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O primeiro autor da psicanálise a estudar o conceito de sentido de realidade foi Sándor Ferenczi, médico húngaro participante da primeira geração de psicanalistas, que, em 1913, publicou o texto O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios, intitulado originalmente Entwicklungsstufen des Wirklichkeitssinnes. Embora em seu artigo, ele não forneça uma definição exata para o conceito, é possível encontrar ao longo de suas linhas algumas indicações do que seria o sentido de realidade segundo sua concepção: adaptação à realidade; abandono da ilusão advinda do sentimento de onipotência e aceitação das contingências; capacidade de objetivação; capacidade de considerar a realidade do mundo externo; pensamento consciente que retarda a descarga motora reflexa; capacidade de desfazer os vínculos entre eu e não-eu; capacidade de representar o real mesmo este seja sentido como desagradável. Nessa lista de operações é possível identificar como o sentido de realidade envolveria de uma só vez as faculdades de perceber, de sentir e julgar.

A premissa básica do texto de Ferenczi consiste em que o princípio de prazer se desenvolveria até o estabelecimento do princípio de realidade e à adaptação à realidade. No início da vida humana, haveria o que ele denomina estágio-prazer, que deveria ser substituído pelo estágio-realidade. Além disso, existiriam formações psíquicas nas quais ocorreria uma espécie de mistura entre esses dois estágios, representadas pela fantasia, a arte e a vida sexual, em que os dois princípios do funcionamento mental coexistiriam. O objetivo do texto é investigar o desenvolvimento que levaria a organização psíquica de um estágio a outro.

“Freud mostrou que o desenvolvimento das formas de atividade psíquica própria ao indivíduo consiste na substituição do princípio de prazer, predominante na origem, e do mecanismo de recalcamento que lhe é específico, pela adaptação à realidade, ou seja, à prova de realidade fundamentada num julgamento objetivo. Do estágio psíquico primário, tal como se manifesta nas atividades psíquicas dos seres primitivos (animais, selvagens, crianças) e nos estados psíquicos primários (sonho, neurose, fantasia), surgirá, portanto, o estágio

secundário, o do homem normal em estado vígil.” (Ferenczi, 1913/1992, p. 39).

Ferenczi afirma que buscará investigar quais seriam os estados intermediários entre os dois modos de funcionamento e também responder sob que modos essa mudança se daria, se seria através de uma progressão ou por etapas. Na opinião de Ferenczi, ainda que Freud tenha lançado as bases dessa tese do desenvolvimento do estágio-prazer para o estágio-realidade, no texto Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, os detalhes a respeito dos modos como essa mudança ocorreria não estão demonstrados no texto. Seria preciso então buscá-los em outros lugares do pensamento freudiano. Em sua leitura, o conceito de crença na onipotência dos pensamentos, apresentado no caso do Homem dos Ratos13, poderia servir como conceito chave para explorar os estados intermediários, fornecendo indicações dos processos que ocorreriam até que o estágio do eu-realidade fosse atingido. Isso porque se trataria de um sintoma em que “a atividade de inibição, de adiantamento e de elaboração do pensamento, ainda não se interpôs entre o desejo e a ação” (p.41). A crença na onipotência dos pensamentos e desejos é, então, a categoria escolhida para fundamentar todo o sistema de desenvolvimento do sentido de realidade. Além dessa decisão metodológica, Ferenczi também estipula que, primeiramente, irá resolver como poderia se dar o desenvolvimento das pulsões do eu, para só então discorrer sobre as pulsões sexuais – o desenvolvimento da realidade erótica. Para ele, a preocupação do eu com autoconservação levaria a tarefa de agenciamento da realidade a ter “relações mais profundas com o ego do que com a sexualidade” (p.50), e que, portanto, o estudo do desenvolvimento do eu mereceria mais atenção devido a essa importância de sua relação com a realidade.

Em um primeiro momento, ele se dedica, então, à elaboração de uma ontogênese do sentido de realidade (p.51) a ser trilhada pelas pulsões do eu, através de sucessivos impulsos de recalcamento14. Desse modo, ocorreria o abandono do sentimento de onipotência do eu presente no estágio inicial e seria possível reconhecer a realidade

                                                                                                                         

13 Em nota de rodapé Ferenczi informa que seu artigo foi escrito antes que pudesse entrar em contato com o trabalho de Freud Totem e Tabu, também escrito em 1913. Como vimos no capítulo anterior, Freud apresenta junto com a análise sobre o pensamento animista, outras formulações a respeito da onipotência do pensamento que ainda não estavam presentes no caso mencionado por Ferenczi.

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Ferenczi deixa claro que não se trata de um impulso espontâneo o que leva o eu a se desenvolver. Segundo o autor, seria a necessidade e a frustração que exigiriam do eu uma mudança para adaptar e então poder sobreviver.

contingencial da existência, ou ainda, “a substituição, imposta pela experiência, da megalomania infantil pelo reconhecimento do poder das forças da natureza” (p.41).

Explorando o conceito de onipotência, Ferenczi se pergunta qual poderia ser a origem dessa ilusão, expressa como sintoma na neurose obsessiva, e responde que se trata de um “retorno da vida psíquica a uma etapa infantil do desenvolvimento” (p.40). Trata-se de um momento da vida em que o estado ideal de estar sob domínio apenas do prazer efetivamente acontece. Quando a criança está no útero materno, a sua condição psíquica seria exatamente de onipotência total, já que teria os seus desejos inteiramente assegurados pela mãe, não tendo a criança que fazer qualquer trabalho ou modificação no mundo externo para conseguir satisfazê-los. Essa condição daria ao psiquismo da criança a impressão de que é totalmente onipotente e pleno15. Este seria o Período de onipotência incondicional por que passa o ser humano.

O próximo período seria o Período da onipotência alucinatória mágica em que, agora recém-nascido, o bebê começa a ter experiências de desprazer e perturbação em função de o estado de plenitude anterior ter sido desfeito. Nessa situação, começa a ocorrer, então, o reinvestimento alucinatório das experiências de satisfação anteriores, a fim de recriar a situação de plenitude da vida intra-uterina. Nesse período, a criança continuaria a se acreditar onipotente, porque não percebe que seus desejos são realizados pelos adultos que dela se encarregam. Por não possuir ainda a noção do encadeamento de causas e efeitos, a criança acredita que a satisfação de seus desejos depende apenas de seu modo de representação alucinatório e não das modificações que as ações dos adultos produzem para satisfazê-la.

Após essa etapa, Ferenczi descreve o que seria o terceiro período, denominado Período da onipotência com a ajuda de gestos mágicos. Nesta etapa, diante da impossibilidade de ter todos os seus desejos satisfeitos pelo mundo externo, a criança começaria a fazer uso de movimentos ainda descoordenados, mas que poderiam funcionar como sinais para se obter o que deseja. Ferenczi afirma que, como ao gritar ou se movimentar a criança usualmente acaba por receber do mundo externo o que necessita para satisfazer seu desejo, ela, sem perceber a existência dessa ajuda, acredita que seus sinais e movimentos são mágicos e possuem, eles mesmos, o poder de realizar os desejos.

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Não conseguimos encontrar nesse texto de Ferenczi a explicação para a existência ou gênese de vida psíquica inconsciente e presença de desejo no feto. O autor apenas afirma que “seria absurdo acreditar que o psiquismo só começa a funcionar no momento do nascimento” (p.42).  

Esses seriam, então, os três períodos que compõem o estágio da onipotência. Ele também é denominado por Ferenczi de fase de introjeção do eu16, visto que durante esse período o eu ainda não conta com a diferenciação entre seus domínios e o mundo externo, de modo que “todas as experiências ainda estão incluídas no ego” (p.46). A passagem para a etapa seguinte, denominada de estágio de realidade, marca uma diferença notável em relação à anterior:

“Se até então o ser ‘onipotente’ podia sentir-se uno com o universo que lhe obedecia e seguia os seus sinais, uma discordância dolorosa vai produzir-se pouco a pouco no seio de sua vivência. É obrigado a distinguir do seu ego, como constituindo o mundo externo, certas coisas malignas que resistem à sua vontade, ou seja, separar os conteúdos psíquicos subjetivos (sentimentos) dos conteúdos objetivos (impressões sensoriais).” (Ferenczi, 1913/1992, p. 46).

As experiências de insatisfação fariam, portanto, com que o eu começasse a estabelecer uma diferenciação, ainda que incipiente, entre o eu e o mundo externo e, com ela, um novo modo de relação entre sujeito e objeto. Denominada por Ferenczi de fase de projeção do ego, tem-se como referência o momento em que o eu começaria a projetar no mundo externo o seu próprio modo de funcionamento como uma primeira forma de objetivação da realidade. Não por acaso, Ferenczi define como primeiro período desse novo estágio o modo animista de apreender a realidade, “em que todas as coisas se lhe apresentam como animadas e em que tenta reencontrar em cada coisa seus próprios órgãos” (p.47).

Progressivamente, a criança começaria a supor que a satisfação de seus desejos está condicionada a determinados fatores, acarretando, assim, o decréscimo em sua sensação de onipotência e a criação sucessiva de métodos que a auxiliem no agenciamento e na representação do mundo externo. Para Ferenczi, o modo privilegiado de figuração encontrado pela criança é a linguagem verbal, a qual possibilita expressar de forma mais econômica os desejos, além de permitir a formação de processos de pensamento consciente.

Porém, Ferenczi considera que mesmo nessa nova configuração psíquica de representação da realidade ainda existiriam traços do sentimento de onipotência do eu. Isso porque a aquisição da linguagem verbal e gestual possibilita uma facilitação da

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De acordo com o Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis (2001), Ferenczi foi o primeiro a teorizar a respeito do conceito de introjeção a partir do conceito de projeção, em 1909, com o texto Transferência e Introjeção.

expressão de desejos e permite à criança fazer seus pedidos, de modo mais rápido e fácil, aos adultos que dela estão encarregados. Por sua vez, os sinais da mímica facial, que acompanham o pensamento da criança, seriam facilmente lidos pelos adultos, em uma espécie de “leitura dos pensamentos” da criança, de modo que seus desejos seriam assim facilmente interpretados e satisfeitos por quem dela cuida. Esse estágio foi denominado por Ferenczi como Período dos pensamentos e palavras mágicos.

Em todos os períodos indicados por Ferenczi, é possível constatar como o sentimento de onipotência do eu infantil seria um derivado do modo de relação que se estabelece entre a criança e o adulto cuidador, dado que, diante da simples manifestação de desejo da criança, o adulto agiria para satisfazê-la. Em virtude disso, Ferenczi supõe que é apenas quando essa relação termina que poderia cessar o princípio de prazer e ocorrer uma queda no sentimento de onipotência. Nesse momento a criança poderia conceber que entre seu desejo e a possibilidade de sua satisfação são necessários ação, espera, compreensão dos condicionamentos, determinações e cadeias de causa e consequência.

“Só depois que a criança fica completamente desligada de seus pais no plano psíquico é que, diz Freud, cessa o reinado do princípio do prazer. É também nesse momento, extremamente variável segundo os casos, que o sentimento de onipotência cede lugar ao pleno reconhecimento do peso das circunstâncias. O sentido de realidade atinge o seu apogeu na ciência onde, em contrapartida, a ilusão de onipotência cai para o seu nível mais baixo; a antiga onipotência dissolve-se em meras “condições” (condicionalismo, determinismo). Encontramos, porém, na teoria do livre-arbítrio, uma doutrina filosófica otimista que ainda realiza as fantasias de onipotência.” (Ibid., p. 49).

É interessante notar, nessa passagem, uma espécie de correlação existente, mesmo que incipiente, entre a ontogênese do sentido de realidade e as formas de conhecimento científico e filosófico, e mesmo formas de sociedade, como as chamadas primitivas e civilizadas. Ainda que sustentasse que a confirmação de uma filogênese do sentido de realidade era, na época, apenas uma profecia científica, Ferenczi não duvidava que a psicanálise conseguiria, um dia, “estabelecer um paralelo entre, por um lado, os diferentes estágios evolutivos do eu, bem como seus tipos de regressão neuróticos, e, por outro lado, as etapas percorridas pela história da espécie humana” (p.51).

No entanto, mesmo supondo que o processo de ontogênese pudesse vir a ser uma repetição da filogênese do sentido de realidade, Ferenczi não acreditava que o processo de conquista da percepção objetiva da realidade resultasse de uma espécie de “tendência para a evolução” natural e instintiva do psiquismo. Segundo ele, para que o desenvolvimento do sentido de realidade ocorresse, era indispensável que houvesse pressões e frustrações, impostas pelo meio externo, que pudessem forçar a criança a recalcar seus modos de satisfação dos períodos iniciais – processo este contra o qual a criança resistiria. Essa aparente contradição no texto de Ferenczi talvez encontre uma explicação na concepção mesma que o autor apresenta em seu texto a respeito do motor da evolução da humanidade enquanto espécie. Segundo o autor, seriam as catástrofes naturais e geológicas ocorridas ao longo da história que teriam impulsionado a humanidade enquanto espécie a abandonar seus modos de organização sociais estabelecidos e evoluírem construindo novas formas de civilização. Desse modo, não teria sido a constituição biológica ou natural do homem a explicação para os processos de ontogênese ou filogênese, mas sempre as mudanças do meio externo como hipótese causal para as sucessivas ondas de recalcamento. Nesse sentido, o desenvolvimento filogenético está sempre aberto às contingências.

Ao menos no que se refere à ontogênese, o recalcamento não eliminaria do aparelho psíquico os traços mnêmicos dos períodos superados, sendo possível a eles retornar por caminhos normais ou patológicos. O retorno normal se daria através dos sonhos, em alguns gestos simbólicos e alguns pensamentos filosóficos otimistas que preservariam vestígios do pensamento onipotente no campo da normalidade. Fora dessas cercanias estariam as fixações nos estágios de onipotência do desenvolvimento, as quais determinam os quadros psicopatológicos das neuroses e psicoses, principalmente as alucinações. Entre esses dois terrenos, a zona de fronteira formada pela fantasia, pela arte e a vida sexual, zona em que, de acordo com Ferenczi, “coexistem os dois princípios do funcionamento psíquico” (p.40).

É possível notar como, nesse texto, Ferenczi retoma muitas das teses freudianas presentes em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental e Totem e tabu. A separação da criança em relação aos pais no plano psíquico é novamente tomada como um referencial importante para a instalação do princípio de realidade, uma vez que seria o momento em que “cessa o reinado do princípio de prazer”. Além disso, a assim como em Freud, Ferenczi afirma que é necessário que haja frustração para que o

desenvolvimento ocorra. A repetição da filogênese na ontogênese só poderá se dar se for impelida pelas condições do meio externo.