O Município de Belo Horizonte instala-se na base da Serra do Curral e desenvolve-se ao longo de colinas e cristas esparsas. O plano urbano da cidade foi desenvolvido entre duas grandes unidades de relevo com características diversas: a Depressão de Belo Horizonte (complexo Belo Horizonte) e as Serras do Quadrilátero Ferrífero (sequência metassedimentar). Entre essas duas unidades há uma falha de empurrão, próxima da qual, em uma linha de menor resistência à erosão, se aloja o Ribeirão Arrudas. Ocorrem também outras duas falhas de empurrão, nas cristas da Serra do Curral (PLAMBEL, 1977; FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001).
A figura 10, apresenta a sobreposição dessas grandes unidade de relevo e das falhas de empurrão sobre o relevo da Região Administrativa Centro Sul. Observa-se, claramente, a diferenciação geomorfológica entre cada unidade, propiciada pelo contato entre elas.
Essas unidades de relevo condicionaram à formação de paisagens distintas. Na Depressão de Belo Horizonte, o relevo conformou uma sucessão mais suave de colinas intercaladas com significativo número de áreas de média e baixa declividade. Essas áreas apresentam drenagem rica, sem a necessidade de utilização de um extenso corpo d'água e solos mais férteis. Configuram, por essas características, uma paisagem mais uniforme. Já, nas Serras do Quadrilátero ferrífero, a estrutura geomorfológica foi soerguida, dobrada, fraturada e falhada. Propiciou uma variabilidade de relevo mais significativa, com topografia acidentada, padrão paralelo de drenagem e solos com menor fertilidade. Nessa região, o relevo já propicia a formação de diversos habitats, com uma paisagem mais heterogênea
do que a encontrada na Depressão de Belo Horizonte (PLAMBEL, 1977; FERREIRA, 1998).
Figura 10 – Grandes unidades de relevo incidentes sobre a Região Administrativa Centro Sul
Fonte: FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001; PRODABEL, 2014. Adaptação do autor.
Assim a Regional Centro-Sul torna-se objeto estratégico e complexo de análise, por se encontrar na faixa de contato entre essas grandes unidades de relevo, que cobrem o município, com significativas variações geomorfológicas. Observam-se assim a ocorrência de planos, fundos de vale, cristas, talvegues e colinas, em diversas proporções, orientações, declividades e altitudes, que influenciam as características dos tecidos urbanos existentes.
Para o entendimento dessa diversidade de fisionomias, é necessário o entendimento do papel das falhas de empurrão incidentes sobre a Região Administrativa Centro Sul, em especial a que marca o contato entre as Serras do Quadrilátero Ferrífero e o Planalto de Belo Horizonte. Falhas de empurrão configuram um dos agentes internos de alteração do relevo, mais significativos. Constituem fraturas na crosta terrestre formadas por forças compressoras, nas quais o bloco superior, denominado capa, subiu em relação ao inferior, denominado lapa (FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001). Coincidente com o traçado da Avenida do Contorno, essa formação define aumento nas declividades observadas a partir do traçado da via, bem como a formação de pequenos escarpamentos – ou colinas – sobre os quais incidem as áreas compreendidas entre a falha e as áreas mais altas da Serra do Curral. O relevo marca significativamente a transição entre as duas unidades contíguas e pode ser facilmente associado ao claro contraste entre os tecidos urbanos, sobre elas incidente.
A dinâmica geomorfológica criada por esse contato propicia a criação de diversos compartimentos de relevo, cada um associado às características gerais da grande unidade a que pertence. Tais compartimentos são importantes por constituírem o sistema natural sobre o qual o uso do solo – sistema antrópico – se instala. Influenciam a formação dos tecidos urbanos existentes, caracterizando a fisionomia da floresta ao longo de seus traçados.
De acordo com Ferreira (1998), o sítio urbano de Belo Horizonte pode ser subdividido em 13 tipos de compartimentos de relevo, dentre os quais, 8 encontram- se na depressão de Belo Horizonte e cinco no Quadrilátero Ferrífero. Ao se considerarem os limites da Regional Centro-Sul, verificam-se quatro compartimentos de relevo na depressão de Belo Horizonte e quatro nas Serras do Quadrilátero Ferrífero. A figura11 apresenta os compartimentos incidentes sobre a Depressão de Belo Horizonte, abrangendo toda a área contida pela Avenida do Contorno e os incidentes sobre as Serras do Quadrilátero Ferrífero, contendo os bairros entre a Avenida do Contorno e as Cristas da Serra do Curral. Observam-se também as falhas de empurrão existentes na região.
Figura 11 – Subdivisão das grandes unidades de relevo incidentes sobre a Administração Regional Centro Sul – Depressão de Belo Horizonte e Serras do Quadrilátero Ferrífero em compartimentos de relevo, com a representação das falhas de empurrão existentes na região e do traçado da Avenida do Contorno
Fonte: FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001; PRODABEL, 2014. Adaptação do autor.
Ao grupo de compartimentos de relevo formado pelas Colinas, Várzea e Terraço do Arrudas, juntamente com o Vertente do Calafate e São Lucas, em função da sua sobreposição com a Depressão de Belo Horizonte, cabe análise conjunta. As várzeas caracterizavam-se por áreas de brejo, por vezes fragmentadas, e morfologicamente condicionadas ao curso do ribeirão. Pro sua vez, tanto o Terraço do Arrudas, quanto as Vertentes do Calafate e do São Lucas, constituem-se por planos ou semiplanos, mas com caimento em direção ao Ribeirão do Arrudas.
O conjunto formado por esses compartimentos de relevo, provavelmente constituía, antes da ocupação antrópica, um sistema natural relativamente uniforme, mas com indícios de diferenciações entre eles – tanto que viabilizaram a subdivisão apresentada por Ferreira (1998). Essas distinções demandariam certa diversidade na concepção dos tecidos urbanos, durante os processos de instalação do sistema antrópico nessas áreas.
Por outro lado, áreas escarpadas, patamares, grandes desníveis, talvegues, cristas e subcristas, anfiteatros, superfícies elevadas e onduladas, vales encaixados, e vertentes caracterizam a incidência da Regional Centro-Sul sobre as Serras do Quadrilátero Ferrífero. Nessa área, diversidade e especificidade teriam sido dois atributos do sítio escolhido para implantação da capital mineira. O agrupamento formado pelos compartimentos de relevo Vertentes do Cruzeiro, Cristas da Zona Sul, Superfícies do Jatobá e do Belvedere e Escarpa da Serra do Curral apresenta-se como um conjunto muito mais complexo e heterogêneo do que o incidente sobre a Depressão de Belo Horizonte. Constituem um sistema natural com características muito específicas e determinantes do sistema antrópico a ser sobre elas implantado. Suas especificidades, com destaque para o compartimento de maior porte – Cristas da Zona Sul – são significativamente condicionadas pelas falhas de empurrão incidentes sobre a Região Administrativa Centro Sul.
Esse contraste entre as áreas incidentes sobre esses agrupamentos fica clara, na ilustração apresentada na figura 12. A sobreposição dos grandes compartimentos de relevo e das falhas de empurrão com as declividades encontradas na Região Administrativa Centro Sul demonstra que, nas áreas incidentes sobre a Depressão de Belo Horizonte, as declividades variam apenas entre 0 e 20%, com extensas áreas com no máximo 10% de declividade. Já, nas incidentes sobre as Serras do Quadrilátero Ferrífero, observam-se várias manchas, espalhadas na sua extensão, com declividades maiores que 20%, alcançando inclusive, em certos trechos, inclinações superiores a 50%. O quadro denota uma diversidade de relevo significativamente complexa, com maior especificidade e variabilidade de condicionantes para a implantação do sistema antrópico.
No Anexo A encontra-se quadro com o detalhamento de cada compartimento de relevo incidente sobre a Região Administrativa Centro Sul.
Figura 12 – Sobreposição das grandes unidades de relevo e das falhas de empurrão incidentes sobre a Administração Regional Centro Sul com as declividades da área
Fonte: FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001; PRODABEL, 2014. Adaptação do autor.
Já a figura 13 apresenta as variações de altitude a partir das falhas de empurrão incidentes sobre as unidades de relevo. Somadas às da figura 12, corrobora a influência das falhas de empurrão sobre a configuração contrastante das duas áreas.
Figura 13 – Sobreposição das falhas de empurrão e das grandes unidades de relevo incidentes sobre a Região Administrativa Centro Sul com a variação entre as cotas máxima e mínima da topografia
Fonte: FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001; PRODABEL, 2014. Adaptação do autor.
Esse contraste entre as feições no sistema natural, determinado pelas falhas, configuram-nas, juntamente com o curso do Ribeirão Arrudas, como linhas de fixação. Contudo, um tipo específico: decorrentes dos processos geomorfológicos do sítio. Encontram-se assim dentre os condicionantes originais do plano urbano de Belo Horizonte e do traçado da Avenida do Contorno. Essa Avenida, por sua vez, configura também linha de fixação, mas decorrente das anteriores e produto da concepção do plano urbano de Belo Horizonte. Exemplifica-se assim, como certas fisionomias do sistema natural originam ou conformam os planos urbanos e seus tecidos constituintes. A figura 14 apresenta mapa síntese das linhas de fixação originárias incidentes sobre a Região Administrativa Centro Sul sobrepostas sobre a malha urbana e o relevo simulado da área.
Figura 14 – Mapa síntese das linhas de fixação originárias na Administração Regional Centro Sul, sobre a malha urbana, com a simulação do relevo da área
Fonte: FERREIRA, 1998; CARVALHO, 2001; PRODABEL, 2014. Adaptação do autor.
Entretanto, antes de se abordar o processo de implantação do plano urbano e dos tecidos componentes da Região Administrativa Centro Sul – ou sistema antrópico – é importante buscar a percepção da camada vegetação, decorrente do quadro de contraste e especificidade geomorfológica sob estudo. Trata-se de uma tentativa, por meio dos indícios oferecidos pelo relevo e dos relatos históricos e científicos, de se entender a paisagem anterior à ocupação da área, importante para a percepção dos atributos da floresta urbana na região e para a escolha dos trechos vegetados a serem estudados.