O problema da construção da memória colectiva na União Soviética surgiu logo após a Revolução de Outubro, quando, ao destruir o regime anterior, se procurou fazer desaparecer, juntamente com ele, as formas antigas de identificação e os grupos sociais depositários da memória e da identidade colectiva. A nova realidade que se instalou foi o resultado de acção de novos protagonistas – revolucionários, operários e camponeses – mas ao mesmo tempo, foi a cena onde se iria desencadear uma nova história e construir uma nova memória colectiva.
O trabalho da memória, como escreve Todorov (2000), submete-se a duas exigências principais: fidelidade para com o passado e utilidade no presente. O projecto soviético foi uma ruptura decisiva com o passado imperial e capitalista32. A história foi refeita em torno dos acontecimentos que se desenrolaram a partir da Revolução e que assumiram um valor simbólico, e do culto dos grandes homens que imaginaram, pensaram e afirmaram a sociedade socialista. Foi este passado que passou a ser recordado pela memória colectiva, não só pelos valores que defendia no presente, mas principalmente pela importância que representava para o futuro, que iria ser concebido como a continuação do passado recente glorioso. Foi por isso que a questão da memória, que se procurou construir da forma mais fiel à história oficial, se transformou na União Soviética numa importante “política de memória”. Aliás, a política de memória tinha sido, igualmente, um elemento importante da política oficial do império russo, como provam as atitudes do governo czarista com o intuito de varrer da memória do povo os acontecimentos revolucionários de 1905. Por exemplo, os nomes conhecidos dos navios de guerra envolvidos na actividade revolucionária de 1905 foram imediatamente substituídos (Kolonitskii, 2009).
32 Hobsbawn e Ranger (1984), afirmam que este facto é próprio das revoluções - “…as revoluções…por
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Como observa Baczko (1986): “Nada há de mais sério do que inventar uma representação da sociedade, especialmente uma representação da melhor sociedade possível, isto é, a comunidade da felicidade realizada” (p. 344). O sistema ideológico comunista realizou um trabalho que fez com que os valores defendidos pelo poder político, os acontecimentos fundadores do regime e os seus protagonistas, se tornassem o objecto da confiança e da lembrança do povo, assim como se tornassem acontecimentos e valores constitutivos da memória colectiva e de identidade nacional. Procurou-se que a memória colectiva, constituída desta maneira, se fixasse à história oficial, aos acontecimentos, às tradições, às figuras emblemáticas, aos sucessos e aos inimigos, e se tornasse um recurso importante para estruturar e orientar a visão comunista do mundo e unir a população da União Soviética em volta desta. Assim, o passado colectivo soviético, desde os primeiros momentos da existência da sociedade, teria que desempenhar duas funções cruciais: uma, a legitimação de uma comunidade nova, outra, ainda mais importante, a integração em torno dos postulados ideológicos desta.
Um vasto conjunto de objectos simbólicos e tradições inventadas – monumentos, relíquias locais das batalhas da revolução e da guerra33, cerimónias comemorativas de datas importantes, folclore, mártires, heróis e heroínas soviéticas, soldados mortos em batalhas – e todo o passado soviético foram simbolicamente usados com o objectivo de criar e fortificar a identidade soviética; “a História e a memória colectiva na União Soviética foram sempre percebidas como campo de batalha pela identidade” (Kappeler, Kohut, 2003, p. 31). A intenção foi a produção de um colectivo que se alimentasse das ideias, dos valores e dos símbolos do socialismo, que as imagens do passado ordenassem os sonhos colectivos e orientassem os indivíduos na construção da sua nova realidade e nas suas lutas (Bazcko, 1986). A memória colectiva envolvia, assim, símbolos, ideias e representações novas, e permitia desta forma que os indivíduos se identificassem com a sociedade, as suas crenças, os seus valores e modelos de comportamento34.
33 Na União Soviética, quando se falava de guerra sem mais, referia-se sempre à Guerra, que era Grande
Guerra Patriótica de 1941-1945 (Gudkov, 2005).
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Um exemplo notório destas atitudes do poder foi o caso do “Camarada Pavlik Morozov”. Era história de um jovem pioneiro, cuja dedicação á causa era tão grande que ele denunciou o próprio pai, líder de uma aldeia soviética, quando desconfiou da sua conduta imprópria para um comunista. Foi assassinado,
51 Vários acontecimentos do passado soviético foram considerados importantes para a construção da memória colectiva e a divulgação dos símbolos da sociedade nova. Entre os objectos de orgulho dos cidadãos soviéticos distinguiam-se: a Revolução Socialista, a construção de uma nova sociedade, a formação do “homem novo”, a industrialização soviética, o poder militar de superpotência, e ligados a esta, a ciência e tecnologia, o voo de Gagarin, a vitória na II Guerra Mundial e a herança cultural da era capitalista – a grande literatura russa (Gudkov, 2005).
Para o propósito deste trabalho, interessa reflectir sobre um dos eventos que deixaram marcas profundas na memória soviética – a II Guerra Mundial, procurando perceber por quem, quando, através de que material simbólico e de que forma foi construída a imagem da guerra, através de que canais e mecanismos esta foi transmitida e reproduzida. A escolha deste evento deveu-se a várias razões: ao facto de grande parte dos imigrantes da amostra ser composta por filhos de uma geração que presenciou a guerra ou o período logo após; devido à persistência do seu impacto emocional e ao facto de o problema da Grande Guerra Patriótica ter sido o primeiro e, ao mesmo tempo, o mais difícil tema nos debates históricos após o colapso da URSS (Hösler, 2005).
O interesse em preservar a memória da guerra foi manifestado logo após o seu início, aquando duma circular dirigida aos funcionários dos museus que lhes explicava a necessidade de recolha dos materiais da guerra. Foi-lhes pedido para procurarem e guardarem pinturas, desenhos, esculturas, cartas, fotos e outros materiais relacionados com a guerra (Konradova, 2005). Talvez este interesse em preservar os artefactos memoráveis esteja relacionado com a percepção do potencial ideológico de guerra ou com a prática já estabelecida desde a Revolução de Outubro35. De qualquer maneira, o trabalho com a “memória colectiva” ao longo dos anos do domínio soviético passou a ser uma das principais direcções da actividade ideológica.
supostamente para vingar a sua denúncia. Várias gerações de cidadãos soviéticos cresceram com a história de Pavlik. “A biografia ilustrada de Pavlik foi escrita para crianças, foram compostas poemas e canções, e feitos muitos filmes – para inserir as imagens icônicas do menino no subconsciente nacional” (Kelly, 2005, p.xii). Após a II Guerra Mundial, estátuas de Pavlik foram erguidas em todo o país, e parques, ruas e escolas foram nomeados com o seu nome. Pavlik e a sua imagem só morreram de facto nos anos 80 do século XX (Kelly, 2005).
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Um dos principais decretos assinados por Lenine, que lançaram as bases do sistema estatal soviético, estava o decreto de preservação da memória da revolução em museus, arte e formas comemorativas (Konradova, 2005).
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A memória da Grande Guerra Patriótica no após guerra, nos anos 50, não era propriamente a “memória histórica”, até porque a guerra vivida estava presente na experiência quotidiana dos participantes e suas famílias. Na imagem desses anos havia muito pouco de heróico – em primeiro plano estava o trabalho árduo, a fome e o sofrimento (Gudkov, 2005), o que contrastava com a imagem oficial triunfante, que sempre foi transmitida pelos canais do Estado. À medida que a vida quotidiana expulsava a realidade da experiência militar dos participantes da guerra, mais forte se tornava o processo de mitificação desta.
Nesse mesmo período, iniciou-se a colocação das esculturas-memórias, que tinham, regra geral, a figura de um soldado com uma arma e de uma mulher com flores. Estes monumentos eram erguidos em muitas cidades e aldeias de forma idêntica, em lugares tradicionalmente associados à memória – cemitérios e praças centrais (Konradova, 2005). Na mesma época apareceram placas comemorativas em escolas, universidades, fábricas e hospitais, sempre por iniciativa das próprias instituições, que informavam o número e os nomes das pessoas que tinham ido para a guerra deixando esse local. Foram dados os nomes dessas pessoas às ruas, às escolas, as suas biografias foram estudadas nas aulas de história, as suas vidas e atitudes passaram a ser objecto de admiração e de imitação (Darsavelidze, 2007).
Mas passados 15 anos – quando a geração de pessoas que não participaram na guerra substituiu a anterior nas posições sociais e políticas importantes – tornou-se notável a intensa modelação/codificação das memórias da guerra. Iniciou-se um processo demonstrativo de adoração dos “veteranos”, passou a ser usado um tom de certa forma lírico nas descrições da guerra (em primeiro lugar, nas recordações) e nos rituais públicos. Este processo unia a experiência colectiva estereotipada, devido à produção e ao uso de fórmulas verbais aprovadas socialmente – uma linguagem oficial própria usada nos discursos públicos sobre a guerra, que se fixou na cultura popular – com a concepção oficial da história, da cultura nacional e dos valores morais da vida privada. Desta forma, a interpretação do pós-guerra distanciava-se da percepção afectiva da experiência militar particular, numa recusa constante de discussão das páginas trágicas e ambíguas da história soviética. Merridale (1999) fala de deliberada selectividade da “comemoração” soviética, ou das técnicas que suportam a memória colectiva:
53 […] A repetição excessiva de algumas memórias e a exclusão propositada de todas os outras é uma forma de censura e é tão poderosa como uma negação oficial. Certos tipos de dor, incluindo, por exemplo, a sensação das crianças de desnaturalidade das famílias de acolhimento, ou o luto dos judeus sobreviventes do Holocausto, foram excluídos do debate público […] (Merridale, 1999, p. 76).
Nos anos 60, a geração dos veteranos de guerra começou a dar lugar à geração seguinte. A “memorização” assumiu uma escala nacional; começou a construção dos complexos memoriais grandiosos nas cidades de importância estratégica na história da II Guerra Mundial: Moscovo, Estalinegrado, entre outras. Foi durante esse período que se formou o ritual oficial soviético associado à percepção e transmissão de significados ideológicos da guerra e da vitória, com a justificação das vítimas e a orientação para o futuro desenvolvimento pacífico, juntamente com a restauração em 1965 da celebração do Dia da Vitória no 9 de Maio como um feriado e o direito de usar condecorações e medalhas por parte dos veteranos, medalhas estas anteriormente nubladas pela presença do perfil de Estaline (Konradova, 2005).
Sem dúvida, a vitória na guerra criou novas condições para a legitimidade do regime comunista. A guerra, com o seu heroísmo real e mítico e com uma grande dose de sacrifício, fornecia um material único para criação dos símbolos patrióticos e de padrões de memória colectiva. Além disso, a luta geral do povo soviético contra o inimigo tornou possível, sem ignorar a especificidade das repúblicas e das etnias, criar um modelo geral de patriotismo – uma identidade comum Soviética. Assim, o mito da Grande Guerra Patriótica, como base estrutural na unidade moral e política da sociedade soviética, na liderança do Partido Comunista, na unidade do Partido e do povo, no patriotismo internacional e heroísmo, na amizade dos povos da URSS e assim por diante, realizou uma missão particular para com a unidade e a integração identitárias da sociedade soviética.
Compreende-se assim, que durante a permanência do regime, tudo o que era relacionado com a guerra estivesse sujeito a uma forte sacralização e a um bloqueio de qualquer tentativa da sua racionalização. Assim, qualquer versão que divergisse da versão oficial, qualquer análise dos acontecimentos da guerra que se desviasse do oficialmente aprovado, durante muito tempo era entendida como um ataque contra o santuário, como uma afronta à memória dos mortos, como uma blasfémia contra os mais altos valores nacionais.
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A interpretação oficial da vitória não foi simplesmente uma justificação do regime soviético no passado e no futuro. Segundo Ferretti (2007), a memória triunfante da guerra, cultivada pelo poder, foi estruturada em torno de três elementos-chave, bem definidos em termos de valores. O primeiro era o retorno ao nacionalismo, que já tinha começado nos anos 30 e atingido o seu apogeu durante a guerra. Deste ponto de vista, foi simbólica a adopção do novo hino nacional que substituiu a Internacional e demonstrou uma mudança nas fontes de legitimação do regime: da Revolução, já desvanecida na memória, para a ideia da celebração do poder da URSS, o primeiro Estado Socialista do mundo. O simbolismo da vitória compensava, durante muito tempo, as falhas do regime de mobilização permanente, justificava as necessidades de um vasto exército (que se tornou um modelo para outras instituições sociais e políticas) e alimentava a expectativa de uma competição com o Ocidente.
O segundo elemento-chave, como já foi referido, prende-se com a glorificação do heroísmo do povo soviético, apresentado como uma unidade homogénea, indivisível, sem classes e divergências entre etnias.
O terceiro elemento-chave diz respeito à percepção do inimigo. Visando a integração da população da URSS numa comunidade histórica designada e conhecida como o povo soviético, o mito da guerra criou os inimigos e heróis comuns, contudo permitindo a cada república nacional e a cada grupo étnico criar os seus próprios pequenos mitos, complementando harmoniosamente a construção ideológica geral. O inimigo, na época de Estaline na URSS, era o nazismo, que, como repetia continuamente a propaganda desde a década de 30, não era mais do que o mais elevado estádio do capitalismo e da ditadura do capital. Era o mesmo capitalismo cujo novo ataque vinha a ser anunciado desde a Guerra Civil, quando a Revolução de Outubro rompeu o sistema socioeconómico do capitalismo, dando esperança aos oprimidos e incentivando-os a revoltarem-se. Esta ideia da inevitabilidade de uma nova guerra mundial, desta vez dirigida contra o Estado do socialismo vitorioso, a URSS, e que deu origem à síndrome de uma “mentalidade de cerco”, iria desempenhar um papel significativo na história do país. Depois da morte de Estaline, a interpretação oficial da vitória permitiu às autoridades explorar o antifascismo como uma espécie de antítese do capitalismo e do liberalismo, mesmo nas suas formas políticas democráticas.
55 A importância central atribuída aos sucessos, às vitórias e realizações da URSS, que ganhou a força nos anos 60 a 80, durante o governo de Brejnev, materializava a ideia da necessidade de um Estado forte, forçado a defender e fazer valer os seus direitos, face aos fortes inimigos externos, da prioridade dos interesses do Estado e da virtude de suportar sacrifícios necessários. A referência à experiência militar anterior servia para explicar e justificar as realidades actuais através dos modelos explicativos característicos da Guerra Fria (Günther, 2009). Foi um período da afirmação do mito soviético da guerra; a juventude, educada dentro do espírito do patriotismo soviético que silenciava o cepticismo da geração-participante da guerra, foi gradualmente ficando presa a este mito brilhante (Hösler, 2005).
A imagem da guerra na União Soviética não se assemelha à imagem construída no Ocidente. Com efeito, vários estudiosos da memória colectiva referente à II Guerra Mundial, assim como os cientistas sociais que trabalharam com meios específicos da construção da memória documental, como os manuais escolares (Foster, Nicholls, 2004) ou a literatura (Günther, 2009), afirmam que a distância que separa a memória da guerra no Ocidente da memória na URSS parece às vezes tão grande que se poderia pensar que se trata de duas guerras diferentes. A grande diferença entre estas duas memórias consiste precisamente na forma como a identidade colectiva foi moldada e como os valores foram transmitidos. Se, falando-se esquematicamente, na Europa Ocidental a memória da guerra tinha sido construída e colocada como base da identidade nacional em diferentes países, de forma a transmitir e reforçar nas pessoas a importância dos valores de liberdade e de democracia, alimentando estes valores com o antifascismo, em nome dos quais este último lutou, no caso da URSS tudo aconteceu de forma diferente. As memórias da guerra tinham sido construídas de modo a que, em primeiro plano, fosse colocada não a luta pela liberdade, mas o heroísmo do povo soviético. Por outras palavras, a memória da guerra na União Soviética não foi o portador dos valores democráticos do antifascismo, mas o detentor de valores tradicionais nacionalistas, que, tecidos no enredo da retórica socialista (por exemplo, o mito de Moscovo – Terceira Roma foi transformada no mito da missão salvadora da URSS em relação a toda a humanidade), tendo estes valores gradualmente formado a espinha dorsal do regime ideológico (Ferretti, 2007).
Assim, sempre que se fala de vitória, refere-se um símbolo que representa, para a maioria do povo, para a sociedade como um todo, um elemento essencial da
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identidade colectiva, um ponto de referência, na medida em que define a avaliação específica do passado e, de certa forma a percepção do presente e do futuro. A vitória em 1945 não foi apenas o nó central da história soviética que começou com a Revolução e terminou com colapso da URSS; na verdade, é o principal, se não o único ponto de referência positivo da identidade nacional pós-soviética (Gudkov, 2005).