Este capítulo trata da participação da guitarra elétrica na obra Gruppen für drei
Orchester. A metodologia de análise foi baseada na contextualização do instrumento dentro
dos grupos dos quais participa, observando as características que contribuíram para a sonoridade dos “timbres temporalizados”. Sua posição na distribuição instrumental do espectro-formante (formulação rítmica) de cada grupo, as alturas utilizadas e as particularidades características dos grupos (densidade, tipos de articulação, dinâmica e ataques, por exemplo) foram observadas. Os mesmos dados levantados no capítulo anterior em relação aos grupos 1, 2 e 3 são utilizados neste capítulo (instrumentação, alturas, ritmos, dinâmica, articulação).
A proposta fundamental deste trabalho é observar a participação da guitarra elétrica na obra Gruppen. Para este fim, mergulhou-se no universo da guitarra elétrica na vanguarda (capítulo I) e no entendimento dos procedimentos composicionais da obra (capítulo II). Neste capítulo III têm-se investigações sobre o uso do seu idiomatismo, ou das técnicas, efeitos de processamento do som usados ou estilos relacionados diretamente ao instrumento, propondo uma análise da guitarra elétrica completamente inserida dentro do contexto da obra analisada. Em seguida a esta abordagem geral sobre os grupos nos quais a guitarra elétrica teve parte, foi feita uma seleção das partes de guitarra elétrica isoladas, com sugestão da execução das partes de toda a obra a partir da digitação da mesma.
À medida que novos recursos tecnológicos vão se desenvolvendo, as possibilidades de sonoridade também se expandem. Durante a pesquisa, teve-se acesso a uma versão gravada da obra. Nesta a sonoridade da guitarra é clean, explorando-se o timbre natural do instrumento plugado diretamente no amplificador. Este é um tipo de som que foi amplamente utilizado no combos e nas “big bands” de jazz, o que sugere uma influência desse gênero no som
“limpo ” da guitarra desta obra, sem efeitos de processamento do som. Supõe-se a influência da sonoridade da guitarra jazzística no que diz respeito à guitarra elétrica em Gruppen. Vale ainda ressaltar que a obra foi escrita entre 1955 e 1957, e apresentada pela primeira vez em público no ano de 1958. Neste período as guitarras sólidas estavam em processo de popularização muito veloz, mas os modelos de semi-acústicas já vinham sendo usados desde a década de 1930, principalmente pelos jazzistas40. É este modelo de guitarra elétrica que foi utilizado na gravação do vídeo interpretado pela city of Birmingham symphony orchestra, regida por Simon Ratle, John Carewe e Daniel Harding (1998).
Como citado no capítulo II, os grupos trazem em si algumas características importantes a serem observadas (em relação a andamento, dinâmica, articulação, densidade, alturas, ritmos, formas de ataque, disposição espacial, accelerandos, ralentandos, etc). Na técnica de composição por grupos os sons dos instrumentos se fundem para a criação da sonoridade do grupo em um desdobramento temporal pré-determinado. A instrumentação é distribuída sobre o espectro da escala temporal gerada a partir da fase fundamental. Este tipo de técnica gera uma perda da identidade específica de cada instrumento em prol da identidade do grupo. Quanto mais características comuns os instrumentos tiverem, mais forte a sonoridade de grupo, e vice versa. Quanto maior a força de grupo, mais os instrumentos se perdem na textura resultante.
Pode-se tomar como impulso condutor neste capítulo a seguinte pergunta: de que forma a guitarra elétrica contribui na composição da sonoridade do grupo? Ou seja, já se sabe que os grupos trazem consigo diversas características específicas, pergunta-se como a guitarra elétrica, com seus recursos tecnológicos da época da composição de Gruppen e de seu idiomatismo, poderia ser indicada para contribuir na formação de um determinado “timbre temporal”.
Sobre outro viés, pode-se também observar a disposição da guitarra elétrica em relação ao desdobramento do plano pré-composicional nas notas da partitura, observando, por exemplo, as alturas usadas dentro dos “filtros de frequência” dos grupos, ou que figuração rítmica o instrumento conduz dentro da “escala temporal” do grupo (estas informações constam nos quadros referentes a cada grupo). Em relação às partes isoladas de guitarra, focalizou-se a abordagem técnico-instrumental, propondo sugestões e caminhos para execução (digitações, recursos, efeitos, etc.).
39 Diferenciando-se de uma guitarra distorcida, ou com efeitos de modulação do som, por exemplo.
40 Efeitos de trêmulo, vibrato e eco já eram utilizados por voltados anos 1950, mas muitos guitarristas apreciavam o som “puro” do instrumento, geralmente passando apenas por um efeito de reverberação que poderia estar embutido no próprio amplificador.
aparece junto a outros instrumentos nas formações instrumentais dos grupos. Em um momento específico o instrumento participa com um pequeno solo instrumental (grupo 75).
A técnica de composição por grupos, usada nesta obra, também tem como um de seus resultados práticos a criação de uma série de diferentes “timbres temporais” (texturas com pré-determinações seriais que se transformam a cada grupo, construindo juntas as estruturas formais e sonoras da peça). Cada grupo tem seu timbre específico, que por sua vez, têm suas durações específicas e pré-determinadas pelo número de fases fundamentais associadas ao andamento de cada grupo. Este “timbre temporal” pode ser manipulado a partir de uma maior ou menor articulação dos formantes rítmicos do espectro da escala temporal, obtida a partir da figura que representa a fase fundamental e seu desdobramento em sua “série harmônica de durações”. Em outras palavras, a guitarra elétrica, sempre que participa de um grupo serialmente concebido, deve conduzir uma figuração rítmica condizente com uma posição no espectro da fase fundamental, bem como uma coleção de alturas condizentes com as permitidas a passarem pelo filtro de frequências de cada grupo.
Se tomar-se como exemplo aquelas qualidades de grupo especificadas por Maconie, citadas no capítulo II, relacionadas ao ataque das notas, observa-se que a guitarra elétrica pode participar nos conjuntos formados por instrumentos que emitem notas com ataque rápido e som stacatto. Como parte do conjunto dois também, em que as notas são permitidas a reverberar, principalmente com o recurso de manipulação dessa reverberação, obtido a partir de efeito analógico ou digital associado, ou mesmo de sua reverberação natural adequada a cada ambiente. No terceiro grupo, de notas que constroem lentamente seu pico de intensidade, a guitarra participaria com o uso de um pedal de volume, ou mesmo com o próprio controlador de volume do instrumento ou do amplificador, construindo lentamente o pico de intensidade das suas notas. O quarto tipo de efeito, baseado na repetição de ataques sucessivos, seria obtido a partir da técnica de “trêmulo” com a palheta ou pedal de efeito. No subcapítulo seguinte estas considerações serão feitas na análise de cada grupo com a presença da guitarra elétrica.