Por mais estranho que possa parecer, uma parte do ateísmo moderno tenta redimensionar a idéia de “sagrado” em termos puramente humanos. Essa linha costuma até mesmo falar de uma “espiritualidade sem Deus”, um sagrado desprovido de divindades estranhas a essência do próprio homem.
Já um segundo grupo de ateus descarta totalmente a possibilidade de reaproveitamento de categorias ligadas à religião (normalmente esta escola tem um viés mais cartesiano), para esses ateus nem mesmo os termos usados pela religião deveriam ser reaproveitados no discurso do ateísmo contemporâneo, ao invés de uma transformação da idéia de “sagrado”, essa segunda vertente visualiza o futuro uma plena superação do antigo ideário religioso, ou, em outros termos, não há mais lugar no mundo para o sagrado.
Como acreditamos que a primeira linha de pensamento ateísta se liga historicamente mais ao discurso nietzschiano, iremos dispensar uma atenção especial a tal escola e, só daremos uma atenção secundária a vertente positivista do ateísmo, afinal, consideramos esta segunda configuração negativa, não propriamente um ateísmo reflexivo ou filosófico, mais sim uma negação mais próxima do senso comum.
Um dos maiores defensores deste “sagrado plenamente humanizado” é o filósofo francês André Comte-Sponville, que no preâmbulo de seu livro O Espírito do Ateísmo, esclarece qual a real meta deste ateísmo humanista: “Uma luta contra a religião? Seria enganar-se de adversário. Mas pela tolerância, pela laicidade, pela liberdade de crença e de descrença. O espírito não pertence a ninguém. A liberdade também não”. (Sponville, 2009, p. 09)
Diferente de um ateísmo fechado, que reclama para si o direito de viver soberanamente sozinho no mundo, Sponville fala de um ateísmo dialético capaz de conviver com as diferentes formas de significar o mundo, para este autor, a verdade necessita da liberdade para se afirmar como algo positivo na existência.
Em sua visão o próprio ateísmo precisa ser “espiritualizado”, senão seria um niilismo negativo incapaz de oferecer um sentido positivo para os seres humanos, por isso ele escreveu:
Tenho horror ao obscurantismo, ao fanatismo, à superstição. Também não gosto do niilismo nem da apatia. A espiritualidade é importante demais para que a abandonemos aos fundamentalistas. A tolerância, um bem precioso demais para que o confundamos com a indiferença ou a frouxidão. Nada poderia ser pior do que nos deixarmos encerrar num face-a-face mortífero entre o fanatismo de uns – seja qual for a religião que adotem – e o niilismo dos outros. É melhor combater todos eles, sem confundi-los e sem cair em seus respectivos defeitos. A laicidade é o nome desta luta. Resta, para os ateus, inventar a espiritualidade que a acompanha. (Sponville, 2009, p. 10)
O termo “laicidade”, pensado no contexto desta espiritualidade sem Deus, é um sinônimo de não coercitividade ideológica, para o autor, tanto os crentes das diversas confissões tradicionais ou, os recentes religiosos autônomos, bem como, os variados ateístas, niilistas e humanistas, devem aprender o caminho da
tolerância; embora isso não signifique apatia, afinal o debate de ideias é sempre um forte indício de tolerância social.
Para Sponville o fundamentalismo não pode ser combatido racionalmente pelo niilismo sem Deus e sem sentido, o autor afirma nas estrelinhas que é até possível passar sem Deus e a religião, só não é possível passar nenhum sentido para existência. Assim, sua espiritualidade ateísta, não abre mão de um sentido humanamente positivo para o mundo.
Esse posicionamento humanista é óbvio quando Sponville oferece uma resposta direita a um antigo questionamento:
Pode-se viver sem religião? Vê-se que a resposta, de um ponto de vista individual, é ao mesmo tempo simples e matizada: há indivíduos, sou um deles, que passam muito bem sem ela, na vida cotidiana, ou que passa, como podem, quando um luto os atinge. Isso não significa que todos possam ou devam viver sem ela. O ateísmo não é nem um dever nem uma necessidade. A religião também não. Só nos resta aceitar nossas diferenças. A tolerância é a única resposta satisfatória à nossa questão, assim entendida. (Sponville, 2009, p. 20)
Usando o seu próprio exemplo, o autor supracitado diz que para viver o individuo não precisa ser necessariamente religioso ou ateu; fazer de uma postura ideológica à única via para vida é na verdade reduzi-la segundo seu ponto de vista; a existência seria maior do que qualquer forma pessoal de concebê-la.
Bem diferente de uma “panacéia” universalizante, Sponville expõe seu ateísmo como uma possibilidade entre tantas outras, sua teoria de uma espiritualidade sem Deus não é uma nova “tábua de salvação”, é apenas um ponto de vista sobre velhas coisas e, por inferência, isso inclui uma nova maneira de vivenciar o “sagrado”.
Mas, em sentido mais profundo, em que consistiria realmente esta espiritualidade ateísta? Quais os valores que a sustentariam?
Antes de tudo é necessário esclarecermos que, ao falarmos de espiritualidade, em nenhum momento isso deve confundir-se com “espiritualismo”, afinal, embora o termo lembre quase que automaticamente a tese religiosa da existência de “almas”, o que Sponville apresenta é em última conseqüência “materialismo”, portanto, espírito neste contexto anti-sobrenaturalista é um termo retórico que sintetiza de fundo processos naturais, por isso ele escreveu:
A natureza é para mim o todo do real, (o sobrenatural não existe), e existe independentemente do espírito (que ela produz, que não a produz). [...] A natureza existe antes do espírito que a pensa, disso estou convencido. É onde o naturalismo, para mim leva ao materialismo. Mas nem por isso o espírito deixa de existir, ou antes, só isso permite que exista. Ser materialista, no sentido filosófico do termo, é negar a independência ontológica do espírito. Não é negar sua existência (porque, nesse caso, o próprio materialismo se tornaria impecável). O espírito não é a causa da natureza. É seu resultado mais interessante, mais espetacular, mais promissor – pois só há interesse, espetáculo e promessa para ele. A espiritualidade decorre daí, e ela não é outra coisa senão e vida. [...] O fato de o espírito ser corporal não é uma razão para deixar de utilizá-lo, nem para condená-lo exclusivamente às tarefas subalternas! Um cérebro não serve apenas para ler um mapa rodoviário ou para fazer compras pela internet. (Sponville, 2009, p. 131)
Ter espiritualidade é estar interessado nas grandes realizações do “espírito”, mesmo que se entenda por espírito só aquilo que é pertinente a materialidade humana. Embora nesta leitura não haja lugar para o sobrenatural, o mesmo não acontece com a noção de sagrado, tudo aquilo, que, pelo exercício de nossa espiritualidade, supera a esfera das “tarefas subalternas”, pode legitimamente ser considerado “sagrado”.
Aquilo que existe não precisa ser pensado para que venha a existir, porém, ao pensarmos aquilo que existe ganha um novo relevo no mundo, o relevo do “sentido” ou do “valor”, deste momento em diante a vida torna-se transcendente no âmbito de sua própria imanência, o ser pensante é a própria natureza se pensando.
Assim, espiritualidade é um aspecto reflexivo da vida, e não da religião, por isso o autor francês escreveu:
Toda religião pertence, ao menos em parte, à espiritualidade; mas nem toda espiritualidade é necessariamente religiosa. Quer você acredite ou não em Deus, no sobrenatural ou no sagrado, de qualquer modo você se verá confrontado com o infinito, a eternidade, o absoluto – e com você mesmo. Para isso, basta a natureza. Para isso, basta a verdade. Nossa própria finitude transitória e relativa basta. Não poderíamos de outro modo nos pensar como relativos, nem como efêmeros, nem como finitos. (Sponville, 2009, p. 129)
Segundo o ponto de vista de Sponville, a espiritualidade não é uma particularidade da vida religiosa, mas sim um elemento de toda vida
verdadeiramente reflexiva. As mesmas questões que afetam crentes, afetam os ateus, o que difere são as respostas oferecidas pelos diversos grupos humanos.
Nesse sentido Sponville é um ateu moralista para ele a reflexão existencial deve melhorar o homem, não desanimá-lo e, por fim, jogá-lo no abismo do niilismo. A confrontação com nossa finitude deve nos conduzir a uma noção teleológica de absoluto, ou, fazendo uso de suas próprias palavras: “ser ateu não é negar a existência do absoluto; é negar a sua transcendência, a sua espiritualidade, a sua personalidade – é negar que o absoluto seja Deus”. (Sponville, 2009, 129)
O absoluto neste contexto não é algo externo à própria natureza, seria apenas o conjunto geral de tudo aquilo que existe e, o espírito, epifenômeno desta conjuntividade, é a função (não uma substância) capaz de organizar esses diversos elementos existenciais numa cosmovisão.
No entanto, mais que uma mera percepção intelectual do absoluto, Sponville diz que podemos pensar numa espécie de “misticismo ateu” (Sponville, 2009, p. 117), onde o absoluto seria vivido e não apenas pensado. Para falar desta experiência ele usa o termo francês “simplicité”, ou em português “simplicidade” e, tal termo ganha no contexto de sua teoria atéia a noção de uma ação meditativa capaz de suspender a dualidade entre o sujeito e objeto. Ele mesmo explicou tal estado da seguinte maneira:
Suspensão da dualidade interna, da representação (no duplo sentido da idéia e do espetáculo), de toda a comédia do ego: colocação do ego entre parênteses. É o que chamo de simplicidade. Você não finge mais ser o que é (é por isso que a simplicidade é o contrário da má-fé, no sentido sartriano do termo), nem ser outra coisa (é por isso que a simplicidade é uma recusa do existencialismo: experimente um pouco, no presente, não ser o que é ou ser o que você não é). Aliás, você não é nada, em todo caso não é um ser nem uma substância: você vive, você sente, você age. (Sponville, 2009, p. 156)
É fácil de perceber nessa descrição de uma “espiritualidade prática”, a forte influência da tese budista que propõe a anulação do eu (chamam tal prática meditativa de Anatman), influência que o próprio autor reconhece indiretamente. Porém, mais importante que as fontes orientais para tal idéia, cabe-nos fazer sentir a forte influência nietzschiana por trás deste “misticismo ateu”. Aliás, é o próprio Sponville que cita o dito nietzschiano: “Sou místico, e não creio em nada” (Sponville, 2009, 177) para ressaltar como seu pensamento se aproximava do
filósofo alemão. Assim, seu conceito de “simplicidade” certamente foi embasado nas ideias nietzschianas que frisavam constantemente o valor da sensibilidade corporal como verdadeiro núcleo de nossa existência pessoal.
O ateísmo de Sponville, com sua espiritualidade imanentista, visa produzir uma filosofia prática capaz de integrar o ser total, sem apelar nunca para o transcendental, por isso lemos: “Espiritualidade da imanência, em vez de transcendência [...] adoro as capelas românicas. Admiro as igrejas góticas. Mas a humanidade, que as construiu, e o mundo, que as contém, me ensinam mais que elas” (Sponville, 2009, p. 186).
Ao dizer que seu conhecimento se realiza na “humanidade” e no “mundo”, ao invés do mundo transcendental da religião, Sponville insere-se definitivamente na fileira dos ateístas humanistas. A imanência citada pelo autor francês, no trecho acima, é a referência de uma moral que dispensa uma fonte sobrenatural, por isso, em contraste com a beleza arquitetônica dos templos religiosos, que aponta para a pretensa grandeza do espiritual, Sponville visa sensibilizar-nos apontando para beleza imediata do mundo que nos cerca.
Outro autor francês, o já citado Luc Ferry, está muito próximo desse tipo de ateísmo defendido por Sponville, proximidade que levou Michel Onfray a taxar o humanismo transcendental de Luc Ferry e a espiritualidade ateísta de Sponville de “ateísmo cristão” (Onfray, 2007, p.42). O epíteto pensado por Onfray é de certa forma coerente, afinal, embora não aceitem a tese da existência de Deus, tanto Sponville, como também Luc Ferry, normalmente oferecem uma releitura laica da moral cristã, não a sua superação teorética.
Defendendo seu humanismo transcendental, Luc Ferry escreveu:
Deve-se, então, afastar o mal-entendido segundo o qual a modernidade, reduzida a uma “metafísica da subjetividade”, estaria na equação: onipotência do ego = individualismo narcísico = fim da espiritualidade e da transcendência [...] pode ocorrer, no exato posto desses lugares-comuns ordinários das ideologias antimodernas, que o humanismo, em vez de abolir a espiritualidade, mesmo que em benefício da ética, nos dê acesso, pelo contrário e pela primeira vez na história, a uma espiritualidade autêntica, livre de seus ouropéis teológicos, enraizada no homem e não em uma representação dogmática da divindade. (Ferry, 2010, p. 38)
Ao contrário da opinião comum, Luc Ferry bem ao estilo Sponville, diz que ateísmo humanista não vem abolir a espiritualidade; na verdade, em sua opinião, pela primeira vez na história humana temos acesso a uma espiritualidade autêntica, ou seja, uma transcendência que não acaba em Deus. O sagrado apenas muda de lugar, não cessa. A laicização seria para Luc Ferry, não o esvaziamento do sagrado, mais sim a humanização oportuna do mesmo.
Escrevendo sobre esta mudança do sagrado, lemos:
… a passagem de uma transcendência vertical a uma transcendência horizontal [...] muda a relação do homem com o sagrado, sem implicar absolutamente seu desaparecimento por completo, até e inclusive na ordem do coletivo. A nova transcendência não suscita menor respeito do que a antiga, mesmo que de outra maneira: ela permanece como apelo a uma ordem de significação que, mesmo se enraizando no ser humano, não deixa, nem por isso, de se referir a uma exterioridade radical. (Ferry, 2010, p. 108)
A horizontalidade na qual o novo homem se inscreve, obriga-lhe a assumir outra relação com o sagrado, ele continua a se comprometer com uma exterioridade que o traspassa, só que a mesma não lhe vem de cima para baixo como no passado, agora a linearidade do seu novo olhar leva-lhe ao olhar recíproco de um semelhante, não a um olhar altivo de um deus.
O que Luc Ferry anuncia é a divinização do próprio homem e de uma ética que lhe sirva, para ele um ateísmo sem ética é um ateísmo irresponsável e perigoso em sentido existencial. Como em sua opinião o ser humano é essencialmente um ser moral, qualquer teoria, mesmo de teor ateísta, que desconsidera tal dimensão não é uma tese boa para o homem, daí sua conclusão:
… o reducionismo não cessa de pôr quem o defende em desacordo consigo mesmo: no conteúdo do seu discurso, ele é relativista, denuncia a transcendência, [...] mas ele, em seu interior e como qualquer outro, está convencido da verdade das suas descobertas e das suas afirmações [...] ele sai da regra geral, reintroduzindo, em suma, sua subjetividade livre sem poder assumi-la como tal. E é essa negação da pessoa real que retira do materialismo a possibilidade de plenamente se auto-revindicar como humanista. Por isso sua ligação com o tema – pertinente nessa situação – da “morte do homem”, que supostamente deve seguir de perto a de Deus. (Ferry, 2010, p.197)
O filósofo acusa o ateísmo reducionista, que nega a possibilidade de uma moral universal, de desonestidade epistemológica. Em sua argumentação o relativismo que ele aplica, em relação à análise que faz da realidade humana, não é o mesmo critério usado em suas afirmações absolutistas. Ao negar tudo aquilo que parece afirmativamente ser universal em certos valores, Luc Ferry vê neste procedimento um anti-humanismo precipitado; o ateísmo anticristão acaba por desconsiderar valores morais produzidos pelo árduo caminho evolutivo humano.
Ele faz questão de acentuar a diferença entre sua tese humanista e o que ele considera o niilismo dizendo:
O humanismo do qual tentei até agora esboçar os traços se enraíza em uma tradição de pensamento bem diversa. Sua relação com a religião cristã é mais sutil, pois não rejeita a sagrado nem a transcendência, apesar de recusar concebê-los pelo modo dogmático do teológico- ético. (Ferry. 2010, p. 197)
O teológico-ético para Luc Ferry é dogmático por apelar para uma transcendência que vai além do homem, não é o sagrado que deve ser atacado pelo ateísta humanista, mais sim o deslocamento que produzimos em nome deste sagrado alheio.
Mas, senão o sagrado da religião, qual o outro que nos é dado?
Para tentar nos explicar as bases deste sagrado, Luc Ferry recorre à sabedoria dos gregos, é dito:
… os gregos já têm do divino uma concepção que remete, sob alguns aspectos, ao que entendo por transcendência na imanência: pois o divino, no fundo, é ordem do mundo enquanto tal, a harmonia cósmica, que é ao mesmo tempo transcendente em relação aos humanos (exterior e superior e eles) e, entretanto, perfeitamente imanente ao real. (Ferry, 2008, p. 62)
E, criticando a idéia de que os valores humanos foram “criados” pelos próprios homens, ele nos dá mais uma pista do seu sagrado humanizado:
… os seres humanos jamais fabricaram os valores, tanto hoje em dia quanto no passado. A autonomia não tem nada a ver com a fabricação de valores. Em outras palavras, que poderão surpreender algumas pessoas, os valores são hoje em dia tão exteriores e superiores à humanidade quanto numa perspectiva tradicional. Eu não invento a verdade, eu a descubro. [...] não invento os valores
morais, como os direitos humanos, por exemplo. Eu os descubro como algo que se impõe a mim, com sua coerência, seu rigor e, se posso dizer assim, sua “dureza” própria. Donde essa estrutura do sagrado que parece ser-lhes inerente, essa encarnação de um invisível no visível, que recebo como algo que tem o caráter de divino (Ferry, 2010, p. 75).
O termo “divino”, escolhido por Luc Ferry para designar a idéia de uma transcendência imanente, lembra o “espírito absoluto” da tese hegeliana. Em sua opinião a autonomia do homem moderno não lhe trouxe o poder de criar valores, segundo seu viés interpretativo, esta autonomia no máximo nos permite escolher tais valores, nunca verdadeiramente fabricá-los.
Neste ponto podemos perceber como Luc Ferry e, por causa da similitude de algumas ideias, Sponville também, estão distantes do ateísmo de Feuerbach e Nietzsche, aliás, ao dizer que os valores são “descobertos” o autor em questão revela-se mais kantiano do que nietzschiano.
O sagrado para este ateísmo espiritualista de Luc Ferry, seria a percepção de leis racionais que não defendem do homem para sua existência, valores absolutos que naturalmente devem reger a vida humana. É isso que ele diz ao declarar:
O humanismo transcendental é, então, um humanismo abstrato, no sentido que tem esse termo quando se trata de compreender a grande declaração: não é no fato de pertencer a uma comunidade que residem os direitos, pois eles são inerentes à humanidade do homem como tal, abstraindo-se seus enraizamentos particulares. Passam os valores universais a serem chamados a fazer junção, enquanto os laços singulares criam sempre o risco, se forem mal compreendidos, de dividir: da religião, o humanismo transcendental, então, conserva o espírito, a idéia de um laço de comunidade entre os homens. Esse laço, simplesmente, não se situa mais em uma tradição, em uma herança imposta a partir do exterior, em uma herança imposta a partir do exterior, em um ponto anterior á consciência, mais posterior, que é onde devemos, de agora em diante, pensar o que pode ser o análogo moderno das tradições perdidas: uma identidade pós-tradicional. (Ferry, 2010, p. 203)
Para o filósofo francês a única forma de enfrentar o niilismo anômico, faceta ateísta que se fixou com a morte de Deus, é ressuscitando o divino como esfera consciêncial do próprio homem. Ele diz que só um “universal ético” pode tirar o homem da zona de risco do relativo, segundo seu posicionamento epistemológico, a consciência seria capaz inerentemente de fazer uma leitura moral do mundo.
Luc Ferry cria com seu “humanismo transcendental” uma espécie de religiosidade laica, onde Deus é substituto por valores humanos transcendentais; isso seria o que ele recorrentemente alude como o “divino no homem”.
Em seu discurso transcedentalista chega até mesmo falar de uma sobrenaturalidade humana (Ferry, 2008, p. 73), ou seja, o sagrado seria uma condição onde o homem racionalmente resolve se sacrificar pelos valores mais nobres da existência, ultrapassa os limites de sua animalidade em prol de uma meta “sobrenatural”.
Lógico que essa moral transcedentalista de Luc Ferry, bem como, a espiritualidade mística atéia de Sponville, não são as únicas formas atéias de lidar com a enorme vacuidade aberta pela morte de Deus, um segundo grupo de ateus tenta também ser ouvido.
Estes segundo grupo ateísta é totalmente contrário a manutenção do vocabulário usado pela religião e, diferente de uma releitura que parte das mesmas noções entesouradas pelo ideário religioso, propõe uma superação radical da velha forma de pensar o sagrado.
Para esse segundo grupo ateísta os valores morais não existem por si mesmos, logo, silogisticamente, não existem verdades morais, só interpretações morais distintas e sempre criadas pelos homens. Os pensadores desta escola