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Outro texto importante para a história dos estudos do conceito do sentido de realidade entre os teóricos da psicanálise é o artigo de Edward Glover, publicado em 1933 no International Journal of Psycho-Analysis, intitulado The Relation of Perversion - Formation to the Developmentof Reality-Sense. Embora o artigo de Glover esteja mais voltado para a discussão os caminhos de investigação que pudessem descobrir e estabelecer uma escala de estágios no percurso do desenvolvimento do sentido de realidade, é na sua hipótese, segundo a qual a perversão poderia ser um modo de manutenção do sentido de realidade nos momentos em que essa função falha, que reside a originalidade de seu texto.

Glover parte da dificuldade de definir os conceitos que são objetos de sua pesquisa, e afirma que “os termos ‘realidade’, ‘sentido de realidade e ‘teste de realidade’ são frequentemente utilizados na literatura psicanalítica, mas muito raramente definidos” (p. 486). Ele propõe então uma distinção operacional entre os termos, apenas com a finalidade de estudar o conceito do sentido de realidade. Em sua opinião, a definição de tais conceitos poderia ser estabelecida do seguinte modo: o sentido de realidade como uma capacidade que pode ser inferida analisando o processo do teste de realidade; por sua vez, o teste de realidade efetivo, “para qualquer sujeito que passou a idade de puberdade” (p.486), seria a capacidade de manter o contato psíquico com os objetos que têm a capacidade de satisfazer o instinto; e, por fim, a objetividade é a capacidade de avaliar corretamente a relação entre os impulsos do instinto e os objetos do instinto, além de capacidade de avaliar se o instinto pode ser satisfeito no momento presente ou no futuro. Portanto, na definição de Glover, o sentido de realidade seria um produto do teste de realidade.

O autor apresenta, então, um quadro geral a respeito dos estudos mais relevantes sobre o tema do sentido de realidade feitos até aquele momento, detectando três perspectivas principais. A primeira delas teria sido a inaugurada por Ferenczi, com o texto acima mencionado, mas que é, na avaliação de Glover, incompleta em muitos aspectos. Em primeiro lugar, a teoria de Ferenczi não teria sido capaz de estabelecer para cada etapa do desenvolvimento do sentido de realidade um sistema de organização

libidinal correspondente. Em outros termos, ele teria conseguido apenas estabelecer para cada estágio do sentido de realidade um tipo de relação com o mundo externo e seus objetos, mas não teria sido capaz de formular uma descrição correspondente da natureza dos objetos pulsionais envolvidos. Para Glover, a solução parcial para esse problema surgiu com o texto de Abraham, que descreveu a série de desenvolvimento de objetos libidinais17 e poderia ser relacionada ao desenvolvimento do sentido de realidade. Além disso, Glover não concorda com a separação feita por Ferenczi entre o desenvolvimento do eu e o desenvolvimento da libido para o estudo do desenvolvimento do sentido da realidade, isolando-os em duas séries de desenvolvimento independentes. Glover considera que essa disjunção não é legítima e tampouco encontra respaldo clínico, uma vez que, em sua experiência, nunca atendeu um caso em que a regressão da libido e a regressão do eu não ocorressem juntas.

A segunda perspectiva de investigação do sentido de realidade teria sido aberta por Federn, relatada no texto Narcissism in the structure of the ego (1927), em pesquisa junto a pacientes com sintomas de despersonalização e alienação. Por meio de métodos introspectivos, ele tenta aí “estabelecer os limites de um eu narcisista” (p.487), limites estes que auxiliariam a analisar a capacidade de reconhecimento de objeto e de avaliação da realidade. Segundo Glover, Federn conseguiu assim estabelecer uma gradação da sensação de limites do eu corporal e correlacioná-la com variações na regressão do eu. Glover acredita que mais estudos a respeito da sensação de limites do eu comparados com a regressão do eu possam ser relacionados com um desenvolvimento do sentido de realidade, mas aponta que essa vertente de investigação

                                                                                                                         

17Glover refere-se à teoria de Karl Abraham a respeito dos estágios de desenvolvimento da libido, presente em diversos de seus escritos, mas apresentada de modo mais detalhado no texto Breve estudo do desenvolvimento da libido, visto à luz das perturbações mentais, de 1924. Essa teoria foi criada quando Abraham tentava estabelecer um modelo explicativo mais amplo para as neuroses e as psicoses, no qual estivessem relacionados a gênese e o quadro clínico das psicopatologias com as fixações e as regressões a determinadas etapas do desenvolvimento libidinal. De acordo com o modelo proposto por Abraham, haveria, no caminho da evolução libidinal, três etapas principais a serem percorridas, cada qual subdividida em outros dois estágios, dispostas em ordem cronológica e progressiva: fase oral (fase oral primitiva e fase oral posterior), fase sádico-anal (fase sádico-anal primitiva e fase sádico-anal posterior) e a fase genital (fase genital inicial- fálica e fase genital final). Comparadas pelo autor “a um horário de trens expressos, no qual figuram apenas as estações de maiores paradas” (p.155), cada um desses tempos da organização libidinal corresponde a um determinado tipo de relação com o objeto, indo do auto- erotismo (ausência de objetos externos) até chegar à relação com o objeto exterior ao eu, passando pelo narcisismo.

apenas será profícua se o conceito de narcisismo utilizado e aceito pelos psicanalistas não fosse tão rígido quanto adotado até aquele momento (p.487)18.

A terceira linha de estudo considerada por Glover teria sido aberta por Melanie Klein, beneficiada com o atendimento psicanalítico com crianças, o que lhe teria possibilidade acessar mais dados para a teorização do problema. Segundo Glover, a pesquisa inaugurada por Klein teria sido a primeira tentativa de descrição dos estágios de estabelecimento da relação com a realidade acompanhado do conteúdo mental característico de cada uma dessas fases e suas relações com as formações neuróticas e psicóticas. Haveria também, nessa linha, a ênfase na importância dos mecanismos de projeção e introjeção, na consideração da dinâmica entre o id e o superego e a importância do papel da angústia como motivadora de defesas contra a realidade. Esse último aspecto seria fundamental para o estudo dos estágios de desenvolvimento do sentido de realidade, que não deveria se restringir a tentar relacionar tais estágios com o desenvolvimento de objetos libidinais, como também inserir na pesquisa as questões a respeito da ansiedade e do controle da ansiedade. Para Glover, é evidente que “os estágios do desenvolvimento do sentido de realidade deveriam ser considerados não apenas em termos de pulsão e objeto, mas deveriam estar relacionados aos estágios de dominação da ansiedade” (p.487), às fantasias primárias e aos mecanismos para lidar com a ansiedade. Glover considera que, para Klein, as relações estáveis com a realidade e a conquista da objetividade não podem ser estabelecidas enquanto as ansiedades primitivas não tiverem sido dominadas. O sentido de realidade dependeria, assim, da emancipação dos sistemas corporais e ambientais de percepção da interferência excessiva dos mecanismos de projeção e introjeção. Como resultado do processo alternado de projeção e introjeção, a relação da criança com a realidade objetiva se torna distorcida e irreal.

Em termos de pesquisa, entretanto, Glover defende que seja possível conseguir estabelecer os dados a respeito dos estágios evolutivos do sentido de realidade não somente através do estudo com crianças, mas também com adultos, especificamente os casos que apresentem alguma forma de psicopatologia. A proposta do autor consiste em que os estudos com as psicopatologias possam fornecer dados a respeito do desenvolvimento, funcionando como uma espécie de reflexo distorcido do que ocorreria

                                                                                                                          18

Não encontramos qualquer indicação no texto de Glover que pudesse esclarecer essa afirmação a respeito da rigidez do conceito de narcisismo que vinha sendo adotado. O autor não cita nenhum teórico ou linha da psicanálise que exemplificasse sua assertiva.

com o desenvolvimento normal. No entanto, ele frisa que, afim de que os estágios que compõem a linha de desenvolvimento do sentido de realidade sejam melhor discriminados, é necessário que a classificação das patologias também fique mais bem elaborada, não se limitando apenas à neurose e à psicose.

Glover busca chegar a essa classificação, incluindo em sua pesquisa também os transtornos do caráter. Isso lhe teria permitido traçar séries de desenvolvimento paralelos de acordo com a predominância dos mecanismos de projeção ou introjeção e entender o que haveria em termos de estágios de desenvolvimento entre os pólos representados pela neurose e psicose. Segundo ele, esses transtornos poderiam ser entendidos como estados transicionais entre essas patologias.

Como exemplo desse estudo, ele fornece os dados da pesquisa com a adição em drogas, que seria, no que se refere ao mecanismo de projeção, um estado situado entre as paranoias e as formações de caráter obsessivas. Isso porque, na adição, o mecanismo de projeção estaria mais bem localizado e disfarçado do que ao se fazer presente nos casos de paranoia – uma vez que se encontra focado apenas nas substâncias nocivas –, mas apareceria na adição com mais força do que nos distúrbios obsessivos. Segundo o autor, o viciado, ao localizar seu sistema paranoico na droga, “está apto para preservar seu sentido de realidade do distúrbio paranoico absoluto” (p. 490). Glover afirma que, na ausência de uma escala de desenvolvimento do sentido de realidade estabelecida pelos psicanalistas, ele vai expressar o que ocorreria nesses casos nos termos de estágios libidinais: enquanto o paranoico regressa para o estágio oral-anal de realidade, o viciado regressa ao ponto em que a criança está saindo desse estágio. Essa etapa do desenvolvimento é caracterizada por ele do seguinte modo:

“Em outras palavras, até esse ponto o mundo externo foi representado como uma combinação de açougue, lavatório público sob um bombardeio, e um quarto post-mortem. E um viciado converte isto em uma farmácia tranquilizadora e fascinante, na qual, no entanto, o armário de veneno é mantido destrancado. Tendo neste momento reduzido os perigos paranoicos do mundo imediato, a criança (ou o dependente) ganha espaço suficiente para olhar para fora da janela (e avaliar a realidade objetiva).” (Glover, 1933, p. 491, nossa tradução).

Entretanto, a questão de Glover aqui é ainda classificatória. O problema reside, segundo ele, em como localizar o vício em substâncias na série de desenvolvimento das psicopatologias, de modo a ser possível estruturar a linha de desenvolvimento do sentido de realidade. Embora tenha sido revelada uma forma de relação com a realidade

peculiar nos casos de dependência química, a questão de Glover até aqui não é tanto analisar esse efeito da substância na relação do dependente com a realidade, mas como poder utilizar essa descoberta na construção de uma série classificatória.

Glover afirma que esse estudo com os dependentes químicos “revelou um outro problema na classificação que é a significação das formações perversas e fenômenos fetichistas que comumente acompanham adições com drogas” (p.491). Segundo Glover, sempre houve problema, para ele, em conseguir situar as perversões em uma escala de desenvolvimento psicopatológica, mas que sua ideia inicial era fazer uma única série de desenvolvimento que iria da psicose à neurose, com formações perversas intercalando essas psicopatologias em diversos pontos. A série inicial que havia imaginado ficaria assim disposta: psicoses, os fenômenos transitórios e as formas mais primitivas de perversões polimorfas, a neurose obsessiva, os fetiches e a perversão homossexual e então a histeria, inibições sexuais e sociais e as ansiedades sociais. Entretanto, Glover afirma que essa classificação não se sustentou por muito tempo, por diversas razões, mas principalmente porque “a análise de perversões homossexuais, neurose obsessiva e de estados psicóticos evidenciou de forma direta e indireta uma ordem regressiva e de desenvolvimento muito mais complicada” (p.492).

A fim de elucidar essa ordem regressiva complexa, ele apresenta um caso de perversão homossexual que, após um trauma, apresentou como efeito imediato não somente um reforço de suas características esquizofrênicas anteriores como também uma regressão a uma fase passiva da homossexualidade e então a uma fase mais primitiva de um cerimonial de excreção, com componentes ativos e passivos. Segundo Glover a característica principal dessa regressão era o enfraquecimento de uma verdadeira relação de objeto em favor de relações de objetos parciais. Entretanto, para além dessa diferença com a relação com o objeto, Glover afirma que,

“(...) esses cerimoniais atuavam como uma proteção contra as ansiedades suscetíveis de induzir o processo esquizofrênico. Em outras palavras, eles auxiliavam em manter em algum grau o sentido de realidade do paciente. O cerimonial perverso não era constante: eles alternavam com as fases de depressão esquizofrênica. Entre os cerimoniais ele tornava-se nitidamente esquizofrênico: o seu sentido de realidade sofria uma extrema diminuição.” (Ibid., p.493, nossa tradução).

Glover então retoma os casos em que há regressão aos interesses fetichistas, tanto em casos de estados transitórios como nos casos de dependência com drogas. Essa

regressão também teria efeito estabilizador no sentido de realidade do paciente ao operar alguma espécie de tratamento da ansiedade:

“Previamente, eu já relatei um caso no qual um neurótico obsessivo passou por uma fase de vício em drogas, cujo término foi sinalizado por uma regressão paranoica transitória. Durante a recuperação da fase paranoica, uma formação fetichista temporária foi observada. Isso evidentemente funcionou como um substituto da reação paranoica com a realidade. Ao localizar a ansiedade em um conjunto neutro e simbólico de um órgão corporal (pernas), e ao combatê-la por um processo de libidinização (formação fetichista), o paciente estava apto a recuperar as relações com a realidade”. (Ibid., p.494, nossa tradução).

Segundo Glover, ao localizar a ansiedade numa parte do organismo simbolicamente neutra e tendo neutralizado essa parte através do processo de libidinização, o paciente poderia então recuperar as suas relações com a realidade. A importância do estudo das perversões na relação com o sentido de realidade reside em que o retorno aos fenômenos fetichistas ou formações perversas representariam tentativas do paciente de se proteger contra a ansiedade, conseguindo assim manter uma relação estável com a realidade.

Após apresentar essa tese sobre o caráter estabilizador da regressão a formas perversas primitivas e fenômenos fetichistas para o sentido de realidade, Glover retorna ao problema da classificação das séries de desenvolvimento. Ele sugere então que a perversão teria uma série própria de desenvolvimento que é paralela à série das psicoses, estados transicionais, neuroses e inibições sociais. Ou seja, a hipótese inicial de uma série única de classificação das psicopatologias em relação ao sentido de realidade não se mantém e é substituída por essa segunda hipótese das séries paralelas de desenvolvimento. A questão de Glover que permanece até o fim do texto consiste em saber se a série da perversão apenas ajudaria os casos patológicos presentes na outra série a manter o sentido de realidade, ou se a própria série da perversão indicaria a forma como o sentido de realidade se desenvolveria.

Essa tese de Glover se conecta um pouco com um artigo de Obendorf, intitulado On Retaining the Sense of Reality in States of Depersonalization, também publicado no International Journal of Psycho-Analysis . Aparecido em 1939, esse texto inicia a série de pesquisas que têm como tema principal a relação do sentido de realidade com a despersonalização e que será cada vez mais frequente ao longo dos anos. Na realidade,

não há nenhuma afirmação sobre a existência ou não de um desenvolvimento do sentido de realidade, mas também não há nenhuma definição para o que seria o sentido de