Dentre as abordagens teóricas dominantes nos estudos, na Teoria das Relações Intergrupais, definida como relações entre dois ou mais grupos e seus respectivos membros, o preconceito e a discriminação têm sido os aspectos mais comumente pesquisados. Na Teoria Psicodinâmica, pesquisadores como Adorno, Frankel-Brunswich, Levinson e Sanford, nos anos 1950, faziam associação entre a ideologia e a personalidade para dar conta de explicar tomadas de posições racistas e antidemocráticas, argumentando que o preconceito decorre das diferenças de personalidade, sendo a personalidade autoritária preditora de preconceito (JODELET, 2006; PROUDFORD; NKOMO, 2006). A teoria da Identidade Social (TAJFEL, 1982), no entanto, postula que a necessidade de autoestima positiva leva ao preconceito e que a solução para o preconceito é a redução da saliência entre fronteiras grupais (contato).
O preconceito racial e étnico se faz presente em quase todas as partes do mundo, sendo raro encontrar uma sociedade em que um grupo não seja classificado como “outro” com base na etnia ou raça. No Brasil, o “mito da democracia racial” marcou secularmente o país, estabelecendo uma falsa cultura de que no país não existe preconceito e que a paz e a democracia aqui imperam (GUIMARÃES, 2002) mas, conforme já indicado por Aronson, Wilson e Akert (2002) este é um fenômeno social onipresente.
Na perspectiva da Psicologia Social, o preconceito é compreendido como atitude negativa em relação a membros de outro grupo social, decorrente de estereótipos e
generalizações; a discriminação, como comportamento negativo em relação aos membros desse grupo social; e o racismo é visto como a combinação de ambos (PROUDFORD; NKOMO, 2006).
Três diferentes formas de compreender o preconceito são indicadas por Allport (1979) em que: a primeira considera que o preconceito refere-se a julgamentos baseados em experiências anteriores; na segunda é compreendido como um julgamento prévio e precipitado, sem o adequado exame dos fatos; na terceira, o preconceito é considerado como um sentimento combinado com julgamento prévio e sem justificativas.
O preconceito é considerado uma atitude, uma vez que comporta componentes afetivos ou emocionais, cognitivos e comportamentais. Aronson, Wilson e Akert (2002) definem preconceito como “[...] uma atitude negativa ou hostil contra pessoas de um grupo identificável, baseada exclusivamente na sua condição de membro do grupo”, sem qualquer justificativa que o fundamente. Mor-Barak (2005, p. 138) também ressalta o caráter negativo do preconceito conceituando-o como “[...] um julgamento pré-concebido ou opinião sustentada por membros de um grupo; o preconceito é percebido como atitude irracional de hostilidade dirigida a um indivíduo, um grupo, uma raça ou às suas supostas características”.
Para compreender o componente cognitivo do preconceito, de acordo com Aronson, Wilson e Akert (2002), é necessário entender o conceito de estereótipo, geralmente definido como uma generalização acerca de um grupo de pessoas, em que características idênticas são atribuídas a um grupo de pessoas, praticamente sem levar em conta suas individualidades.
Uma dimensão social é atribuída aos estereótipos, quando estes são compreendidos como crenças ou conhecimentos amplamente partilhados por um grupo sobre a natureza do endogrupo e dos exogrupos. Considerado como “padronizações” ou “figuras mentais supersimplificadas” (MOR-BARAK, 2005) que construímos acerca de pessoas, instituições, ou eventos e cujos pressupostos compartilhamos com outras pessoas, o estereótipo, em geral, se faz acompanhar por preconceitos, ou seja, por pré-disposições favoráveis ou desfavoráveis em relação à pessoa ou categoria em questão (TAJFEL, 1982).
Embora o escopo desse trabalho esteja fundamentado na Psicologia Social, cabe aqui uma menção a abordagem sociológica do trabalho de Goffman (1988), em que o autor trata do conceito de estigma, apontando que, a partir de atributos que são percebidos como discrepantes ao estereótipo criado acerca de determinado tipo de indivíduo, pessoas podem passar a ser vistas como estragadas e diminuídas, e em decorrência disso lhes ser atribuído descrédito. O autor considera duas perspectivas distintas de se perceber a pessoa que possui um estigma: a condição de desacreditado, que se dá quando os atributos distintivos são
conhecidos e evidentes e a condição de desacreditável que ocorre quando essas características não são imediatamente perceptíveis ou conhecidas dos presentes.
Difíceis de serem mudados, os estereótipos são mecanismos cognitivos ou maneira adaptativa de lidar com eventos complexos, mas que se tornam disfuncionais e injustos quando cegam as percepções, impedindo que diferenças individuais entre classes de pessoas sejam percebidas (ARONSON; WILSON; AKERT, 2002).
O último componente do preconceito refere-se ao aspecto comportamental. Segundo os autores anteriormente citados, crenças estereotipadas geralmente resultam em tratamento injusto. A isso denominam “discriminação”, ou seja, “[...] ação negativa injustificada ou prejudicial contra os membros de um grupo, simplesmente porque pertencem a esse grupo”. Allport (1979) considera que discriminação ocorre quando é negada a indivíduos ou grupos de pessoas a igualdade de tratamento que elas desejam. Para Dovidio et al. (2010, p. 10), a discriminação pode ser definida como o comportamento de um indivíduo que cria, mantém ou reforça vantagem para alguns grupos e seus membros em relação a outros grupos e seus membros.
Goffman (1988) aponta que as discriminações podem ocorrer em virtude de que as atitudes dos ditos “normais” partem da crença de que os estigmatizados, ou aqueles que possuem uma marca distintiva, são inferiores, sendo possível que outras imperfeições sejam inferidas a estes indivíduos a partir da imperfeição ou marca original.
De acordo com Allport (1979), pré-julgamentos são naturais do ser humano e se modificam diante de fatos, enquanto preconceitos são irreversíveis e mantêm-se mesmo diante do correto conhecimento dos fatos. O autor propõe uma tipologia das manifestações de preconceitos, que evoluem de atitudes para ação, a partir de linguagens insultuosas, evitação, discriminação (modo ativo de tentar privar o outro), ataque físico (atos de violência) e extermínio (a manifestação mais extrema).
Manifestações de preconceito e discriminação têm se institucionalizado nas organizações e na sociedade (PROUDFORD; NKOMO, 2006), pois, conforme assinalam Aronson, Wilson e Akert (2002), este é um problema de e para toda a humanidade, com impacto sobre a autoestima e ao qual ninguém passa incólume. Portanto, ele precisa ser combatido e abandonado, o que só se dará por meio da aceitação do diverso e da inclusão, uma vez que em decorrência do preconceito o que o advém é a exclusão.