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A versão padrão da curva de Phillips novo-keynesiana tem sido criticada por não conseguir explicar a existência de trade-off entre estabilizar a inflação e estabilizar o hiato entre o produto efetivo e o produto natural. Blanchard e Galí (2006) fazem uma nova abordagem sobre o tema, mostrando que quando a rigidez dos salários reais é incorporada à estrutura novo-keynesiana, estabilizar o hiato entre o produto efetivo e o natural não é a mesma coisa que estabilizar o hiato entre o produto efetivo e o eficiente. Disso emerge uma nova visão analítica, segundo a qual existe um trade-off de curto prazo entre estabilizar a inflação e estabilizar o hiato entre o produto efetivo e o eficiente. O produto eficiente é definido como sendo o nível ótimo de produto de uma economia funcionando em concorrência perfeita no mercado de produtos e de trabalho, situação em que se verifica a alocação eficiente dos fatores de produção.

Essa abordagem foi utilizada neste estudo para testar se a teoria em questão é consistente com dados da economia brasileira e estimar uma nova curva de Phillips para o Brasil. O modelo precisou receber duas adaptações simples, porém fundamentais: as variáveis representativas do desemprego (u e dos choques de oferta () Δυ) foram defasadas em um mês. A justificativa para essa adaptação é que as firmas contratam os salários e os insumos M até o último dia do mês anterior para cumprir o seu plano de produção do mês corrente. Portanto, as mudanças que estão ocorrendo no próprio mês não chegam a influenciar a inflação corrente, mas contribuem para a formação das expectativas da inflação futura, razão porque foram mantidas na lista de instrumento. Como se utilizou séries com periodicidade mensal neste trabalho, o efeito desse comportamento dos agentes econômicos fica mais evidente e sensibiliza as estimações.

Previamente ao processo de estimação, as séries temporais foram submetidas a testes de estacionariedade, cujos resultados – presença de raiz unitária - indicaram que

inflação e desemprego não são estacionárias, mas o teste de co-integração de Engle-Granger

mostrou que elas são co-integradas, fato que justificou a utilização dessas séries em nível. O processo de estimação foi realizado pelo Método Generalizado dos Momentos

(GMM), com dezesseis instrumentos para cinco parâmetros a serem estimados. A estatística

de Hansen foi aplicada e confirmou que as restrições de sobre-identificação estão satisfeitas. A conclusão dos estudos econométricos levou a uma equação da curva de Phillips que se adaptou perfeitamente ao conteúdo teórico. Os coeficientes estimados foram todos estatisticamente significativos e os respectivos sinais ficaram consistentes com o determinado

pela teoria. Também foram amplamente satisfeitas as restrições de natureza teórica que impõem que o coeficiente da inflação defasada deva se situar no intervalo [0,5, 1], o coeficiente da inflação futura esteja no intervalo [0, 0,5] e que a soma dos dois coeficientes seja igual a 1.

Conclui-se dos estudos que o coeficiente de rigidez γ =0,76 é relativamente baixo. Os estudos mostram que apenas 3% do salário corrente é herdado do salário de treze meses atrás. O restante do salário corrente é constituído por 24% da tms corrente e por uma somatória de tms que vigoraram nos meses intermediários, todas ponderadas pelo fator

) 1 ( γ

γi − .

Como a tms é igual ao salário ofertado pelos trabalhadores, em livre concorrência, conclui-se que o índice de rigidez também transmite ao salário corrente parte dos salários que foram ofertados pelos trabalhadores em meses anteriores.

Pôde-se verificar também que, na hipótese de elevação de preços dos insumos M em 1%, a autoridade monetária enfrenta o seguinte trade-off de curto prazo: permitir uma inflação de 0,15%, mantendo-se estabilizado o hiato entre o produto efetivo e o eficiente; ou manter a inflação estabilizada, mas variando-se negativamente em 0,28% o hiato entre o

produto efetivo e o eficiente (em módulo, significará um aumento do hiato). Orientações

intermediárias são também sempre possíveis.

Outra inferência que se pôde fazer dos estudos foi que quanto mais baixo for o coeficiente de rigidez, γ , mais transitório é o trade-off. Para a hipótese de γ =0 cairíamos no caso de perfeita flexibilidade dos salários, onde o salário real se igualaria à taxa marginal de

substituição e não haveria trade-off. Nesse caso, estabilizar a inflação coincidiria com

estabilizar o hiato entre o produto efetivo e o eficiente.

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APÊNDICE A

APÊNDICE B

Figura 2: Choques de Oferta e Variação da Taxa de Câmbio Real Efetiva (em ln)

-.08 -.04 .00 .04 .08 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 CHOQUES DE OFERTA -.2 -.1 .0 .1 .2 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 VARIAÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO REAL EFETIVA