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O conceito de adesão conta com uma vasta literatura, especialmente quando associado à medicação e/ou tratamento das doenças crónicas.

Os estudos sobre a adesão aos tratamentos têm vindo a aumentar desde o final da década de 1950, destacando-se como um marco impulsionador de muitos trabalhos posteriores o First International Congress on Patient Counselling, realizado em Abril de 1976.

Adesão ao regime terapêutico, adesão ao tratamento ou ainda adesão terapêutica, são diferentes modos de nomear a mesma entidade.

Embora muitos investigadores relacionem adesão ao tratamento com adesão à medicação, o primeiro termo refere-se a inúmeros comportamentos inerentes à saúde que vão além do simples cumprimento da prescrição do medicamento e envolve aspectos relacionados com o tratamento, doente e à doença.

No nosso trabalho, sempre que nos referimos ao conceito adesão, incorporamos a dimensão farmacológica e não farmacológica.

Sousa (2003), num trabalho desenvolvido sobre esta temática diferencia os conceitos da seguinte forma: “…a adesão em saúde pode ser vista em duas perspectivas, a adesão comportamental, que reflecte os comportamentos relacionados com saúde (p.e. deixar de fumar, fazer exercício físico, não faltar às consultas, etc. …) e a adesão médica que se relaciona especificamente com a medicação…”.

É importante realçar que, a nível individual, as crenças pessoais e os comportamentos adoptados, podem promover ou não o processo de adesão, consoante estas sejam valorativas ou depreciativas.

Sempre que abordamos a perspectiva comportamental, temos que compreender o ser humano nessa dimensão, o que implica não só atitudes, mas também a aquisição de conhecimentos, de modo a poder ter capacidade de decidir de forma consciente e congruente acerca do que realmente se quer em termos de resposta à situação de saúde e doença.

O primórdio da problemática da adesão à terapêutica surge com Hipócrates, tendo o seu desenvolvimento tido maior relevo nos anos 50 do séc. XX, com o aparecimento dos antibióticos.

Já nessa altura surgiram alguns conceitos, tais como: non-compliance e medical

compliance, em que o primeiro emerge da relação do poder exercido pelo médico e que se

reporta à responsabilidade do doente, tendo este o dever de cumprir o que o médico prescreveu; e onde o segundo corresponde ao comportamento do doente que aceita as prescrições do médico.

Surgem mais tarde alguns modelos com o objectivo de melhorar a assimetria entre o ser humano e os cuidados de saúde.

Parafraseando Silva, o modelo desenvolvido por Stanton (1987) substitui o conceito de obediência por adesão (adherence). Este modelo tem como objectivo alterar a assimetria onde o poder se encontrava apenas de um lado da relação, revelando já a perspectiva do doente enquanto alguém que pode ser responsabilizado.

Nesta abordagem surge também o termo de confiança, cujo resultado deriva do conceito de adesão, com a perspectiva de evidenciar a responsabilidade e participação da pessoa no seu tratamento, nomeadamente no que diz respeito à tomada de decisão face às orientações que lhe são dadas (Silva, 2008).

A questão da confiança representa um factor crucial na adesão ao tratamento, independentemente da área onde os cuidados são exercidos. Na área da saúde mental, parafraseando Caldas de Almeida (Loureiro et al., 2011), aceitar, compreender e manejar as diferentes atitudes do doente exige muito do médico, o qual tem de contactar, como pessoa, com todas as experiências comunicadas de quem está a receber cuidados.

Por sua vez, o termo compliance tem associado uma conotação negativa, na medida em que sugere passividade e submissão da pessoa às prescrições clínicas onde o médico tem o poder de decisão, dando ordens que terão de ser cumpridas, enquanto que o termo adesão surge em alternativa, onde emerge a liberdade de decisão e a possibilidade do doente poder optar de forma responsável e informada (Myers & Midence, 1998; Vermeire & et al., 2001). Neste último conceito, a liberdade de decisão faz com que não haja qualquer receio de crítica ou pressão por parte do profissional de saúde.

Segundo esta perspectiva, o termo adesão deve ser considerado como um “sinónimo de concordância, compreendendo a aceitação e intervenção activa e voluntária do doente que partilha a responsabilidade do tratamento com a equipa de profissionais de saúde que o segue” (Bugalho & Carneiro, 2004, pp. 9-10).

Segundo Osterberg e Blaschke (2005), muitos autores preferem a palavra adesão uma vez que compliance sugere que o doente segue passivamente as “ordens” do médico e que o plano de tratamento não é baseado na aliança ou contrato estabelecido entre ambos.

Também nesta linha, o Adherence Project da WHO, no âmbito das doenças crónicas e da adesão a tratamentos de longa duração, adoptou a seguinte definição “the extent to which a person’s behaviour – taking medication, following a diet, and/or executing lifestyle changes, corresponds with agreed recommendations from a health care provider” (WHO, 2003, p. 3). Esta definição enfatiza a importância da pessoa concordar com as recomendações dos prestadores de cuidados de saúde, sejam eles médicos, enfermeiros ou outros técnicos (WHO, 2003).

Contudo, a distinção entre compliance e adesão é predominantemente académica, não existindo diferenças relevantes quanto ao resultado que se traduz no comportamento do doente (Horne, 2001; Vermeire et al., 2001). Os dois conceitos podem, portanto, ser utilizados como sinónimos, desde que “compreendam a existência de um acordo/aliança entre ambas as partes”. Em ambas as definições, o que se pretende avaliar é o grau de concordância do comportamento do doente em relação às indicações dadas por um profissional de saúde.

No que diz respeito às PPG, a terminologia que encontramos na literatura e que melhor representa o cumprimento do tratamento proposto é adesão.

De forma generalizada, partindo do princípio que as prescrições realizadas pelo médico e todas as recomendações feitas pelos restantes profissionais de saúde, representam a melhor intervenção para o problema da pessoa, então a não-adesão baseia-se numa perda de oportunidade de saúde, bem como num desperdício de recursos para o sistema de saúde (Horne, 2000; WHO, 2001). O impacto da não-adesão reflecte-se em custos que, para além dos problemas relacionados com o prolongamento do sofrimento inerente à doença, vai implicar mais contactos com os serviços de saúde, provavelmente mais internamentos, tempo de recuperação mais prolongado e faltas ao trabalho (Ley, 1997).

Na área da saúde mental, estes conceitos têm sido estudados com o objectivo de captar a dimensão do fenómeno, dadas as importantes repercussões que a não-adesão ao tratamento assume no processo de recuperação dos doentes com PPG.