os gnósticos; por fim, dá-se a recuperação gradual, pelo divino, do poder

antes perdido, na medida em que as almas gnósticas são concitadas, ao caminho de

volta, por um salvador, e retornam a Deus.

29

Os termos, Barbeló ou Barberó, lembram as palavras egípcias utilizadas para designar “emissão”, “projétil” ou “grande”, o que acabaria, no contexto gnóstico, por traduzir o sentido de “grande emissão”.

30

Éons, do grego “aiones”, que significa “domínios”, “entidades”, “eras” ou “domínios eternos”; na gnose são, também, lugares, extensões de tempo, e, ainda, princípios abstratos como “providência”, “vida eterna”, “incorruptibilidade”, “sabedoria”, etc.

A perpassar toda a gnose, está, por conseguinte, a busca da salvação pelo

conhecimento, não o conhecimento intelectual, mas aquele cuja intenção precípua é

contemplar o objeto conhecido e se fazer uno com ele. O objeto deste conhecimento é

Deus em si mesmo, absolutamente transcendente, ou tudo que Dele deriva. Conhecer,

nesse contexto, significa ser e atuar, dentro dos limites humanos, quanto a este divino

objeto. Conhecer, via de conseqüência, implica salvar-se de todo o mal no qual pode

estar imerso aquele ao qual foi concedido possuir este saber (PIÑERO; TORRENTS;

BAZÁN, 2000, p. 39). Não se trata de um processo racional ou emocional, mas de uma

tomada de autoconsciência, proporcionada, ao gnóstico, por um poder espiritual

(geralmente o Pleroma); por conta desta situação, conhecida, pelos estudiosos, como o

conceito do salvador-salvandus, é dado ao homem recordar-se de si mesmo e alcançar a

salvação (KÖNIG; WALDENFELS, 1998, p. 250).