Questionados acerca do que consideram estratégias institucionais existentes dentro da IES a fim de promover a inclusão, os entrevistados citam que a instituição estimula os alunos a praticarem a solidariedade, convidando-os a se engajarem como voluntários em projetos sociais patrocinados pela instituição (NP6-FN, NP6-FN, P9H-FM, P12M-FM) e oferta outras bolsas de estudo além daquelas destinadas ao ProUni (P12M-FM e PROF 04). A formação de grupos de estudo, prática comum dentro da universidade e extensiva a qualquer aluno do curso de Direito, embora não tenha como objetivo primeiro promover inclusão, é indicada por
NP4M-FN como estratégia importante, visto que “[...] tenta buscar estimular essa inclusão...
[...] um convívio social melhor. Que não ficava restrito ao ambiente de sala”. Observa-se que das menções feitas anteriormente, nenhuma delas destina-se especificamente à inclusão dos alunos prounistas, embora fosse esse o questionamento inicial. Dessas estratégias, a única que
realmente pode contribuir para a inclusão desses alunos é o grupo de estudos, mas que atende mais o objetivo de fomentar interesse científico do que a promover inclusão.
O aluno P7H-FN considera a instituição inclusiva por ter sido condescendente com ele, e lhe dado atenção a ele quando pegou “[...] quatro DPs, quando poderia ter pego duas só. Mas aí eles me chamaram pra conversar, pra ver o que estava acontecendo. Eu expliquei, eles me ajudaram. Dessa instituição eu não posso reclamar nada”. Para esse aluno, o apoio institucional é percebido como um comportamento inclusivo.
PROF 01 relata que na Faculdade de Direito, ela e alguns outros professores
combinaram entre eles: “Trabalho em grupo... não no primeiro mês. A gente só vai dividir grupo, a gente só vai estimular isso quandoa sala estiver composta, não entra mais ninguém”. Essa professora também considera que o Moodle (plataforma de ensino à distância utilizada na IES) “[...] é fantástico para inclusão, porque o professor manda mensagem para todos os alunos indistintamente”. Nas duas situações, tanto a articulação entre professores como a utilização do Moodle, embora não sejam estratégias para incluir, prestam-se a minimizar as exclusões que ocorrem no momento de formação de grupos e na comunicação de grupos, evitando a omissão de alunos prounistas das listas de e-mail, conforme apontado na categoria anterior.
Na IES pesquisada não há nenhuma estratégia de inclusão institucionalizada, e até mesmo entre os professores entrevistados as percepções são distintas, pois enquanto PROF
02 e PROF 03 afirmam nunca terem visto esse tipo de estratégias, PROF 04 considera que há
“[...] uma tradição (histórica) de inclusão, no bom sentido, em relação à IES. Então acho que a instituição tem suas estratégias”, porém, não indica quais são elas. As ações aqui apontadas mostram-se tênues diante dos relatos de exclusão anteriormente apontados, cabendo aqui ratificar a conclusão a que Krames (2010) chegou em sua pesquisa, apontando que o compromisso social das IES que aderem ao Programa precisa ser traduzido em ações concretas de acolhimento, orientação e acompanhamento aos alunos bolsistas, o que não pôde ser constatado na IES pesquisada. PROF 02 indica que a instituição deveria fazer um trabalho em torno do Programa, a fim de “[...] mudar a mentalidade da maioria que é contrária, porque as pessoas são contrárias, mas não conhecem”, o que informaria e favoreceria a inclusão. Isso, de acordo PROF 03, ocorre pois o pouco “[...] sentimento de acolhimento que está acontecendo é mais por formação dos próprios alunos do que por uma atitude interna da escola”.
Buscando identificar estratégias de inclusão utilizadas pelos outros alunos, as respostas obtidas giram em torno da opinião de NP5M-FM, que afirma nunca ter visto “[...]
alguém querendo incluir assim, ou algum projeto assim, vamos incluir tal pessoa”, e de P9H-
FM e PROF 04 e PROF 03, que dizem não conhecerem qualquer ação desse tipo. Verifica-se
que esse tipo de estratégia é incomum, pois dos 22 entrevistados, apenas PROF 01 relatou caso único em que uma ação inclusiva foi voluntariamente tomada por um grupo de alunas, conforme transcrição do relato:
Duas meninas eu me lembro que tiveram problema de acompanhamento e aí um grupo de meninas [...] elas se reuniram, e um dia na minha aula elas falaram: “Professora, você se incomoda se a gente fizer atividade em conjunto, cada uma vai fazer com uma”. Elas se dividiram entre si e foram ajudar as outras e elas fizeram assim. Essa tarde a fulana vai te explicar tudo o que aconteceu dessa disciplina. Elas se organizaram e depois de um tempo elas já vieram... Essa foi uma coisa que me marcou também, porque foi bem espontâneo, será que se a gente ser revezar, porque uma não dá pra fazer tudo, mas se cada uma fizer uma parte... Foi bem legal isso.
Quando as ações institucionais falham, o aluno prounista adota suas próprias estratégias a fim de lidar com os estímulos do ambiente, quer de acolhimento ou de rejeição. Uma forma, considerada por alguns entrevistados eficiente, de buscar conquistar o próprio espaço dentro da instituição é quando o aluno prounista consegue se impor frente aos outros alunos, a fim de garantir respeito, sua própria identidade e direito de estar ali, conforme evidenciado nas falas:
A gente estava numa aula de Sociologia e o professor estava falando sobre essa ajuda do governo, até que um aluno, bem “reaça” [reacionário] da sala fez um comentário bem ruim [...] “que você não tem que dar o peixe, tem que ensinar a pescar” e ela [a aluna prounista) foi pra cima mesmo... (entrou na discussão e argumentou]: “Tem que dar oportunidade mesmo, nem todo mundo pode pagar a faculdade. Você não sabe o quanto é difícil pagar uma faculdade. Você tem pais que pagam para você. Você consegue isso. Seus pais ganham o suficiente” [...] Aí ele se posicionou mesmo. Foi bem legal. Daí ele ficou quieto (NP2M-FM).
Eu já ouvi algumas coisas [...] Mas assim, eu já cortei ela [amiga não prounista que fez comentário preconceituoso sobre o lugar que ela mora] e coloquei ela no lugar dela, então parou... Mas, acho que eu sei me impor (P12M-FM).
Essa minha aluna se revelou prounista porque pra ela virou uma bandeira, pra ela é um... pra ela, ela coloca, são as armas que ela põe na mesa, fala assim, ó “eu sou mulher negra, Ieszista, prounista e se você tem algum problema com isso, por favor, fale agora ou cale-se para sempre” (PROF 04).
Ferdman (2014) volta especial atenção para a experiência psicológica de inclusão e para a responsabilidade do indivíduo em conseguir incluir-se. O autor assinala que a autoinclusão pode reduzir os resultados negativos e aumentar os resultados positivos para o indivíduo, trazendo benefícios tanto para ele quanto para a instituição. Ao falar da autoinclusão, o autor ressalta que não está com isso negando ou mesmo minimizando a
importância de combater a opressão, a discriminação ou qualquer outro impedimento estrutural para a inclusão.
Considera-se comportamento de autoinclusão dos alunos prounistas as iniciativas de envolvimento em atividades fora de classe, quer sejam as atividades sociais, grupos de estudos, monitorias, Atlética, Centro Acadêmico, iniciação científica, busca proativa de expandir as redes de contatos. A análise dos dados permite uma clara relação entre as características pessoais do aluno com sua iniciativa de autoinclusão, verificando-se que todos os alunos que se autodefinem como mais expansivos envolvem-se em outras atividades fora de classe e de igual modo, os alunos que se consideram retraídos restringem suas atividades acadêmica à sala de aula, com exceção de um aluno (P8H-FM), que diz ter participado de grupo de estudos somente para contar horas complementares, o que indica também a não participação em outros tipos de eventos. Percebe-se que alguns alunos se envolvem paralelamente em atividades diversas, como é o caso de P1H-IM e P5M-IN, enquanto outros não participam de nenhuma atividade, conforme mostra o Quadro 6.
Quadro 6 - Estratégias de autoinclusão dos alunos prounistas
Fonte: Elaborado pela autora.
ALUNO EXPANS IVO / RES ERVADO AUTOINCLUS ÃO S im / Não TIPO DE ATIVIDADE
P1H - IM Expansivo Sim Centro Acadêmico, Leituras livros, aproximação
outros alunos, bateria
P2M -IM Reservado Não Não participa em nenhum tipo de atividade -
Vai embora após aula - Dificuldade se ambientar
P3H - IN Reservado Não Não participa em nenhum tipo de atividade
P4M-IN Expansivo Sim Grupo Estudo, Iniciação, Fala com todos,
P5M-IN Expansivo Sim Monitoria, Representante sala, Grupo Estudo,
Teatro, Plantão de dúvidas, Temperamento ajuda
P6M-IM Reservado Não Não participa em nenhum tipo de atividade
P7H-FN Expansivo Sim Sai com turma, Grupo de Estudos
P8H-FM Reservado Não
Não participa em nenhum tipo de atividade - Vai embora após aula - Tentou Atlética e Grupo Estudo só pelas horas complementares
P9H-FM Expansivo Sim Sai às vezes com turma, não se envolve muito mas
fala com todos. Entrou na Atlética mas não gostou
P10H-FN Reservado Não Não participa em nenhum tipo de atividade.
Agrupa-se com outros prounistas - Sentam juntos
P11M-FM Expansivo Sim Grupo Estudo, Iniciação Científica
P12M-FM Expansivo Sim Entrou Grupo Estudo, mas saiu por morar longe. Sai
A influência das características pessoais para a experiência de inclusão é exemplificada na situação de participação dos alunos de Direito nos Jogos Jurídicos. P6M-
IM, que é uma pessoa retraída e não se envolve em outras atividades, justifica não participar
dos jogos porque
[...] quem vai nos jogos jurídicos é esses grupos já formados. Então, assim, eu prounista, esse colega que eu falei pra você que é prounista, a gente não tem um grupo e mesmo que a gente tivesse condição financeira pra ir, a gente ficaria meio que de canto. Eu acho que a questão dos jogos jurídicos é esse compartilhar, e aí, você ir lá para ficar de canto não é muito legal. No entanto, NP6-FN relata que
[...] eles [os alunos prounistas] sempre estão com a gente. Jogos jurídicos todo mundo junto. Tanto é que foi uma aluna, que inclusive é prounista, foi ela que separou a casa de uma amiga dela, e foi a sala inteira pra casa que era de uma amiga dela na cidade. Então, assim não tem nada de mais.
Ferdman et al. (2009) consideram a experiência de inclusão como a percepção dos indivíduos de quão seguros, confiados, aceitos, respeitados, suportados, valorizados, engajados e autênticos se sentem em seus ambientes, tanto como indivíduos quanto como membros de um grupo particular de identidade. Expressões utilizadas por alunos prounistas evidenciam que alguns deles vivenciam uma experiência de inclusão dentro do ambiente acadêmico da IES. PROF 02 afirma que P4M-IN “[...] ela é muito inserida com as meninas de classe alta da sala, é amiga de todo mundo, superquerida na sala”; a aluna diz que ser incluída faz parte da sua característica, que se sente à vontade para discordar e se posicionar:
Eu discordei dele [colega de sala com pensamento divergente do seu] na frente de toda a classe, e aí travamos o maior debate. E eu discordo mesmo. Discordei dele e disse: tá. Se fundamente que eu vou me fundamentar também.
P9H-FM também se considera livre para se expressar, porém seus colegas não
sabem que ele é aluno prounista, portanto não é possível determinar se sua experiência de inclusão seria a mesma se sua identidade de prounista fosse conhecida. Ele afirma que:
Eu não tenho problema em divergir, desde que seja fundamentado. Sempre quando a questão era polêmica eu me sentia a vontade para perguntar.
P05M-IN demonstra engajamento e pertencimento quando diz participar de tudo
igual ou mais do que os alunos não prounistas e considera ser uma IESZista, o que indica que se sente incluída, uma vez que:
[...] eu tenho amigos que não são bolsistas e não têm a metade da integração que eu tenho aqui dentro. Para mim, ser um prounista não muda em nada, ser prounista é ser IESzista.
P7H-FN considera que foi bem recebido, encontrou uma sala receptiva, se expressa
livremente e conta que:
O primeiro semestre foi terrível. Cheguei a perder a bolsa inclusive. Eu só fui me recuperar mesmo no terceiro, eu pegava todas as DPS, aí o pessoal da minha sala passou a estudar juntos... grupos de estudo, aí ficou melhor. E melhorou o desempenho realmente.
P11M-FM considera que teve uma experiência positiva durante sua formação, uma
vez que gosta muito da IES e considerou-se valorizada quando os amigos saíram com ela para comemorar seu aniversário, destacando esse momento com o ponto máximo de experiência de inclusão, contando que:
É porque eu gosto muito [de estudar aqui], então todos os dias meus são muito felizes. Tenho que pensar numa [experiência de inclusão] extra. Teve um dia que eu fiz aniversário, a gente saiu e foi todo mundo comemorar, esse foi um dia especialmente feliz.
P12M-FM relata como sua experiência mais positiva dentro da IES foi a de poder
compartilhar seu conhecimento com outros colegas, ensinando-os a matéria antes das provas, uma forma de se sentir aceita, respeitada e valorizada pelo por eles, afirmando que:
Às vezes eu gostava de estudar e antes da prova ensinar os meus amigos que não estudaram muito, sabe, eu gosto disso.
Alcançar o objetivo de incluir socialmente, de incluir também no sentido de proporcionar ao aluno um senso psicológico de pertencimento, a partir do qual possa dizer de si mesmo que é IESzista, porque não existe diferenças de tratamento dentro da IES seria o ideal. A percepção de que alguns desses alunos conseguem trazer parte de si mesmos para esse ambiente no qual diferem do perfil social predominante apresenta-se como uma perspectiva positiva, embora aparentemente parte do mérito esteja no próprio aluno e não no ambiente. Para Davidson e Ferdman (2001), valorizar a diversidade e as diferenças requer que políticas, estruturas e normas de comportamento sejam alinhadas de tal forma que os membros da comunidade se sintam respeitados e incluídos, porém assinalam que a verdadeira inclusão extrapola essa compreensão. Defendem que um pensamento de diversidade requer que a organização enfatize ao mainstream que o objetivo não é que eles deixem de ocupar tal posição, mas que esse espaço possa ser ampliado de forma a beneficiar a todos e que se busque construir um espaço em que todos se encaixem. O ProUni pode ser pensado por essa
ótica, uma vez que não são suprimidas vagas dos outros alunos, porém parte do mainstream aparentemente considera que estão em uma disputa pela vaga e pelo espaço social. Na ausência de políticas e ações alinhadas com o objetivo de valorizar a diversidade, para o alcance de tal objetivo dentro da IES estudada há um longo caminho a ser percorrido. Será necessário maior comprometimento institucional, dos outros alunos e engajamento dos professores, a fim de que nesse ambiente as pessoas tenham comportamentos inclusivos em decorrência dos quais a experiência de inclusão seja possível.