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Me conte um pouco sobre a sua vida...

Ah...eu nasci numa época muito legal. Minha família era muito legal, na verdade. Muito diferente das famílias padrão. Tinha uma cabeça mais avançada. Nesse sentido eu tive muita sorte em algumas coisas. Por exemplo, convivia muito com uma avó e com uma tia muito malucas. A gente passava férias com elas, nadava pelado em cachoeira. Você não imagina encontrar uma tia e avó e um bando de criança tudo pelado. Ninguém teve essa infância que eu tive. Que foi super precioso. Acho que não é só viver no mato e ter lombriga, mas era de tudo. Muito enriquecedor. Eles eram muito cultos. São muito cultos. Mas muito loucos ao mesmo tempo. Tinha um pouco esses dois lados. Então, teve toda essa riqueza de experiências que me ajudaram muito. Por outro lado, eu tive muito problema. Fui uma criança muito problema. Graças a Deus depois eu acabei descobrindo de onde vinham todos esses problemas. Eu nasci com uma doença genética, de herança genética, super rara, e que mexe com toda a parte imunológica. Como é neurológica, eu tive muito problema. Além da dislexia e do déficit de atenção que eu já tinha, eram várias as outras coisas que eu tinha junto. Se eu tivesse nascido numa família normal, normal que eu digo com aqueles padrões mais rígidos, mais conceituais, pontuais, tem que ser assim, assado, criança não fala, não conversa, não participa, não era bem o caso da minha família. Se tivesse sido assim, eu acho que nem teria sobrevivido. Começa por aí. Nesse sentido foi muito bom para mim. Tinha um lado muito bagunçado, mas tinha outro que era tão rico que me apoiei nele. Tirando isso, está tudo certo, tudo tranquilo.

Sempre fui canhota. Só chutava a bola com o esquerdo, se pedir alguma coisa com o direito não funciona. Não vai.

100%

Se der, 200! Não sei fazer nada com o direito. Minha letra é horrorosa. Dá até vergonha. Tudo só com a esquerda.

Imagina, nem se cogitava. Quando alguém falou que era reprimido, eu: “como assim?”. Até quando o Thiago (marido) fala que tomava na mão de professor, ou a Marcela (cunhada) conta que a família...eu falei assim: “ah?”. É uma coisa mais antiga. Na época da minha avó eu ouvia que a coisa era mais reprimida. Já na geração do Tadeu não conheço ninguém que tenha sido reprimido. Só eles (família do marido). Minha irmã mais velha tem mais ou menos a idade, um pouquinho mais moça, nunca ouviu reguada na mão, nunca ouvi contar. Nem a minha avó quando estudava, foi expulsa de vários colégios, nunca ouvi que ela levou o chapéu de burro ou reguada na mão. Acho que os pais dela matavam. Uma coisa muito arcaica mesmo.

Enfim, nunca fui reprimida. Muito pelo contrário.

E assim, não tem coisas para canhoto. Tesoura, não tem. Perto dos anos 1980 eu ouvi que tinha uma lojinha não sei onde com produtos de canhoto. Mas nunca me fez falta. A não ser aquela carteira de classe. Que era chato. Você ficava virado ao contrário. Isso é uma sacanagem. Devia ter. E panela, o bico da panela é ao contrário. Tem um monte de produto, mas nunca precisei.

Eu tenho facilidade para desenho, para coisas manuais. Eu aprendi crochê. Tenta ensinar um canhoto a fazer crochê! Ninguém consegue. E eu conseguia. Não me pergunte como. Para mim é muito fácil. Faço crochê, tricot. Hoje em dia eu não lembro, mas fiz muito crochezinho. A gente ficava em frente a televisão e fazia aqueles quadradinhos. E era uma coisa impossível de ensinar. Todo mundo dizia. Mas eu aprendi.

O ser canhoto não afetou em nada na minha vida. Tranquilo.

Eu sempre fui muito distraída. Essa era uma desvantagem na minha vida. Mas eu sempre fui muito boa nos esportes. Não era aquela atleta fanática, mas o que eu fazia, fazia direitinho. Era sempre escolhida. A Luísa estava sempre no meio. Não sabia como ia parar lá. Eu era alta para a época. Tinha uma cabeça e meia a mais que os meninos. Era indecente. E aí eu lembro de uma cena que fomos competir com a escola, handebol, eu adorava, super dinâmico. Você acredita que eu estava catando mosca no meio. Escuto assim de longe: “Luísa!”. Era a torcida inteira. E eu: “ué”. Quando eu vi estava no meio da quadra. Mas não tinha problema. Quando pegava a bola, fazia

gol. Então passava, sabe? Dava umas coisas assim e de repente eu voltava. Eu me dava bem nos esportes, gostava. Esquio direitinho, por exemplo. Não sou ruim no esporte. Só não sou fanática.

De se dedicar horas...

Uma vez eu fui, era ginástica olímpica. Mas tomei um tombaço. E nunca mais fiz. Esquece. Era uma japonesa louca que me dava aula.

Que mais querida?

Queria saber como é para você ser canhota. Se identifica?

Não. Acho que é diferente. O que eu vejo: todo canhoto tem letra feia. E os que têm bonitinha escrevem assim (entorta a mão). Engraçado, né? Eu escrevo normal, não tenho. Eu gosto de ser canhota porque é diferente. É raro. Tem dez e tem um canhoto: sou eu!

E você repara em quem é?

Reparo justamente na hora de escrever. Eu falo: “eu também sou”. É uma tribo. É quase uma tribo. A gente vê que são mais criativos, têm um pé na arte. Gosta de pintura, a maioria. Não sei por que cargas d’água. Michelangelo era canhoto, disléxico. Ele fazia confusões na hora de escrever.

Eu não escrevo assim (entortando a mão). Você escreve?

Não, mas eu viro a folha.

Eu também. Total. Eu viro a folha. Não adianta nada. A letra continua feia. Horrorosa. Você não tem noção.

A religião na minha família era uma coisa. Minha avó detestava padre. Metia o pau em todos. Mas tinha um lado super religioso. Adorava São Francisco.

corrupta. Essa coisa da Igreja mesmo. Igreja eles nunca acreditavam, mas tinham fé. Isso foi passado para mim e não era discutido, mas falavam as coisas na lata. Que roubam mesmo, que é tudo uma palhaçada. Em prol da religião pode tudo. É uma coisa horrorosa.

O que mais você se lembra?

Me lembro disso. Minha escola era...Inclusive a turma da minha irmã foi a primeira experiência da escola. Era construtivista, pequena, você tinha muita liberdade, aula dada em diferentes contextos, muito diferente das tradicionais. Já pelo construtivismo é quando você está pronta. Então esse conceito nunca foi mostrado. O que, aliás, para mim não foi bom. Não foi bom. Foi péssimo. Porque justamente pelo déficit de atenção e pela dislexia, o construtivismo você tem liberdade, então eu viajava na maionese. Estava em qualquer outro planeta. Abrir parêntesis para mim é um problema. Eu viajo. É uma desgraça. Quando eu fui para uma outra escola “quase que você levanta quando o professor chega, Amém Jesus” foi ótimo.

Eu acho que isso tem a ver com o canhoto, sabia? Eu acho que canhoto gosta de viajar um pouco. Todo canhoto viaja. Repara? Eu acho que tem esse lado viagem.

Nunca me conformei da letra ser ruim, e desenhava bem. Fazer o quê? Tinha que ter um defeitinho.

Mas é. Eu acho que a gente pensa diferente. Não pensa? Até como fórmula, o tipo de raciocínio, eu vejo que é diferente. Eu vejo pelo Sudoku. O tipo de raciocínio é totalmente diferente. Adoro! Sou viciadona!

Mas é tranquilo. Tranquilíssimo.

Eu acho que canhoto tem sempre um Plano B. Você já reparou?

Eu acho que canhoto não é organizado, de uma maneira geral. Por exemplo, apesar de toda a minha bagunça, eu sou muito organizada. Se eu não souber onde eu guardei, aquele canto, não vou achar.

Mas não é esse tipo de organização. É organização na vida. O fato de ser muito criativo, você pode até ter mania de arrumação, mas é uma organização mais geral.

A coisa que você poderia dar uma organizada, uma centrada, não. Você acaba ficando na coisa mais bagunçada.

Eu podia estar fazendo isso, mas estou fazendo aquilo e aquilo outro. Você arruma um monte de coisa para fazer, não dá conta, não é o que você está feliz, não sabe como foi se meter ali, mas você tem que dar conta. É o Plano B. Você sempre está se metendo em algum lugar e acaba tendo um Plano B. Organização não só espacial. De vida mesmo. Sem tirar as influências do meio, do tipo de escola e de educação que você teve. Tirando todas essas influências, tem a parte genética, biológica.

Uma grande capacidade que vejo no canhoto é essa do Plano B. Porque ele está sempre metido em alguma coisa.

Toda vez tem sempre uma bagunça. Acaba metendo um pé numa outra jaca. Mas sempre volta para jaca original. A gente tem essa experiência a mais da saída pela direita, já que somos canhotos. Eu acho que isso é diferente. A gente vai experimentar e às vezes é bom, às vezes é ruim. Sempre alguém escorrega.

Meu cunhado é canhoto. Também é meio artista. Se você conversar com ele é uma viagem. Você fecha o olho e vai. As cores e ao vivo. Mas, profissionalmente a vida dele é uma bagunça. É um cara que nunca se achou.

Meu sobrinho é canhoto, filho dele. Também teve problema de déficit de atenção, estudou no Colégio S6. Uma gracinha ele. Loirinho de olho azul. Parece um anjo.

Então tem vários na família.

Tem. Filho da minha irmã.

A gente termina sempre com uma frase... Para mim ser canhota é