4. Data og empiriske resultater
4.2 Empiriske resultater
A literatura sobre consultoria é ampla e diversificada, refletindo a própria complexidade e segmentação dessa indústria. Cabe esclarecer que não é parte do escopo deste trabalho realizar uma revisão exaustiva sobre as atividades de consultoria em geral. De fato, nos interessa mais diretamente apenas um de seus segmentos, a consultoria de negócios, que aborda questões relacionadas à gestão estratégica e à reestruturação organizacional das empresas. Isso exclui as
consultorias de recursos humanos (RH), tecnologia da informação (TI), contabilidade, auditoria e áreas técnicas especializadas, como serviços de engenharia. Mesmo nesse universo mais restrito, nosso foco não está na atividade de consultoria em si, mas no papel dos consultores enquanto integrantes das elites organizacionais que atuam em empresas financeirizadas.
Donadone (2011) destaca a expansão vertiginosa da atividade de consultoria em todo o mundo. As maiores empresas têm crescido nas últimas décadas a uma taxa média de 20% ao ano, o que supera em muito as taxas de crescimento das principais economias do planeta. O mercado mundial de consultoria passou de 3 bilhões de dólares em 1980 para 22 bilhões em 1990 e 100 bilhões em 2000. Embora esse mercado seja muito dinâmico (por exemplo, o Monitor Group, do ‘guru’ Michael Porter, faliu em 2012 e foi incorporado pela Deloitte), podemos destacar entre as maiores consultorias de gestão ao longo das últimas décadas as seguintes empresas: McKinsey & Company, Booz Allen Hamilton, Deloitte Touche Tomatsu, Strategy& (anteriormente Booz & Company), Bain & Company, PricewaterhouseCoopers e Boston Consulting Group.
O Brasil, devido ao potencial de sua economia, ao fluxo regular de investimentos estrangeiros e ao grande número de subsidiarias de empresas multinacionais aqui instaladas, é um dos mercados importantes para as firmas de consultoria internacionais, sendo que as empresas líderes no mercado internacional possuem escritórios no país (DONADONE, 2001).
As origens das empresas de consultoria que hoje dominam o mercado mundial remontam ao final do século XIX e início do século XX. Dois países se destacam como pioneiros no surgimento de grandes empresas de consultoria: a Inglaterra e os Estados Unidos, podendo-se considerar este último como o principal espaço de construção das características estruturantes das empresas que se tornariam líderes do setor. Como referência cronológica pode-se citar a fundação, na Inglaterra, da Price em 1849 (tornando-se Pricewaterhouse em 1965); Coopers em 1854 e, nos Estados Unidos, da Arthur D. Little em 1886; Ernst & Ernst e Arthur Young & Company em 1906; Arthur Andersen em 1913; Booz Allen & Hamilton em 1914; e McKinsey em 1926 (DONADONE, 2001).
McKenna (1995) descreve as origens da indústria de consultoria como a conhecemos hoje. Ele argumenta que, ao contrário do que sustentam alguns autores (CODY, 1986; NELSON, 1992), a atividade de consultoria não se originou
do movimento da administração científica, embora os criadores destas práticas, como Frederick Taylor, Henry Gantt e Frank e Lillian Gilbreth, tenham prestado serviços a um grande número de empresas interessadas em aplicar as novas técnicas. Na verdade, até o início da década de 1930, a forma mais comum de atuação dos consultores de negócios nos Estados Unidos era na avaliação e na reorganização de empresas nas quais os bancos investiam ou para as quais forneciam empréstimos. Muitos desses profissionais trabalhavam diretamente para os bancos, ou sob a coordenação direta deles. Entretanto, como parte das medidas do governo americano para corrigir os problemas estruturais que levaram à quebra da bolsa de 1929, foi aprovado no congresso em 1933 o ato Glass-Steagall, que proibia as organizações financeiras de atuarem simultaneamente como bancos comerciais e bancos de investimento. Nessa mesma época foi criada a SEC (Securities and Exchange Commission) para regular os mercados financeiros e promover maior transparência das contas das empresas. Embora o ato Glass- Steagall não impedisse os bancos de investimentos de atuarem como consultores de gestão, as regulamentações impostas pela SEC determinavam que investidores deveriam recorrer à auditoria externa para emissão de títulos e reorganizações corporativas, impedindo assim que os bancos de investimento utilizassem pessoal interno para essas atividades. Desse modo, a partir de 1934 os bancos comerciais e de investimentos foram forçados a contratar consultores externos para a emissão de pareceres sobre a organização de empresas falidas ou sobre prognósticos de companhias de capital aberto recém-criadas. Esse novo arranjo institucional na área bancária proporcionou um impulso decisivo para o desenvolvimento das empresas de consultoria, que a partir de então passaram a se expandir mais rapidamente. Entre as décadas de 1930 e 1940 o número de empresas do setor nos Estados Unidos passou de 100 para 400.
Desde essa época, uma sucessão de eventos tem contribuído para o crescimento da demanda de serviços de consultoria em todo o mundo: o esforço industrial americano durante a Segunda Guerra Mundial, a ajuda norte-americana na reconstrução da Europa no pós-guerra, a expansão das multinacionais norte- americanas nos mercados mundiais nos anos 1960, a emergência do sistema de produção inovador das empresas japonesas a partir dos anos 1970, a onda de reestruturações e fusões na economia norte-americana nas décadas de 1980 e 1990 e, a partir de então, o advento da financeirização da economia global, a proliferação
dos modismos administrativos e as transformações decorrentes na gestão organizacional (DONADONE, 2011).
Assim como Donadone (2011), Kipping e Kirkpatrick (2011) destacam o crescimento explosivo da indústria de consultoria em gestão. Mais do que o aumento significativo do faturamento das empresas do setor, entretanto, eles ressaltam o nível de visibilidade e influência sem precedentes desfrutado pelos consultores e seu entranhamento cada vez maior nas organizações. As explicações para este fenômeno têm sido objeto de debate. Para a literatura funcionalista, o crescimento da atividade de consultoria é entendido como uma consequência direta e não problemática da necessidade de melhoria do desempenho competitivo, que por sua vez é decorrente da ‘globalização’ (ROSE; HININGS, 1999).
Em oposição a este ponto de vista encontra-se uma literatura mais crítica, que chama a atenção para a ação premeditada dos consultores no sentido de lançar continuamente novas ideias, os modismos administrativos, com a finalidade de criar uma constante demanda para seus serviços (FINCHAM,1999; CLARK; FINCHAM, 2002). Kipping e Kirkpatrick reconhecem algum mérito nessa última abordagem, na medida em que, diferentemente da primeira, não pressupõe que as intervenções dos consultores sejam sempre funcionais e nem que tenham sempre um efeito positivo sobre a organização. Eles argumentam, entretanto, que, ao conferir aos consultores uma autonomia quase ilimitada para moldar a realidade através da criação de modismos, essa perspectiva negligencia a importância dos contextos econômico, cultural e tecnológico. Outro problema é que estaria implícita a presunção de uma extrema ingenuidade dos clientes, aparentemente dispostos a aceitar quaisquer estórias sugeridas pelos consultores. Eles propõem então uma abordagem baseada no realismo crítico, perspectiva teórica segundo a qual as interações sociais são condicionadas por fatores estruturais, mais não diretamente determinadas por estes fatores (ARCHER, 1995; REED, 2001). Isto implica a consideração tanto do papel da agência humana (comportamento auto-interessado dos consultores) como da influência do contexto no qual esses atores operam. Haveria, portanto, uma interação entre as atividades empresariais e as atividades dos consultores. Esses se beneficiariam das mudanças do capitalismo ao tirar proveito delas para a geração de novas ideias de gestão e simultaneamente contribuiriam para o aprofundamento destas mudanças, através da disseminação destas novas ideias (KIPPING; KIRKPATRICK, 2011).
Villette (2011), ele próprio um ex-consultor, descreve a forma de operar típica das empresas de consultoria e dos consultores de negócios. Segundo ele, o cenário das intervenções dos consultores é quase sempre o mesmo. Conforme notado por Mintzberger (1989), observa-se na alta gerência uma tendência pela aplicação de fórmulas prontas e técnicas padronizadas para a solução de problemas organizacionais, sem considerar-se as especificidades de cada situação. Isto porque o problema é geralmente caracterizado através de alguns indicadores quantitativos também padronizados. Para resolver o problema percebido pela gerência recorre-se a uma consultoria, escolhida em função de suas propostas para a solução dos problemas comuns de gestão: baixa produtividade, retorno insuficiente do capital investido, qualidade insatisfatória, falta de competitividade, etc.
Após um rápido diagnóstico, obtido por meio de umas poucas reuniões com os próprios gerentes, a empresa de consultoria envia para a missão jovens consultores recém-formados em renomadas escolas de administração. Esses indivíduos, em função de sua pouca experiência e da pressão por resultados rápidos, invariavelmente implementarão soluções técnicas predefinidas prescritas pela empresa de consultoria ou aprendidas na escola. A preocupação de estar em conformidade com as prescrições, ao invés de procurar entender e adaptar-se às particularidades da situação encontrada, provavelmente produzirá uma série de disfunções, cuja gravidade não ficará evidente senão depois de um bom tempo da partida dos consultores. Mas, no curto prazo, as metas estabelecidas para os indicadores serão atingidas, cumprindo assim os objetivos da gerência. Também os objetivos da empresa de consultoria serão atingidos, uma vez que sua remuneração geralmente é função dos resultados de curto prazo de suas intervenções (VILLETTE, 2011).
Muitas vezes a intervenção da empresa de consultoria tem consequências amargas para boa parte dos funcionários, quer seja diretamente, através de cortes de pessoal e da intensificação do trabalho, quer seja indiretamente devido a disfuncionalidades que afetarão negativamente a saúde da empresa a longo prazo. Assim, é conveniente para a administração que o ônus político de tais medidas seja atribuído a terceiros, isto é, às empresas de consultoria. Quando eventuais efeitos negativos surgirem, a gerência poderá então eximir-se de qualquer responsabilidade. Villette (2011) denomina este tipo de atuação das consultorias como a execução do ‘trabalho sujo’.
A necessidade de se realizar o ‘trabalho sujo’ é atribuída por Villette à ocorrência do ele chama de ‘erros’ cometidos ao longo da cadeia de comandos das empresas. São apresentados alguns fatores que contribuem para esses erros, como o estabelecimento de metas irreais pela direção das organizações e a correspondente necessidade de se apresentar índices de desempenho que indiquem o atingimento dessas metas. Entretanto, Villette admite a hipótese de que esses ‘erros’, cometidos de maneira tão frequente e repetitiva, não sejam resultado de ignorância e imperícia, mas atendam aos interesses de grupos para os quais as disfuncionalidades das organizações a longo prazo seriam irrelevantes em comparação com as vantagens que podem ser obtidas a curto prazo (VILLETTE, 2011).
Nas empresas financeirizadas, gerentes e consultores são os agentes da flexibilização. Este papel oferece aos gerentes oportunidades para utilização do discurso da flexibilidade em suas disputas por poder. Por sua vez, o domínio desse discurso por parte dos consultores os torna candidatos privilegiados às mesmas posições disputadas pelos gerentes. Através de nossa pesquisa procuraremos entender melhor o comportamento desses indivíduos e sua influência sobre as organizações em que atuam.
5 O MÉTODO DE PESQUISA
O tema de nosso estudo é a forma como o discurso da flexibilidade pode ser utilizado instrumentalmente pelas elites organizacionais em suas disputas internas nas empresas. Nesse sentido, a questão que nos propomos a investigar é: ‘seria possível identificar no comportamento de integrantes das elites organizacionais evidências ou indícios da utilização do discurso da flexibilidade como um recurso para a disputa por posições de poder no interior das organizações?’
A forma como pretendemos abordar essa questão é através do estudo do comportamento de uma parcela da elite organizacional bastante emblemática em termos da disseminação, prescrição e do emprego de práticas relacionadas ao conceito da flexibilidade: os consultores de negócios. Assim, estabelecemos como objetivo geral de nossa pesquisa a investigação da trajetória profissional de consultores de negócios que trabalharam numa empresa de consultoria multinacional de renome em operação no Brasil, de modo a levantar dados que nos permitam refletir sobre o emprego instrumental do discurso da flexibilidade.
Para o estudo da trajetória de carreira dos consultores recorreremos à análise de seus currículos, através da qual pretendemos obter as seguintes informações:
Dentre os consultores que passaram pela empresa de consultoria em estudo, quantos continuaram o ramo da consultoria e quantos se mudaram para outras indústrias;
Dos que deixaram o ramo da consultoria, quanto tempo permaneceram como consultores (e até que idade);
Qual a formação educacional (ou capital cultural) dos consultores; Que cargos assumiram os indivíduos que deixaram de ser
consultores e que relação existe entre esses cargos e sua formação educacional;
Para que indústrias se transferiram os indivíduos que deixaram de ser consultores;
Quais diferenças de características podem ser identificadas entre os indivíduos que permaneceram como consultores e os que deixaram o ramo da consultoria.
Se, por exemplo, os dados revelarem uma grande porcentagem de indivíduos que abandonaram o ramo da consultoria após um curto período e que, ao fazê-lo, assumiram cargos executivos em outras indústrias, isso poderia representar um indício de utilização instrumental por parte dos consultores de sua condição de porta-vozes do discurso da flexibilidade para ascender rapidamente a posições de alta gerência. Uma vez que nossa pesquisa é de caráter exploratório, a detecção desses indícios nos permitiria discutir possíveis hipóteses relacionadas aos dados observados.