No período considerado, três propriedades municipais não originadas de parcelamento do solo, mas sim confiscadas ou mesmo adquiridas para fins que, inicialmente, eram alheios aos parques públicos, foram usadas para a construção de parques municipais: a do Guarapiranga, comprada entre 1937-1938; a do antigo aterro sanitário, na altura do quilômetro 15 da rodovia Raposo Tavares, comprada em 1964, a do antigo sítio Santa Fé, na altura do
148 Trata-se do projeto da "praça" que se tornaria mais tarde "parque" Jardim Felicidade.
149 No arquivo técnico do DEPAVE comparece como praça situada entre a avenida Inajar de Souza e as ruas Inácio Leitão e
quilômetro 24 da rodovia Anhanguera, na região de Perus, obtida em 1978 mediante confisco.
Guarapiranga
Como já foi dito, a área onde hoje está instalado o parque Guarapiranga originou-se da desapropriação, entre 1937 e 1938, de quatro lotes contíguos, somando 157.922,90 m2, para a implantação de uma “estação de férias” para um dos “clubes de menores operários”, construídos na primeira gestão de Prestes Maia.
O clube foi desativado e somente em meados da década de 1960 começaram as gestões para o aproveitamento do terreno como parque público, com a solicitação da Câmara Municipal150 ao Executivo para a elaboração de um orçamento prévio do parque pretendido.
Sabe-se que em 1969 já se encontrava pronto um projeto para o parque que não pode, no entanto, ser executado por falta de disponibilidade financeira, uma vez que a verba do Departamento de Parques e Jardins daquele ano já estava comprometida com a execução de “praças” 151.
O interesse em construir o parque, naquela época, envolvia vários órgãos: a Câmara Municipal; a então sub-prefeitura de Santo Amaro, em cuja área o parque se localizava; a Coordenação das Administrações Regionais, a Secretaria de Turismo e Fomento, a Secretaria de Serviços Municipais, que compreendia o Departamento de Parques e Jardins, e o próprio prefeito. Em junho de 1969 o Secretário de Serviços Municipais transmitia ao Departamento de Parques e Jardins a ordem do prefeito de ultimar os estudos visando a implantação do parque. Previam-se concessões a terceiros para a exploração de certos serviços no interior do parque – restaurante, quiosques – devendo ficar a cargo deles as construções para isto necessárias. À administração municipal competiria a execução dos acessos, jardins, rede de água, esgoto, iluminação, etc., serviços esses que, para a sua consecução, contariam com a colaboração da sub-prefeitura de Santo Amaro e da Secretaria de Turismo e Fomento.
Ao mesmo tempo que se negociava a participação dos vários órgãos envolvidos, iam-se fazendo ajustes para abaixar os custos de implantação do projeto. Uma das providências foi realizar, com equipamentos e mão de obra da prefeitura, os serviços que ela tinha condições de executar. Assim, a sub-prefeitura de Santo Amaro foi incumbida de, com recursos próprios, abrir as ruas internas e demolir duas construções existentes, tendo uma delas 250 m2,
provavelmente remanescentes do antigo “clube” da prefeitura; o Departamento de Iluminação Pública, de reestudar e executar o projeto de iluminação; a Secretaria de Obras, da pavimentação; a Divisão Parque 2, do Departamento de Parques e Jardins, do plantio, enquanto a Divisão Parque 1 daria andamento aos projetos das redes de água e esgoto, de instalações elétricas e hidráulicas, de ajardinamento e das edificações principais, “tais como como sanitários, cabines telefônicas, quiosques para venda de lanches, refrescos, refeições
ligeiras, etc., e o que mais se construir como equipamento principal do projeto inicial da Equipe Arq. Rosa G. Kliass”, necessários para promover a concorrência pública das obras152.
Em 1970, também, provavelmente, para abaixar os custos, o projeto original do parque foi revisto por arquitetos do Departamento de Parques e Jardins. Ainda assim pensava-se em construir, dentro do parque, um restaurante de 1360 m2, com capacidade para 350 pessoas, uma área de recreação infantil de 1.700 m2, um espelho d’água de 1.200 m2, um anfiteatro,
entre outros equipamentos.
Terminado o ano de 1971 a execução do projeto revisado já estava em condições de ser licitada. No entanto, apesar das pressões provenientes da Câmara Municipal, não foram consignados recursos suficientes para a construção do parque. No meio tempo, em 1973, chegou-se mesmo a solicitar orçamento de projeto ao escritório Burle Marx & Cia. LTDA. Por fim, em 1974, concluiu-se a construção do parque possível, um misto de soluções “caseiras”, ou seja, geradas no interior dos órgãos municipais, com projetos de comunicação visual e de objetos industrializados projetados por escritórios contratados.
O Guarapiranga foi a primeira experiência do novo Departamento de Parques e Jardins na construção de parques. Foi um processo confuso, em parte devido ao envolvimento de muitos órgãos municipais que nunca haviam se defrontado com problemas semelhantes, com a dificuldade adicional da administração de vários contratos simultaneamente, tanto para execução quanto para projeto. Os parques municipais construídos posteriormente, com exceção do Cidade de Toronto, feito em conjunto com uma equipe de projetistas da municipalidade de Toronto, e do Burle Marx, foram integralmente projetados no Departamento de Parques e Áreas Verdes – ressalva feita aos projetos de iluminação, elaborados pelo departamento competente – que também administrou os contratos para a sua execução.
Anhanguera
As terras onde está implantado o parque Anhanguera passaram a fazer parte do patrimônio do município em fins de 1978, ao serem adquiridas da Coordenadoria das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional – CEIPM, do Ministério da Fazenda. O governo federal obteve aquelas terras em 1974 por confisco aos bens da Companhia de Cimento Portland de Perus, da Estrada de Ferro Perus Pirapora e do Lanifício Paulista S.A., como liquidação de dívidas para com a União. Tratava-se de duas glebas que compunham o Sítio Santa Fé, uma com 8.981.395 m2 e outra com 753.000 m2.
Segundo depoimento do então secretário de Serviços e Obras da Prefeitura do Município de São Paulo, Aurélio Araújo, altos funcionários do Ministério da Fazenda procuraram-no, em 1978, para saber do interesse da prefeitura em ficar com aquelas propriedades. Levou-os ao então prefeito, Olavo Setúbal, que teria se mostrado incrédulo a princípio mas que, diante da
151 Trata-se de projetos desenvolvidos por equipe contratada pela Secretaria de Serviços Municipais para elaborar uma série de
projetos de paisagismo em áreas municipais, a que se fará referência adiante.
insistência, autorizou que se prosseguissem os entendimentos para a realização da transação. Ainda de acordo com o secretário, os funcionários representantes do Ministério da Fazenda teriam dito dar preferência a que a área se tornasse patrimônio público temendo que, indo a leilão, fosse loteada153.
Assim, pela Lei Municipal no 8.852 de 1978, a prefeitura foi autorizada a comprar (pró forma, segundo o secretário) a gleba menor e parte ideal da maior, esta juntamente com o governo do Estado, que previa a possibilidade de implantar ali uma estação de tratamento de esgotos. Na parcela menor foi instalado o aterro sanitário Bandeirantes, operado pelo Departamento de Limpeza Urbana da Prefeitura e, na maior, o parque Anhanguera154.
Em meados de março de 1979 já estava pronto para ser executado o projeto de entrada e distribuição de energia elétrica na área do parque e, no começo de abril, o de sua recomposição florística, que consistia na implantação de cento e oitenta diferentes “unidades colonizadoras” de vegetação arbórea, com aproximadamente um hectare cada uma, destinadas a substituir gradualmente, por espécies autóctones, o eucaliptal remanescente do antigo uso daquelas terras para reflorestamento econômico155.
O plano de zoneamento do conjunto foi concluído em maio de 1979, tendo servido ele mesmo de base para a execução das primeiras obras (de pequena monta, como são ainda hoje), apenas essenciais ao funcionamento do parque. Deste modo, em junho do mesmo ano, com infra-estrutura mínima, o parque já começava a ser freqüentado pelo público156.
Embora seja o maior parque de São Paulo em área, apenas cerca de 800.000 m2 estão liberados e equipados para uso público, contando com estacionamento para veículos, sanitários, quiosques e churrasqueiras, quadra esportiva, áreas para recreação infantil, anfiteatro ao ar livre e orquidário, além de trilhas para caminhadas e ciclismo.
Raposo Tavares
A área onde hoje está o parque Raposo Tavares passou à prefeitura em 1966, quando foi comprada com o objetivo de ali se instalar, não um parque, mas um depósito de lixo, convertido em aterro sanitário. Uma vez esgotada sua capacidade o depósito foi desativado e, em 1978, o diretor do DEPAVE designou uma equipe de arquitetos, engenheiros e botânicos para elaborar projeto paisagístico para ali ser implantado um parque público. No ano seguinte o projeto executivo já estava terminado, dando-se início às obras com a contenção dos taludes do aterro. Em 1981 o parque seria inaugurado, aproveitando-se edificação existente, onde
153 Dados obtidos em entrevista telefônica realizada em fevereiro de 1999.
154 Mais tarde, pelo Decreto Municipal no 16.357 de 1980, foram declaradas de utilidade pública para implantação de área
verde, duas propriedades encravadas na gleba do parque, com áreas de 162.996 m2 e 273.775 m2, mas a desapropriação não se
consumou, assim como não se efetivou outro decreto de utilidade pública, já durante a gestão da prefeita Luiza Erundina, no início da década de 1990, para a desapropriação de outro terreno contíguo ao parque com vistas a ser a ele anexado.
155 A falta de manutenção e acompanhamento fez com que apenas cinco unidades conhecessem relativo sucesso, o que foi, no
entanto, suficiente para que principiasse a ocorrer uma diversidade faunística e para motivar a criação, no parque, do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres – CRAS, em meados da década de 1990.
156 Em 30 de junho de 1979 o então secretário de Serviços e Obras, Aurélio Araújo, enviou ofício ao DERSA com pedido de
estava instalada a sede da administração do aterro sanitário, para alojar a administração do parque.
O parque situa-se em área periférica do município e seus atrativos resumem-se a campos de futebol e uma pequena área com brinquedos para crianças. Em vista ter sido construído sobre aterro sanitário sua vegetação arbórea é pouco desenvolvida, o que contribui para torná-lo um local pouco atraente. Seu perímetro era demarcado precariamente, facilitando invasões por parte de moradores lindeiros. Somente em 1998 o DEPAVE providenciou seu cercamento definitivo.