Trabalhar como psicólogo da saúde nos cuidados de saúde primários consiste na aplicação dos conhecimentos e técnicas da psicologia em projetos de promoção da saúde e prevenção das doenças em diferentes fases do ciclo de vida, na realização de consulta psicológica e na participação noutros projetos desenvolvidos nos Centros de Saúde. Nestes, os psicólogos trabalham integrados nas equipas de cuidados de saúde primários (Teixeira, 2004).
Os psicólogos da saúde que trabalham nos cuidados de saúde primários podem desenvolver vários tipos de atividades, a saber (Trindade, 2000):
1)Em atividades de promoção da saúde e prevenção. Desta forma, participam em atividades de informação e educação para a saúde e de desenvolvimento comunitário relacionadas com a alimentação, prática de exercício físico, tabagismo, consumo excessivo de álcool, consumo de drogas, contracepção e planeamento familiar, saúde materna e infantil, saúde escolar, saúde do adolescente, saúde ocupacional, saúde do idoso, prevenção de acidentes, etc., promovendo uma abordagem psicológica dos problemas de saúde da comunidade e dos diferentes grupos sociais.
59
2) Em contexto de consulta psicológica. Esta consulta de referência para os clínicos gerais/médicos de família e de apoio a diferentes projetos de saúde, integrando o paradigma clínico com os factores que influenciam o desenvolvimento e a mudança de comportamentos. A atividade clínica foca-se na avaliação e/ou intervenção com casos problemáticos no âmbito da mudança de comportamentos e prevenção, confronto e adaptação à doença, stresse induzido por exames e tratamentos médicos, crises pessoais e/ou familiares, perturbações do desenvolvimento, perturbações de ajustamento, dificuldades de comunicação dos utentes com os técnicos, problemas de adesão a tratamentos e autocuidados.
3) Nos cuidados continuados. Neste contexto os psicólogos participam nas equipas de cuidados continuados que prestam cuidados de saúde no domicílio a indivíduos em situações de dependência.
4) Na humanização e qualidade. Os psicólogos participam em projetos de humanização dos serviços e de melhoria da qualidade em saúde e integração de metodologias psicológicas na avaliação da satisfação dos utentes.
5) Na investigação. Envolvem-se em projetos de investigação-ação em função de necessidades identificadas pelas equipas de saúde, especialmente em parceria com autarquias, escolas e organizações comunitárias.
6) Em contexto de formação, participam em ações de formação destinadas a outros técnicos e voluntários, centradas em aspectos psicológicos relacionados com as suas intervenções na prestação de cuidados.
60
2.7. Considerações Finais
A proposta da OMS de 1948, segundo a qual a Saúde deve ser considerada como um estado de bem-estar físico, mental e social completo e não apenas a ausência de doença ou incapacidade, embora criticada por ser demasiado idealista, abriu portas à transformação do anterior discurso biomédico para uma perspetiva que Engel (1977) denominaram de modelo biopsicossocial.
O modelo biomédico foi acusado de ser reducionista, por reduzir fenómenos complexos a uma causa simples, orgânica e por ser dualista por separar o mental do somático (Engel, 1977). Por sua vez, o modelo proposto por Engel, o mundo é composto por um contínuo de sistemas que interagem a níveis distintos. Neste contexto, pode-se facilmente perceber que qualquer doença, embora requeira mais atenção a um determinado nível, tem também um impacto nos outros níveis do sistema. Esta perspetiva, os factores psicológicos e sociais influenciam quer na manutenção da saúde, quer nos processos de adoecer (Ribeiro, 1998).
O modelo biopsicossocial explica que nem todos os problemas apresentados pelos pacientes podem ser adequadamente explicados em termos orgânicos e indica igualmente que as novas tecnologias têm permitido uma grande evolução da Medicina ao nível do tratamento de doenças permitiram também aumentar a consciência de outros níveis de organização que influenciam as funções fisiológicas. Este modelo defende igualmente que 60% dos doentes que visitam o seu médico de família apresentam queixas somáticas que são uma expressão de problemas psicossociais.
É neste enquadramento que olha o doente como um ser global que surge a psicologia da saúde. Esta nova área da psicologia procura dar uma resposta à falta que
61
fazia uma intervenção pensada e organizada sobre o adoecer físico (Leal, 2006). Atualmente, a psicologia como profissão no campo da saúde é hoje uma área reconhecida.
Outro dado a constatar é que a psicologia como profissão no campo da saúde está indissociavelmente ligada à psicologia clínica. Porém, diversos teóricos apontavam para uma separação entre a psicologia da saúde e psicologia clínica. Esta clivagem entre as duas áreas ainda é vigente em muitos países. Ou seja, entende-se que a intervenção da psicologia clínica tende a centrar-se na saúde mental e nas doenças mentais, enquanto o foco da psicologia da saúde centra-se na saúde física e em todas as outras doenças, que não as mentais (Leal, 2006).
Apesar desta situação de separação entre as duas áreas, haviam, por um lado, os médicos não – psiquiatras, que pediam ajuda para trabalhar com os seus utentes ao reconhecerem que uma parte importante dos problemas com que lidavam era de origem psicológica e reconhecia-se que uma parte importante dos problemas com que lidava o médico não – psiquiatra eram de índole psicológica (Ribeiro & Leal, 1996). Por outro lado, observa-se que o desenvolvimento dos serviços de saúde implicava o confronto com situações de alteração ou perturbação na saúde que, comportando necessariamente respostas concomitantes num registo psicológico, nem por isso eram enquadráveis em categorias psicopatológicas e não podiam, por isso, ser tomadas como objeto de intervenção à parte. Bem pelo contrário, respostas depressivas ou de ansiedade, então como hoje, inscreviam-se, frequentemente, num quadro adaptativo fundamental à situação posterior do indivíduo em situação de doença (Ribeiro & Leal, 1996).
62
Atualmente, na generalidade dos países, a psicologia da saúde constitui uma área de intervenção dentro da psicologia profissional denominada ―clínica‖, como é o caso dos Estados Unidos da América.
O sujeito individual e as suas relações com a saúde, a doença ou a deficiência, e com a sua família e os técnicos de saúde, bem como os grupos sociais e os seus problemas associados à promoção da saúde e à prevenção das doenças constituem o objeto da psicologia da saúde. A aquisição de comportamentos protetores de saúde, mudança de comportamentos relacionados com a saúde, confronto com procedimentos médicos de diagnóstico e de tratamento indutores de stresse, processos de confronto com a doença e a incapacidade, informação e comunicação nos serviços de saúde, comportamentos de adesão em saúde, ambientes de tratamento, comportamentos de procura de cuidados de saúde, qualidade de vida e saúde, perigos ecológicos para a saúde e condições de saúde dos técnicos de saúde são as áreas principais de investigação e intervenção em psicologia da saúde (Teixeira, 2004).
A intervenção de psicólogos na saúde, para além de contribuir para a melhoria do bem-estar psicológico e da qualidade de vida dos utentes dos serviços de saúde, pode também contribuir para a redução de internamentos hospitalares, diminuição da utilização de medicamentos e utilização mais adequada dos serviços e recursos de saúde. Os psicólogos da saúde podem igualmente potenciar a atuação dos outros técnicos, contribuindo para a melhoria das relações entre os técnicos e os utentes e para a melhoria das relações interprofissionais e promovendo uma utilização mais adequada dos serviços e recursos de saúde participando em atividades de humanização dos serviços e melhoria da qualidade dos cuidados (Teixeira, 2004).
63
Em suma, a Psicologia da Saúde estuda o comportamento humano na saúde e na doença, tendo sido a expressão introduzida por Matarazzo em 1980 para designar o papel da Psicologia, como ciência e como profissão, nos domínios da saúde e da doença, visando a promoção e manutenção da saúde, a prevenção da doença e, também, os aspetos psicológicos associados ao seu tratamento e reabilitação. Inclui a saúde física e mental, abrange todo o campo da Medicina mas ultrapassa-o em direção aos factores sociais, ecológicos e outros, que se relacionem com a realização dos estados de saúde e de doença. A abordagem psicológica em saúde implica a consideração simultânea do sujeito, da família, dos técnicos de saúde e do suporte social, bem como uma perspetiva multissectorial que abrange o sistema de saúde e o sistema educativo, mas que deverá englobar também os dispositivos de segurança social e de suporte comunitário (Teixeira, 2004).
64