2 Utvikling i markedene for jordbruksråvarer
2.2 Korn og oljefrø
Os centros urbanos das cidades, numa perspectiva histórica, sempre foram dotados de uma alta carga valorativa, tanto material como simbólica, sendo observados pelos órgãos governamentais e mesmo pela sociedade, como o lócus por excelência, responsáveis por abrigar o coração da urbe. Ainda que, mais recentemente se perceba uma tendência à multiplicidade de centros, o denominado “policentrismos” (LEFEBVRE, 2004; CASTELLS, 1983 apud MOREIRA, 2008), as grandes cidades ainda identificam essa região como ponto
crucial, a despeito dessa fragmentação da área. Esta situação, consoante Moreira (2008) é também característica do Brasil.
Como pondera a autora, o centro tem uma forte ligação com as diversas centralidades que compõem a polis, sendo favorável para uma multiplicidade de atividades, indo desde ambiente propício para o convívio coletivo, perpassando pelo lugar de trânsito intenso até a representação de local de moradia. Ou seja, consiste em um ambiente adotado como referência por uma considerável parcela da população.
Como salientado por Frúgoli Jr. (1995), o centro urbano sempre foi avaliado como a região mais densa da cidade, não só por englobar diversas atividades, mas também por abranger, concomitantemente, um labirintado de significações que se intercruzam em um constante diálogo de complementação e contradição.
Nos termos de Lefebvre dá-se uma “simultaneidade simbólica”. (apud FRÚGOLI JR., 1995), representada pela dimensão lúdica que cada cidade deposita nessa área. Trata-se de um fenômeno recorrente e que varia de região conforme cada época histórica. De fato, corresponde, grosso modo, aos aspectos imaginários que são ali depositados, e que por tal motivo fazem da área algo tão especial para a sociedade.
O simbolismo do qual o centro é dotado é o que possibilita que sentimentos de sociabilidade expressos no cotidiano emerjam e tenham sentido, compondo um campo de representações construído e concebido pelos planejadores. Trata-se de uma relação de interdependência, onde a estrutura física deve acompanhar o imaginário alegórico e vice versa, possibilitando a sua identificação como polissêmico. Neste sentido, congrega-se o lugar com os aspectos que são exteriores às barreiras físicas.
Nos termos de Massey (2000) a apropriação dos espaços possibilita que ambientes (ruas, regiões ou continentes etc.) sejam definidos conforme o conjunto de relações sociais ali desenvolvidas, sendo consequentemente transformados ou identificados como “lugares”. Como elucida esta autora, “lugares” são pensados não pelas suas fronteiras, mas sim como uma rede de relações e entendimentos sociais que ali são construídos, interlocuções que, quando observadas em simetria, permitem a visualização do espaço numa escala muito maior do que poderia ser inicialmente definida para aquele ambiente em si. Isso por sua vez, permite que o “lugar” inclua “uma consciência de suas ligações com o mundo mais amplo, que integra de forma positiva o global e o local”. (MASSEY, 2000, p. 184). Ainda em tal linha de argumentação ressalta Leite (2007):
Um lugar implica a existência reconhecida, reflexiva e compartilhada entre uma demarcação espacial e ações simbólicas, de modo que o espaço só se torna um lugar mediante as práticas sociais que lhe imprimam sentido. Essas práticas, por sua vez, só se realizam no interior dessa demarcação espacial, que não se limita ser apenas suporte físico das ações. (LEITE, 2007, p. 293).
De forma resumida, poder-se-ia dizer, de acordo com os estudos de Castells (1983) que o que compõe e identifica uma região como “centro” no contexto urbano e metropolitano são precisamente essas interlocuções e integrações entre os seus aspectos físicos e simbólicos, capazes de proporcionar à região um caráter polarizador. Portanto, pode-se dizer que, determinada região só será identificada como “centro”, ou seja, como ambiente diferenciado e congregante de significados múltiplos, quando for transformado e incorporado pelos atores que ali atuam.
Conforme Certeau (1994) a transformação de “recinto comum” em centralidade se desenvolve quando os “lugares” são incorporados e transformados em “espaços”. Pois, como identificado na obra do autor, os ambientes que podem ser apropriados e modificados conforme os significados que o circundam correspondem os “espaços”. Ou seja, locais que representam o cruzamento de possibilidades, que se tornam animados de acordo com o conjunto de movimentos que ali se desdobram. Mais precisamente, “espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais”. (CERTEAU, 1994, p. 202).
Lado outro, a noção de “lugar” encerra em Certeau (1994) a idéia de imóvel, imutável, que excluiu a possibilidade de relação de coexistência entre os elementos, de forma a definir uma ocupação própria para cada um deles. Representa, por conseguinte um ponto morto, reduzindo ao mero “estar aí”, tal como uma pedra ou uma árvore. Ressalta: “um lugar é portanto uma configuração instantânea de posições”. (1994, p. 201). É importante destacar que Certeau (1994) se difere de alguns outros autores que estudam esse tema, pois, suas definições de “lugar” e “espaço” são contrárias àquelas desenvolvidas por muitos sociólogos, em meio aos quais se destacam o próprio Massey (2000) e Leite (2007).
Tal discussão entre a composição de “lugares” ou “espaços” dentre de uma perspectiva simbólica, se insere ainda na temática que separa o território da territorialidade. Ou mais precisamente, na compreensão de que é possível contrair um espaço ou um lugar, dependendo da concepção adotada, e então transformá-lo em território a partir da sua conquista e consequente inserção de significados.
Neste sentido, Raffestin (apud ALBAGLI, 2004) salienta que quando um ator se apropria de um espaço, seja de forma concreta ou abstrata, ele o territorializa, pois os espaços são anteriores aos territórios. Citando ainda o autor, o território é precisamente, “um campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais que se projetam no espaço”. (RAFFESTIN apud ALBAGLI, 2004, p. 26).
Na compreensão de Santos (1996), corroborando com Raffestin, o território consiste no local onde se juntam tanto as diversas forças de mercado como as possibilidades expressas na vida cotidiana. Permitindo, ao fim, quando territorializado, que ambientes se constituam como sítios de adjacência, onde a vida social compartilhada entre os indivíduos se politiza, fazendo deles [territórios] um ambiente para a diversidade, palcos de disputas e jogos de interesses, definidos, especialmente, por sua condição de (des) espacialização/ (des) temporalização.
Os centros das cidades podem ser considerados como “espaço” nos termos de Certeau (1994) ou territórios (SANTOS, 1996, RAFFESTIN apud ALBAGLI, 2004), por que neles se desenvolvem uma multiplicidade de representações, tal como a rua se torna um espaço praticado quando nela circulam pedestres, transpondo assim as meras barreiras geométricas definidas pelos urbanistas.
Nos centros, como propõe ainda Frúgoli Jr. (1995), há um encontro entre a diversidade sociocultural e as diversas expressões da cultura humana, por vezes materializadas nas teias do cotidiano. Adverte: “é um cenário conscientemente dramático onde se desenrolam as ações mais significativas e os anseios mais sublimados de uma cultura humana”. (MUMFORD, 1961 apud FRÚGOLI JR., 1995, p. 12).
De maneira geral, a cidade de Belo Horizonte apresenta também essa forte ligação com o centro e identificação do seu espaço como ponto simbólico de representatividade política e social, um mosaico do social e do espacial. Parte dos motivos se deve, inclusive, ao fato de que BH foi uma urbe planejada, cuja planta, conforme concebida pelo engenheiro Aarão Reis estabelecia com exatidão a divisão em três setores: urbano, suburbano e aquele destinado aos sítios de pequena lavoura. Assim, a região urbana desde a sua construção teve importância especial na idealização da cidade como um todo.
Conforme salienta Andrade (2004), Aarão Reis apresentou grande preocupação quanto ao planejamento de uma cidade pronta para o futuro (embora, como se verá com as intensas modificações processadas no decorrer do século XX, uma visão de futuro “míope”, de horizonte estreito), o que embarcava tanto os aspectos de funcionalidade como certos preceitos estéticos e espirituais. Neste sentido, a região central nas primeiras décadas de
existência era observada, majoritariamente como um local distinto, que pertencia às famílias mais tradicionais e às pessoas mais abastadas, que ali faziam suas compras e trabalhavam. (ALBRECHET, 2008).
É possível identificar que, inicialmente, os esforços foram concentrados em aprimorar o “setor urbano” de Belo Horizonte, enquanto a zona considerada como suburbana, e ocupada pela periferia foi deixada em segundo plano. Isso pode ser apreendido mesmo na observação da forma como a infraestrutura sanitária da cidade foi realizada. Como pondera Andrade (2004, p. 76), em 1912, todos os prédios da zona urbana já contavam com água canalizada, e 86% já dispunham de rede de esgoto, ao passo que, na região suburbana, apenas 56% dos estabelecimentos tinha água canalizada e 19% rede de esgoto.
Aliados os esforços empregados para conservar o centro como uma região diferenciada, dotada de representatividade política, social e simbólica, um verdadeiro “espaço” nos termos preconizados por Certeau (1994), encontrava-se ainda a necessidade de manter certa seletividade dos seus frequentadores. Já no início dos anos 20, a administração pública de Belo Horizonte identificava que a área urbana se tornava cada vez mais restrita, menos frequentada pela população do que se concebera inicialmente.
Contudo, como observa Andrade (2004) era preferível [para a administração] manter a situação inalterada, “uma vez que livrava a região mais nobre da presença indesejável dos pobres.” (ANDRADE, 2004, p. 77). Assim, apesar de ser uma região valorizada, o centro Belo-horizontino se tornava cada vez mais vazio, refletindo a seletividade da ocupação pretendida e imposta pela Administração Municipal.
Concluindo essa seção, pode-se inferir que, em geral, o processo marcado pela construção do centro conforme certos parâmetros urbanos somados à tentativa de mantê-lo como local limitado (a princípio), enobrecido, por assim dizer, correspondia à tentativa da administração pública em conservar sua formação como lúdico. Nos termos recomendados por Moreira (2008), representava o desenvolvimento da região como ambiente que se metamorfosearia para receber gradativamente os diferentes grupos, cujos valores de vida eram igualmente múltiplos. Além disso, nota-se que o centro de Belo Horizonte, ou pelo menos uma parte considerável dele, tal como será observado na próxima seção, caracterizou-se desde o início como o lugar da diversidade, a despeito da tentativa municipal de conter o acesso à região.