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Kostnadsestimater og usikkerhetsvurderinger FOV

3. Kvalitetssikrers vurdering av fangstprosjektene

3.2 Kostnadsestimater og usikkerhetsvurderinger FOV

Considerando os conceitos anteriores, veja-se como Sebastião, o duplo – e precisamente por ele ser o duplo de um outro, o que significa que ele não é desde o início o eu condutor do seu caminho – é arrastado pela força do passado. Embora assente no fluir das suas conquistas amorosas, e experimentando incidentalmente ou paralelamente as convulsas mudanças de Portugal na cosmopolita Paris, subjacentemente vive preso à predestinação simbólica do Desejado. O romance, construído através de reminiscências mágicas e elementos sobrenaturais, como são as cadências numéricas do 7 e do 3, as

figuras sobrenaturais que aparecem e desaparecem e que parecem enfeitar inofensivamente o decorrer das suas andanças, na verdade são pilares que estruturam a tendência predominante da sua vida, marcada pelo irracional e pela predestinação da sua condição de duplo. A marca de ser o duplo de D. Sebastião e a crença no sebastianismo estão constantemente presentes na sua vida, embora sejam tratadas por ele com receio e inclusivamente apareçam ridiculizadas, por exemplo, em personagens patéticas como as dos sebastianistas cavaleiro Alcides e o seu pomposo primo Gabriel Gago. Estes caracterizam o anacronismo do sebastianismo em contraste com a aparentemente secularizada personalidade de Sebastião. Mas implicitamente fazem parte da sua própria psicologia, como o demonstra o subsequente desenrolar da vida sebastianista de Sebastião, fechado num eremitério. É a sua consciência que choca com, digamos, a extravagância de tais personalidades, mas sabemos que, no seu fundo inconsciente, conformam a sua própria realidade psíquica.

O primo do insigne Alcides chamava-se Gabriel Gago de Carvalho e, antes de conhecê-lo, nunca eu imaginara que existisse alguém assim. Professor de História, os seus heróis eram D. Sebastião e Pomponazzi. Por causa do tom fanático, paquidérmico e autoritário com que falava fosse do que fosse, lembrei-me de tratá-lo, nos intervalos, por Nazi Pompom. (...) procurava efeitos oratórios nunca tratando os bois pelos seus nomes. Em vez de “mar”, dizia “espelho aquático” ou “ espumoso vidro”. Estonteado pela própria tara, entrava em transe lírico e, de olhos em alvo, chegava ao paroxismo de falar em “untosa planície” e “instável cristal”, tudo para fugir à vulgar palavra “mar”.465

Sebastião parece ser incapaz de criar uma identidade própria para além da do círculo familiar da infância que o envolve no sebastianismo ou daquela criada em contraposição ao rei. Nem Clara nem a experiência parisiense o afastam ou lhe fornecem elementos para construir novas pontes que o transformem e o façam reconstruir-se criativa e diferenciadamente. Catarina, a avó, aponta-o como reencarnação do rei e Sebastião acredita nisto. Vemos como o mundo do passado, omnipotente, se impõe às tentativas racionalistas de Sebastião. Se entendemos Sebastião como o individual à procura do ser, encontramos que este está preso desde a nascença às absolutas forças irracionais da cultura que o viu nascer. Nem a cidade das luzes nem as confusões amorosas o impedem de assistir passivamente ao desfecho do destino. É um indivíduo dominado e passivo perante as forças que o retêm no passado. O amor, ponte para o destino próprio e individual, é experienciado como uma escapatória vã que lhe fornece uma espécie de frágil identidade por oposição, pois não é suficientemente forte para criar uma outra saída

465 Almeida Faria, op. cit., p. 86.

para o seu dilema existencial e cultural, para além de esperar pelo seu destino no eremitério. Clara, mulher longínqua, alheia e incompreensível no esquema mítico de Sebastião, desvanece-se no caminho dos impossíveis, e permanece, no fadado caminho de Sebastião, como a mulher significativa no seu mar de experiências amorosas.

As diferentes experiências que Sebastião vive parecem preencher o espaço temporal que o separa do seu destino, não penetrando nele para o transformar. A sua vida parece comprometida até que se crie uma separação entre ele e D. Sebastião. No entanto, este desenlace parece deixá-lo nas mãos do destino, como se não tivesse armas para lutar pela própria vida. Um herói confronta o dragão e não espera a ser engolido. Um indivíduo duplicado vive o desespero e o horror da duplicação e luta pela integridade da alma. Esse outro é o sinistro, o terrível, o destino herdado com o qual se luta para o resolver e encontrar a redenção, como o monge Medardo de Los elixires del diablo. Mas Sebastião não tenta vencer nem perder, parece disposto a suportar e a sofrer o sacrifício de ser morto por repetição, ou talvez viver. E esta é a seriedade da paródia, dizer sem dizer que este indivíduo é um ser inerme. O nascimento apoteótico anunciava um ser vindo do sobrenatural, com dotes e dons únicos, mas que se transforma num ser inerme. O fantástico em Sebastião radica na herança cultural, no que traz do passado, não no que cria no presente ou no que pode construir para o futuro. O confronto com o outro, com a herança colectiva, que o leitor supõe da sua espera pelo aniversário, tem mais de veredicto do que de confronto:

En los mitos, el héroe es el que vence al dragón, no el que es devorado por este. Y sin embargo, ambos deben luchar contra el mismo dragón. El héroe tampoco es aquel que nunca se encontró con el dragón, o que lo vio pero luego negó haberlo visto. Asimismo, sólo aquel que se ha arriesgado a luchar con el dragón y no es vencido, consigue el tesoro escondido, el “tesoro difícil de obtener”. Sólo él tiene el verdadero derecho a la confianza en sí mismo, pues ha enfrentado el fondo oscuro de su ser y ha ganado... Ha adquirido el derecho de creer que será capaz de vencer todas las amenazas futuras con los mismos medios. 466

Perante tudo isto, debruçámo-nos sobre um Sebastião sem destino próprio, sem nome e sem identidade. A fórmula para encontrá-la, até ao momento da verdadeira reflexão sobre si no eremitério, parecia insuficiente e elementar: criar uma personalidade oposta à do duplo. Nesta construção aceita implicitamente o ser duplo do rei. Assim, o terrível da duplicação, a ameaça aterradora do ser, o medo da desintegração psíquica, o horror do outro, em Sebastiao, só começa a vislumbrar-se no final. Como se, no fundo de

si, Sebastião não existisse nada mais do que D. Sebastião e não houvesse um real antagonismo, um real medo da perda do ser.

Ser duplo de alguém conota uma unidade cindida. Isto é, D. Sebastião e Sebastião deviam ser um único ser separado, seja por cisão da personalidade ou por representar princípios opostos irreconciliáveis. Neste caso, a natureza individual de Sebastião não tem substância fora da de D. Sebastião. Os seus fundamentos encontram-se numa instância nacional, e esta seria a sua fragilidade, se tivermos em conta as teorias da individuação de Jung. D. Sebastião devia ser só uma expressão simbólica, um mito e herança cultural entre outras, não um dever ser predominante, uma imposição vital, e não devia representar a essência do mundo interior do indivíduo, como no caso de Sebastião. Sendo assim, o indivíduo fica desprovido de qualquer outro elemento que lhe dê transcendência além da cultura herdada.

A vida inconclusa e a incerteza da morte de D. Sebastião abrem um caminho sem fim para a sua reelaboração imaginária e mitológica. Uma vida promissora e a morte jovem do rei parecem criar a necessidade no imaginário colectivo de um corpo que reincorpore essa vida. Mas esta é uma necessidade não do próprio rei, mas daqueles que o pensam. Sebastião, no romance, está rodeado de gente, família e amigos que reconhecem nele o dever de honrar D. Sebastião. O próprio meio, portanto, empurra Sebastião a seguir um caminho que forneça transcendência e força a eles como colectivo. E isso é precisamente o que faz um herói, mas este cria um novo caminho para um velho problema, não repete padrões de comportamento. Assim, Sebastião segue um destino em função de outro já estipulado. Incapaz de transitar no mundo armado do próprio ser, consegue ilusoriamente encontrar grandeza na conquista, como fez o primeiro Sebastião. Ambos fracassam numa batalha perdida de antemão, uma batalha sem nome e sem destino. Só quando conquistar a própria identidade Sebastião será capaz de assumir um caminho próprio que lhe dê um nome sem o peso do passado. Maria Netto Simões escreve:

O conquistador é o rei D. Sebastião da história de Portugal, parodiado pelo Sebastião da história ficcional; ou é Sebastião, indivíduo como outro qualquer, com desejos e dúvidas que busca conquistar a sua identidade, o seu espaço no mundo; ou ainda, pelo discurso, e o conquistador do espaço ficcional, o narrador do texto. A quem conquistar? nação? mulheres? a si mesmo? o leitor?467

467 Maria Netto Simões, As razões do imaginário. Comunicar em tempo de revolução 1960-1990, Salvador, Editus Editora da UESC, 1997, p. 117.

Nós consideramos que o Sebastião narrador – paródia, sim, duplo e sombra, também – age principalmente em função da crença de ser uma espécie de reencarnação do rei. As suas conquistas amorosas são sobretudo o seguimento de uma tendência que procura compensar a sua duplicação do rei. A consciência da própria identidade até ao fim do romance fica excluída do seu desenvolvimento vital. Quem é verdadeiramente este indivíduo? Como pode um sujeito ser ele próprio, se as suas escolhas reflectem principalmente o avesso de outro ser? Se conquista mulheres, fá-lo para compensar a falta de interesse do émulo; se detesta a guerra e os guerreiros, fá-lo em função da sua preferência pelas lides amorosas. Sai do país escapando da tropa, chega a Paris para fazer parte de uma associação seguindo os desejos de Helena e seguindo a conveniência passiva da tendência do que vinha sendo a sua vida. Finalmente, levado pelo medo supersticioso de morrer com a mesma idade de D. Sebastião, volta ao mesmo ponto onde sua vida começou, à espera que esse outro se pronuncie sobre o seu destino.

Assim, deste ponto de vista, o Sebastião secular ainda não nasceu, talvez seja esse encontro com seu duplo, para ele o dragão a vencer, a oportunidade de começar a conquistar a sua identidade. E, se assim for, esse nascimento poderia acontecer no momento de confrontação com o seu destino no dia do seu aniversário. Até esse momento, a sua identidade como indivíduo verdadeiramente singular está suspensa, porque o herói que nasceu naquele dia de Janeiro não foi uma verdadeira reconfiguração de D. Sebastião, mas sim um velho duplo que vem deambulando através dos séculos. D. Sebastião, nesse caso, poderia ser interpretado como projecção da imagem ideal de ser, quer dizer, como projecção do Si-Mesmo. Ao cumprir esse modelo cultural como sumus bónus, no caso de Sebastião cumpre-se ao avesso, porque este perde precisamente o carácter do conquistador por antonomásia; por outras palavras, perde a possibilidade de conquistar a particularidade do seu ser no cumprimento de um modelo cultural. Se o caminho a seguir é conhecido de antemão, a vida esquematiza-se em protocolos e formas feitas e herdadas, portanto, a vida mesma fica mais ligada à persona, à máscara social, à representação colectiva e social, do que à originalidade de cada indivíduo. E este seria o drama parodiado em Sebastião. Nasceu com um esquema existencial fixo que duplica um modelo cultural, não como um modelo universal orientador, como seria Jesus, que abrange não só os judeus como todos os homens, mas como uma forma de incorporar um destino inconcluso, D. Sebastião, comprometendo o sujeito a um determinado modelo vital específico, seja por oposição ou não.