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Além dos partidos, outras forças houve que deixaram a sua marca nos muros de Setúbal, fosse com frases reivindicativas, homenagens ou celebrações de datas. Regina Marques, dirigente do Movimento Democrático das Mulheres (MDM), contou-nos que, na primeira metade da década de 80, o MDM pintou, durante quatro anos seguidos, murais comemorativos do Dia da Mulher junto ao Colégio de Santa Ana, num muro baixo, mas comprido, que ali existia antes de ser construído um edifício da EDP.

“Era um local de muita passagem, uma zona muito boa. E como o mural ficava bem feito e permanecia durante muito tempo, dava visibilidade ao movimento e à causa”, explicou a também militante do PCP, segundo quem “o mural permite que as pessoas vão passando e entranhando a mensagem”, sendo “mais eficaz do que os folhetos”.

As cerca de dez mulheres do grupo local de muralistas do MDM seleccionavam as imagens com base em ilustrações de publicações nacionais e internacionais, compravam as tintas e pintavam a mensagem, por vezes acompanhadas dos filhos, solicitando a um amigo com talento para o desenho que transpusesse para o muro a imagem escolhida.

Quem também assinalava com regularidade uma outra data significativa – o 1.º de Maio – era a CGTP. “Fazíamos pinturas alegóricas, com força, que valorizavam o trabalho. Eram reivindicativas, mas havia um investimento artístico. Eram uma memória que queríamos deixar e deixámos, apesar de não termos fotografias de todas”, recordou em entrevista Ercília Talhadas, ex-dirigente do Sindicato dos Químicos, indicando que se pintava em locais onde muita gente visse, depois de haver uma discussão prévia do conteúdo e da localização.

De acordo com a sindicalista, pintar murais “era uma orientação nacional da CGTP”, concretizada, por norma, ao sábado e em grupo. “Nem toda a gente pintava. Eu ia sempre com

a equipa, mas só preenchia, não me encarregava dos pormenores. Esses eram responsabilidade dos artistas, e havia gente com muita qualidade”, acrescentou Ercília Talhadas, que nos deu a conhecer um conjunto de postais que a União dos Sindicatos de Setúbal (USS), estrutura distrital da CGTP, produziu com base em fotografias de murais. Nessa colecção, destacam-se os painéis elaborados em 1986 para o centenário do 1.º de Maio.

IMAGENS 6.38 e 6.39 – Murais da CGTP-IN, de natureza celebrativa, nos anos 80 Autoria/Fonte: Colecção de postais da USS

IMAGENS 6.40 e 6.41 – Murais da CGTP-IN, de índole reivindicativa, nos anos 90 Autoria/Fonte: António Paixão Esteves

Todavia, a acção dos sindicatos nas paredes sadinas não se quedava pela vertente comemorativa. “Quando havia salários em atraso, a maior parte das vezes os delegados sindicais e os trabalhadores pintavam frases nas paredes das fábricas. Houve alturas em que até se desenharam retratos dos responsáveis nos muros”, contou Ercília Talhadas, revelando que essa prática tinha um duplo objectivo: “atingir o responsável da fábrica e sensibilizar quem passava para a situação dos trabalhadores”.

A recolha de fotos de murais por nós iniciada em finais da década de 1990 ainda encontrou, nas paredes de extintas fábricas, vestígios mais ou menos nítidos de pichagens e murais da autoria de trabalhadores. Datados dos anos 80 e início dos 90, são a expressão das vítimas das situações, assim inscrita nas paredes exteriores do “local do crime” visando alertar e consciencializar os transeuntes para a luta que ali se travava e para o drama dos salários em atraso e dos despedimentos que, em muitos casos, afectavam a vida de famílias inteiras.

Faria (2009: 93) compilou a evolução desta realidade em Setúbal entre 1984 e 1998, sendo a Tabela 3 ilustrativa de como um tecido industrial se pode degradar em poucos anos, alterando a condição económica de uma população. Não surpreende, pois, que, segundo a USS, no início de 1995 o concelho tivesse a maior taxa de desemprego do distrito: 17,5%139.

139 “‘Na retoma da crise’, USS revela os ‘seus’ números do desemprego – Setúbal com ‘record’ absoluto”, O

Setubalense, 22/03/1995, p.8

Como os dados mostram, no ano de 1990 haviam já fechado portas cinco das empresas metalúrgicas e metalomecânicas inclusas na tabela, uma das quais a fábrica de latoaria Mecânica Setubalense, subsidiária da indústria conserveira. Falida em 1988, mas sem pagar ordenados entre 1983 e 1986140, deixou mais de 200 operários no desemprego e uma dívida de 1,5 milhões de euros aos funcionários. O processo de falência arrastou-se pelos tribunais por mais de vinte anos, tendo diversos trabalhadores falecido sem receber os salários em atraso.

Outro processo longo141 foi o da conserveira Viegas & Lopes, propriedade do empresário nortenho José Taveira, cuja laboração paralisou em 1992 na sequência de um processo de falência que o tribunal viria a declarar nulo em Julho de 1994. Dos então cerca de 150 trabalhadores da fábrica, na sua maioria mulheres, muitos ganharam esperança com a decisão judicial, embora reconhecessem que seria difícil “recuperar uma empresa degradada pelas fraudes e pelo tempo”142

.

140 “Trabalhadores da ex-Mecânica Setubalense ‘estão revoltados’”, O Setubalense, 18/05/1994, p.8.

Apesar de o caso reportar aos anos 80, o arrastar da situação evidencia-se no facto de, entre 1995 e 2005, o jornal ter divulgado mais de uma vintena de notícias sobre o processo, sendo frequentes as chamadas à primeira página.

141 O Setubalense acompanhou regularmente o processo desta fábrica entre Janeiro de 1992 e Janeiro de 1999,

tendo publicado mais de três dezenas de notícias, muitas delas com destaque de primeira página.

142

“Tribunal considera nulo o processo de falência da Viegas & Lopes”, O Setubalense, 06/07/1994, p.8

Todavia, e dado que os meses passavam e a situação não se resolvia, com o administrador da falência a recusar entregar as chaves da fábrica, contrariando a ordem judicial nesse sentido, os trabalhadores decidiram deixar uma marca pública da sua insatisfação e das suas apreensões. Assim, a 7 de Fevereiro de 1995, antecedendo uma mini- vigília frente às instalações do Governo Civil de Setúbal – para que o governador intercedesse junto do tribunal –, trabalhadoras da conserveira pintaram um extenso mural na parede mais visível das instalações em causa, situadas na movimentada Rua Almeida Garrett143. Na fachada, ainda são detectáveis os seus vestígios, entretanto sobrepostos por tags e registos

graffiti. A fábrica, objecto de inúmeras peripécias judiciais e que nunca voltaria ao activo,

devia, em 2003, a soma de 750 mil euros a um total de 123 antigos funcionários.

143

A Viegas & Lopes possuía, em Setúbal, outra fábrica, situada na Rua Camilo Castelo Branco.

IMAGENS 6.43 e 6.44 – Mural a ser elaborado pelas trabalhadoras da conserveira, em 1995 Autoria/Fonte: José Luís Costa/O Setubalense

A execução deste mural figurou, com imagens, na primeira página d’O Setubalense no dia seguinte ao da pintura, o que não pode impedir-nos de reflectir sobre a “dupla projecção” que obteve, uma vez que, no seu misto de ingenuidade (notória no traço pueril do desenho dos atuns) e assertividade (expressa na reclamação do cumprimento da lei), o mesmo conquistou visibilidade na imprensa local e na parede em que ficou gravado.

Quanto à opção pela fachada da própria fábrica – aqui como na Mecânica Setubalense –, somos remetidos para questões relativas à territorialidade e ao espaço simbólico, na medida em que o local escolhido constitui um espaço que os trabalhadores sentem como parcialmente seu, como uma provável extensão dos postos de trabalho que ocupavam, uma espécie de “pele” que é também sua e na qual podem tatuar a revolta, deixando-a à vista de todos e alertando para um desespero fácil de compreender se pensarmos que nestas unidades fabris era frequente trabalharem marido e mulher com filhos a cargo.

Não obstante o seu reflexo na imprensa da cidade, o conhecimento destes dramas cingia- se quase exclusivamente aos setubalenses, dado que, como afirmou Ercília Talhadas, “os jornais e as televisões nacionais só falam do que é grande e esquecem a pequena indústria e as cidades de menor dimensão”. No entanto, os murais, nos locais onde estavam/estão pintados, eram/são visíveis por muitas pessoas de visita à cidade, ampliando o impacto da mensagem, com a vantagem de o fazerem no sítio onde se gerou o conflito e de serem fruto da militância daqueles que ali empregaram o seu trabalho, bem como de poderem contribuir para a difusão da história local, como se depreende do testemunho de Mário Rui Peixoto, militante do PCP:

“Eu era miúdo e lembro-me de um mural à porta da minha casa, com uns peixinhos pintados pelas trabalhadoras e a dizer para que se abrisse outra vez a fábrica ou algo assim. Mas o mais interessante é que eu não me lembro de ver a fábrica a laborar… e só sei que ali era uma fábrica e que houve uma luta dos trabalhadores por causa daquela pintura”.

Um exemplo de conflito fabril com impacto profundo no concelho e que despertou algum interesse a nível nacional foi a crise da Renault. Como é possível consultar na já apresentada Tabela 3, a empresa passara dos 1.560 funcionários em 1990 para menos de metade (730) quatro anos depois, fechando em Julho de 1998, por término do contrato com a casa-mãe: a Renault francesa. À data, a fábrica, que fora adquirida pelo Estado cerca de três anos antes, numa alegada tentativa de manter os postos de trabalho, ainda empregava cerca de 600 pessoas e os contornos do seu encerramento suscitaram o interesse não apenas dos media

locais e nacionais tradicionais como do semanário online Setúbal na Rede, uma novidade naqueles primórdios da internet.

Ao longo de cinco anos, O Setubalense deu, por trinta vezes, destaque de primeira página144, bem como amplo espaço no interior145, aos despedimentos na Renault. Estes implicaram protestos dentro e fora da empresa, com recurso a suportes como faixas, cartazes e pinturas nas paredes pela mão dos funcionários. Algumas forças políticas solidarizaram-se com aqueles que estavam prestes a perder o emprego, caso do PSR, que incluiu o tema na sua campanha para as Legislativas de 1995146 e pintou um mural de apoio com um dos seus símbolos mais icónicos – a ovelha negra, criada por José Carlos Silva numa parede de Setúbal e “exportada” para a propaganda nacional do PSR, como nos revelou o seu autor:

“Certa noite, saímos com as tintas, a rir, e pelo caminho íamos falando sobre o que poderíamos fazer. O Cavaco Silva era o candidato do PSD nessas Legislativas e eu propus que, em vez de palavras de ordem e ‘vota PSR’, fizéssemos bonecos. Conversa puxa conversa, veio a história do lobo e das ovelhinhas. Então, desenhámos numa parede perto do Mercado do Livramento um lobo com uma longa lista de promessas e as ovelhas todas a olharem para ele, muito ordeiras. Todas menos uma, a ovelha negra, que estava virada ao contrário e dizia ‘Não dês Cavaco. Vota PSR’. O José Falcão, da SOS Racismo, que ia connosco, achou piada àquilo, tirou umas fotografias e levou-as para Lisboa, onde o Jorge Silva pegou na ideia e estilizou a ovelha, que passou a ser usada nos tempos de antena do PSR e até se tornou a imagem de marca do partido”.

Com diferenças ligeiras, consoante quem a desenhava, a ovelha negra pôde ser vista em Setúbal em distintas circunstâncias e pontos: a requerer o fim das provas globais, perto da Escola Secundária Sebastião da Gama (ver imagem 6.9); a protestar contra as claques organizadas, no Estádio do Bonfim; ou de megafone em punho a apelar ao voto no PSR, na Cachofarra, a primeira zona fabril com que se depara quem sai da cidade rumo à península da Mitrena147 e local onde os partidos de esquerda tinham por hábito deixar mensagens relativas a lutas operárias e greves, assim como críticas aos pacotes laborais de sucessivos governos.

144 A situação da empresa foi sendo acompanhada quase numa lógica folhetinesca, com os avanços e recuos

característicos destas situações seguidos enquanto peripécias vividas por personagens reais: os trabalhadores.

145 Ao longo dos anos 90, encontrámos mais de sessenta notícias nas páginas do trissemanário analisado, que

documentou desde protestos dos trabalhadores a intervenções sindicais e políticas.

146 De salientar que o mural surge num ano em que o tema foi chamado à capa do jornal por dezassete vezes. 147 A península da Mitrena acolhe as principais unidades industriais do concelho, como a Sapec, a The Navigator

Company (mais conhecida na cidade pelas designações anteriores de Socel ou Portucel) ou a Lisnave, que se mudou para os antigos estaleiros da Setenave após o encerramento, em 2000, das suas instalações em Cacilhas.

IMAGEM 6.46 – A primeira versão e aparição pública da ovelha negra do PSR Autoria/Fonte: Ricardo Gomes

IMAGEM 6.47 – A versão estilizada que se tornou uma imagem de marca do partido Autoria/Fonte: Arquivo do PSR

IMAGEM 6.48 – Uma abordagem político-partidária aos despedimentos na Renault Autoria/Fonte: Nuno Neves

IMAGEM 6.49 – Uma abordagem dos trabalhadores da empresa