A implantação da nova capital do estado de Minas Gerais se deu conforme o plano urbanístico comandado pelo engenheiro Aarão Reis, no sítio onde se localizava o arraial denominado Curral Del Rei.
A área, muito fértil, demonstrava-se excelente para o cultivo, com destaque para a produção de café e das frutas provenientes dos pomares ali existentes. A implantação do sistema antrópico na área iniciou-se por meio da introdução de práticas agrícolas. Foram introduzidas, preferencialmente, nas áreas mais planas, onde ocorria a maior parte das formações florestais de cerrado (COMPANHIA DO VALE DO RIO DOCE, 1992; BARRETO, 1995).
De acordo com Barreto (1995), a ocupação do Arraial denotava os vínculos econômicos entre sua comunidade e as características naturais do sítio. Sugeria um modelo condicionado pelos aspectos naturais daquele lugar e pelo aproveitamento das vantagens geográficas existentes. Reconstituições morfológicas indicam que a o arraial caracterizava-se como excelente exemplo de adaptação de um assentamento às condições topográficas. A figura 7, referente à implantação da Rua Rio Grande do Norte, na década de 1920, demonstra como esses aspectos cênicos ainda encontravam-se presentes. Chama-se atenção à significativa massa vegetada existente.
Figura 7 – Abertura da caixa de via da Rua Claudio Manoel na década de 20, com a arborização prevista em projeto implantada
Fonte: SIAAPM. Disponível em: <http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/grandes_formatos_ docs/viewcat.php?cid=107>. Acesso em: 4 ago. 2013.
Entretanto, o plano urbano, proposto, em 1895, ignorou a configuração do arraial pré-existente, bem como as características naturais do território. Elaborado de acordo com um ideário positivista e higienista, expressou o saber técnico e uma abordagem estética do espaço urbano (PLAMBEL, 1977).
De acordo com Barreto (1995), estabeleceu três zonas para a nova capital mineira, conforme apresenta-se, na figura 8: a urbana, com traçado geométrico; a suburbana, circundante à urbana, composta por glebas maiores para ocupação futura e abastecimento da zona urbana e a zona rural, provavelmente aproveitando as práticas agrícolas e pecuaristas pré-existentes no local.
Figura 8 – Plano-capital da cidade de Belo Horizonte (projeto de Aarão Reis), com a zona urbana representada em amarelo, a zona suburbana em verde e a zona rural nas bordas do perímetro
Fonte: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997.
A zona urbana, cuja implantação foi supervisionada por Aarão Reis, expressava de forma mais significativa as influências positivistas. Seu desenho configurou-se por uma malha ortogonal, composta por seções, quarteirões e lotes, com a demolição das edificações e vias existentes na localidade. Diversos cursos d'água foram canalizados, retificados e lançados nos eixos das vias, criando condições propícias para inundações nos períodos de chuva. As áreas verdes passariam a ser objeto de projeto e encaradas como fator de salubridade, condicionadas pela lógica do traçado positivista. O tratamento paisagístico adotado para as áreas públicas priorizava o embelezamento, bem exemplificado pela utilização de palmeiras a fim de marcar, pela verticalidade, a importância das vias, praças e parques. As espécies arbóreas utilizadas foram preponderantemente
exóticas, raramente substituídas por árvores nativas, quando a espécie não se adaptava ao clima local (PLAMBEL, 1977; MACIEL, 1998; FERREIRA, 1998; PEREIRA COSTA, 1998; CASTRIOTA, 2009; SEGAWA, 2010).
Ignoraram-se assim os condicionantes específicos do relevo e comprometeram-se estratos nativos da camada vegetação, no processo de implantação do plano urbano. Procurou-se criar significativa gama de áreas verdes e espaços livres, para circulação, lazer e saúde da população vindoura, mas eliminaram-se diversas áreas com qualidades naturais e cênicas pré-existentes do sítio escolhido. Uma das poucas características do plano proposto, que espelharia certa adequação às características do sistema natural, teria sido a escolha do sítio para a implantação do Parque Municipal Américo Renê Giannetti. Tratava-se de uma área de brejo, com atributos naturais e cênicos expressivos, em terras significativamente férteis. Segue figura 9, com a sobreposição da ocupação do antigo Arraial Belo Horizonte e a hidrografia do sítio, com o projeto da nova capital, onde se observa a desconsideração do traçado urbano pré-existente.
Figura 9 – Planta cadastral do extinto arraial de Belo Horizonte, antigo Curral Del Rei, sobreposta à planta da nova capital, onde se observa a desconsideração do traçado urbano pré-existente
Separando a Zona Urbana da Zona Suburbana definiu-se a Avenida 17 de Dezembro – atual Avenida do Contorno –, com o intento de facilitar o recolhimento de impostos locais. No entanto, essa Avenida se destaca como contraponto à lógica positivista. Marca o início das declividades mais acentuadas entre as zonas, representando, no tecido urbano da capital mineira, o momento em que os condicionantes do sítio, até então ignorados, por serem relativamente mais sutis na zona urbana, se impõem, com condições mais extremas sobre o projeto (BARRETO, 1995; PEREIRA COSTA; MACIEL, 2009b).
A zona suburbana, circundante à urbana, teria sido projetada com menor grau de definição, mas já com características diversas das do tecido proposto para a urbana. O projeto previa quarteirões com forma irregular, lotes de áreas diversas e ruas com caixa menor. Conforme o Engenheiro Aarão Reis, as ruas teriam sido projetadas buscando adequação e adaptação do projeto à topografia externa à Avenida do Contorno. Contudo, poucos elementos do sistema viário da antiga zona suburbana conseguiram ser implantados de acordo com o projeto (BARRETO, 1995; FERREIRA, 1998; FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997).
Isso se refletiu na composição da floresta urbana de Belo Horizonte. Observa-se, ao comparar a qualidade dos espaços livres entre as duas zonas, que a diferença de qualidade de traçado entre as áreas internas e externas à Avenida do Contorno deve-se principalmente à escolha do sítio em que elas seriam implantadas (FERREIRA, 1998). Na zona suburbana, dada à complexidade geomorfológica do sítio, verificou-se dificuldade de implantação do projeto, mesmo com as tentativas de se "flexibilizar" o traçado, já previamente concebido. Com o passar dos anos, a diferenciação na forma urbana entre essas duas áreas se extremou, também influenciada por critérios divergentes na gestão da ocupação territorial.
Poder-se-ia falar então de diferenças relacionadas a paisagens compostas por diferentes, ou mesmo contrastantes, relações entre os sistemas naturais e antrópicos. Algumas ligadas às fisionomias da antiga zona urbana de Belo Horizonte, e, outras, às da antiga zona suburbana. Por abranger ambas as áreas, com prováveis reflexos nos trechos de floresta urbana produzidos, a Região Administrativa Centro Sul destaca-se como área de recorte para os estudos abordados por esta dissertação.
3.2 A floresta urbana na Região Administrativa Centro Sul: condicionantes e