• No results found

Embora, ao analisar o desempenho das grandes empresas norte- americanas e inglesas, Froud et al. (2006) não tenham conseguido reunir evidências sobre a efetividade da estratégia de geração de valor para o acionista, o mesmo não ocorre em relação à evolução da remuneração da alta gerência. Considerando valores médios das 350 maiores companhias norte-americanas, o salário real dos CEOs (Chief Executive Officers) foi multiplicado por 10 entre 1980 e 2000, enquanto que os salários dos demais trabalhadores se mantiveram praticamente estáveis no período. Isto é um indicativo que, de alguma forma, os gerentes têm conseguido não apenas manter, mas até ampliar seu espaço como membros das elites organizacionais.

Segundo Savage e Williams (2008) as elites devem ser entendidas não como pilares tradicionais imutáveis, mas como um grupo de intermediários cujo poder advém de sua capacidade de estabelecer novas conexões e preencher lacunas. Embora alguns vejam a emergência da economia financeirizada provocando uma diminuição do papel dos gerentes (USEEM, 1996), o que se nota na realidade é uma reconfiguração desse papel, com os gerentes se tornando cada vez mais parecidos aos demais intermediários. Não se trata, portanto, do declínio da elite gerencial, já que seus ganhos têm aumentado destacadamente, mas de sua assimilação a uma elite mais dispersa, que inclui analistas financeiros, administradores de fundos de investimento, consultores de negócios e demais profissionais que passaram a exercer alguma parcela de poder sobre as organizações em função de seu posicionamento no ambiente dinâmico e sem fronteiras da economia financeirizada. Alguns autores designam esse cenário como o ‘novo capitalismo’ ou a ‘nova economia’ (SENNETT, 1998) e, por correspondência, poderíamos chamar as elites dessas organizações transformadas pela financeirização de ‘as novas elites’.

Ao estudar a importância do capital social para os chefes das mesas de operações dos bancos de investimento, Godechot (2008) recorre a uma interpretação que poderia ser generalizada para entendermos a atuação das novas elites organizacionais. Para ele esses indivíduos se comportam como

‘empreendedores internos’, similares aos chefes proto-industriais descritos por Marglin (1974). Stephen Marglin, um atento estudioso dos primórdios da revolução industrial, analisou as formas embrionárias das firmas capitalistas sob o sistema ‘putting-out’ e capturou, no famoso artigo intitulado ‘What do bosses do?’ a essência da atividade empreendedora. Contrariando o determinismo tecnológico encontrado em alguns textos de Marx, ele procurou mostrar como a tecnologia é consequência da ordem social e não a causa da mesma. Em sua opinião a divisão do trabalho não foi adotada devido à sua maior eficiência, mas por que destituía o operário de qualquer controle sobre o seu trabalho e transformava os empreendedores em coordenadores que, tornando-se indispensáveis à produção, alcançavam uma situação de poder que lhes permitia maiores lucros. A estratégia dos empreendedores seria, portanto, ‘dividir para conquistar’ (MARGLIN, 1974).

Esta forma de atuar dos gerentes é consistente com as transformações observadas nas empresas financeirizadas, em particular com o aumento da desigualdade e com a separação entre as funções técnicas ou operacionais e as funções administrativas ou de coordenação. Embora este comportamento tenha recebido um novo impulso pela lógica da financeirização, que incita os gerentes a se comportarem como empreendedores internos, em essência o fenômeno não é novo. Basta lembrar que a separação entre trabalho e poder, isto é, a desvinculação das atividades de controle das atividades produtivas, já era uma das características distintivas do taylorismo.

Ao procurar se desvincular das atividades produtivas para exercer exclusivamente funções de ‘liderança’, os intermediários internos passam a se identificar mais com os acionistas e investidores, dos quais se consideram representantes, do que com os demais funcionários, dos quais procuram se diferenciar. Cria-se, assim, uma cisão na empresa, em que uma elite de intermediários se associa a agentes financeiros externos para ascender a posições dominantes no interior da organização. Esta estratégia de intermediários que se associam a capitais ou ideologias externas para alçar a posições de dominação no contexto interno já havia sido descrita por Dezalay e Garth (2002) na obra ‘The internationalization of palace wars’, que discute como o discurso neoliberal norte- americano da era Reagan foi adotado de forma instrumental por facções políticas de países latino-americanos em suas disputas domésticas.

Grün (1999) mostra, através de uma pesquisa em que entrevistou engenheiros e gerentes industriais de empresas brasileiras, como a emergência dessa nova ordem gerou conflitos no interior das organizações produtivas. Os funcionários mais técnicos, que antes ascendiam a cargos de chefia escalando degrau por degrau a pirâmide hierárquica tradicional, foram subitamente deslocados por indivíduos mais alinhados com a lógica financeira. As portas se fecharam para aqueles que não demonstravam identificação total com os ideais da nova ordem institucional. Os antigos funcionários de carreira prezavam a estabilidade necessária para o bom funcionamento das operações produtivas, enquanto que os novos gestores com formação financeira estavam ávidos por todo tipo de mudança que lhes oferecessem oportunidades para ascender ao topo das organizações. Neste confronto entre visões de mundo distintas, os indivíduos menos afeitos ao empreendedorismo e à perseguição de metas de curto prazo acabaram tendo que se contentar com funções subalternas ou foram simplesmente descartados nas ondas de downsizing que caracterizaram este período de transformação.

Pedroso Neto (2011) descreve em detalhe um processo de transformação organizacional conduzido por uma consultoria internacional, com vistas à privatização de uma empresa do setor elétrico do estado de São Paulo na década de 1990. O autor ressalta a dimensão política do processo, viabilizado a partir de uma aliança tácita entre os consultores encarregados da condução do processo de privatização e uma elite de funcionários com maior afinidade com os ideais da modernização, aos quais ele denominou ‘o alto clero’.

O processo genérico de transformação das empresas financeirizadas pela ação das novas elites organizacionais pode ser descrito esquematicamente conforme ilustrado na figura 4.

Figura 4 – As novas elites e a transformação da empresa financeirizada.

Fonte: elaborado pelo autor.

Na ‘nova economia’ os gerentes deixaram definitivamente de ser líderes e representantes de seus subordinados e passaram a atuar quase que exclusivamente como agentes do mercado financeiro e dos investidores. Para legitimar sua atuação contam com a colaboração das consultorias de negócios, que lhes fornecem os conceitos e ferramentas de gestão que o mercado considera adequadas para extrair da organização o máximo valor para o acionista. Como a rentabilidade exigida pelos investidores é extremamente difícil de se obter por meios convencionais no ambiente econômico competitivo atual, tanto os gerentes como os consultores têm de lançar mão de artifícios para entregar resultados expressivos. Essa é a característica em comum entre gerentes, consultores e intermediários do mercado financeiro: a necessidade de se utilizar de uma certa dose de performatividade, palavra aqui usada no sentido de uma encenação com o intuito de conferir credibilidade a uma determinada narrativa. O que proporciona as condições necessárias para que esses artifícios tenham chances razoáveis de sucesso é a volatilidade do ambiente financeirizado, que tem por ideal a própria liquidez dos mercados. Assim como o especulador ganha dinheiro com as oscilações do

Empreendendorismo Individualismo Lógica de mercado Financeirização da economia Reestruturação das organizações em torno de intermediários internos e externos ‘Novas elites’

mercado, comprando na baixa e vendendo na alta, gerentes e consultores também podem tirar partido de resultados temporários. Tanto um como outro, e mesmo ambos em colaboração, sabem como influenciar métricas de desempenho no curto prazo. No longo prazo o consultor não estará mais prestando serviços àquela companhia e o gerente provavelmente terá sido promovido, transferido para outro departamento ou mudado de empresa, possivelmente impulsionado por seus resultados extraordinários. Se os resultados não se sustentarem ao longo do tempo, isto sempre pode ser atribuído à incapacidade da nova administração em dar continuidade à estratégia, à incompetência dos indivíduos encarregados da execução do plano ou a mudanças na conjuntura econômica (VILLETTE, 2011).

Os consultores conferem legitimidade às estratégias dos gerentes, contribuindo para o sucesso de suas narrativas. Em contrapartida, são requisitados para conduzir transformações organizacionais e implantar inovações administrativas. Trata-se, portanto, de uma relação simbiótica, na qual os interesses são coincidentes e em que ambas as partes tem bastante a ganhar. Além de desempenharem o papel de intermediários nas organizações financeirizadas, consultores e gerentes têm em comum objetivos, métricas, métodos e discursos. Sua afinidade é tal que não é incomum que consultores se tornem gerentes e vice- versa. Assim, seria razoável considerá-los como membros de uma mesma elite organizacional. Enquanto os gerentes derivam seu poder diretamente da delegação que alegadamente lhes é concedida pelos acionistas, os consultores derivam seu poder de sua credibilidade diante desses mesmos acionistas e do mercado financeiro, de seus capitais cultural, social e simbólico e através de delegação da alta gerência das organizações a que prestam serviços.