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7.3 Veien videre

7.3.2 Hva kan andre lære av Sarpsborg kommune

C. O
AMOR
LOUCO
DE
VILLON

Imitação
do
discurso
da
Velha
no
Romance
da
Rosa,
essa
digressão
representa
o
 lamento
 da
 Bela
 Armeira
 pelo
 louco
 amor
 da
 juventude.
 Ainda
 que
 implicitamente,
 a
 personagem
 de
 Villon
 não
 deixou
 de
 estar
 presente
 por
 trás
 da
 sua
 narração
 em
 discurso
 direto
 dos
 Lamentos
 da
 Bela
 Armeira,
 já
 que
 ele
 se
 apresenta
 como
 um
 intermediário
entre
esse
lamento
e
o
público.
Ao
fim
da
digressão
dos
Lamentos
da
Bela


Armeira
(LVII),342
a
personagem
de
Villon
retoma
a
primeira
pessoa
da
enunciação.
Nas


quatorze
estrofes
seguintes
do
Grande
Testamento
(LVIII‐LXXI),343
Villon
refletirá
sobre


a
 sua
 própria
 experiência
 amorosa
 na
 juventude.
 Villon
 relembra
 a
 época
 em
 que
 ele
 rompeu
o
serviço
amoroso
no
exórdio
do
Pequeno
Testamento.
Ele
tira
dos
Lamentos
da
 Bela
Armeira
a
seguinte
conclusão
relativa
à
sua
própria
experiência
amorosa:
Também
vejo
o
grande
perigo
 Que
corre
o
homem
amoroso...
 Quem
quiser
me
injuriar,
se
o
digo
 Há
de
dizer
bem
pressuroso
 ‘Se
foges
do
amor,
temeroso
 Pelo
que
essa
gente
proclama
 Farás
um
gesto
desastroso
 Pois
são
mulheres
de
má­fama344No
Grande
Testamento,
Villon
retoma
a
personagem
do
amante
mártir
traído
pela
 sua
dama.
O
“perigo”
(danger)
faz
referência
ao
possível
colapso
do
amante
incapaz
de
 suportar
 o
 sofrimento,
 como
 acontece
 com
 Villon
 depois
 da
 traição
 da
 amada,
 no
 exórdio
 do
 Pequeno
 Testamento.345
Villon
 utiliza
 o
 discurso
 da
 Velha
 Armeira
 como


exemplo
 para
 ilustrar
 a
 sua
 concepção
 da
 mulher
 como
 um
 tipo
 insconstante.
 Villon
 utiliza
 a
 autoridade
 da
 Bíblia,
 oferecendo
 como
 representação
 da
 natureza
 feminina
 o
 exemplo
 de
 Eva.
 Por
 meio
 da
 figura
 “antecipação”
 (anteoccupatio),346
Villon
 coloca
 na










342

VILLON, F. Op. cit, p. 148. 343

VILLON, F. Op. cit., p. 148-164.

344 “Et qui me vouldroit laidanger/ de ce mot, en disant: “Escoute/ Se d’amer t’estrange et reboute/ Le barat de

celles nommes/ Tu fais une bien folle doubte/ ce son femmes difammes (VILLON, F. Testamento, Tradução de

Afonso Félix de Sousa, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1987, p. 55). 345 VILLON, F. Op. cit., p. 60-64.

346 CÍCERO, De l’Orateur. Livre Troisième, edição bílingüe latim-francês, Paris, Les Belles Lettres, 1971, v. 205, 85. ; QUINTILIEN, Institution oratoire, Livro IX, cap. 1, 31, p. 264.

105

boca
de
um
opositor
hipotético
o
seguinte
contra‐argumento:
essa
conclusão
é
retirada
 de
uma
mulher
da
vida,
mas
nem
todas
as
mulheres
são
assim.


Utilizado
 para
 introduzir
 a
 antecipação,
 o
 verbo
 “injuriar”
 (laidanger)
 faz
 referência
 à
 figura
 do
 malediscente
 (losengier)
 na
 casuística
 amorosa
 da
 época.347
No


Romance
 da
 Rosa,
 por
 exemplo,
 a
 personificação
 da
 “Maledicência”
 (Malebouche)


encarna
a
figura
do
caluniador.
Ela
desempenha
um
papel
central
na
trama
do
Romance


da
Rosa,
pois
é
a
fonte
dos
tormentos
do
amante,
tendo
provocado
contra
ele
o
“Ciúmes”


(Jalousie),
que
desencadeou
a
comitiva
de
personificações
dos
vícios
e
a
prisão
da
Rosa
 no
 castelo.
 Na
 tradução
 acima,
 omite‐se
 o
 termo
 técnico
 “ardil”
 (barat),
 utilizado
 por
 Villon
para
designar
a
“arte
de
enganar”
das
mulheres
da
vida.
É
por
causa
do
ardil
das
 mulheres
 que
 o
 poeta
 afirma
 ser
 perigoso
 o
 amor.
 Ele
 próprio
 teria
 sido
 vítima
 deste
 ardil,
como
afirma
no
exórdio
do
Pequeno
Testamento.
O
argumento
colocado
por
Villon
 na
boca
de
seu
opositor
é
o
mesmo
utilizado
no
“Debate
sobre
o
Romance
da
Rosa”
por
 Cristine
 de
 Pisan,
 que
 é,
 assim,
 identificada
 à
 personagem
 do
 malediscente
 da
 lírica
 amorosa.


Segundo
o
procedimento
criticado
por
Christine
de
Pisan,
o
retrato
feito
da
Bela
 Armeira
 será
 generalizado
 por
 Villon
 a
 todas
 as
 mulheres.
 Mas
 Villon
 recusa
 o
 argumento
 de
 Christine
 de
 Pisan,
 generalizando
 o
 retrato
 das
 mulheres
 desonestas
 realizado
 nos
 Lamentos
da
Bela
Armeira
 a
 todas
 as
 mulheres.
 Para
 criticar
 a
 defesa
 de
 Christine
 de
 Pisan
 das
 mulheres
 honestas,
 a
 sua
 estratégia
 é
 defender
 as
 mulheres
 desonestas.
Segundo
a
figura
da
interrogação,
Villon
afirma:
“Resta
saber:
as
mulheres,
 estas/
 diariamente
 por
 mim
 cantadas/
 não
 foram
 mulheres
 honradas?”348
Fazendo


referência
 à
 Balada
 da
 Gorda
 Margô,
 Villon
 assume
 a
 personagem
 do
 cantor
 das
 mulheres
 desonestas.
 Com
 isso,
 ele
 critica
 a
 distinção
 de
 Christine
 de
 Pisan
 entre
 as
 mulheres
 honestas
 e
 as
 desonestas,
 utilizando
 o
 seguinte
 contra‐argumento:
 se
 as
 mulheres
 honestas
 se
 tornaram
 desonestas,
 é
 porque
 elas
 jamais
 foram
 honestas,
 mas
 apenas
pareciam
sê‐lo:

 
 Mas
tudo
segundo
o
Decreto:

 Seus
amigos,
é
evidente,
 





 347

Cf. GACE BRULE, "Les oisillons de mon païs", In: SPINA, S. A Lírica trovadoresca, São Paulo, EdUsp, v. 1, p. 238. La Dame loyale en Amour, str. LXXXVII, In : CHARTIER et al., Op. cit., p. 226.

348 “Assavoir mon se ces fillettes/ Qu’en parolles toute jour tien/ Ne furent ilz femmes honnestes” (VILLON, F.

106 Amavam
em
lugar
secreto,
 Sem
querer
dar
chance
a
mais
gente.
 No
entanto,
a
que
amava
um
somente
 Tão
pródigo
é
o
amor
na
mulher
 Que
ao
tê­lo
longe
ou
mesmo
ausente
 Já
prefere
amar
a
um
qualquer349

Segundo
 o
 lugar
 comum
 da
 traição
 dos
 homens
 pelas
 mulheres,
 a
 fidelidade
 ao
 amante
não
é
própria
às
mulheres,
pois
a
“natureza
feminina”
(nature
feminine)
é
querer
 amar
sempre
mais:
“O
que
as
leva
a
isso?
Imagino/
Sem
lhes
a
honra
difamar/
Que
é
do
 natural
feminino/
A
tudo
vivamente
amar”.350
Ao
fim
dessa
passagem,
Villon
associa
os


homens
 enganados
 pelas
 damas
 da
 digressão
 da
 Bela
 Armeira
 à
 figura
 dos
 “loucos
 amantes”.
Depois
dessa
passagem,
o
poeta
amplifica
o
lugar
comum
da
perturbação
do
 amor
sobre
o
espírito
do
amante.



Na
 poesia
 dos
 trovadores,
 esse
 lugar
 comum
 é
 freqüentemente
 utilizado
 para
 descrever
a
metamorfose
do
mundo
à
volta
do
amante
apaixonado.351
Em
uma
canção,


Bernard
 de
 Ventadorn
 afirma
 que
 o
 fino
 amor
 o
 protege
 contra
 a
 brisa.352
Esse
 lugar


comum
 foi
 retomado
 pela
 poesia
 satírica
 
 contra
 o
 amor
 no
 séc.
 XV
 na
 França.353

Descrevendo
a
metamorfose
do
mundo
à
sua
volta,
Villon
amplifica
por
meio
de
diversas
 imagens
 a
 sua
 perda
 completa
 da
 razão
 por
 causa
 do
 amor.
 As
 diversas
 imagens
 desenvolvidas
 sobre
 o
 engano
 do
 amor
 são
 associadas
 à
 sua
 própria
 experiência
 







349 “Or firent selon le décret/Leurs amys, et bien y appert/ Ilz amoient en lieu secret. Car autre d’eulx n’y avoit part/ Toutesfos, ceste amour se part/ Car celle que n’en avoit qu’un/ D’iceluy s’eslongne et despart/ Et aime mieulx amer chascun” (VILLON, F. Testament, LXII. Tradução de Afonso Felix de Sousa, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1987, p. 56).

350 “Qui les meut a ce? J’ymagine/ Sans l’onneur des dames blasmer/ Que c’est nature feminine/ Qui tout vivement veut amer” (VILLON, F. Op. cit., p. 153).

351 “Quar enaissi o enverse/ Quel bel plan mi semblon tertre/ E tenc per flor lo conglapi/ El cautz m’es vis quel freit trenque/ El tro mi son chaut e siscle/ E paro.m fulhat li giscle/ Aissi.m suy ferms lassatz en joy/ Que re no vey que.m sia croy” (“Pois de tal forma as coisas transfiguro, que as belas planícies me parecem penhas, tenho por flor o sereno, o calor me parece cortar o frio, os trovões me são cantos e silvos, e os galhos secos me parecem cobertos de folhas. Estou de tal forma imerso na alegria, que nada vejo que me seja vil”) (RAIMBAUT D’AURENGA In: SPINA, S. Lírica trovadoresca, p. 123).

352 “Tant ai mo cor ple de joya/ Tot me desnatura/ Flor blancha vermelh’e groya/ Me par la frejura/ (...) Anar posc ses vestidura/ Nutz en ma chamiza/ car fin’amors m’asegura/ de la freja biza” (“Trago o coração tão cheio de alegria, que tudo se me transfigura. O frio me parece flor amarela, branca e vermelha (...) Posso andar sem roupas, desnudado sob minha camisa, pois o amor perfeito me protege contra a brisa fria”) (BERNART DE VENTADORN, II, v. 1-4; 9-12. In: SPINA, S. Op. cit. p. 136).

353

“Faisant d’une umbre une figure/ D’ung pertuiz une pourtraiture/ D’ung charbon ung petit enfant/ De la flamme ung oyseau volant/ D’une courtine ung apparoit/ D’ung pot ung homme qui dançoit/ Ainsi me tenoit Folle Amour” (RENÉ D’ANJOU, "L’Abuzé en court", In : ZUMTHOR, P. Anthologie des Grands

107

amorosa
 no
 exórdio
 do
 Pequeno
 Testamento:
 “Eis‐me
 de
 amores
 abusado”.354
Nas


últimas
estrofes
dos
Lamentos
do
Grande
Testamento
(LXV–LXXI),355
Villon
transforma
a
 sua
própria
experiência
amorosa
no
passado
em
exemplo
do
louco
amor:


 Já
lancei
o
meu
penacho
ao
vento
 Quem
quiser
o
arrebate
agora
 Calo
de
vez
os
meus
inventos
 Pois
já
chegou
a
vez
e
a
hora
 E
se
alguém
a
pergunta
lança
 ’Por
que
és
do
amor
tão
zombeteiro?
 Deixo
este
dito
como
herança
 Quem
morre
diz
tudo
ao
herdeiro356 
 Nessa
estrofe,
Villon
afirma
que
já
fez
parte
da
sagrada
comunidade
dos
amantes,
 mas
que
atirou
o
seu
penacho
ao
vento
(símbolo
dessa
comunidade).
Lembrando
de
sua
 renúncia
ao
amor,
Villon
apresenta
o
amor
como
uma
vanidade
humana,
metaforizada
 na
imagem
do
penacho
ao
vento.
A
lírica
amorosa
da
época
proibia
a
“maledicência
do
 amor”.
Bernart
de
Ventadorn
afirma
em
uma
canção:
“Os
néscios
maldizem
o
amor
por
 ignorância”.357
Em
 A
 Dama
 leal
 no
 amor,
 o
 ataque
 à
 reputação
 da
 dama
 é
 duramente


reprovado.358
Um
dos
dez
mandamentos
da
arte
de
amar
exposta
na
Retenue
d’Amour
de


Charles
d’Orléans
é
elogiar,
não
maldizer
o
Amor.359



No
final
dos
Lamentos
na
primeira
parte
do
Grande
Testamento
(LXXI),360
Villon


se
defende
da
acusação
de
maldizer
o
amor.
Segundo
a
figura
da
antecipação,
ele
coloca
 na
 boca
 de
 um
 adversário
 hipotético
 a
 acusação
 de
 maldizer
 o
 amor.
 Ele
 se
 defende
 dessa
 acusação
 com
 o
 provérbio
 final
 da
 estrofe,
 pois
 o
 poeta
 que
 escreve
 as
 suas
 últimas
 palavras
 antes
 de
 morrer
 não
 tem
 motivo
 para
 não
 dizer
 a
 verdade.
 Mas
 o
 provérbio
satiriza
os
poetas
líricos
pois,
apresentando‐se
sob
a
figura
do
franco,
Villon
 







354 “Ainsi m’ont amours abusé” (VILLON, F. Op. cit., p. 163). 355 VILLON, F. Op. cit., p. 160.

356

“Car j’ay mys le plumail au vent/ Or le suyve qui a attente/ De ce me tais doresnavant/ Car poursuivre vueil mon entente/ Et s’aucun m’interroge ou tente/ Comme d’Amours j’ose mesdire/ Ceste parolle le contente/ Qui meurt a ces hoirs doit tout dire” (VILLON, F. Op. cit, p. 164).

357 “Que amor blasmen per no-saber/ fola gens” (BERNART DE VENTADORN In: SPINA, S. Op. cit., p. 133). 358

La Dame loyale en Amour, str. LXXXIV, In : CHARTIER et al., Op. cit., p. 224.

359 (D’ORLÉANS, C. "La Retenue d’Amours" In: D’ORLÉANS, C. Ballades et rondeaux, tradução, apresentação e notas de J.-C. Mühlethaler, Paris, Librairie Générale Française, 1992, p. 52).

108

ataca
a
hipocrisia
dos
amantes
que,
constrangidos
pelas
relações
de
vassalagem
com
a
 sua
dama,
não
são
livres
para
dizer
a
verdade
sobre
o
amor.


Apesar
de
o
Grande
Testamento
retomar
o
tema
da
separação
amorosa
tratado
no


Pequeno
 Testamento,
 ele
 assume
 uma
 perspectiva
 inteiramente
 diferente
 sobre
 a
 sua


experiência
passada.
Os
Lamentos
da
Bela
armeira
(XLVII‐LVI)361
espelham
os
lamentos


do
próprio
Villon
pelo
o
seu
amor
na
juventude
(LVIII‐LXXI),362
desdobrando
em
abismo


um
 lamento
 dentro
 do
 outro.
 No
 gênero
 do
 debate,
 Villon
 discute
 em
 seguida
 as
 conseqüências
 morais
 dos
 Lamentos
 da
 Bela
 Armeira,
 posicionando‐se
 como
 um
 defensor
do
Romance
da
Rosa
naquela
célebre
polêmica.
Como
foi
visto
neste
capítulo,
o


Grande
 Testamento
 retoma
 em
 diversas
 passagens
 o
 Pequeno
 Testamento
 nos
 legados


burlescos
e
na
reflexão
sobre
o
amor
no
final
dos
Lamentos.











361 VILLON, F. Op. cit., p. 136-147. 362 VILLON, F. Op. cit., p. 148-164.

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110