4.8 Etiske betraktninger
4.8.1 Kritisk refleksjon over prosessen
A utilização por Villon das formas fixas próprias da lírica amorosa da época tem uma intenção paródica. Entre os trovadores provençais, por exemplo, é comum parodiar a estrutura estrófica e a melodia de conhecidas canções de amor. Na época, o público da poesia cortês era capaz de reconhecer a estrutura estrófica e a melodia das canções parodiadas e a intenção paródica dessas composições. A utilização da estrutura estrófica e da melodia de um poema com intenção paródica era chamada de “contrafação” (contrafactum).183 Estudioso da poesia provençal, o poeta norte‐americano Ezra Pound
considera essas contrafações satíricas,184 mas freqüentemente elas são têm a mera
intenção de divertir o público capaz de reconhecer os poemas parodiados.
Com a separação entre a música natural e a música artificial na França da segunda metade do séc. XIV, a contrafação não utiliza mais a melodia, mas apenas a forma estrófica do poema parodiado. O exemplo mais claro de contrafação no corpo poético de Villon é a “Balada da Gorda Margô” (Balade de la Grosse Margot).185 Essa
balada é composta no gênero da sotte balade, misturando a forma fixa grave da balada com a matéria burlesca da sottie. Como afirma Sébillet: “A matéria verdadeira da farsa ou da sottie francesa são brincadeiras, jocosidades e todas as “tolices” (sotties) que movem o riso e o prazer”.186
181 A Ballade de la Fortune e Ballade des Contradictions (VILLON, F., Op. cit., p. 64-66, p. 46). 182
VILLON, F. Op. cit., p. 335-345.
183 MARSHALL, J. H. Pour l’étude des contrafacta dans la poésie des troubadours. In. Romania, 1980, vol. 101, no3, pp. 289-335.
184
“Há uma tradição segundo a qual em Provença era considerado plágio tomar a forma de outro, tal como agora se considera plágio tomar-lhe o seu assunto ou o seu projeto. Os poemas escritos deliberadamente na forma estrófica de um outro autor denominavam-se “Sirventês” e eram geralmente satíricos” (POUND, E. ABC da
Literatura, São Paulo, Cultrix, 1970 p. 67).
185
VILLON, F. Op. cit., p. 256.
186 “Le vrai sujet de la Farce ou Sottie Française, sont badineries, nigauderies, et toutes sotties émouvant à ris et plaisir” (SÉBILLET, T. Art Poétique Française, In : GOYET, F. Traités de poétique et de rhétorique de la
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Nas Regras de Segunda Retórica, é oferecido como exemplo de sotte balade uma balada com o seguinte refrão: “Quando posso me hospedar em seu albergue”.187 Ao
misturar a balada à matéria burlesca da sottie, produz‐se uma “contrafação” pois, como afirma a Arte Poética Francesa, a balada é uma forma fixa imprópria à facécia e à leveza:
Com o tempo imperador de todas as coisas, os poetas franceses a adaptaram [a balada] a matérias mais leves e faceciosas, de tal forma que hoje em dia a matéria da balada é toda aquela que apraza ao seu autor. No entanto, ela é de fato menos própria à facécia e à leveza.188
Na Balada da gorda Margô, a tensão promovida entre a matéria baixa, tratando da exploração pelo marido de sua esposa como prostituta, e uma forma grave como a balada visa a parodiar a lírica amorosa da época. Invertendo parodicamente as tópicas do gênero demonstrativo utilizadas pela lírica amorosa para elogiar a beleza da dama, ela explora a obscenidade para produzir efeitos burlescos. À feiúra da dama corresponde a vileza do próprio poeta que, em vez de amante fiel da poesia amorosa, assume o papel de um cafetão. Assim, o “serviço amoroso” do poeta à sua amada Margô não é motivado pelo amor desinteressado e casto – chamado de “fino amor” (fin amour) –, mas por interesses venais.
A balada representa a luxúria da dama e o seu comércio pelo amante, segundo o lugar comum do “mundo às avessas”. Na poesia da época, esse lugar comum é
freqüentemente utilizado pela poesia satírica para criticar os “vícios do tempo”, como, por exemplo, na poesia dos goliardos, nas Baladas de Moralidades de Eustache Deschamps, etc.189 Mas na Balada da Gorda Margô, a inversão das virtudes da castidade
e da fidelidade preceituados pelas leis do amor visa apenas ridicularizar o comércio do corpo de sua amada pela personagem de Villon no papel de cafetão. Assim, a utilização da rigorosa forma da balada contrasta inteiramente com a matéria explicitamente burlesca da composição.
187 LANGLOIS, E. Op. cit., p. 38. 188
“Avec le temps empireur de toutes choses, les Poètes Français l’ont adaptée à matières plus légères et facétieuses, en sorte qu’aujourd’hui la matière de la Ballade est toute telle qu’il plaît à celui qui en est l’auteur. Si est-elle néanmoins moins propre a facéties et légèretés” (SÉBILLET, T. Art Poétique François (1548), In : GOYET, F. Traités de poétique et de rhétorique de la Renaissance, Paris, Librairie Générale Française, 1990, p. 112)
189 Por exemplo, a balada de Eustache Deschamps iniciada por Comment se puet homs ordonner. (DESCHAMPS, E. Œuvres complètes, edição pelo Marquis de Queux de Saint-Hilaire e Gaston Raynaud, Paris, Firmin-Didot, 1878-1903, t. VII, p. 237).
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Mas na maior parte do corpo poético de Villon, a contrafação da lírica amorosa não é explícita, como na Balada da Gorda Margô. O rigor formal e a gravidade da oitava quadrada parecem ser adequados ao tema da separação amorosa, no exórdio do
Pequeno Testamento,190 e à reflexão solene sobre a morte na primeira parte do Grande
Testamento.191 Mas a forma dissimula a verdadeira intenção do discurso para,
aparentando o contrário do que de fato diz, impor‐se com maior força, segundo a figura da ironia.192 A gravidade das formas poéticas emprestadas por Villon à lírica amorosa da época é irônica, pois o Pequeno e o Grande Testamento são uma paródia do testamento amoroso da época. Villon utiliza as formas fixas da lírica amorosa da época, em particular a oitava no Pequeno e no Grande Testamento e a balada nesse último e nas formas fixas esparsas. As oitavas dos testamentos imitam as oitavas quadradas da Bela dama sem misericórdia de Alain Chartier. À parte as Baladas em jargão, as baladas utilizadas por Villon no Grande Testamento e nas formas fixas esparsas seguem o modelo da balada comum. O exemplo
da Balada da Gorda Margô permite introduzir os dois próximos capítulos, nos quais a análise do Pequeno e do Grande Testamento pretende demonstrar que a utilização por Villon das formas poéticas da lírica amorosa visa a produzir uma contrafação do testamento amoroso pertencente ao ciclo da Bela dama sem misericórdia.
190
VILLON, F. Op. cit., p. 60-64. 191
VILLON, F. Op. cit., p. 92-164.
192 “Eiróneia inveni qui dissimulationem vocarent; illa, quae maxime quase irrepit in hominum mentes, alia dicentis ac significatis dissimulatio, quae est perjucunda, cum in oratione non contentione sed sermone tractator” (“Eiróneia encontrou aqueles que a chamam de dissimulatio [ironia]. Aquela que por assim dizer se insinua com maior força no espírito dos homens é a ironia [dissimulatio], que é o contrário do que diz e revela e é muito agradável, pois no discurso é tratada não numa discussão, mas numa conversa”) (QUINTILIEN, Institution
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