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konservaciis istoria

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3.3 konservaciis istoria

Dando continuidade à caracterização do discurso lúdico para crianças e sabendo que um tipo de discurso associa-se sempre a um setor de atividade social caracterizável por uma rede de gêneros do discurso (MAINGUENEAU, 2005), então, podemos dizer que o discurso lúdico para crianças, mesmo englobando uma variedade de tipos discursivos, associa-se a um setor em particular, o setor cultural infantil ou para crianças. E, numa análise discursiva que leva em conta a ideia de cena de enunciação (MAINGUENEAU, 2005), o tipo de discurso corresponde também a uma das três cenas pressupostas por qualquer gênero de discurso, a cena englobante. Segundo Maingueneau (2005), diante de um texto, é preciso que nos situemos para poder interpretá-lo, ou seja, devemos ser capazes de identificar a que discurso esse texto pertence. Para cada discurso, existem propriedades específicas que devem ser consideradas. Na cena englobante literária infantil, por exemplo, implica-se um “autor”, um indivíduo qualificado, que desempenha a capacidade de enunciar adequadamente para o público infantil, buscando sua adesão; que usufrui de liberdade para expressar-se criativamente, fugindo, assim, de padrões linguísticos; que constrói ficções alcançáveis pelas crianças etc. Por outro lado, o interlocutor do discurso literário infantil é interpelado enquanto um leitor criança que apresenta, portanto, especificidades em relação ao público adulto as quais devem ser respeitadas sob o risco do discurso se mostrar inadequado ou não recomendável à infância. Portanto, existe um conjunto de características prototípicas tanto ao locutor, quanto ao interlocutor e ao próprio enunciado que só fazem sentido se o texto for associado a uma cena englobante em particular.

Maingueneau (2015), no entanto, alerta que, “a partir do momento em que um texto é conservado e reempregado em um novo contexto, ele pode decorrer de cenas englobantes

texto participe de duas cenas englobantes ao mesmo tempo desde sua origem. Exemplo disso são as crônicas literárias, fruto da cena englobante midiática ou jornalística e da cena englobante literária.

A partir da ideia de cena englobante, talvez seja possível pensar numa cena que corresponda não a um tipo de discurso em particular, mas a um conjunto de discursos que se reúnem em um tipo. É o caso das categorias discursivas como o discurso constituinte (MAINGUENEAU, 2008a), o discurso polêmico e o autoritário (ORLANDI, 2006) e o próprio discurso lúdico para crianças. Entendemos que, assim como não é indiferente situar um texto em uma ou outra cena englobante a fim de interpretá-lo, também não é indiferente situá-lo em relação a uma “cena hiperenglobante”, ou seja, em relação a um conjunto de discursos com os quais esse texto, através da cena englobante, mantém relação de proximidade. Assim, por exemplo, as consequências serão diferentes se um pesquisador, tendo situado um poema na cena englobante literária, também vier a inscrevê-lo na cena hiperenglobante constituinte ou na cena hiperenglobante lúdica. Considerar um texto a partir de sua filiação a uma cena hiperenglobante constituinte implica que o pesquisador irá conceber esse texto, preponderantemente, quanto àquilo que caracteriza os discursos constituintes, ou seja, quanto ao caráter de autoridade, que dá sentido aos atos da coletividade etc. Por outro lado, considerar um texto como filiado à cena hiperenglobante lúdica implica analisá-lo, fundamentalmente, segundo o seu caráter polissêmico e de prática que se volta ao prazer.

Do mesmo modo, resolver situar um texto na cena hiperenglobante lúdica ou na cena hiperenglobante lúdica infantil também resulta em efeitos diferentes. Basta notarmos que a cena lúdica infantil é mais restrita, que implica na consideração do público infantil, que investe discursivamente considerando a infância e a cultura lúdica infantil etc.

Assim, se um texto pode inscrever-se em diferentes cenas englobantes, ele também pode, em um nível ainda mais amplo, associar-se a cenas superenglobantes distintas. Daí a relevância de se considerar também um quadro ainda mais amplo do que a própria cena englobante.

Segundo Orlandi (2006), em seu artigo “Sobre tipologia de discurso”, os objetivos

que buscam tanto “a singularidade” quanto “a generalidade” do discurso revelam-se, à primeira vista, contraditórios e compreendem um dilema na constituição do objeto da análise de discurso. No entanto, a autora defende que para que haja a possibilidade de análise é necessária a sistematicidade do objeto e, portanto, o estabelecimento de tipologia(s) de

generalizar certas características, se agruparem certas propriedades e se distinguirem classes” (p. 217).

A partir, portanto, da concepção de discurso lúdico para crianças, o qual é um subtipo do discurso lúdico, pretendemos reunir discursos lúdicos voltados para uma categoria geracional específica, a infância. Desse modo, discurso lúdico infantil é aquele destinado ao público infantil e que apresenta uma natureza polissêmica, que mantém o seu objeto enquanto tal, expondo-se os interlocutores à presença desse referente sem que lhe regulem os sentidos. Caracteriza-se também pelo “faz-de-conta”, pela decisão, pela regra e pela frivolidade, marcas tomadas emprestadas do jogo. No que se refere às finalidades desse discurso, entendemos que ele apresenta a finalidade de servir ao prazer, à diversão, ao entretenimento, mas também pode cumprir finalidades práticas. Em relação especificamente ao discurso lúdico para crianças, julgamos que a associação de finalidades imediatas (principalmente, educativas) aos fins de prazer aparece de forma ainda mais reiterada, visto que se julga a criança como sujeito para quem a brincadeira é uma constante, mas também como sujeito em fase de aprendizagem. Daí, vê-se no discurso lúdico infantil um meio de proporcionar à criança não apenas diversão, mas também aprendizado, investindo-se educativamente nesse discurso.

Como vimos, o discurso lúdico pode ser caracterizado a partir de algumas marcas tomadas emprestadas do jogo. Especificamente no que diz respeito ao discurso lúdico para crianças, essa relação com o jogo pode se dá de forma ainda mais estreita, uma vez que, segundo nossa hipótese, esse discurso remete à cultura lúdica infantil (BROUGÈRE, 1998a), ou seja, um conjunto de esquemas, de regras e imagens que configuram a brincadeira para a criança ou ainda um conjunto das próprias brincadeiras e costumes lúdico infantis.

Considerando, portanto, pertinente a proposta de subtipologia para o discurso lúdico, nossa tarefa, pois, neste trabalho, reside em analisar os investimentos discursivos de que o discurso literomusical brasileiro para crianças lança mão para se configurar enquanto um discurso lúdico para crianças. Para isso, deteremos o olhar sobre oito dimensões discursivas (cenografia, ethos, código de linguagem, metadiscursividade, intertextualidade, interdiscursividade, melodia e arranjo) das quais trataremos a seguir.

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