COMUNIDADE DOS SONHOS10.
Elias e Scotson (2000) estudaram uma comunidade na Inglaterra chamada Winston Parva. Neste local, havia dois grupos muito semelhantes em todas as características: padrões habitacionais, nacionalidade, ascendência étnica, tipo de trabalho, renda, nível educacional etc. A única diferença era quanto ao tempo de residência naquela região. Um grupo já morava ali há três gerações e o outro grupo era recém chegado. Apesar de todas estas semelhanças, o grupo mais antigo se declarava "melhor" e "superior" com relação ao grupo recém chegado. Além disso, o grupo recém chegado aceitava esta descrição como verdadeira e a incorporava para si.
Na Comunidade dos Sonhos, vemos uma situação parecida. Lá, moram migrantes nordestinos e também uma pequena comunidade de emigrantes-imigrantes bolivianos. Apesar dos migrantes nordestinos terem sofrido com os preconceitos ao chegarem em São Paulo; reproduzem hoje os mesmos preconceitos com relação aos emigrantes-imigrantes bolivianos. Assim como perderam a identidade ao serem todos chamados de "baianos" independentemente do estado de origem. Hoje, chamam todos os emigrantes-imigrantes de "boliva". Este preconceito também se manifesta de diversas outras maneiras. Nestes anos de convivência com os moradores da comunidade, ouvi alguns relatos que descrevem este preconceito. Uma emigrante-imigrante boliviana me relatou que não tinha comprovantes de endereço para abrir conta bancária, pois não recebia nenhuma correspondência. Quando perguntei o motivo, ela me respondeu que os vizinhos rasgam as suas cartas por ser boliviana. Outro relato é o de uma mãe de um adolescente que estava planejando retornar para a Bolívia para passar dois anos lá e retornar ao Brasil somente depois que o filho terminasse o ensino médio, pois o seu o filho não conseguia fazer amizades no Brasil e sofria bullying na escola. Um terceiro relato que descreve esta discriminação entre os grupos é de um senhor emigrante- imigrante que retornou bêbado de uma festa. Ao tentar entrar em casa, foi impedido por um grupo de moças. Na confusão, elas começaram a gritar e a dizer que ele estava agarrando-as. O grupo que cuida do tráfico na comunidade ficou sabendo da situação e
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o expulsou da comunidade. Porém, outros bolivianos mais articulados e com mais tempo de residência na comunidade foram conversar com as meninas e descobriram que a história não era verdadeira. O emigrante-imigrante não tentou agarrá-las. Elas é que inventaram a história. Mas o emigrante-imigrante já tinha se mudado e não retornou.
Ao estudar os motivos para estes comportamentos grupais em Winston Parva, Elias e Scotson (2000) perceberam que este comportamento não está vinculado ao indivíduo somente. Este comportamento está ligado ao grupo ao qual ele pertence. Este sentimento de ser pessoas "melhores" está ligado a um sentimento de carisma grupal. Relaciona-se também ao grau de coesão interna e de controle comunitário do grupo que se sente superior. A estigmatização do grupo recém chegado (outsiders) pelo grupo mais antigo (estabelecidos) é uma arma de preservação da identidade, mantendo os "outros" em seus "respectivos lugares". O que mantém esta situação é o desequilíbrio de poder na relação entre os grupos. Este poder não está relacionado necessariamente ao tamanho do grupo. Para provar isso, Elias e Scotson (2000) descrevem a história de um pequeno grupo que entrou na Índia pelo norte, que falava uma língua Indo-europeia e que se descrevia como arianos de pele clara. Este grupo estabeleceu uma relação de poder com a população da Índia, se descrevendo como "superiores". A população da Índia aceitou esta descrição de serem "inferiores" mesmo sendo numericamente maior. Este fato perseverou mesmo depois que as características físicas deste grupo menor se desfez. Como não havia muitas mulheres no grupo menor, eles permitiam a relação com as mulheres subjugadas, fazendo com que diminuíssem as diferenças físicas com o tempo, mas não diminuiu o preconceito entre os grupos.
Elias e Scotson (2000) também descrevem que a relação de poder que sustenta a relação entre os estabelecidos e os outsiders não se baseia necessariamente na condição financeira. No caso de Winston Parva, não era isso que diferenciava os grupos. Elias e Scotson (2000) também relatam o caso dos "Burakumin" no Japão. Alguns deles são tão pobres quanto outros japoneses, e alguns "Burakumin" estão muito bem de vida. Mas o estigma permanece.
Os estigmas que os estabelecidos impõem aos outsiders também não se relacionam com características físicas segundo Elias e Scotson (2000). Pelo contrário, as características físicas são usadas para "objetivar" os estigmas. Quando não há esta diferenciação física, o grupo estabelecido pode criar uma. Elias e Scotson (2000) citam
novamente o exemplo dos "Burakumin" no Japão. Muitos japoneses dizem que os "Burakumin" possuem um sinal hereditário, uma mancha azulada abaixo das axilas com o intuito de "objetivar" e "naturalizar" o estigma. Pois assim, se desloca os motivos da estigmatização do campo das relações de poder para a natureza do indivíduo.
A capacidade de estigmatização de um grupo sobre o outro se relaciona com a diferença acentuada na coesão interna dos dois grupos e a relação assimétrica de poder entre eles. Uma ilustração deste fato é a incapacidade dos grupos outsiders de também estigmatizarem o grupo estabelecido. Os insultos não têm como envergonhar os membros de um grupo estabelecido, pois o equilíbrio de poder é desigual. Os insultos não têm poder de ferir o grupo estabelecido. Quando começar a ferir, é sinal de que a relação de forças está se alterando. Também vemos a diferença no poder de influência entre os grupos no fato do grupo dos outsiders deixar os insultos penetrarem na sua auto-imagem e desarmá-los (ELIAS e SCOTSON, 2000).
Os emigrantes-imigrantes bolivianos residentes na Comunidade do Sonhos têm uma capacidade de acumulação de capital muito maior do que os moradores migrantes do Nordeste brasileiro. Em menos tempo, eles conseguiram residências parecidas ou maiores do que as dos migrantes nordestinos. Também conseguiram adquirir automóveis mais rapidamente do que as famílias de origem nordestina. Na média, os emigrantes-imigrantes bolivianos também possuem um grau de escolaridade maior do que dos migrantes nordestinos residentes na Comunidade dos Sonhos. Apesar disso, a relação se estabelece de forma estigmatizante. Por detrás da ideia de "trabalhador escravo" ou de "boliva" desenha-se um conceito de pessoas "inferiores". As características físicas que distinguem facilmente os emigrantes-imigrantes são apenas formas de objetivar os estigmas.
Diante desta situação, os emigrantes-imigrantes bolivianos residentes na Comunidade dos Sonhos (assim como muitos outros bolivianos residentes em outras regiões) são bastante discretos e fechados dentro de seu grupo. Não saem muito, evitam qualquer tipo de confusão e se relacionam muito pouco com os não bolivianos.