Ora a verdade é que estas questões que verificámos e que atrás sumariámos, não são exclusivas dos autores de história religiosa conforme vamos ver agora ao percorrer os autores portugueses que se dedicaram mais à história “profana”, alguns dos quais membros do clero regular e secular. Seguiremos a mesma metodologia que para os
88 Cf. nota biográfica disponível no sítio Web do Colégio Brasileiro de Genealogia
http://www.cbg.org.br/novo/colegio/historia/patronos/frei-antonio-jaboatao/.
89 História da Igreja em Portugal. Nova ed. preparada e dirigida. por Damião Peres. Lisboa: Civilização,
1970, vol. III, p. 451. Fortunato de Almeida faz, aliás, apreciações aos diversos autores e às suas obras, por vezes contundentes. Por exemplo, sobre frei Bernardo de Brito, refere que não é história mas sim “novela elegíaca” (p. 452), acerca de frei Luís de Sousa elogia a História de S. Domingos pelo estilo mas acrescenta que “padece defeitos em parte derivados da ingénua credulidade do autor, em parte das memórias indigestas e informes do Cácegas, nas quais se apoiou” (p. 453), no tocante a frei Pedro Monteiro e a sua História da Inquisição indica que está “cheia de erros, lacunas e outros defeitos” (p. 456). Merece-lhe elogios, por exemplo o padre João de Lucena que escreveu a vida de S. Francisco Xavier “Obra notabilíssima” (p. 457) e frei Belchior de Santa Maria que considera muito bom, enquanto os seus continuadores não o são (p. 452).
527 autores religiosos e começaremos por apresentar os que têm mais obras e/ou edições provindas dos conventos de Lisboa quer existentes na BNP quer verificadas nos catálogos.
A Asia constitui, como é sabido, uma obra monumental a que João de Barros (1496-1570) se dedicou, dividindo-a em décadas conforme o modelo de Tito Lívio. Dotado de uma apreciável formação humanista, a sua obra histórica, de que se perderam várias partes, reflecte um conhecimento alargado de autores que, desde a Antiguidade, escreveram sobre o Oriente, bem como um aproveitamento da documentação que no exercício do seu cargo na Casa da Índia lhe terá passado pela mão. A intenção “modelar”, desta feita não centrada na religião, mas sim na descrição dos feitos dos portugueses, torna-o “um dos expoentes e um dos porta-vozes destacados da ideologia expansionista da coroa portuguesa do século XVI”90. Na Lista (nº 95) encontramos a edição em italiano, editada em 1562, com proveniências da casa do Espírito Santo e do convento de S. Francisco de Xabregas, ao qual pertence também o primeiro volume da de Lisboa, 1552. Em S. Vicente existiam as Décadas, da primeira à quarta, na edição de 1628, como se verificou no catálogo, edição essa que o convento de Nossa Senhora dos Remédios também possuía e de que existem os primeiro e segundo volumes na Biblioteca Central da Marinha. Da edição de 1615, com revisão e acrescentamentos de João Baptista Lavanha (c. 1550-1624)91, não encontrámos qualquer exemplar.
Quanto às Décadas de Diogo do Couto (1542-1616)92, cronista-mor da Índia e incumbido de dar continuidade à obra de João de Barros, está na Lista (nº 273) a referência ao exemplar da quarta que o catálogo da biblioteca de S. Vicente inclui, relativo à edição de 1602, feita por Pedro Craesbeeck no colégio de Santo Agostinho de Lisboa. As lacunas nesta importante área da nossa historiografia não ficam por aqui. Encontram-se apenas no catálogo de S. Vicente e em edições tardias do século XVIII, as obras de Damião de Góis (1502-1574)93, Chronica do Sereníssimo Senhor D.
90 BUESCU, Ana Isabel – Barros, João de (1496-1570). Disponível em:
http://www.fcsh.unl.pt/cham/eve/content.php?printconceito=762.
91 Estudou em Roma, foi professor de Matemática e cosmógrafo-mor, no tempo de Filipe II. Nomeado
cronista-mor por Filipe III, sucedeu no cargo a frei Bernardo de Brito. Cf. BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 549-551.
92 BARBOSA MACHADO, vol. I, p. 631-634.
93 Notável humanista que viveu largos anos fora de Portugal foi guarda-mor da Torre do Tombo. Sobre
528
Manoel..., na edição de 1749 (Lista nº 429), de Fernão Lopes de Castanheda (1500- 1549)94 a Historia do descobrimento e conquista da Índia pelos Portuguezes, impressa em dois volumes, no ano de 1797 (Lista nº 202) e de António Galvão (1490-1557)95 o Tratado dos descobrimentos antigos e modernos feitos até a era de 1550..., publicado em 1731 (Lista nº 405).
Igualmente de formação humanista mas dedicando-se a uma área diferente dentro da história portuguesa, André de Resende (1498-1573) que frequentou algumas das mais destacadas universidades europeias, como Paris, Alcalá, Salamanca e Lovaina, foi teólogo, músico, poeta e arqueólogo. Professou na Ordem dos Pregadores mas mudou para clérigo em 1540, devendo-se-lhe as primeiras obras no domínio das “antiguidades”, dedicadas a Portugal e, mais concretamente, a Évora96. Do Libri
quatuor de antiquitatibus Lusitaniae... está referenciado na Lista o exemplar da edição de Évora, 1593 que pertenceu à casa do Espírito Santo e a BNP possui ainda os exemplares que pertenceram aos conventos de Scala Coeli, em Évora e de Monserrate, em Sintra. Da Colleçam das antiguidades de Évora, em edição de 1785, existe referência no catálogo de S. Vicente (Lista nº 853).
Numa outra área temática da História surge Nicolau Coelho de Amaral (?- 1568), OSST, da geração de André de Resende, teólogo, pregador, músico e matemático que foi aluno de Pedro Nunes97. Deixou escritas as obras Chronologia seu ratio
temporum maxime in theologorum atque bonarum literarum studiosorum gratiam e
Monostichon de primis hispanorum regib. Lib. Primus, ambas impressas em 1554 e de que a BNP possui de ambas, os exemplares que foram dos conventos da Graça e de S. Francisco de Xabregas (Lista nº 25).
Góis economista e agente económico da coroa portuguesa. In: Damião de Góis, um humanista na
Torre do Tombo. Lisboa: IANTT, 2002, p. 14-19.
94 Guarda-mor do arquivo da Universidade de Coimbra, intentou escrever uma história dos portugueses
no Oriente para o que, de acordo com Barbosa Machado (ob. cit., vol. II, p. 27-29), consultou documentação em arquivos e cartórios e recolheu testemunhos orais, até porque viveu em Goa. A sua obra, parte da qual publicada postumamente, foi traduzida e editada noutros países.
95 Filho de Duarte Galvão, cronista-mor de D. Afonso V, foi capitão das Molucas, tendo permanecido no
Oriente entre 1527 e 1540. A sua obra publicada pela primeira vez em 1563 é considerada um relato exacto e exaustivo das conquistas feitas por portugueses e espanhóis até 1550 e foi traduzida por Richard Hakluyt (c. 1552- 1616) e publicada em 1601. Cf. GONÇALVES, Maria Paula – António
Galvão (?-1557). Disponível em: http://www.fcsh.unl.pt/cham/eve/content.php?printconceito=1186.
96 BARBOSA MACHADO, vol. I, p. 158-167. 97 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 482.
529 Figura 3 – RES. 1195 P.
Duarte Nunes de Leão (1530?-1608) escreveu obras de diversos géneros como jurista, linguista e historiador. Apresenta na sua Descripção do reino de Portugal, uma concepção da história da nação que cobre a parte geográfica e económica, o contexto político desde a Antiguidade e a história religiosa plasmada na multiplicidade de santos e santas originários do território98. Dessa obra editada em 1610, encontrámos referência no catálogo de S. Vicente sendo que o exemplar que pertenceu a S. Francisco de
530 Xabregas, está na Biblioteca Central da Marinha. Na Lista vemos também que S. Vicente tinha exemplares de outras duas obras, a Genealogia verdadera de los reyes
de Portugal con sus elogios y summario de sus vidas, impressa em 1608, que localizámos na BNP e a Primeira parte das Chronicas dos reis de Portugal, na edição tardia de 1774, de que só temos registo no catálogo. Nesta obra, Nunes de Leão apontou erros que vinham de crónicas anteriores e procurou rectificá-los. Na BNP existe um outro exemplar da Genealogia que pertenceu ao colégio jesuíta de S. João Evangelista, em Lisboa (Lista nº 571).
Historiador e poeta, Diogo Paiva de Andrade (1576-1660) publicou o Exame
d’antiguidades…: arte primeyra repartida em doze tratados onde se apurão historias, opiniões & curiosidades pertencentes ao reyno de Portugal & a outras partes desd’a criação do mundo até ao anno 3403, em 1616, obra que contém críticas à Monarchia
Lusitana de frei Bernardo de Brito que, por sua vez, pusera em causa o seu antecessor no cargo de cronista-mor do reino que fora Francisco de Andrade, pai de Diogo Paiva de Andrade99. Na BNP está o exemplar do convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete e outro que veio do mosteiro de Alcobaça. A Biblioteca Central da Marinha tem o exemplar da casa do Espírito Santo (Lista nº 34).
Na produção seiscentista portuguesa, o Livro das grandezas de Lisboa, da autoria de frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), OSST, publicado em 1620, procura dar um tipo de informação de natureza quantitativa a acompanhar a descrição da capital, de modo a realçar as suas “grandezas”100. É do convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete que há um exemplar na BNP, existindo o que pertenceu ao convento de Santo António dos Capuchos, na Biblioteca Central da Marinha (Lista nº 736).
Frei Pedro de Poiares (?-1678), franciscano da província da Piedade compôs o
Diccionario lusitanico-latino de nomes próprios de regioens, reinos, províncias, cidades... que foi publicado em 1667 e que constitui um corpus que o seu autor pretendia fosse de auxílio quer para os pregadores quer para os estudiosos da História
99 BARBOSA MACHADO, vol. I, p. 670-672. A polémica não terminou com a publicação do Exame
d’antiguidades pois o cisterciense frei Bernardino da Silva (?-1641), sobrinho de frei Bernardo de Brito, veio em defesa do tio publicando a Defensam da Monarchia Lusitana (Coimbra, 1620-1627, 2 vol.). A BNP tem o exemplar que pertenceu à biblioteca do mosteiro de Alcobaça.
531 eclesiástica, a fim de conhecerem os nomes que os locais tinham tido na Antiguidade101. Desta obra, a BNP tem os exemplares do convento dos Remédios e, mais uma vez, do de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete e a Biblioteca Central da Marinha, tem o do mosteiro do Santíssimo Sacramento (Lista nº 764).
Num género descritivo diferente, o relato de viagem, há a destacar dois autores do século XVI. Gaspar Barreiros (?-1574) escreveu a Chorographia de alguns
lugares... começado na cidade de Badajoz em Castella te á de Milam em Itália...,
baseando-se na viagem que ele próprio empreendeu para receber o barrete cardinalício para o infante D. Henrique, e a pedido de seu tio João de Barros. A obra foi publicada em 1561 e dela existe referência no catálogo de S. Vicente (Lista nº 93). Amigo de André de Resende, Gaspar Barreiros estudou na Universidade de Salamanca e residiu vários anos em Roma, a mando do cardeal D. Henrique. Era muito conhecedor de Cosmografia e, nesse domínio, trabalhou para o Papa e para a corte portuguesa, na correcção de mapas. Tinha uma importante biblioteca de que restam alguns exemplares na BNP102.
O outro autor é o franciscano frei Pantaleão de Aveiro que escreveu o
Itinerário da Terra sancta e todas suas particularidades..., baseado na sua experiência pois empreendeu a pé essa viagem, tendo chegado à Terra Santa em 1563 e lá permanecendo por três anos103. A obra alcançou grande êxito e conheceu várias edições ao longo dos séculos. O catálogo de S. Francisco da Cidade regista a de 1600 e o de S. Vicente a de 1721 (Lista nº 757).
A época da Restauração é, como se sabe, muito profícua no que respeita à produção de textos apologéticos, de diferentes géneros. Entre os autores mais relevantes D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) ocupa lugar de destaque. Com uma carreira militar notável na Flandres e na Catalunha ainda no período filipino, esteve também na Alemanha, Holanda e Inglaterra. O advento da dinastia brigantina leva-o à prisão de onde passará para o Brasil até poder regressar a Portugal. Aplicou-se, então, numa obra literária de características multifacetadas combinando, como diz Barbosa Machado “os documentos de Filosofo Moral, as máximas de consumado Estadista, os
101 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 600 que refere sobre este autor que era “muito instruído na
Geografia do nosso Reino e na História assim Secular como Ecclesiastica”.
102 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 306-309. 103 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 502.
532 preceitos de Historiador elegante e as agudezas de Poeta sublime”104. Está bem representado no conjunto de obras que encontrámos e que reflectem também a produção literária “exemplar”, alguma da qual menos conhecida no trajecto deste autor. O Ecco
politico: responde en Portugal a la voz de Castilla... sobre los intereces de la Corona Lusitana y del Occeanico, Indico, Brasilico, Ethyopico, Arabico, Persico y Africano Imperio..., de 1645, pertence ao núcleo de obras que em Portugal foram oferecidas ou dedicadas a D. João IV e dele existe na BNP o exemplar que pertenceu à casa do Espírito Santo, a qual tinha na sua biblioteca a Historia de los movimientos y separasion
de Cataluña..., editada em 1696, cujo exemplar está na Biblioteca Central da Marinha, possuindo a BNP o exemplar de S. Bento de Xabregas.
As Epanaphoras de varia historia..., impressas em 1660, existiam em S. Vicente pois a obra vem referenciada no respectivo catálogo e a BNP tem o exemplar do mosteiro da Penha Longa. Quanto às obras hagiográficas, existe na BNP El fenis de
Africa Agustino Aurelio, Obispo Hypponense..., publicado em dois volumes nos anos de 1648-1649, com marca de posse do convento de S. João de Deus. O catálogo de S. Francisco da Cidade também o refere. Já da obra El mayor pequeño: vida y muerte
del serafin humano Francisco de Assis... encontrámos da segunda edição, de 1650, referências nos catálogos de S. Francisco da Cidade e de Santo Alberto (Lista nº 666).
533 Figura 4 – H.G. 14108 P.
Contemporâneo de D. Francisco Manuel de Melo e também diplomata e viajante interessado ainda que a sua obra, de géneros distintos, não tenha o mesmo relevo daquele escritor barroco, António de Sousa de Macedo (1606-1682) é um autor que se encontra nas bibliotecas religiosas de Lisboa105. Do Epitome panegyrico de la vida
admirable y muerte gloriosa de S. Rosa de Santa Maria virgen dominicana, incursão
534 que faz na literatura hagiográfica e que foi editado em 1670, tem a BNP o exemplar de Santo Alberto e há referência no catálogo de S. Francisco da Cidade. Das Flores de
España excelências de Portugal, en que brevemente se trata lo mejor de sus historias y de todas las del mundo..., numa edição já de 1737, encontrámos o exemplar com marca do mosteiro do Santíssimo Sacramento. Quanto à Genealogia regum Lusitaniae..., onde a intenção era, claramente, legitimar a dinastia brigantina, sabemos a partir do catálogo de S. Vicente de Fora que nele existia um exemplar da edição feita em Londres, no ano de 1643 (Lista nº 614).
Neste conjunto de escritores cuja vida se passa durante a dinastia filipina e na época de consolidação da brigantina, há a referir também Jacinto Freire de Andrada (1597-1657) que foi grande apoiante de D. João IV e muito próximo do príncipe D. Teodósio (1634-1653). Cultivou, como os autores anteriores, vários géneros literários mas distinguiu-se com a obra Vida de D. Joam de Castro, quarto viso-rey da
Índia que alcançou grande sucesso e não só no seu tempo, pois conheceu várias edições inclusive no estrangeiro, mesmo já no século XVIII106. A BNP não tem exemplares provenientes dos conventos de Lisboa, porém, da edição de 1671 há na Biblioteca Central da Marinha o exemplar que pertenceu a S. Francisco de Xabregas. No catálogo de S. Vicente existe referência à edição de 1786 e a uma impressa em Roma, em latim, no ano de 1727 (Lista nº 31).
Num género pouco cultivado em Portugal deve destacar-se a obra de Manuel Severim de Faria (1583-1655), Noticias de Portugal... que o padre teatino José Barbosa editou em 1740. O autor que fora chantre e cónego da Sé de Évora, distinguiu- se como historiador, arqueólogo, numismata e genealogista, procurando dar nas
Noticias, uma visão abrangente dos acontecimentos coevos da sociedade portuguesa, sob forma de discursos sobre diversos temas107. A obra foi reeditada em 1740, pelo padre teatino José Barbosa, integrada num processo de recuperação de autores humanistas portugueses, de que demos exemplos anteriormente, a propósito de historiadores como João de Barros, Diogo do Couto e Damião de Góis. Dessa edição encontrámos referência no catálogo de S. Vicente (Lista nº 357).
106 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 425-427.
107 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 362-368 que se lhe refere como “o mais celebre antiquário do
535 Também ausente das colecções religiosas que vieram para a BNP está Manuel de Faria e Sousa (1590-1649) que chegou a desempenhar o cargo de Secretário de Estado do Reino de Portugal e publicou a sua vasta obra quase sempre em Portugal. Grande erudito e polígrafo, escreveu geralmente em língua espanhola, enaltecendo as façanhas dos portugueses. As obras históricas saíram postumamente por iniciativa do filho108. No catálogo de S. Vicente encontramos referência à obra Historia del reyno de
Portugal..., edição tardia feita em Antuérpia, 1730 e ainda à Europa portugueza..., segunda edição em três volumes, de 1678-1680, Ásia portugueza..., também em três volumes, de 1666-1675 e Africa portugueza..., de 1681, de que existe, aliás, o exemplar que pertenceu ao convento dos Remédios, na Biblioteca Central da Marinha. Dessa proveniência e na mesma biblioteca há um exemplar da obra Epitome de las historias
portuguezas, de 1674 (Lista nº 1000).
Há a destacar ainda a acção de Manuel de Faria e Sousa em prol da publicação do Nobiliario do conde D. Pedro de Barcelos (c. 1280-1354), obra manuscrita que traduziu para espanhol e editou em Madrid, no ano de 1646. O catálogo de S. Vicente não assinala esta edição mas sim uma feita em Roma, no ano de 1640, em português, com o título Nobiliario dos Portuguezes..., da iniciativa de João Baptista Lavanha, cronista-mor do reino de Portugal, já referido anteriormente a propósito da Asia de João de Barros. Esta edição foi acusada de conter adulterações ao texto original (Lista nº 762) 109.
Nesta ronda pelos autores do fim da dinastia filipina e da época da Restauração, temos também os autores “hispanizantes”, desde logo Rodrigo Mendes Silva (1606- 1670), com um percurso de vida singular em Espanha, entre 1635 e 1659, posto o que fugiu para Veneza a fim de se converter ao judaísmo. Chegou a ser nomeado cronista- geral de Espanha, no tempo de Filipe IV mas a assunção da religião judaica e o processo na Inquisição, afastou-o do cargo110. Deixou várias obras de História, uma das quais de referência ainda hoje, a Población general de España: sus trofeos, blasones y
108 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 250-257.
109 De notar que do Nobiliario, existe uma cópia manuscrita do século XVII, de grande aparato, que
pertenceu ao bispo-inquisidor geral D. José Maria de Melo, cuja biblioteca foi legada aos oratorianos das Necessidades e do Espírito Santo, como se mencionou no capítulo III. Essa cópia que tem o ex-
libris do bispo e também o da casa das Necessidades, encontra-se na Torre do Tombo. Cf. PT/TT/LH/148.
110 Cf. RÉVAH, Israel S. – Le procès inquisitorial contre Rodrigo Méndez Silva, historiographe du roi
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conquistas heroycas... Da edição de 1645, a BNP tem o exemplar que pertenceu ao convento de S. Camilo e da de 1675 existe o exemplar de S. Francisco de Xabregas na Biblioteca Central da Marinha Também figura no catálogo de S. Vicente de Fora. A Lista (nº 977) apresenta ainda outros títulos de importância no âmbito da história genealógica espanhola, temática a que Rodrigo Mendes Silva muito se dedicou, como o
Catalogo real genealógico de España... de cujas edições de 1639 e 1656 se localizaram na Biblioteca Central da Marinha, os exemplares da casa do Espírito Santo e do convento de S. João de Deus, respectivamente. A BNP guarda duas obras genealógicas de carácter monográfico, o Discurso genealógico de la antigua família de Machado, de 1649 e o Memorial de la antigua y noble familia de los Gonzalez de Sepúlveda, de 1655, ambas com marca de posse do convento da Graça.
Outro historiador “hispanizante” foi Agostinho Manuel de Vasconcelos, inimigo declarado de Manuel de Faria e Sousa, que acabou preso e degolado no Rossio em 1641, por defender a fusão dos reinos de Portugal e de Espanha. Apesar de os estudos em Direito Civil que prosseguiu em Salamanca, dedicou-se sobretudo à Poesia e à História111. As suas obras biográficas e panegíricas foram editadas em Portugal e no estrangeiro, como sucede com a Histoire de la vie et des actions de D. Jean II,