3.2 VILKÅRENE
3.2.3 ULIKE FORMER FOR VERDIOVERFØRINGER
3.2.3.3 ANDRE FORMER FOR VERDIOVERFØRING
No decorrer dos anos 90 do século XX, surgiram quinze países provenientes da dissolução da URSS que, desta forma, saíram do período extenso de dominação soviética. O desaparecimento da União Soviética, a formação de novos Estados com novas ordens internas e externas provocaram mudanças não só no mapa geográfico e político da Europa, como também na vida quotidiana das populações desses Estados, afectando a sua identidade tanto colectiva como individual. Perceber a essência das mudanças, únicas na sua natureza, ocorridas nos países do bloco soviético continua a ser, ainda hoje, passadas duas décadas desde o seu colapso, um desafio no plano analítico para os cientistas sociais quer naqueles países, quer noutros países europeus, nos EUA e no Canadá. As mudanças mencionadas têm sido estudadas através de sondagens de opinião, assim como sob a forma de investigação sistemática, dando origem a várias discussões sobre diversos problemas relativos a essa transição, entre quais se destaca o problema de identidade pós-soviética, chamada muitas vezes de pós-
socialista47.
Esta secção do Capitulo I pretende dar conta de alguns dos resultados destas investigações com o propósito de identificar as alterações observadas nos aspectos identitários da população destes países que surgiram no contexto da radical mudança social e política. A preocupação é a de perceber se, em que medida e de que forma as identificações da população ex-soviética estão em sintonia com os processos de mudança decorrentes do colapso do sistema socialista. Neste contexto, os valores tradicionalmente associados ao socialismo soviético aparecem inevitavelmente como um critério de comparação.
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Na base desta abordagem está a assunção de que a variável mais importante para explicar o curso do desenvolvimento dos países de Leste é a natureza do regime. Assim, para a análise tem-se de partir do facto de que estes países são, antes de mais, “pós-comunistas” (Linz, Stepan, 1996) ou “pós-totalitários” (Machkuv, 2000).
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A reflexão sobre o tema das alterações identitárias aprofundou-se muito nos últimos anos. Diversos autores, apesar das suas diferenças no campo dos objectivos, das hipóteses, das abordagens teóricas e dos métodos de investigação, têm sublinhado a presença de algumas tendências principais, não raro contraditórias, na transformação das identidades. Por um lado, os estudos evidenciam as mudanças significativas que não dizem apenas respeito às categorias sociais com que as pessoas se identificam, mas também à essência dos processos de identificação, ao seu sentido e finalidade. Assim, foi possível encontrar, por detrás dessas mudanças, as alterações no próprio sistema dos valores, como por exemplo, uma avaliação dos fenómenos sociais (grupos e suas características, povos e nações) que não se baseia simplesmente na polarização – o bom e o mau, o positivo e o negativo – mas aceita os fenómenos como intrinsecamente ambivalentes (Sekulic, et. al, 1994) e a diminuição da importância das categorias sociais mais globais como as classes sociais ou a ideologia, a favor de categorias mais concretas e tangíveis – género, idade, formação, profissão (Holly, 1996; Titarenko, 2007).
Por outro lado, outros estudos testemunham o renascimento na população de algumas categorias sociais tributárias dos antigos valores e estereótipos, mas com uma mudança da sua direcção, como por exemplo, a velha ideia de “imagem do inimigo” que tem em mira um inimigo novo, ou as expectativas do “futuro brilhante” – num outro futuro, não socialista, porém apoiado, de novo, em outras crenças, em soluções simples e rápidas (Atchasov, 2001). Algumas destas investigações também referem que, apesar de a URSS já não existir, ainda se manifesta, por parte dos cidadãos, uma visível identificação com ela, com os seus valores base e com os processos e práticas que aí eram utilizados (Levada, 2008; Moravska, 2008, Timofeev, 2010). Os trabalhos no âmbito da identidade pós-socialista também deparam com o aparecimento de grandes grupos de pessoas com valores, tradições e normas destruídos, inúteis perante a nova ordem social e política, marcados por uma grande incapacidade de satisfazer as suas necessidades básicas, fazendo-os sentir um sentimento agudo de inutilidade para o país no seu novo estado. Esta perda do seu lugar na sociedade, está na origem, muitas vezes, da intenção de a abandonar e procurar um outro país de acolhimento48.
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Com o advento da liberdade de escolha individual, a falta de ordem e de estabilidade enfraquecem a crença da comunidade civil (nação, país), nas suas instituições tradicionais e na necessidade permanecer
75 De qualquer maneira, todos estes países passaram pela renúncia aos anteriores princípios ideológicos, à sua organização política e socioeconómica, que se reflecte na auto-percepção e auto-identificação dos seus cidadãos, provocando uma crise da sua identidade. Segundo Hösle e Nora (2003),
[…] A essência da crise de identidade colectiva é a desagregação das comunidades tradicionais, dos estatutos, relacionamentos, grupos de referência, mecanismos de socialização, das formas de vida habituais, da memória colectiva, a perda de fé no futuro […](p. 123).
Esta situação de certa forma condena as pessoas a uma sensação de abandono, levando- as a procurar novas (e / ou restaurar as tradicionais) formas de colectividade, contribuindo para conflitos entre diferentes formas de identificação e para o desenvolvimento de tensões sociais.
Apesar de se tratar de uma categoria académica, a noção de pós-socialismo contém em si certas características, valores, interesses, preferências e orientações que convém explicitar. Uma das características importantes do pós-socialismo é a fragmentação territorial que corresponde ao aparecimento de novos pequenos Estados49. Este processo é inevitavelmente acompanhado pelo surgimento de novos problemas relacionados com a sustentabilidade económica, com o funcionamento das instituições sociais e políticas, com a segurança, entre outras.
As primeiras décadas dessa mudança/transição são consideradas pelos investigadores, em função da teoria aplicada no estudo, como um período transitório ou de transformação. Segundo a teoria da transição, a identidade nacional dos países que surgiram neste período pode ser definida como num estado transitório, caracterizado pela crise da identidade preexistente e pela necessidade de escolha de uma concepção qualitativamente nova da sociedade e do Estado, baseada noutros princípios e valores que, logicamente, seriam os da economia de mercado e do desenvolvimento político
parte dela. As estratégias racionais individuais reinventam uma “pátria histórica”, ou simplesmente procuram um país de acolhimento com melhores condições sociais de existência (Birman, Trickett, 2001). Ironicamente, numerosos estudos empíricos sobre a integração dos imigrantes, da ainda URSS e depois do seu desmoronamento, nas sociedades de acolhimento mostram a orientação de diversos grupos desses imigrantes e seus descendentes de não se fundirem nas sociedades capitalistas de destino, e de preservarem as suas identidades de origem (Retz, 1980; Richin, Livingston, 1991; Mirotshnik, 2008), contrariando a convicção dos adeptos da teoria pós-socialista de que as características identitárias inerentes aos valores socialistas desapareceriam quando a geração que cresceu e se socializou com eles fosse substituída (Humphrey, 2002).
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O bloco comunista contava com 11 países (incluindo a URSS), após o colapso, só na zona europeia passaram a existir 20 países novos (sem contar com os da Ásia e do Cáucaso), com naturais, nesses casos, problemas da cidadania.
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democrático. Assim, o período de transição deveria ser seguido pela formação de instituições que caracterizam o sistema capitalista e pela adaptação da sociedade a estas (Timofeev, 2010).
Contudo, a emergência, nos países que surgiram após o colapso da URSS, de regimes que tendem para o autoritarismo levou à revisão da teoria de transição e dos seus postulados. Alguns analistas, ao examinarem os processos e as instituições emergentes nos novos países do bloco soviético, preferem o uso do termo de transformação, que apenas indica um processo de mudança, cujo carácter progressivo é considerado só como uma hipótese. Esta abordagem, porém, não parece fazer mais sentido, se se tomar em consideração o facto de alguns desses novos países não terem experiência e uma existência democrática como Estado independente, soberano, ou de essa experiência ter sido limitada no tempo50.
Todavia, os processos sociais podem cruzar-se ou ocorrer em paralelo, agindo em uníssono ou contradizendo-se (Sztompka, 1996, p. 139). Machkuv (2000) chama a esta situação, inerente aos países ex-soviéticos, de terem diferentes (e até opostos) processos sociais a correr em paralelo, de dilema de simultaneidade e justifica o surgimento desta tendência pela natureza totalitária do Estado socialista soviético. Este Estado, durante décadas, através do controlo sobre a economia, a política e a cultura, teria feito um esforço considerável para garantir que o povo soviético reconhecesse apenas um país, um partido, uma juventude, uma organização infantil, uma orientação valorativa, uma língua, etc. (Ioffe, 2003), esforço cujas consequências institucionais, sociais e psicológicas iriam ser difíceis de superar. A principal dificuldade, na opinião de Gudkov, (et al. 2008) está relacionada com a subestimação da extensão e da natureza da ligação do indivíduo à sociedade no regime totalitário. É bom lembrar que a identidade soviética foi o objecto da actividade política, social e cultural durante os anos do domínio comunista. Neste sentido, pode-se falar de uma política de identidade exercida pelo Estado, uma prática social e dinâmica de mobilizações de massa e de movimentos para a legitimação da identidade soviética. Esta política pressupunha – como se verá – um sistema coerente e logicamente consistente de interpretação do
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Por exemplo, no caso de Eslováquia, que antes de 1993 apenas existira como um Estado independente, na forma de um Estado marioneta durante a Segunda Guerra Mundial, sob o governo do regime de Tiso, ou algumas Repúblicas Soviéticas que se haviam transformado em Estados apenas no contexto da União Soviética (Golovatina, 1989).
77 passado do país, expresso no discurso científico e político, no sistema educacional em todos os níveis, na comunicação, na cultura popular, nos monumentos e memoriais e na cultura festiva.
Nos primeiros anos após o colapso do sistema soviético, uma das ideias mais partilhadas no meio académico foi a crença de que a nova geração, socializada noutras condições políticas, sociais e psicológicas, se tornaria portadora de valores completamente diferentes, com uma outra ética e motivação diversa das dos seus pais e avós. Os estudos empíricos testemunhavam que os jovens, não só eram mais instruídos e formados, e orientados para outros padrões de consumo, como enfrentavam sem medo as circunstâncias de uma nova realidade, ao contrário das gerações mais velhas (Levada, 2004). No entanto, segundo Gudkov (et al., 2008), estes pressupostos revelaram-se como um conjunto de ilusões e não um prognóstico real: a sociedade não foi capaz de fazer acompanhar a destruição do modelo antigo por um trabalho de compreensão da natureza da sociedade soviética e do lugar do homem nela, nem da elaboração dos objectivos e ideais sociais novos. Como resultado, prevaleceram tendências eclécticas de imitação das estruturas simbólicas anteriores: a nostalgia da antiga grandeza, a idealização do passado recente, antes de mais a mitificação da vitória na Segunda Guerra Mundial.
As possibilidades de resposta às mudanças radicais nas sociedades pós- socialista, apesar das diferentes condições de transformação em alguns regiões do espaço pós-soviético, situam-se entre dois extremos de associação identitária. Uma primeira tendência está ligada a uma reprodução (usando a terminologia de Sztompka, 1996) de traços fundamentais da identidade soviética. Os indivíduos deste grupo continuam a olhar para a realidade através do prisma da nostalgia do sistema soviético com toda a sua grandeza. Sob esta óptica,
[…] a política de retorno à Europa dependia do reconhecimento por parte desta da Rússia como um actor central no sistema político europeu, só que a Europa via a Rússia em decadência […] (Gonçalves, 2006, p. 107)
Os estudos mostram que durante anos após o colapso da União Soviética, apesar de todas as alterações aparentes na vida social e política, de facto, não foi consumada a separação entre o Estado e a sociedade, nem o estabelecimento autónomo das instituições sociais. O sistema institucional vigente não só não garante – aos olhos desta camada da população – uma existência digna, como funciona como factor de
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arbitrariedade, uma ameaça ao bem-estar dos indivíduos. Esta tendência caracteriza-se por um distanciamento definitivo do Ocidente e pelo renascimento da ideia da auto- determinação nacional, com a nostalgia dos mitos do passado: o do funcionamento das estruturas sociais, o da estabilidade geral e da situação da segurança, o da confiança nos significados e propósitos sociais (Boym, 2001; Nadkarni, Shevchenko, 2004). As pessoas que partilham os valores socialistas soviéticos não aprovam a orientação da sociedade para a esfera da iniciativa privada e a tendência para a minimização de funções do Estado; pelo contrário, dominados pelo aspecto paternalista das relações indivíduo/Estado, aspiram à maximização das suas funções. Assim, na cultura política dos ex-soviéticos, ainda dominam características inerentes ao “tipo ideal” de poder que Almond e Verba chamaram de cultura de subordinação (Almond, Verba, 1989). Os cidadãos continuam a ver-se a si mesmos como um objecto da acção do Estado, ao invés de participantes reais do processo político, e a imagem do Estado ideal mantém traços pronunciadamente paternalistas (Gudkov, et al., 2008).
Nas representações destes indivíduos, o papel do Estado e as expectativas correspondentes reduzem-se à crença do que as autoridades deveriam cuidar da população, fornecendo respostas para todas as suas necessidades básicas: trabalho, habitação, salário mínimo, segurança social, educação, etc. A população, por sua vez, deve apoiar o poder, trabalhar, defender os “interesses do Estado”, aceitando “conscientemente” o que o Estado exige como um “desempenho do seu dever patriótico” ou das obrigações civis. Os valores fundamentais declarados por estas pessoas estão relacionados, regra geral, com representações ideais de uma vida tranquila e próspera, limitada ao círculo das pessoas mais próximas em que se pode confiar e com cuja ajuda e apoio pode contar (Yurchak, 2006).
Face à ineficácia óbvia das instituições formais do Estado, o indivíduo pós- soviético procura compensar a falta de confiança generalizada por um sistema estável de relações informais entre os mais próximos: família, amigos e – em menor grau – colegas de trabalho e vizinhos (Levada, 2008). Os resultados enfatizam que os valores dominantes, básicos, desta população dos novos países têm um carácter tradicional e adaptativo. Em comparação com o período soviético, continuam a dominar as orientações adaptativas: “os valores dominantes são valores de sobrevivência, de uma adaptação meramente passiva à mudança social” (Tikhonova, 2006, p. 39); e não os
79 valores que possam guiar o indivíduo para uma actividade social que visa a mudança da sua posição, para uma auto-afirmação através do seu reconhecimento pelos outros, pelo desenvolvimento profissional ou a manifestação da iniciativa (Zaslavskaia, 2003).
A segunda tendência é a oposta da primeira, porque visa uma radical transformação, baseia-se na rejeição do passado soviético e no desejo de “voltar” ao Ocidente. Neste caso aspira-se a um estilo da vida “ocidental” no âmbito político e económico que geralmente simboliza, para esta população, prosperidade e progresso. Para além da atractividade económica e política, o “caminho para a Europa” associa-se ao retorno à civilização, da qual alguns dos países da região foram privados após a Segunda Guerra. Nesta perspectiva, a hegemonia antiga da URSS, e a da Rússia como sua herdeira, é geralmente considerada como um passo atrás e um obstáculo ao desenvolvimento e à independência. Hopf (2002) chama este posicionamento New
Western Russian 51. Dentro desta perspectiva, alterou-se o esquema tradicional de identificação baseado na contraposição do “nós” aos “outros”. Como afirma Silva (2000), no seu estudo sobre identidade e diferença, apoiando-se em J. Derrida:
[…] A mais importante forma de classificação é aquela que se estrutura em torno de oposições binárias, isto é, em torno de duas classes polarizadas […] as oposições binárias não expressam uma simples divisão do mundo em duas classes simétricas: em uma oposição binária, um dos termos é sempre privilegiado, recebendo um valor positivo, enquanto o outro recebe uma carga negativa […] (Silva, 2000, p. 80).
No sistema socialista, obviamente esta dicotomia estava construída sobre a oposição do mundo socialista ao capitalismo mundial. Alguns autores argumentam que, sendo um esquema da dicotomia familiar e característico da fase anterior, esta percepção do mundo pode permanecer, ou pelo menos influenciar a percepção dos novos Estados (Billig, 1996; Bukh, 2009); a diferença muitas vezes encontra-se apenas na mudança dos pólos e na transferência dos rótulos “nós” e “outros” para outros campos. O Ocidente passa a fazer parte do “nós” e o esforço das novas nações concentra-se na luta contra “outro” interno, escreve Hopf (2002), referindo-se à ex- Jugoslávia e à ex-URSS.
Esta alternativa identitária, chamada por vezes de “liberal”, apresenta-se como uma identidade negativa (Gudkov, 2004), construída principalmente sobre a negação do passado soviético, e não se formou ainda como uma política identitária sistémica no
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O que pode ser dito da mesma maneira de um ucraniano, ou de cidadão de outras ex-repúblicas soviéticas.
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contexto concreto dos países pós-socialistas. Em geral, a exposição teórica e as práticas concretas que visam a legitimação da identidade nacional dos Estados pós-soviéticos baseiam-se num discurso de “luta contra a herança soviética”, contra a ”opressão nacional”, para o “retorno às raízes históricas”, embora o processo de reconstrução da identidade pós-soviética ainda esteja em curso. (Miller, 2003; Titarenko, 2007).
Gradualmente, a euforia relacionada com a abertura ao capitalismo diminuiu devido às crises políticas e económicas e à persistência da tensão social nos países pós- soviéticos, provocando o retorno do pêndulo. Em vários países começaram a formar-se movimentos chamados de terceira via, uma alternativa qualitativamente diferente, uma síntese de elementos da identidade soviética, pré-soviética e pós-soviética, que tenta adaptar estes elementos às novas realidades nacionais. Nesta visão, exige-se um reconhecimento especial dos países da Europa de Leste como portadores de uma missão de construção de uma ponte entre Oriente e Ocidente. Depois do colapso do bloco comunista, sublinha Neumann, o apelo à Europa e a necessidade da procura do seu próprio lugar na Europa desempenha um papel importante na formação das identidades dos novos países. Por exemplo, Gombrowicz, citado por Neumann, (1999) quando fala da Polónia, afirma que:
Não nos podemos considerar uma nação verdadeiramente europeia enquanto não nos separarmos da Europa, porque o nosso europeísmo não significa que nos devemos fundir com a Europa […] nós devemos fazer parte dela e, além disso, uma parte especial, que não pode ser substituída por um “outro” qualquer […] (Neumann, 1999, p. 213).
A opção por uma terceira via também está relacionada com a ideia que se formou nestes países sobre a democracia. Não acreditando na viabilidade das instituições democráticas que surgiram, os cidadãos simplesmente ignoram-nas, ou tendem a “pensar que os princípios da democracia ocidental não são compatíveis com a tradição política do seu povo” (Sedov, 1995, p. 194). Assim, a democracia é considerada um valor convencional que personifica algo positivo que existe no Ocidente, mas que é quase impossível, inatingível para a população dos países pós- comunistas.
Apesar de existirem diferenças claras entre estas tendências, verificam-se também bastantes pontos em comum, que se tornam evidentes quando se discute o passado soviético. As reinterpretações do passado soviético começaram logo no período de perestroika, mas foi o colapso da URSS que mudou radicalmente a atitude das
81 pessoas para com a interpretação do passado, provocando discussões acesas no espaço político, na comunicação e na educação. No entanto, as novas interpretações do passado não são comparáveis, nem pela sua importância para a consciência social, nem pelo nível de sistematização, nem de expressão na política estatal de identidade, com o sistema de interpretação do passado na estrutura da identidade soviética. Como escreveu Timofeev (2010):
A restauração da continuidade com o império czarista e o surgimento de novos personagens não poderiam servir de compensação pela perda de uma identidade bem estabelecida, que tinha sido formada e evoluída durante mais de 70 anos [...] (p. 55).
A situação foi agravada pelo facto de que, apesar da atitude relativamente tolerante para com os símbolos soviéticos, uma nova política de identidade tendeu a ser construída, originalmente, pela negação do passado soviético. Mas embora, de jure, a sociedade já fosse diferente, ao nível das representações colectivas a linha entre passado e presente mantinha-se extremamente esbatida; por isso, a política de identidade