6. Ytre rammebetingelser
6.3 Orke teret ........................................................................ 164 s
6.3.2 Kringkastinga
Dos diálogos estabelecidos com os trabalhadores durante a implantação do acolhimento, surge uma questão importante, explicitada pelo cirandeiro Márcio:
A escuta aos trabalhadores a partir da interface com alguns Centros de Saúde da Família na SER IV, SER V e SER VI revelou pra gente a necessidade de contribuir com o processo de cuidado a esses trabalhadores em algumas unidades de cada regional. Na discussão sobre o acolhimento ficou claro que os trabalhadores de saúde também passam por situações de sofrimento e isso já aparecia na Serrinha no I Exercício das Cirandas. A demanda excessiva, as condições de trabalho que deixam a desejar, a situação de contratação dos trabalhadores em saúde, gera insegurança e falta de estímulo para o trabalho, pois muitos trabalhadores ainda são terceirizados, Alguns nos diziam textualmente: falam de acolher a população, e quem nos acolhe?
O percurso empreendido pelas Cirandas potencializa um dos dispositivos da Política de Humanização, que é o cuidado ao trabalhador de saúde. Pelo que vivemos, essa luta por viabilizar e fazer avançar as políticas em saúde tenta incluir da forma como vimos de dizer as reivindicações dos trabalhadores, no que se refere à produção do cuidado a eles direcionado. Vivências de massagem, grupos de auto-estima, reiki, entre outras, estão a ser incluídas, como observamos, nos processos formativos realizados no Ekobé e em outros espaços que se lhes assemelham.
Os cirandeiros Beth e Márcio falam como se deu o cuidado ao cuidador:
Assim, resolvemos convidar os movimentos que já trabalhavam com essa questão do cuidado ao cuidador, para facilitarem esse processo nas unidades de saúde. E a escolha recaiu na Associação Mulheres em Movimento e no Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, que são entidades envolvidas nas rodas das Cirandas e da ANEPS. A escolha desses movimentos se deu pela experiência que acumularam trabalhando com resgate e fortalecimento da auto-estima e também porque as Cirandas têm a proposta de dar visibilidade e fortalecer as experiências populares.
Silva et al. (2008) falam sobre a formulação do processo metodológico das oficinas de cuidado, realizadas nos centros de Saúde da Família e CAPS de Fortaleza e direcionadas aos cuidadores (trabalhadores destas unidades de saúde):
A metodologia foi construída coletivamente pelos atores dos movimentos e das Cirandas e foi organizada trabalhando temáticas como: identidade, auto-estima, auto-cuidado, relações interpessoais, potencialidades e compromisso, na perspectiva de gerar uma proposta permanente de cuidado aos trabalhadores nessas unidades, partindo do seu protagonismo e das suas próprias potencialidades. O processo tem incluído técnicas musicais, vivências corporais, leitura de textos, construção de mandalas e tem como base princípios e concepções da educação popular, tais como autonomia, autoralidade de sujeitos populares, saber-de-experiência-feito e protagonismo, como base do processo educativo.
A interface com a gestão está explicitada na fala da cirandeira Beth:
A discussão sobre a escolha das unidades foi trabalhada junto aos Distritos de Saúde das Regionais e pactuada com os gestores e trabalhadores, respeitando alguns critérios tais como: a atuação das Cirandas da Vida no território, a existência de conflitos explícitos entre trabalhadores e gestores ou entre estes e a comunidade. Em alguns lugares, acolhemos a sugestão da gestão regional e resolvemos atuar em unidades onde as Cirandas não tinham inserção, mas que incluímos pela necessidade de contribuir com as dificuldades relatadas. Apesar do desejo dos coordenadores em envolver todos os trabalhadores, isso não foi possível em todas as unidades, em função dos turnos de trabalho e da própria disponibilidade de tempo dos facilitadores, mas no geral, os encontros têm envolvido uma média de vinte e cinco trabalhadores em cada unidade.
Segundo relatório de gestão da Secretaria Municipal de Saúde,
As oficinas tem contribuído com a dimensão pedagógica e terapêutica das rodas de gestão, além de visibilizar e fortalecer a experiência e o protagonismo popular na formação dos trabalhadores em saúde; tem sido calorosamente recebida pelos gestores e trabalhadores das unidades, revelando as potencialidades da interação
serviço-comunidade e da complementaridade de saberes no trabalho em saúde (FORTALEZA, 2007b).
Esse processo envolveu o Centro de Referência de Saúde do Trabalhador (CEREST), que buscou os cirandeiros, na perspectiva de apoio pedagógico ao trabalho de cuidado ao trabalhador da saúde – um dos dispositivos, como estamos a ver, da política de humanização. A forma de inserção das Cirandas nesse trabalho aos que cuidam é explicitada na fala da cirandeira:
Conversando com o pessoal do CEREST, eles trouxeram a importância de estarmos juntos pensando o cuidado ao trabalhador de saúde que, mesmo trabalhando com a saúde das pessoas, em gera,l é desprovido de alternativas para relaxar, trabalhar sua auto-estima, as relações de equipe. Então nos convidaram para participar de uma oficina com duas unidades de saúde, onde trabalhariam com o coletivo dos trabalhadores. O mais importante é que pudemos participar do processo como um todo. Desde pensar os objetivos, a metodologia e não apenas acolher no momento da oficina. Pudemos fazer com o CEREST esse trabalho de construção compartilhada.
As Cirandas, em sua trilha de reflexão-na-ação popular em saúde, pois, articula experiências populares que ocupam espaços no sistema público de saúde do Município de Fortaleza, revelando potencialidades e desafios no que se refere a possibilidades de interação dos saberes ténicos dos profissionais com os saberes da experiência do cuidadores populares.