• No results found

Kontroll av matneofobiskala

7.4 Del 3: Matneofobiskala

7.4.1 Kontroll av matneofobiskala

Nesta pesquisa observou-se que 7,5% dos participantes declaram ter participado dos cultos da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus). Esta igreja nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1977 e, ao fazer uso dos meios de comunicação, conseguiu se expandir rapidamente por outras regiões do país. Segundo os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar149 do IBGE, a IURD conta com dois milhões de fiéis no Brasil, tudo graça à sua capacidade de marketing e ao forte apelo radiofônico e televisivo. Entretanto, a mesma pesquisa também aponta para uma queda no número de fiéis entre 2003 e 2009, uma perda que representaria aproximadamente 24% de fiéis (em números, 480 mil pessoas). E essa queda poderia estar relacionada ao surgimento de igrejas

148 MARIANO, Ricardo. Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal. Estud. av. [online], v. 18, n. 52, p. 121-138, 2004. Acesso em 10 dez. 2011.

149 Pesquisa publicada no Jornal Folha de São Paulo. Arquivo eletrônico: www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1508201102.htm. Acesso em 15 ago. 2011.

99

dissidentes. Mesmo perdendo adeptos, a IURD ocupa o oitavo lugar no ranking das religiões mais populares do Brasil. Com campanhas e correntes de fé constantes, a IURD oferece cultos em dias e horários padronizados, de forma a criar uma uniformidade em seu discurso em todo país, aumentando assim o número de fiéis que participam e contribuem para seus cultos.

Contribuir financeiramente para a igreja é um ato “sacrificial” e que, no discurso da IURD, fará com que “se cumpram as promessas” de prosperidade feitas por Deus para o seu povo. Além disso, ao fazer tal sacrifício, o indivíduo está sinalizando o seu compromisso com Deus, o que fará com que a divindade também se comprometa com ele e lhe traga recompensas. E a linguagem bélica desenvolvida nos ritos demonstra claramente o constante conflito da igreja com as práticas religiosas afro-brasileiras, que na concepção iurdiana são a representação mais intensa do mal.

A opção de cada indivíduo nessa guerra, ao lado da IURD, é expressa por meio da apresentação do “sacrifício” financeiro. É dando dinheiro que a pessoa expressa a sua adesão no exército de Deus (...). Em outras igrejas neopentecostais, usa-se o título “guerrilheiros de oração”. A linguagem dos ritos ressalta a guerra, a luta, os desafios, os atos de coragem e de loucura. Afinal de contas, Deus e o diabo estão em “guerra na terra do sol”, guerra essa revivida em cada cerimônia proposta pela liderança iurdiana. Como se trata de uma retórica e prática tradicional do povo brasileiro, para os fiéis a opção por um dos lados nessa guerra é algo perfeitamente normal. Nada impede que os fiéis assumam o seu lugar nesta guerra, cujas derrotas são socializadas e atribuídas à “falta de fé” do lutador, mas, as vitórias, sabiamente, são atribuídas às estratégias da Igreja Universal do Reino de Deus.150

Esta “batalha espiritual” desenvolvida pela IURD acaba refletindo nos constantes atos de intolerância religiosa que se vê no país. As “incessantes” sessões de “descarrego” promovidas pela Igreja Universal se destacam como as protagonistas dos casos de intolerância religiosa de maior repercussão na sociedade. Os orixás, os guias, os símbolos, babalorixás e ialorixás são associados a demônios e encostos e todos os rituais praticados por estes grupos são retratados nos programas e nos meios de comunicação da IURD como produtores de malefícios a todos os sujeitos religiosos que os realizam. Entretanto, observa-se que, durante os cultos, muitos elementos do universo religioso afro-brasileiro passam a ser utilizados. A todo momento guias e orixás são rememorados, além da utilização de folhas como arruda, óleos, sabonetes, sal grosso, distribuição de rosas, ritos na praia e tantas outras práticas comuns nos ritos de umbanda e candomblé.

A própria “sessão do descarrego” sinaliza esse constante trânsito religioso, pois na sua estrutura se observa constantemente a presença de ex-líderes de umbanda e do candomblé que

100

provavelmente passaram pelo processo de conversão, ou apenas tornaram-se novos funcionários desse espaço religioso. Chamados de ex-pai de santo ou ex-mãe de santo, estas figuras são fundamentais para o desenvolvimento dos ritos, pois é deles a função de identificar o “tipo” de ritual realizado anteriormente nos indivíduos e que, consequentemente, está causando todos os tipos de enfermidade ou qualquer outro problema que a pessoa esteja desenvolvendo.

É importante frisar que em tais sessões de descarrego tanto os pastores como os ditos “ex-pais de encosto” se vestem totalmente de branco, como ocorre nos rituais de umbanda. Algumas vezes os próprios fiéis são também solicitados a comparecerem vestidos de branco. Além disso, da mesma forma como nos terreiros pode ocorrer a chamada coletiva das entidades, na “balança do Xangô”, no Batuque gaúcho, também nas sessões de descarrego geralmente ocorre a invocação coletiva para demônios se manifestarem. Igualmente, pode também o pastor ou o bispo que preside a sessão de descarrego, quando pretende acelerar os trabalhos, proceder a “libertação” dos fiéis exorcizando coletivamente os demônios, também de forma semelhante ao que às vezes corre nos terreiros quando as entidades são “despachadas” juntas.151

Esta ambiguidade também é percebida por alguns sujeitos religiosos que nesta pesquisa indicam já ter participado dos cultos da IURD, como é o caso de João Caetano, citado no segundo capítulo desta dissertação.152 João Caetano, que hoje é praticante da umbanda, participou dos cultos da IURD por um ano, buscou a ajuda da igreja porque teve problemas com a saúde e porque estava desempregado. Nos cultos foi convencido pelos líderes religiosos de que os seus problemas eram de origem espiritual: alguém havia feito um trabalho contra ele. Mas, depois de um tempo, sem obter êxito em suas petições e não mais concordando com as práticas da igreja, João procurou um novo grupo, desta vez, uma tenda de umbanda. A forma como a igreja insistia no sacrifício que se faz em forma de ofertas financeiras também foi citada pelo entrevistado, tal como citamos. Ele afirma que por três meses chegou a doar todo o seu pagamento como oferta para a igreja. “Ajudava os pastores a viajar pra fazer missão; pediam muito dinheiro” – afirma João – mas “me cansei, desisti e fiquei sem religião”. Ao ser questionado sobre a similaridade dos ritos do grupo anterior e do grupo atual João afirma: “É tudo igual. Tudo que o que tinha lá, tem aqui, só muda de nome”.

É provável que, ao inserir esses elementos em seus rituais, a IURD esteja desenvolvendo uma estratégia para disputar fiéis e criar a sua estrutura litúrgica. Entretanto, nota-se que sem a presença dos elementos “dos inimigos” o discurso iurdiano ficaria vazio e teria a necessidade de

151 SILVA, Vagner Gonçalves da. Intolerância religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro- brasileiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2007, p. 47.

101

buscar no campo religioso um novo “inimigo” que lhe fornecesse elementos para a construção de uma identidade, que no momento se apresenta um tanto quanto confusa e ambígua.