Os anos que compreenderam a década de 1960 foram marcados por importantes mudanças no âmbito político e social para a sociedade moderna como um todo; novos projetos culturais e ideológicos ganharam força e trouxeram à tona uma leitura crítica dos acontecimentos da sociedade, além de buscarem construir novos padrões morais, comportamentais, políticos e sociais.
Nesse caminho, merecem destaque alguns acontecimentos marcantes em nível mundial: a Guerra do Vietnã (que se iniciou em 1955 e se estendeu por toda a década de 1960, acabando apenas em 1975), a entrada dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1965), a chegada do homem ao espaço (1962), a construção do muro de Berlim (1961), o movimento hippie e o fortalecimento dos movimentos pacifistas por todo esse período, o surgimento do grupo musical de rock inglesa chamado Beatles, a Primavera de Praga (1968) e os assassinatos do presidente Kennedy nos Estados Unidos (1963) e do líder Martin Luther King (1968).
No Brasil especificamente alguns acontecimentos tiveram suma importância no destino do país, pois trouxeram, como consequência para a nação, grandes mudanças de paradigmas e de estrutura do ponto de vista político e social como um todo, determinando dessa forma os caminhos que o país iria seguir.
Para destacar alguns dos mais significativos fatos que ocorreram dentro do período referido, podemos citar: a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília em 1960, a eleição de Jânio Quadros como presidente e sua posterior renúncia em 1961, o golpe militar que tirou do comando o presidente João Goulart e instaurou no país o regime da Ditadura Militar em 1964, o início das transmissões dos festivais de Música Popular Brasileira na televisão em 1965 e a instauração dos Atos Institucionais (AI) da Ditadura
Militar, com detalhe para o Ato Institucional número 5, ou somente o AI-5 (1968).
A transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília em 1961, é um divisor de águas tanto no sentido geográfico de sua localização como também no tocante à dinâmica das relações estabelecidas com o distrito federal que até hoje, têm suas consequências para a nação do ponto de vista econômico, social e político.
A construção de Brasília por si só seria um capítulo à parte no que se refere às análises e críticas desse feito, mas no caso dessa pesquisa, a leitura da construção da capital passa por esferas de outra ordem. Apresentaremos nesse tema fatos e dados que ajudarão a compor o cenário mencionado, bem como a leitura do movimento Tropicalista que virá a seguir juntamente com a Ditadura Militar; para tanto, é necessário retroceder um pouco no tempo e no espaço para que essa interpretação seja compreensível.
3.1 – Os 50 anos em 5 na Geografia do Brasil
A gestão do presidente Juscelino Kubitschek ocorreu de 1956 a 1960. Eleito com uma das menores percentagens de votos válidos (33,82%) até
então dadas a um presidente da República21 pelas vias democráticas para suceder o presidente Getúlio Vargas (que havia se suicidado em 1954), JK, como era chamado, enfrentou grandes desafios pela frente. Além de enfrentar a oposição que tentava por todas as vias derrubá-lo e impedi-lo de assumir o mandato, o presidente tinha também a missão de colocar em prática as promessas feitas em sua campanha eleitoral. Considerada uma campanha “voltada para o futuro”,22 tinha o ambicioso plano de modernizar o país de forma intensa nos seus cinco anos de gestão, utilizando o slogan “50 anos em 5”.
O plano anunciado em sua campanha continha 30 metas de governo,
com seus respectivos custos e fontes de financiamento, coroadas pela meta- síntese: a construção de Brasília. O plano de Metas do presidente foi dividido
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Retirado do site cpdoc.fgv.br acessado em 26/11/2013.
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em seis grandes grupos a saber: energia, transportes, alimentação, indústrias de base, educação e a construção de Brasília chamada de meta-síntese (Fausto, 1994, p. 425). No quadro a seguir, podemos compreender melhor do que se tratava especificamente essas metas e como foram classificadas:
SETOR METAS
Energia Energias elétrica, nuclear, carvão mineral, petróleo: produção e
refinação.
Transportes Ferrovias: reaparelhamento e construção, rodovias:
pavimentação e construção, portos e dragagem, marinha mercante e transporte aeroviário.
Alimentação Trigo, armazéns e silos, frigoríficos, matadouros industriais,
mecanização da agricultura, fertilizantes.
Base Siderurgia, alumínio, metais não-ferrosos, cimento, álcalis,
celulose e papel, borracha, exportações de minérios, Indústrias automobilística e mecânica, construção naval.
Educação Formação de mão de obra técnica para o desenvolvimento do
país.
Meta-Síntese Construção de Brasília.
Fonte: SUMOC. Boletins, vários anos, 1955-1964. Adaptado pelo autor.
Esse ambicioso projeto de construir e transferir a nova capital do país tinha em sua essência alguns outros propósitos: além de transferir a capital e o centro do poder nacional para a região central do país, tinha também o objetivo de construir uma cidade totalmente planejada para tal feito e, com isso, promover a movimentação da economia local e regional, além de despertar o espírito nacionalista e patriótico do povo através de sua ideologia nacional desenvolvimentista.
Para demonstrar a importância da cidade no Rio de Janeiro nesse contexto, bem como a importância da mudança de capital, é necessário um rápido parênteses na construção do raciocínio anterior, apenas para acrescentar algumas informações relevantes a respeito da cidade que deixaria de ser o centro do poder político do Brasil. Sede da capital federal do país desde 1763, quando da transferência da sede do vice-reinado de Salvador para o Rio de Janeiro, a cidade tinha em sua localização alguns dos requisitos que atendia aos interesses da Coroa Portuguesa: a vantagem de ser uma cidade portuária facilitava a comunicação com o outro lado do Atlântico, mais precisamente com o Império Português; consequentemente, a cidade se
transformava num centro que permitia o fluxo na circulação de homens, escravos, mercadorias, comércio, bens, produtos, serviços e também ideias e ideais. Além disso, a cidade ganhara mais importância ainda quando, em 1808, ocorreu a chegada da família Real Portuguesa no Brasil se instalando na cidade do Rio de Janeiro.
Tendo em mente toda a importância histórica e política que a cidade maravilhosa carregava em sua trajetória na breve apresentação anterior e considerando o contexto político do Brasil da década de 1950 em diante; a mudança que estava prestes a ser operada, trazia (e ainda traz) questionamentos a respeito dessa alteração, segundo Motta:
Aos anos dourados representados pelo período em que foi o cérebro e o coração do país, seguiram-se os anos de chumbo, marcados por drásticas mudanças de estatuto político e administrativo que levaram a cidade à condição de estado da Guanabara e depois de município do Rio de Janeiro, capital de mesmo nome. Ao glorioso passado de centro político e cultural do país, teria sucedido o presente da decadência. (Motta, 2000, p. 3)
Ainda segundo a autora, algumas correntes apontam que a transferência da capital federal para a nova cidade devia-se muito ao fato de o Rio de Janeiro, por seu passado histórico e intelectual, ter cidadãos mais “politizados”, enquanto Brasília, por ser uma “ilha da fantasia oculta e isolada”23, favorecia o fortalecimento da ditadura militar.
Assim, no Brasil dos anos 50, o presidente Juscelino conseguiu, com a ajuda dos arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemeyer, projetar e construir a capital do futuro; em três anos seus principais prédios foram concluídos: em 1958 a fachada do palácio da Alvorada estampava a capa da revista Manchete. JK sabia das implicações de seu projeto diante da nação: atrasos implicariam o abandono do sonho e, por isso, o presidente instalado no Catetinho (menção feita à sede do Catete no Rio de Janeiro) acompanhava a realização do sonho de urbanistas e arquitetos que viam, na cidade planejada, a possibilidade do planejamento colocado em prática. O sonho de igualdade era promovido no
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discurso do Estado através de espaços divididos para lazer, moradia e trabalho.
A entrevista do urbanista Lúcio Costa ao jornal O Estado de São Paulo, em 1988, revela mais um pouco de sua visão a respeito da construção de Brasília e suas contradições:
O que ocorre em Brasília e fere nossa sensibilidade é essa coisa sem remédio, porque é o próprio Brasil. É uma coexistência, lado a lado, da arquitetura e da antiarquitetura, que se alastra; da inteligência e da antiinteligência, que não para; é o apuro parede-meia com a vulgaridade, o desenvolvimento atolado no subdesenvolvimento; são as facilidades e o relativo bem-estar de uma parte, e as dificuldades e o crônico mal estar da parte maior. Se em Brasília esse contaste avulta é porque o primeiro élan – visou além – algo maior. Brasília é portanto, uma síntese do Brasil, com seus aspectos positivos e negativos, mas é também testemunho de nossa força viva latente. Do ponto de vista do tesoureiro, do ministro da Fazenda, a construção da cidade pode ter sido mesmo insensatez, mas do ponto de vista do estadista, foi um gesto de lúcida coragem e confiança no Brasil definitivo. (Costa, 1988, O Estado de São Paulo)
As implicações políticas dessa mudança para os rumos do país até hoje são questionadas e questionáveis e, embora não seja o centro dessa investigação, fica a reflexão e o direito ao questionamento e dúvidas. Mas, não encerrando a questão e sim a complementando, temos na visão do urbanista Lúcio Costa argumentos que contrariam correntes que defendiam e ainda defendem o Rio de Janeiro como capital federal. Por outro lado, a leitura de Boris Fausto (1994) nos apresenta a construção de Brasília e o Plano de Metas do presidente JK e o impacto desse projeto em nível nacional, como sendo:
Anos de otimismo, embalados por altos índices de crescimento econômico, pelo sonho realizado da construção de Brasília. Os “cinquenta anos em cinco” da propaganda oficial repercutiram em amplas camadas da população. (Fausto, 1994, p. 422)
Em geral, mesmo com muito a se crescer nas atividades industriais e econômicas do país e, embora possamos entender que os indicadores econômicos da época apontassem números um tanto quanto baixos se considerarmos a extensão do território brasileiro e sua enorme capacidade
produtiva não explorada devidamente, os objetivos do Plano de Metas – lembrando que dentro delas temos a importante participação da construção de Brasília – os resultados já se mostravam bons se comparados com os de outros anos na leitura comparativa de três décadas importantes do contexto econômico nacional. A seguir, um breve recorte no PIB das décadas de 1940, 1950, 1960 e 1970, considerando o momento de crescimento econômico em que o país se encontrava; para compreensão vale o destaque que os números são apresentados em taxas médias:
Década PIB
1940-1950 5,90%
1950-1960 7,38%
1960-1970 6,01%
Fonte: Bacha & Bonelli (2001). Adaptado pelo autor.
Segundo Fausto (1994, p. 427), o governo de JK “promoveu uma ampla atividade do Estado nos setor de infraestrutura como no incentivo direto à industrialização”, com isso, a política econômica de seu governo combinou o
Estado, a empresa privada nacional e o capital estrangeiro para promover o
desenvolvimento, com ênfase na industrialização24 e, de certa forma, prevendo os rumos da economia que o país seguiria na fase da Ditadura Militar, porém em outro contexto.
Se a construção de Brasília ativou toda uma dinâmica interna de produção e crescimento econômico através da construção civil, sobretudo no que diz respeito à utilização de grande volume da mão de obra nacional e às consequentes migrações internas, ou seja, o deslocamento populacional para trabalhar na região, e toda a movimentação que essas relações trazem do ponto de vista econômico e comercial que se refletem na geografia do país; por outro lado, a industrialização baseada no capital estrangeiro também teve sua importante fatia de participação nos números apresentados que se refletirão e poderão ser interpretados na configuração do espaço geográfico brasileiro.
Na composição desse cenário econômico de crescimento nacional, na outra ponta da economia estavam as indústrias estrangeiras. O governo de JK
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procurava despertar o interesse dessas empresas, atraindo investimentos através de algumas facilidades que permitiam às multinacionais transações e transferências de equipamentos no país sem maiores despesas. Essas manobras eram possíveis através do uso de um recurso da época do governo de Café Filho, chamado Instrução.
Assim, a Instrução 113 da Sumoc25 foi utilizada nas manobras do governo, e permitiu que importantes equipamentos de uso industrial fossem transferidos para o Brasil sem que o pagamento dessas importações fossem realizadas aos cofres nacionais. Com essa medida, os investimentos aos olhos dos estrangeiros se tornavam interessantes e não se tornaram tão onerosos, e a economia do país ganhava na obtenção de maquinário moderno. A Instrução 113 foi utilizada em áreas consideradas essenciais pelo governo; as indústrias automobilística, de transportes e de transportes aéreos, as estradas de ferro, eletricidade e aço (Fausto, 1994, p. 427). Os resultados dessa ação foram visíveis entre 1955 e 1961 como mostram os números: entre 1955 e 1961, o valor da produção industrial, descontada a inflação, cresceu em 80% com altas porcentagens nas indústrias do aço (100%), mecânicas (125%), de eletricidade e comunicações (380%) e de material de transporte (600%). (idem)
Para compor o raciocínio anterior e contribuir em nossas análises e reflexões acerca do crescimento econômico brasileiro, apresentamos dois quadros a seguir: o primeiro, representa o crescimento do emprego na indústria automotiva a partir de 1957; o segundo, a produção total de veículos no mesmo período:
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Sumoc: Superintendência da Moeda e do Crédito, tinha por objetivo principal combinar a orientação monetária do país.
Tabela 1: Emprego de 1957 a 1970 em número de Pessoas
Ano Veículos Máquinas
agrícolas e Rodoviárias Total 1957 9.773 - 9.773 1958 19.248 - 19.248 1959 29.323 - 29.323 1960 38.410 60 38.470 1961 37.404 349 37.753 1962 48.523 1.267 479.790 1963 43.994 1.610 45.604 1964 44.414 1.882 46.296 1965 49.456 2.591 52.047 1966 50.662 2.431 53.093 1967 46.396 2.139 48.535 1968 60.437 2.516 62.953 1969 61.059 3.208 64.267 1970 65.902 4.140 70.042
Fonte: Anuário da Indústria Automobilística Brasileira 2014. Posição em 31 de dezembro de cada ano.
Tabela 2: Produção total de veículos de 1957 a 1970
Ano Carros Comerciais
leves
Caminhões Ônibus Total
produzido 1957 1.166 10.871 16.259 2.246 30.542 1958 3.831 26.480 26.998 3.674 60.983 1959 14.495 41.959 36.657 3.003 96.114 1960 42.619 48.735 37.810 3.877 133.041 1961 60.205 54.886 26.891 3.602 145.584 1962 83.876 67.648 36.174 3.496 191.194 1963 94.764 55.397 21.556 2.474 174.191 1964 104.710 54.503 21.790 2.704 183.707 1965 113.772 46.456 21.828 3.131 185.187 1966 128.821 60.735 31.098 3.955 224.609 1967 139.260 54.421 27.141 4.665 225.487 1968 165.045 66.984 40.642 7.044 279.715 1969 244.379 63.073 40.569 5.679 353.700 1970 306.915 66.728 38.388 4.393 416.089
Fonte: Anuário da Indústria Automobilística Brasileira 2014. Posição em 31 de dezembro de cada ano.
3.2 – Dos anos de flores para os anos de aço
Do milagre econômico que o Brasil viveu nos anos do governo de Juscelino Kubitscheck e todos os louros da industrialização e construção de Brasília que a época recebeu, andamos um pouco nos anos para o momento chegar na Ditadura Militar que ocorreu no país entre 1964 e 1985.
O período da ditadura militar no Brasil abrange alguns aspectos fundamentais para a compreensão da conjuntura político e econômica do país envolvidas nesse trabalho de pesquisa, bem como é indispensável para a leitura e interpretação das letras das canções apresentadas e analisadas aqui.
Numa breve contextualização, politicamente o período compreendido entre 1964 a 1985 foi regido por governos ditatoriais, que teve início com o Golpe Militar ao então presidente João Goulart; para muitos brasileiros, Jango como era chamado, representava a ideia da possibilidade do Brasil ser tomado por Comunistas, já que seu governo então extremamente enfraquecido por planos econômicos fracassados perdia apoio das elites ao mesmo tempo em que movimentos sociais começavam a ganhar força no país.
A conjuntura econômica dos anos que se sucederam após o milagre econômico do Brasil não era das melhores: déficits no setor público, gastos dos Estados, desequilíbrio nas contas da União, gastos com subsídios a produtos agrícolas importados, baixo desempenho das empresas públicas, bem como aumento na arrecadação dos impostos era o cenário que compunha a situação do país.
A exemplo dos movimentos sociais mencionados anteriormente, líderes estudantis da UNE – União Nacional dos Estudantes – começaram a entrar em cena, reivindicando principalmente o fim da exclusão social e do analfabetismo, demandas que refletiam os problemas de ordem estrutural e econômica no país. Em outro segmento da sociedade, as insatisfações de ordem social ganhavam força através da Igreja Católica, surgindo divisões políticas com orientações socialistas que se aliaram aos insatisfeitos estudantes, adicionando poder nas manifestações que só faziam aumentar a pressão por transformações profundas na sociedade naquele momento. Paralelamente ocorria em Brasília uma rebelião de sargentos que pleiteavam o direito de se candidatarem a cargos eletivos, o que preocupou ainda mais a alta cúpula das Forças Armadas.
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o presidente João Goulart convocava um comício para mobilizar as massas em busca de apoio nas reformas de base; mudanças nos setores da agricultura, economia, educação, político e
social preocupavam certas camadas sociais brasileiras. Exemplos podem ser encontrados em vários segmentos: a desapropriação de terras subutilizadas, a nacionalização de refinarias de petróleo de origem privada que ainda não estavam nas mãos da Petrobrás; a redução de gastos públicos com o corte de subsídios de alguns produtos de importação e o aumento de impostos sobre os contribuintes de renda mais elevada; tais medidas impactavam na sociedade civil que se encontrava insatisfeita, mas que aparentemente não queria ser afetada pelas mudanças anunciadas no governo.
De acordo com Fausto (1994), os problemas econômicos e a falta de apoio de setores interessados no fracasso das medidas adotadas contribuíam para preparar o terreno ao golpe militar:
O plano econômico dependia da colaboração dos setores que dispunham de voz na sociedade. Essa colaboração mais uma vez faltou. Os beneficiários da inflação não tinham interesse no êxito das medidas; os inimigos de Jango desejavam a ruína do governo e o golpe; o movimento operário se recusava a aceitar restrições aos salários; a esquerda via o dedo do imperialismo por toda parte [...]. (Fausto, 1994, p. 456)
A exemplo do que foi apresentado anteriormente, uma série de medidas desastrosas e mal interpretadas pelas diversas camadas da sociedade já sinalizava que João Goulart não teria vida longa na liderança do país. Suas iniciativas e decisões já não mais inspiravam segurança para certas camadas da nação; dessa forma, alguns setores já se organizavam para a tomada do poder, sobretudo os mais conservadores e tradicionais como os militares. Estes não confiavam mais nos atos e nas decisões do presidente por uma série de incidentes que se sucederam ao longo de certos acontecimentos, a saber: a quebra de hierarquia, a ausência da ordem social (a exemplo das manifestações citadas anteriormente) e o receio do comunismo, pois o presidente não se posicionava fortemente quanto à questão; todos esses fatores deixavam margens para muitas dúvidas e inseguranças, abrindo precedentes para a organização do golpe.
Outra agente que teve importante participação em todo esse movimento e que é necessário ser mencionado é o papel dos meios de comunicação
nesse momento: a imprensa teve sua parcela de participação na propagação dos acontecimentos e na divulgação do “fantasma do comunismo”, contribuindo assim para a queda de Jango; as notícias que circulavam nos jornais de grande expressão, ajudaram a exacerbar as posições ideológicas em conflito, aumentando dessa forma o temor pela dominação comunista. Os atores que articularam e executaram o duro golpe na nação brasileira temiam muito mais os ideais revolucionários que circulavam internamente entre os grupos organizados e que mostravam sua força nos momentos de crises no país, a exemplo da Liga Camponesa e da União Nacional dos Estudantes, do que a possibilidade das influências externas como no caso do Comunismo Cubano e outros movimentos revolucionários internacionais como os ocorridos na Ásia e África. Nesse sentido, os Estados Unidos da América, que já haviam iniciado sua campanha contra o país de Fidel Castro, não só viram com bons olhos os acontecimentos no Brasil, como também o apoiaram na forma de suporte logístico aos militares se preciso fosse, de acordo com a operação secreta “Operação Brother Sam”.
Assim, consideradas as conjunturas apresentadas em 31 de maço de 1964, o Golpe Militar foi dado no Brasil, derrubando o presidente eleito pelo voto direto João Goulart, e colocando em seu lugar, militares que governarão o país através dos decretos chamados Atos Institucionais (AI).
3.3 – Os anos de aço e a contracultura: um recorte de 1964 a 1969
Instaurada o Regime da Ditadura Militar através do Golpe dado pelos militares em 31 de março de 1964, o país passou a viver uma realidade bem diferente do ponto de vista da liberdade de expressão. Se no governo de João Goulart, a imprensa participava e influenciava ativamente as decisões políticas no Brasil a ponto de tomar partido de lados políticos, após o golpe militar os meios de comunicação passaram a ser perseguidos e silenciados, através da censura instaurada em todo o território nacional.
O Ato Institucional número I, ou AI-1, estabeleceu por votação indireta do Congresso Nacional o novo presidente da República: o general Humberto
de Alencar Castelo Branco fora eleito, e seu governo se estenderia até dia 31 de janeiro de 1966. Várias das medidas do AI-1 tinham por objetivo “reforçar o Poder Executivo e reduzir o campo de ação do Congresso” (Fausto, 1994, p. 466), justificando os atos de exceção que se seguiram em todas as esferas de