Para implementar as inovações no mercado da base da pirâmide, a Empresa 1 utilizou estratégias de inovação que estão ligadas a estratégia de negócios global da empresa. Por meio do discurso da gestora comercial entrevistada foi possível identificar no que consistem estas estratégias de inovação, e, consequentemente, verificar em quais tipologias tais estratégias podem ser classificadas.
Ao assumir o posicionamento estratégico de inovar para atender aos consumidores da base da pirâmide, esta decisão estava pautada na avaliação por parte da empresa de que havia uma possibilidade latente de aproveitar uma oportunidade presente no mercado, tendo em vista que a população de baixa renda apresentava melhores condições financeiras, aumentando o seu padrão de consumo, sendo um momento favorável para que a Empresa 1 pudesse utilizar as suas capacidades e habilidades para explorar essa oportunidade de inovação e, assim, conseguir atingir o seu propósito maior de aumentar o seu faturamento e expandir o negócio, o que é compatível com o que esclarece Bowonder et al. (2010).
Dessa forma, percebe-se que o mercado, ou seja, as suas tendências e oportunidades, foi norteador para que a Empresa 1 direcionasse os seus esforços de inovação aos consumidores da base da pirâmide, de modo a identificar o que esses clientes precisavam e exigiam, e como a empresa poderia atender a essa demanda, conforme o discurso da gestora comercial, o que é característico da estratégia de inovação baseada no mercado explicada por Lynn e Akgun (1998).
As coisas no mercado vão mudando, e a gente como empresa vai se adequando ao mercado. Se a gente vê que precisa inovar de uma determinada forma, a gente vai. [...] É só a gente estar atento as mudanças no mercado, o que o mercado pede, para a gente abrir nossos olhos, para estar junto com eles. [...] Se o mercado está mudando,
a gente tem que se atualizar sempre, de acordo com o que ele “fala”. [...] Vimos que
era muito melhor vender mais barato, porém com qualidade e com coisas mais simples para poder ter um fluxo de caixa melhor.
Em conformidade com o que esclarece Lynn e Akgun (1998), a estratégia de inovação da Empresa 1 ainda é baseada nos processos de desenvolvimento de novos produtos e na aprendizagem. Nos processos de desenvolvimento de novos produtos estes são gerados pela empresa, acompanhando-se cada fase do processo produtivo para que se cumpram os requisitos de qualidade estabelecidos e para que haja redução dos custos, o que é feito com o emprego de tecnologias, já que máquinas são utilizadas na fabricação dos produtos, aproveitando-se melhor o tempo e outros recursos matérias no processo produtivo, com a finalidade de que ao final o produto satisfaça as necessidades e exigências dos clientes. Além disso, a gerente de produção, semanalmente, tem um tempo reservado para se dedicar a atividades inovativas, seja para identificar como introduzir métodos de produção que melhorem o processo produtivo, seja para aperfeiçoar os produtos que a empresa oferece a seus clientes.
Sob a perspectiva da aprendizagem, a empresa mantém um banco de dados em que as opiniões dos clientes a cerca dos produtos fabricados e comercializados fornecem o suporte necessário ao estabelecimento de sua estratégia de inovação, orientando o que a empresa deve ou não continuar a fazer, e no que ela precisa se adequar e melhorar para garantir a continuidade da satisfação desses clientes e o sucesso no mercado, valorizando o papel do aprendizado no processo de inovação.
Por conseguinte, a estratégia de inovação da Empresa 1 também pode se encaixar no que He e Wong (2004) denominam de estratégia de inovação exploitative, uma vez que a empresa empenha-se em aprimorar os produtos que ela já desenvolve, com base na experiência e nos conhecimentos que ela possui, além de ser importante para a empresa obter aprendizado relativo ao próprio processo de inovação, levando ao melhoramento de sua posição no mercado.
Considerando que a inovação implementada pela Empresa 1 para alcançar os consumidores da base da pirâmide foi pautada pelo mercado, tem-se que a empresa, ao desempenhar suas atividades, procurou ser a pioneira em seu setor no mercado da capital paraibana, introduzindo novos produtos que nenhuma outra empresa concorrente oferecia aos clientes de baixa renda, conforme o exposto pela entrevistada, o que está de acordo com o
explicado por Cooper e Edgett (2009), Cooper e Edgett (2010), e Utterback e Abernathy (1975).
A inovação foi muito grande dentro de João Pessoa. [...] O preço do salgado (cem salgados) na época era R$ 85,00, então ela (proprietária) baixou para R$ 15,00. [...] Então foi uma revolução. [...] Já se passaram oito anos dessa inovação. Durante os
três primeiros anos era “show de bola”. A gente dominava todo o mercado. [...] E
com o passar do tempo, o que foi que aconteceu? Muita gente copiou. [...] Isso hoje é uma realidade, que a gente sabe que passa por isso [...].
Pode-se ainda reconhecer na fala da gestora comercial que a postura estratégica adotada pela Empresa 1 frente à concorrência, em relação a sua atuação no mercado da base da pirâmide, ocorreu de maneira oportunista, em acordo com o que esclarecem Freeman e Soete (2008), já que a empresa buscou aproveitar uma oportunidade existente em um nicho de mercado próspero, se antecipando aos concorrentes, e, portanto, alcançando a liderança mercadológica.
Foi observado também, por meio do discurso da profissional entrevistada, a existência de outras tipologias de estratégia de inovação, que são descritas por Bowonder et al. (2010), para a atuação da Empresa 1 no mercado da base da pirâmide, quais sejam: 1) Redução do tempo de ciclo, fazendo com que as inovações cheguem mais rápido ao mercado, ultrapassando a concorrência; 2) Desenvolvimento Enxuto, de modo a reduzir a utilização de recursos com a finalidade de diminuir o custo de fabricação, e, assim, o preço do produto, além do tempo de chegada ao mercado; 3) Segmentação do Mercado, já que a empresa identificou o mercado da base da pirâmide como oportuno para o seu crescimento e obtenção de vantagem competitiva.
O Quadro 16 resume as tipologias de estratégias de inovação encontradas na Empresa 1, de acordo com a perspectiva a qual cada tipo está vinculado.
Quadro 16 - Tipos de estratégias de inovação da Empresa 1
PERSPECTIVA DA ESTRATÉGIA DE INOVAÇÃO TIPO DE ESTRATÉGIA DE INOVAÇÃO Modo como a empresa atua no mercado Estratégias de Inovação Oportunista Forma em que a empresa se apoia na aprendizagem Estratégia de Inovação Exploitative
Contexto das incertezas Estratégias de Inovação baseadas no Mercado, no Processo e na Aprendizagem
Objetivos do negócio
DIMENSÕES
Estratégias de Inovação de Redução do tempo de ciclo
Estímulo ao cliente
Liderança competitiva Estratégia de Inovação de Desenvolvimento Enxuto
Enriquecimento de portfólio
Estratégia de Inovação de Segmentação de Mercado
Fonte: Elaboração Própria (2016)
O Quadro 16 evidencia que apesar de a Empresa 1 utilizar múltiplas estratégias de inovação ao mesmo tempo, estas apresentam uma ligação positiva entre elas, reforçando-se mutuamente, já que a consecução de uma impulsiona a implementação de outra. Isso permite que a empresa execute a sua principal estratégia inovativa, estratégia de inovação oportunista, aproveitando uma oportunidade de um nicho de mercado em ascensão e promissor financeiramente, o da base da pirâmide, de modo que esta chegue primeiro ao mercado e estabeleça liderança competitiva.