04. Analysedel 1 – kulturelle barrierer
04.03 Konkurransen om sakene
O caráter cristalizado da fórmula diz respeito a ela se materializar em ―uma forma significante relativamente estável‖ (KRIEG-PLANQUE, 2010, p.61), seja ela um sintagma básico ou
um sintagma derivado47. Essa sequência cristalizada é necessária para tornar possível tanto a circulação da fórmula quando o seu rastreamento pelo analista – o que não quer dizer que não possa condensar formas menos estáveis, na forma de paráfrases ou variantes dessa sequência mais cristalizada. Segundo a autora (KRIEG-PLANQUE, 2010, p.71),
45 A autora trabalha com a noção de espaço público enquanto local fundamentalmente midiático de projeção dos
diversos aspectos da sociedade, ―por meio do qual os atores compartilham seus pontos de vista, expõem suas opiniões em praça pública, tornando-as, desse modo, visíveis a quaisquer outras pessoas, alimentando, assim, a possibilidade de um debate público e contraditório de suas opiniões‖ (KRIEG-PLANQUE, 2010, p.114).
46 Trata-se de uma definição publicada originalmente no livro Purification ethnique: une formule et son histoire
(KRIEG-PLANQUE, 2003), que é um recorte da tese de doutorado da pesquisadora. Ela é retomada na entrevista
―‗Fórmulas‘ e ‗lugares discursivos‘: propostas para a análise do discurso político‖, traduzida por Sírio Possenti e Luciana Salazar Salgado no livro referido.
47 Utilizamos aqui a classificação sintática de José Carlos de Azeredo na Gramática Houaiss (2011, p.146; 296).
Segundo ele, sintagmas básicos são aqueles ―formados por uma classe de palavra apta a constituir por si só o respectivo sintagma‖, enquanto sintagmas derivados são ―criados por meio de transposição‖, processo em que um sintagma deriva de outra unidade – caso da ―cultura de paz‖.
é a concisão que permite à fórmula circular, no sentido material do termo, é ela que permite à sequência ser integrada a enunciados que a sustentam, a incluem, a retomam, a reforçam, a reiteram ou a recusam.
O caso do sintagma ―cultura de paz‖ (com as variantes ―cultura da paz‖, ―cultura para a paz‖, menos utilizadas à época da coleta de dados48), por exemplo, é de uma unidade lexical complexa que se cristalizou ao longo dos últimos vinte e três anos (desde seu surgimento em 1989), contando, por exemplo, com quase dois milhões de ocorrências na ferramenta de busca do Google em agosto de 201249 e constando em verbetes na Wikipédia50 (embora ainda não nos dicionários tradicionais), tendo, portanto, uma forma identificável e possível de rastrear.
O lançamento da cartilha Cultura de paz: redes de convivência (DISKIN, 2009) pelo SENAC
comprova também essa cristalização, pois evidencia uma necessidade de ―ensinar‖ o que significaria essa sequência linguística ―cultura de paz‖ – mas que, devido ao caráter de heterogeneidade semântica da fórmula, acaba por extrapolar a rigidez conceitual típica de uma cartilha, como mostraremos no tópico 4.2.
No entanto, a estabilidade ―relativa‖ da superfície linguística dá margem justamente a possíveis variações que a fórmula possa vir a incorporar nos usos que se fazem dela. Krieg-Planque (2003), por exemplo, encontra as formas significantes ―depuração étnica‖ e ―limpeza étnica‖ funcionando como alternativas à fórmula ―purificação étnica‖, com significados que podem ou não estar em conflito. No caso de ―cultura de paz‖, localizamos a variante ―cultura da paz‖, que tem sua origem na tradução do inglês ―culture of peace‖ acrescida do artigo definido antes de paz, e ―cultura para a paz‖, que se mostrou como a menos produtiva em termos de quantidade de ocorrências no córpus.
48 Contrastando com a busca da sequência ―cultura de paz‖, que teve 2,07 milhões de resultados no buscador do
Google, ―cultura da paz‖ contou com 864 mil e ―cultura para a paz‖ com 87,5 mil ocorrências em pesquisa no dia 24 de agosto de 2012.
49 Curiosamente, em maio de 2013 esse número era aproximadamente metade do encontrado nas buscas realizadas
em 2012 (que obtiveram uma média de 2.300.000 ocorrências), e atualmente, em junho de 2014, caiu para 465 mil resultados, o que pode indicar uma possível diminuição da circulação dessa variante da fórmula, ao menos no meio digital.
50 O verbete em português estava disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura_de_paz> até nosso último
acesso em 13 de agosto de 2012. Procurando-o recentemente, notamos que ele foi apagado e redirecionado para ―pacifismo‖, ali definido como ―uma filosofia de oposição à guerra". "O termo cobre um amplo espectro de pontos de vista, desde a preferência por meios não-militares para a solução de conflitos até à oposição total ao uso da violência, ou mesmo força, em qualquer circunstância‖. Ainda existem outros dados sobre a cultura de paz, como o verbete sobre o Ano Internacional da Cultura de Paz (disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ano_Internacional_da_Cultura_da_Paz, último acesso em 20 de maio de 2013), o verbete sobre o Manifesto 2000 (disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Manifesto_2000, último acesso em 20 de maio de 2013) e o verbete sobre a ―cultura de cooperação‖ (disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura_da_coopera%C3%A7%C3%A3o, último acesso em 20 de maio de 2013)
Além dessas variações, encontramos a associação de ―cultura de paz‖ com o sintagma ―paz e amor‖, gerando a variante ―cultura da paz e do amor [e não da guerra]‖, que trataremos mais detidamente na seção sobre a dimensão polêmica da fórmula, e também com ―cultura da cooperação‖, da seguinte maneira, na Wikipédia51 (destaque nosso):
Cultura da cooperação é um termo novo e poucas são as citações encontradas
tanto na literatura como na internet. O Sebrae de Minas Gerais trabalha com esta terminologia, utilizada pelos pesquisadores e praticantes dos jogos cooperativos. Para o Sebrae, a cultura da cooperação tem como objetivo facilitar o processo de desenvolvimento de um grupo para que ele alcance a capacidade de agir coletivamente, visando objetivos comuns, baseados nos princípios da cooperação entre os participantes. Definem o conceito desta forma: ―Cultura da cooperação é resultado de um fazer humano pautado no diálogo das diferenças. Um diálogo que se dá numa relação de interdepen-dência visando, invariavelmente, o bem coletivo, onde diferentes atores, em lugares diferentes, em interação, complementando-se, sem se opor ou se mesclar, experimentam o desafio de serem autônomos na ação e interde-pendentes na missão.‖ (...) Vemos que a cultura da cooperação está
intimamente ligada à cultura de paz, visto uma não viver sem a outra.
Nesse caso, ocorre não só uma sequência linguística de estrutura próxima de ―cultura de paz‖, mas também a própria citação dessa fórmula como um referente social para o estabelecimento do novo termo.