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Krise og mestring

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3. Teoretisk referanseramme

3.2 Krise og mestring

O Estudo de Caso, enquanto modalidade de pesquisa, tem sido aprofundado e implementado há várias décadas. Ventura (2007), ao realizar uma ampla revisão bibliográfica sobre as principais obras e os respectivos autores que teorizaram a respeito do estudo de caso, constatou que existem diversos relatos sobre a origem desta modalidade de pesquisa e sobre as perspectivas de uso dela. A autora destacou, principalmente, as obras produzidas por Goode et al.; Yin; Stake e Lüdke et al.

O estudo de caso tem sido utilizado em muitas áreas do conhecimento, como, por exemplo, na “Medicina, Psicologia e em outras áreas da saúde, e também nas áreas tecnológicas, humanas e sociais, entre outras” (VENTURA, 2007, p. 383). A partir das contribuições oriundas dos principais teóricos desta temática, Ventura (2007) propõe uma síntese que ajude a compreender a intencionalidade do estudo de caso:

Tendo em conta as posições dos autores apresentados, o estudo de caso como modalidade de pesquisa é entendido como uma metodologia ou como a escolha de um objeto de estudo definido pelo interesse em casos individuais. Visa à investigação de um caso específico, bem delimitado, contextualizado em tempo e lugar para que se possa realizar uma busca circunstanciada de informações. (p. 384, grifo nosso)

Para contribuir com a discussão sobre os critérios que influenciam nas escolhas metodológicas pelo estudo de caso, trazemos as formulações de Yin (2001):

Em geral, os estudos de caso representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo "como" e "por que", quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real. (p. 19, grifo nosso). Como esforço de pesquisa, o estudo de caso contribui, de forma inigualável, para a compreensão que temos dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políticos. Não surpreendentemente, o estudo de caso vem sendo uma estratégia comum de pesquisa na psicologia, na sociologia, na ciência política, na administração, no trabalho social e no planejamento (Yin, 1983). […]. Em todas essas situações, a clara necessidade pelos estudos de caso surge do desejo de se compreender fenômenos sociais complexos. Em resumo, o estudo de caso permite uma investigação para se preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real- tais como ciclos de vida individuais, processos organizacionais e administrativos, mudanças ocorridas em regiões urbanas, relações internacionais e a maturação de alguns setores. (p. 21, grifo nosso).

É preciso realizar uma distinção entre o uso do estudo de caso para fins formativos e educacionais ou enquanto uma escolha criteriosa como modalidade de pesquisa. Em relação à primeira aplicação, em geral, pode-se aceitar uma incompletude e até mesmo modificações propositais dos dados colhidos, para enfatizar determinados aspectos importantes de serem discutidos. No entanto, quando partimos do planejamento e efetivação de um projeto de pesquisa, os dados colhidos devem obedecer ao rigor científico e precisam ser descritos com clareza e com o mínimo de lacunas (YIN, 2001; VENTURA, 2007).

Portanto, a adoção do estudo de caso em determinadas pesquisas exige que se preconize alguns pressupostos para a construção de um estudo válido. A princípio, deve-se ter

clareza que se trata de uma investigação empírica partindo de um fenômeno da vida real muito próximo do contexto que o circunda, a ponto de impossibilitar que enxerguemos essas duas dimensões separadamente. Por conta da complexidade que envolve essa

modalidade de pesquisa, o processo de investigação no estudo de caso necessita estar vinculado a procedimentos técnicos bem delimitados, principalmente para otimizar as fases de coleta e análise dos dados, pois elas apresentam algumas particularidades: em geral, observa- se que há mais variáveis de interesse do que pontos de dados, o que deve conduzir a uma grande variedade de fontes de evidências e, por conseguinte, ao necessário desenvolvimento de uma teoria prévia que oriente os processos de coleta e análise dos dados. Em resumo, o

estudo de caso é uma estratégia de pesquisa que envolve o planejamento de todas as fases de um projeto, e não apenas uma tática a ser implementada em uma etapa específica do estudo, como a coleta de dados. Portanto, partimos da compreensão de que o estudo de caso é uma modalidade de pesquisa abrangente (YIN, 2001).

É importante ressaltar que o estudo de caso pode reunir dados e análises tanto com abordagens ‘quantitativas’ como ‘qualitativas’. Yin (2001) destaca os principais componentes que devem constar em um projeto de pesquisa que se proponha a desenvolver um estudo de caso:

1. as questões de um estudo; 2. suas proposições, se houver; 3. sua(s) unidade(s) de análise;

4. a lógica que une os dados às proposições; e

5. os critérios para se interpretar as descobertas. (p. 42)

Os estudos de caso são classificados em ‘únicos’ e ‘múltiplos’. Em geral, a escolha pelos casos únicos justifica-se em três situações: quando o caso é representativo de uma teoria previamente reconhecida; quando o caso é raro ou extremo ou quando o caso é

determinado de casos únicos. Tanto a elaboração de estudos de casos únicos como de casos múltiplos exige que superemos uma discussão baseada em conceitos como ‘a amostragem de casos’ ou o ‘pequeno número de amostragens de caso’, pois o objetivo desta modalidade de estudo não está centrado na enumeração de frequências (generalização estatística), mas sim na expansão e generalização de teorias (generalização analítica), ou seja, pretende-se realizar “uma análise ‘generalizante’ e não ‘particularizante’”(LIPSET, TROW, & COLEMAN, 1956, p. 419-420 apud YIN, 2001, p. 29).

Trata-se de estudo de casos múltiplos baseado na expansão e generalização de teorias proposta por Lipset et al. (1956). O estudo de caso envolve o planejamento de todas as fases de um projeto, e não apenas uma tática a ser implementada em uma etapa específica do estudo, como a coleta de dados, constituindo uma modalidade de pesquisa abrangente (YIN, 2001).

Essa distinção é necessária para ressaltarmos que os estudos de caso não se propõem a mensurar a incidência dos fenômenos, pois, se assim fosse, seria crucial investigar tanto os fenômenos como os seus respectivos contextos, o que produziria uma quantidade de variáveis e exigiria um número de casos inconcebível, impossibilitando uma análise estatística das variáveis consideradas relevantes (YIN, 2001).

Uma preocupação inicial quando se planeja um estudo de casos múltiplos está relacionada à seleção do número de casos a serem investigados, no entanto, conforme enfatizamos anteriormente, dentro desta modalidade de pesquisa deve-se abrir mão da lógica de amostragem, dando-se prioridade a uma abordagem que evidencie a lógica de replicação, o que precisa orientar o (a) pesquisador (a) a escolher cada caso cuidadosamente. Além disso, ao contrário do que muitos críticos aos estudos de caso costumam defender, segundo os quais a aplicação desta estratégia de pesquisa seria considerada simples e de fácil execução, Yin (2001) enfatiza que para uma condução rigorosa de um estudo de caso, são necessários, além de um extenso conhecimento técnico, algumas habilidades específicas, pois:

Na realidade, as exigências que um estudo de caso faz em relação ao intelecto, ao ego e às emoções de uma pessoa são muito maiores do que aqueles de qualquer outra estratégia de pesquisa. Isso ocorre porque os procedimentos de coleta de dados não são procedimentos que seguem uma rotina. Em experimentos de laboratório ou em levantamentos, por exemplo, a fase da coleta de dados de um projeto de pesquisa pode ser conduzida em sua maioria, senão em sua totalidade, por um assistente de pesquisa. Ele deverá realizar as atividades de coleta de dados com um mínimo de comportamento discricionário, e nesse sentido a atividade seguirá uma rotina- e será muito tediosa. Não existe esse paralelo na realização dos estudos de caso (p. 80, grifo nosso).

Em relação às evidências que devem subsidiar as discussões em torno dos estudos de caso, em geral, elas são provenientes de seis fontes principais: documentos, registros em

arquivo, entrevistas, observação direta, observação participante e artefatos físicos. Para

garantir um uso adequado e proveitoso dessas evidências, é necessário que os (as) pesquisadores (as) estejam atentos (as) a alguns princípios, sistematizados por Yin (2001):

a) várias fontes de evidências, ou seja, evidências provenientes de duas ou mais fontes, mas que convergem em relação ao mesmo conjunto de fatos ou descobertas; b) um banco de dados para o estudo de caso, isto é, uma reunião formal de evidências distintas a partir do relatório final do estudo de caso;

c) um encadeamento de evidências, isto é, ligações explícitas entre as questões feitas, os dados coletados e as conclusões a que se chegou (p. 105, grifo nosso). O autor também ressalta a importância de se utilizar a triangulação como fundamento lógico para trabalhar com diversas fontes de evidências nos estudos de caso, pois ela permite a reunião de dados coletados a partir de origens diferentes, no entanto, ao cruzá- los, torna-se possível corroborar ou enfraquecer as teorias que sustentam o projeto de pesquisa (YIN, 2001). Ao discorrermos sobre a triangulação de métodos, precisamos lembrar que ela é uma ferramenta imprescindível quando estamos diante da investigação de problemas complexos, a qual nos exige a combinação de estratégias diversas que nos auxiliem a produzir uma análise densa sobre as questões formuladas. Diante disso, a interdisciplinaridade, enquanto um caminho para trabalhar com estes desafios, tem sido reconhecida como um tema central por autores do campo da saúde pública latino-americana (GARNELO, 2006). A mesma autora, por meio de uma resenha da obra intitulada “Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais”, organizada por Minayo, Assis e Souza (2005), nos traz algumas reflexões a respeito dos diálogos fecundos entre as diversas perspectivas metodológicas:

A triangulação de métodos, um elemento-chave na concepção do livro, surge como uma estratégia de diálogo entre áreas distintas de conhecimento, capaz de viabilizar o entrelaçamento entre teoria e prática e de agregar múltiplos pontos de vista – seja das variadas formulações teóricas utilizadas pelos pesquisadores ou a visão de mundo dos informantes da pesquisa – utilizados de modo articulado no estudo empreendido pelos autores. O uso da triangulação exige, também, a combinação de múltiplas estratégias de pesquisa capazes de apreender as dimensões qualitativas e quantitativas do objeto, atendendo tanto os requisitos do método qualitativo, ao garantir a representatividade e a diversidade de posições dos grupos sociais que formam o universo da pesquisa, quanto às ambições do método quantitativo, ao propiciar o conhecimento da magnitude, cobertura e eficiência de programa sob estudo (GARNELO, 2006, p. 1115, grifo da autora).

A etapa de análise dos dados exige que o (a) pesquisador (a) realize um trabalho criterioso. Diante das reflexões teóricas desenvolvidas historicamente em torno dos estudos de

caso, constata-se que esta fase da pesquisa é a que possui o menor aporte sistematizado, dificultando a execução de uma análise organizada e aprofundada das evidências obtidas. É importante relembrar que, assim como nas outras modalidades de pesquisa, a análise dos dados deve ter como finalidade “examinar, categorizar, classificar em tabelas ou, do contrário, recombinar as evidências tendo em vista proposições iniciais de um estudo” (YIN, 2001, p. 131). O autor também ressalta a dificuldade no cumprimento desta fase nos estudos de caso, tendo em vista o pequeno acúmulo de técnicas e estratégias formuladas para realizá-la. A partir desta afirmação, Yin (2001) propõe que o passo inicial da análise seja a elaboração de

uma estratégia analítica geral, apontada como o melhor caminho para conduzir um estudo

de caso, por meio da qual será possível selecionar os pontos a serem analisados e definir o porquê destas escolhas. Esta estratégia pode ser traçada partindo de duas abordagens:

baseando-se em proposições teóricas ou desenvolvendo uma descrição do(s) caso(s). De

qualquer forma, mesmo que o intuito inicial do estudo não seja realizar somente uma descrição, o autor enfatiza que a descrição detalhada do(s) caso(s) é uma tarefa fundamental para auxiliar na identificação das categorias que precisam ser analisadas, ainda que se trabalhe com uma abordagem quantitativa. Após estas delimitações, Yin (2001) destaca quatro técnicas analíticas a serem utilizadas nas discussões sobre as evidências, as quais devem ser adotadas de acordo com o objetivo da pesquisa: adequação ao padrão, construção da explanação,

análise de séries temporais e modelos lógicos de programa.

Diante das dimensões apresentadas acima, optamos pela escolha do estudo de

casos múltiplos como estratégia metodológica para a nossa pesquisa, tendo em vista o

surgimento recente de um determinado número de crianças com más-formações congênitas e puberdade precoce (fenômenos contemporâneos) na comunidade de Tomé, o que gerou numerosas suspeitas sobre as relações do aparecimento destes casos e o contexto de contaminação ambiental e ocupacional da região por agrotóxicos, situação a qual nos impulsionou a investigar estes agravos necessariamente em diálogo com os processos em curso no território. Destacamos, ainda, que, conforme preconizado por autores que refletem a respeito desta modalidade de pesquisa, a nossa estratégia direcionada aos casos múltiplos exigiu o estudo pormenorizado de cada caso único detectado para participar da pesquisa, a fim de possibilitar uma caracterização detalhada dos casos, com ênfase nas suas singularidades e nas intercessões com os demais.

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