As missões nos domínios ultramarinos suscitam um conjunto apreciável de edições nos séculos XVI e XVII, onde se destacam os escritores da Companhia de Jesus. Encontrámos, com proveniência dos conventos de Lisboa, algumas dessas obras. A BNP possui a Copia de las cartas que los padres y hermanos de la Compañía de
Jesus que andan en el Japon escrivieron a los de la misma Compañía de la India y Europa..., impressa em Coimbra, 1565, que pertenceu à casa do Espírito Santo e também um exemplar do colégio da Companhia, no Porto (Lista nº 260). Escrita pelo
75 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 21-22.
76 A propósito de Jorge Cardoso e da sua obra v. FERNANDES, Maria de Lurdes Correia – A biblioteca
de Jorge Cardoso (1669) autor do Agiológio Lusitano: cultura, erudição e sentimento religioso no Portugal Moderno. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2002.
523 padre Fernão Guerreiro (1550-1617) que foi vice-Prepósito da casa de S. Roque77 existe a Relaçam annal das cousas que fizeram os padres da Companhia de Jesus nas
partes da Índia Oriental & em alguas outras da conquista deste reyno no anno de 606 & 607..., impressa em 1609, que pertenceu ao convento feminino de Santo Alberto e de que há referência no catálogo de S. Francisco da Cidade (Lista nº 454). Das outras relações que o padre Fernão Guerreiro escreveu entre os anos de 1600 e 1608, consideradas de importância pelos elementos que contêm, sobre a história e a topografia dos reinos do Oriente, não se encontraram referências de proveniência religiosa de Lisboa.
Contemplando na narrativa também o género biográfico e reportando-se a uma personalidade fundamental das missões no Oriente, temos a obra do padre João de Lucena (1550-1600), pregador prestigiado, Historia da vida do Padre S. Francisco de
Xavier e do que fizeram na Índia os religiozos da Companhia de Jesu..., ainda que apenas na “ 2ª mas muy fiel edição feita por Bento Jozé de Souza Farinha”, em 1788 e publicada em quatro volumes78. Existe na BNP o exemplar que pertenceu a S. Francisco de Xabregas e há referências nos catálogos de S. Vicente e de S. Francisco da Cidade no qual existiria também um exemplar da mesma obra numa edição supostamente de 1630 que não encontrámos referenciada nas bibliografias, podendo tratar-se de erro do catálogo e ser um exemplar da primeira edição de 1600 (Lista nº 605). Esta obra suscitou muito interesse e foi editada várias vezes e traduzida para italiano e espanhol.
Encontrámos na BNP as obras de dois outros autores da Companhia de Jesus, os padres Manuel Ferreira (c.1630-17--) missionário no Oriente, especialmente em Tunquim79 e Francisco de Sousa (1649-1712) já nascido no Brasil mas tendo vivido praticamente sempre em Goa, onde foi Prepósito da casa professa80. Do primeiro existem as Noticias summarias das perseguições da missam de Cochinchina
principiada & continuada pelos padres da Companhia de Jesu..., editadas em 1700, no exemplar que pertenceu ao mosteiro do Santíssimo Sacramento. Tal como vimos em exemplo anterior, estas obras teriam existido também, como é óbvio, nas bibliotecas dos
77 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 25-26. 78 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 625-626. 79 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 262.
80 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 244-245. Sobre a obra diz que se distingue “pela clareza do
methodo, a elegância do estilo e a sciencia da Geographia e Chronologia, partes constitutivas de huma perfeita História […]”
524 colégios da Companhia e desta, guarda a BNP o exemplar que pertenceu ao colégio de Évora (Lista nº 363). Do segundo autor, existe na BNP da sua obra Oriente conquistado
a Jesu Christo pelos padres da Companhia de Jesus da província de Goa..., impressa em dois volumes, em 1710, o exemplar do convento de S. João da Cruz e localizámos o de S. Francisco de Xabregas na Biblioteca Central da Marinha. No catálogo de S. Francisco da Cidade há também registo desta obra (Lista nº 995).
De outros autores que constam na Lista não encontrámos exemplares pertencentes aos conventos de Lisboa na BNP. Estão nesse caso o padre Gabriel de Matos (1571?-1633) que escreveu a Relaçam da perseguiçam que teve a christandade
do Japam desde Mayo de 1612 até Novembro de 1614..., dada à estampa em 1616 e referida no catálogo de Santo Alberto, de cuja biblioteca já tínhamos indicado atrás uma obra do padre Fernão Guerreiro (Lista nº 656). O autor foi missionário no Japão e Reitor do colégio da Companhia, em Macau, conhecendo, portanto, os acontecimentos que relata81. O padre Manuel de Almeida (1578-1646) foi reitor do colégio de Baçaim, na Índia, tendo partido com outros jesuítas para missionar na Etiópia. Depois de ter sido de lá expulso, fixou-se em Goa onde veio a ser Provincial de toda a Índia82. Da sua
Historia geral de Ethiopia a Alta ou Preste João..., editada em 1660, consta apenas a referência em catálogo, desta feita do mosteiro de S. Vicente (Lista nº 17).
O padre Simão de Vasconcelos (1597-1671) que se fez jesuíta na Baía, onde estudou e mais tarde ensinou no colégio, acompanhou em 1641 o padre António Vieira (1608-1697) a Lisboa e a Roma. Regressou mais tarde ao Brasil, onde foi Provincial83. Escreveu a Vida do P. Joam d’Almeida..., que publicou em 1658 e que encontrámos indicada nos catálogos de S. Francisco da Cidade e, mais uma vez, no de Santo Alberto. A Vida do venerável Padre Joseph de Anchieta..., editada em 1672, consta no catálogo de S. Vicente (Lista nº 1069). O padre Manuel da Veiga (1566-1647) que, como diz Barbosa Machado “nunca quis mandar”84 publicou em 1628, a Relaçam geral do estado
da christandade de Etiópia..., da qual consta na Lista (nº 1070) o exemplar descrito no catálogo de S. Francisco da Cidade. Uma sua outra obra, a Vida, virtudes e doutrina
admirável de Simão Gomes português vulgarmente chamado o Çapateiro santo...,
81 BARBOSA MACHADO, vol. II, p. 290-291. 82 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 166-167. 83 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 710. 84 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 394.
525 editada em 1759, foi localizado na Biblioteca Central da Marinha um exemplar que pertenceu ao convento do Carmo. Esta obra foi proibida pela Real Mesa Censória e mandada queimar e a ela voltaremos quando tratarmos dos livros proibidos existentes nas bibliotecas religiosas de Lisboa.
Com actividade já no século XVIII, destacam-se dois jesuítas André de Barros (1675-1754) e Manuel de Campos (1681-1758) que foram membros da Academia Real da História Portuguesa. O primeiro, que foi reitor e mestre de noviços no Noviciado de Lisboa e Prepósito da casa professa de S. Roque, foi encarregue pela Academia de escrever as Memórias eclesiásticas do bispado do Algarve85. Escreveu a Vida do
apostólico Padre António Vieyra... chamado por antonomasia o grande..., publicada em 1746 e de que existe na BNP o exemplar que pertenceu ao hospício régio de S. João Nepomuceno, para além de três outros que vieram de colégios jesuítas, onde, naturalmente, a obra seria vulgar e que são o colégio do Porto e os colégios Cetobrigense e do Barro, já das fundações jesuítas do século XIX. Consta igualmente dos catálogos de S. Francisco e de S. Vicente (Lista nº 94). O padre Manuel de Campos foi confessor do infante D. António (1695-1757) e escreveu várias obras sobre Geometria. A Academia encarregou-o de escrever as Memórias históricas da prelazia de Tomar86. Publicou a Relação da prizão e morte dos quatro veneráveis padres da
Companhia Bartholomeo Alvarez, Manoel de Abreu, Vicente da Cunha (portuguezes) e João Gaspar Gratz (alemão) mortos em ódio de fe na corte de Tunkim aos 12 de Janeiro de 1737..., no ano de 1738. Na BNP existe o exemplar do convento de S. Francisco de Xabregas (Lista nº 178).
Abordando uma temática diferente, é de assinalar nesta apreciação de obras de autores religiosos o padre jesuíta António Cordeiro (1641-1722) que, em 1717, publicou a Historia insulana das ilhas a Portugal sugeitas no Oceano Occidental. Era natural de Angra, estudara na Universidade de Coimbra e leccionara em vários colégios da Companhia, o último dos quais foi Santo Antão. A apreciação que o teatino José Barbosa fez a esta obra, na sua qualidade de censor, foi muito elogiosa e, de facto, a
Historia insulana é um marco fundamental na história dos Açores87. Dela existiu um
85 BARBOSA MACHADO, vol. I, p. 138-139. 86 BARBOSA MACHADO, vol. III, p. 209. 87 BARBOSA MACHADO, vol. I, p. 242-243.
526 exemplar no mosteiro de S. Vicente conforme consta no respectivo catálogo (Lista nº 263).
Também o franciscano António de Santa Maria Jaboatão (1695-1763?) que escreveu o Orbe seráfico novo brasilico... merece aqui referência. Nascido no Brasil, membro destacado de academias, poeta, pregador e destacado estudioso de genealogia, entre os vários cargos que exerceu na sua Ordem está o de cronista da província de Santo António, que dá origem ao Orbe seráfico88. Editada em 1761, encontrámos dela menção no catálogo de S. Francisco da Cidade (Lista nº 497).
Estes são os casos que nos pareceram mais destacados, no âmbito da História eclesiástica e dentro dela, nas tipologias mais expressivas nas bibliotecas conventuais, como são as crónicas e histórias de ordens religiosas e dos seus estabelecimentos em Portugal, as vidas de santos e de pessoas exemplares e a história das missões. Assim o reconhece Fortunato de Almeida quando escreve: “A história das ordens monásticas, da sua acção e das suas casas em Portugal e no ultramar foi o tema versado com mais largueza e em maior número de obras”89. Outros exemplos se podem, evidentemente, encontrar na Lista, sobretudo no domínio hagiográfico e de vidas edificantes cuja autoria pertence a membros de ordens religiosas, masculinos e femininos.
VI.3.4. A historiografia do Humanismo ao Barroco: narrar a história antiga e a